{"id":1045,"date":"2012-12-29T16:01:35","date_gmt":"2012-12-29T16:01:35","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/site\/?p=1045"},"modified":"2026-03-21T15:41:24","modified_gmt":"2026-03-21T15:41:24","slug":"audiencia-do-santo-padre-a-curia-romana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/audiencia-do-santo-padre-a-curia-romana\/","title":{"rendered":"Audi\u00eancia do Santo Padre \u00e0 C\u00faria Romana"},"content":{"rendered":"<p><strong>Audi\u00eancia do Santo Padre \u00e0 C\u00faria Romana<\/span><\/strong><br \/>\n<strong>por ocasi\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o dos votos natal\u00edcios<\/span><\/strong><br \/>\nSenhores Cardeais, venerados Irm\u00e3os no Episcopado e no Presbiterado, queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s!<\/span><\/p>\n<p>Com grande alegria, me encontro hoje convosco, amados membros do Col\u00e9gio Cardinal\u00edcio, representantes da C\u00faria Romana e do Governatorado, para este momento tradicional antes do Natal. A cada um de v\u00f3s dirijo uma cordial sauda\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando pelo Cardeal Angelo Sodano, a quem agrade\u00e7o as am\u00e1veis palavras e os ardentes votos que me exprimiu em nome dele e vosso. O Cardeal Decano recordou-nos uma frase que se repete muitas vezes na liturgia latina destes dias: \u00abPrope este iam Dominus, venite, adoremus! \u2013 O Senhor est\u00e1 pr\u00f3ximo; vinde, adoremos!\u00bb. Tamb\u00e9m n\u00f3s, como uma \u00fanica fam\u00edlia, nos preparamos para adorar, na gruta de Bel\u00e9m, aquele Menino que \u00e9 Deus em pessoa e t\u00e3o pr\u00f3ximo que Se fez homem como n\u00f3s. De bom grado retribuo os votos formulados e agrade\u00e7o de cora\u00e7\u00e3o a todos, incluindo os Representantes Pontif\u00edcios espalhados pelo mundo, pela generosa e qualificada colabora\u00e7\u00e3o que cada um presta ao meu minist\u00e9rio.<\/span><\/p>\n<p>Encontramo-nos no fim de mais um ano, tamb\u00e9m este caracterizado \u2013 na Igreja e no mundo \u2013 por muitas situa\u00e7\u00f5es atribuladas, por grandes problemas e desafios, mas tamb\u00e9m por sinais de esperan\u00e7a. Limito-me a mencionar alguns momentos salientes no \u00e2mbito da vida da Igreja e do meu minist\u00e9rio petrino. Tivemos \u2013 como referiu o Cardeal Decano \u2013 em primeiro lugar as viagens realizadas ao M\u00e9xico e a Cuba: encontros inesquec\u00edveis com a for\u00e7a da f\u00e9, profundamente enraizada nos cora\u00e7\u00f5es dos homens, e com a alegria pela vida que brota da f\u00e9. Recordo que, depois da chegada ao M\u00e9xico, na borda do longo tro\u00e7o de estrada que tivemos de percorrer, havia fileiras infind\u00e1veis de pessoas que saudavam, acenando com len\u00e7os e bandeiras. Recordo que, durante o trajecto para Guanajuato \u2013 pitoresca capital do Estado do mesmo nome \u2013, havia jovens devotamente ajoelhados na margem da estrada para receber a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Sucessor de Pedro; recordo como a grande liturgia, nas proximidades da est\u00e1tua de Cristo-Rei, constituiu um acto que tornou presente a realeza de Cristo: a sua paz, a sua justi\u00e7a, a sua verdade. E tudo isto, tendo como pano de fundo os problemas dum pa\u00eds que sofre devido a m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia e a dificuldades resultantes de depend\u00eancias econ\u00f3micas. Sem d\u00favida, s\u00e3o problemas que n\u00e3o podem ser resolvidos simplesmente com a religiosidade, mas s\u00ea-lo-\u00e3o ainda menos sem aquela purifica\u00e7\u00e3o interior dos cora\u00e7\u00f5es que prov\u00e9m da for\u00e7a da f\u00e9, do encontro com Jesus Cristo. Seguiu-se a experi\u00eancia de Cuba; tamb\u00e9m l\u00e1 nas grandes liturgias, com os seus c\u00e2nticos, ora\u00e7\u00f5es e sil\u00eancios, se tornou percept\u00edvel a presen\u00e7a d&#8217;Aquele a quem, por muito tempo, se quisera recusar um lugar no pa\u00eds. A busca, naquele pa\u00eds, de uma justa configura\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre v\u00ednculos e liberdade, seguramente, n\u00e3o poder\u00e1 ter \u00eaxito sem uma refer\u00eancia \u00e0queles crit\u00e9rios fundamentais que se manifestaram \u00e0 humanidade no encontro com o Deus de Jesus Cristo.<\/span><\/p>\n<p>Como sucessivas etapas deste ano que se encaminha para o fim, gostava de mencionar a grande Festa da Fam\u00edlia em Mil\u00e3o, bem como a visita ao L\u00edbano com a entrega da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica P\u00f3s-sinodal que dever\u00e1 agora constituir, na vida das Igrejas e da sociedade no M\u00e9dio Oriente, uma orienta\u00e7\u00e3o nos dif\u00edceis caminhos da unidade e da paz. O \u00faltimo acontecimento importante deste ano, a chegar ao ocaso, foi o S\u00ednodo sobre a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, que constituiu ao mesmo tempo um in\u00edcio comunit\u00e1rio do Ano da F\u00e9, com que comemor\u00e1mos a abertura do Conc\u00edlio Vaticano II, cinquenta anos atr\u00e1s, para o compreender e assimilar novamente na actual situa\u00e7\u00e3o em mudan\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p>Todas estas ocasi\u00f5es permitiram tocar temas fundamentais do momento presente da nossa hist\u00f3ria: a fam\u00edlia (Mil\u00e3o), o servi\u00e7o em prol da paz no mundo e o di\u00e1logo inter-religioso (L\u00edbano), bem como o an\u00fancio da mensagem de Jesus Cristo, no nosso tempo, \u00e0queles que ainda n\u00e3o O encontraram e a muitos que s\u00f3 O conhecem por fora e, por isso mesmo, n\u00e3o O reconhecem. De todas estas grandes tem\u00e1ticas, quero reflectir um pouco mais detalhadamente sobre o tema da fam\u00edlia e sobre a natureza do di\u00e1logo, acrescentando ainda uma breve considera\u00e7\u00e3o sobre o tema da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>A grande alegria, com que se encontraram em Mil\u00e3o fam\u00edlias vindas de todo o mundo, mostrou que a fam\u00edlia, n\u00e3o obstante as m\u00faltiplas impress\u00f5es em contr\u00e1rio, est\u00e1 forte e viva tamb\u00e9m hoje; mas \u00e9 incontest\u00e1vel \u2013 especialmente no mundo ocidental \u2013 a crise que a amea\u00e7a at\u00e9 nas suas pr\u00f3prias bases. Impressionou-me que se tenha repetidamente sublinhado, no S\u00ednodo, a import\u00e2ncia da fam\u00edlia para a transmiss\u00e3o da f\u00e9 como lugar aut\u00eantico onde se transmitem as formas fundamentais de ser pessoa humana. \u00c9 vivendo-as e sofrendo-as, juntos, que as mesmas se aprendem. Assim se tornou evidente que, na quest\u00e3o da fam\u00edlia, n\u00e3o est\u00e1 em jogo meramente uma determinada forma social, mas o pr\u00f3prio homem: est\u00e1 em quest\u00e3o o que \u00e9 o homem e o que \u00e9 preciso fazer para ser justamente homem. Os desafios, neste contexto, s\u00e3o complexos. H\u00e1, antes de mais nada, a quest\u00e3o da capacidade que o homem tem de se vincular ou ent\u00e3o da sua falta de v\u00ednculos. Pode o homem vincular-se para toda a vida? Isto est\u00e1 de acordo com a sua natureza? Ou n\u00e3o estar\u00e1 porventura em contraste com a sua liberdade e com a auto-realiza\u00e7\u00e3o em toda a sua amplitude? Ser\u00e1 que o ser humano se torna ele pr\u00f3prio, permanecendo aut\u00f3nomo e entrando em contacto com o outro apenas atrav\u00e9s de rela\u00e7\u00f5es que pode interromper a qualquer momento? Um v\u00ednculo por toda a vida est\u00e1 em contraste com a liberdade? Vale a pena tamb\u00e9m sofrer por um v\u00ednculo? A recusa do v\u00ednculo humano, que se vai generalizando cada vez mais por causa duma no\u00e7\u00e3o errada de liberdade e de auto-realiza\u00e7\u00e3o e ainda devido \u00e0 fuga da perspectiva duma paciente suporta\u00e7\u00e3o do sofrimento, significa que o homem permanece fechado em si mesmo e, em \u00faltima an\u00e1lise, conserva o pr\u00f3prio \u00abeu\u00bb para si mesmo, n\u00e3o o supera verdadeiramente. Mas, s\u00f3 no dom de si \u00e9 que o homem se alcan\u00e7a a si mesmo, e s\u00f3 abrindo-se ao outro, aos outros, aos filhos, \u00e0 fam\u00edlia, s\u00f3 deixando-se plasmar pelo sofrimento \u00e9 que ele descobre a grandeza de ser pessoa humana. Com a recusa de tal v\u00ednculo, desaparecem tamb\u00e9m as figuras fundamentais da exist\u00eancia humana: o pai, a m\u00e3e, o filho; caem dimens\u00f5es essenciais da experi\u00eancia de ser pessoa humana.<\/span><\/p>\n<p>Num tratado cuidadosamente documentado e profundamente comovente, o rabino-chefe de Fran\u00e7a, Gilles Bernheim, mostrou que o ataque \u00e0 forma aut\u00eantica da fam\u00edlia (constitu\u00edda por pai, m\u00e3e e filho), ao qual nos encontramos hoje expostos \u2013 um verdadeiro atentado \u2013, atinge uma dimens\u00e3o ainda mais profunda. Se antes t\u00ednhamos visto como causa da crise da fam\u00edlia um mal-entendido acerca da ess\u00eancia da liberdade humana, agora torna-se claro que aqui est\u00e1 em jogo a vis\u00e3o do pr\u00f3prio ser, do que significa realmente ser homem. Ele cita o c\u00e9lebre aforismo de Simone de Beauvoir: \u00abN\u00e3o se nasce mulher; fazem-na mulher \u2013 On ne na\u00eet pas femme, on le devient\u00bb. Nestas palavras, manifesta-se o fundamento daquilo que hoje, sob o voc\u00e1bulo \u00abgender &#8211; g\u00e9nero\u00bb, \u00e9 apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o sexo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um dado origin\u00e1rio da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma fun\u00e7\u00e3o social que cada qual decide autonomamente, enquanto at\u00e9 agora era a sociedade quem a decidia. Salta aos olhos a profunda falsidade desta teoria e da revolu\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica que lhe est\u00e1 subjacente. O homem contesta o facto de possuir uma natureza pr\u00e9-constitu\u00edda pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua pr\u00f3pria natureza, decidindo que esta n\u00e3o lhe \u00e9 dada como um facto pr\u00e9-constitu\u00eddo, mas \u00e9 ele pr\u00f3prio quem a cria. De acordo com a narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica da cria\u00e7\u00e3o, pertence \u00e0 ess\u00eancia da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade \u00e9 essencial para o ser humano, como Deus o fez. \u00c9 precisamente esta dualidade como ponto de partida que \u00e9 contestada. Deixou de ser v\u00e1lido aquilo que se l\u00ea na narra\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o: \u00abEle os criou homem e mulher\u00bb (Gn 1, 27). Isto deixou de ser v\u00e1lido, para valer que n\u00e3o foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a determin\u00e1-lo at\u00e9 agora, ao passo que agora somos n\u00f3s mesmos a decidir sobre isto. Homem e mulher como realidade da cria\u00e7\u00e3o, como natureza da pessoa humana, j\u00e1 n\u00e3o existem. O homem contesta a sua pr\u00f3pria natureza; agora, \u00e9 s\u00f3 esp\u00edrito e vontade. A manipula\u00e7\u00e3o da natureza, que hoje deploramos relativamente ao meio ambiente, torna-se aqui a escolha b\u00e1sica do homem a respeito de si mesmo. Agora existe apenas o homem em abstracto, que em seguida escolhe para si, autonomamente, qualquer coisa como sua natureza. Homem e mulher s\u00e3o contestados como exig\u00eancia, ditada pela cria\u00e7\u00e3o, de haver formas da pessoa humana que se completam mutuamente. Se, por\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 a dualidade de homem e mulher como um dado da cria\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o deixa de existir tamb\u00e9m a fam\u00edlia como realidade pr\u00e9-estabelecida pela cria\u00e7\u00e3o. Mas, em tal caso, tamb\u00e9m a prole perdeu o lugar que at\u00e9 agora lhe competia, e a dignidade particular que lhe \u00e9 pr\u00f3pria; Bernheim mostra como o filho, de sujeito jur\u00eddico que era com direito pr\u00f3prio, passe agora necessariamente a objecto, ao qual se tem direito e que, como objecto de um direito, se pode adquirir. Onde a liberdade do fazer se torna liberdade de fazer-se por si mesmo, chega-se necessariamente a negar o pr\u00f3prio Criador; e, consequentemente, o pr\u00f3prio homem como criatura de Deus, como imagem de Deus, \u00e9 degradado na ess\u00eancia do seu ser. Na luta pela fam\u00edlia, est\u00e1 em jogo o pr\u00f3prio homem. E torna-se evidente que, onde Deus \u00e9 negado, dissolve-se tamb\u00e9m a dignidade do homem. Quem defende Deus, defende o homem.<\/span><\/p>\n<p>Dito isto, gostava de chegar ao segundo grande tema que, desde Assis at\u00e9 ao S\u00ednodo sobre a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, permeou todo o ano que chega ao fim: a quest\u00e3o do di\u00e1logo e do an\u00fancio. Comecemos pelo di\u00e1logo. No nosso tempo, para a Igreja, vejo principalmente tr\u00eas campos de di\u00e1logo, onde ela deve estar presente lutando pelo homem e pelo que significa ser pessoa humana: o di\u00e1logo com os Estados, o di\u00e1logo com a sociedade \u2013 aqui est\u00e1 inclu\u00eddo o di\u00e1logo com as culturas e com a ci\u00eancia \u2013 e, finalmente, o di\u00e1logo com as religi\u00f5es. Em todos estes di\u00e1logos, a Igreja fala a partir da luz que a f\u00e9 lhe d\u00e1. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, ela encarna a mem\u00f3ria da humanidade que, desde os prim\u00f3rdios e atrav\u00e9s dos tempos, \u00e9 mem\u00f3ria das experi\u00eancias e dos sofrimentos da humanidade, onde a Igreja aprendeu o que significa ser homem, experimentando o seu limite e grandeza, as suas possibilidades e limita\u00e7\u00f5es. A cultura do humano, de que ela se faz garante, nasceu e desenvolveu-se a partir do encontro entre a revela\u00e7\u00e3o de Deus e a exist\u00eancia humana. A Igreja representa a mem\u00f3ria do que \u00e9 ser homem defronte a uma civiliza\u00e7\u00e3o do esquecimento que j\u00e1 s\u00f3 se conhece a si mesma e s\u00f3 reconhece o pr\u00f3prio crit\u00e9rio de medida. Mas, assim como uma pessoa sem mem\u00f3ria perdeu a sua identidade, assim tamb\u00e9m uma humanidade sem mem\u00f3ria perderia a pr\u00f3pria identidade. Aquilo que foi dado ver \u00e0 Igreja, no encontro entre revela\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia humana, ultrapassa sem d\u00favida o mero \u00e2mbito da raz\u00e3o, mas n\u00e3o constitui um mundo particular que seria desprovido de interesse para o n\u00e3o-crente. Se o homem, com o pr\u00f3prio pensamento, entra na reflex\u00e3o e na compreens\u00e3o daqueles conhecimentos, estes alargam o horizonte da raz\u00e3o e isto diz respeito tamb\u00e9m \u00e0queles que n\u00e3o conseguem partilhar a f\u00e9 da Igreja. No di\u00e1logo com o Estado e a sociedade, naturalmente a Igreja n\u00e3o tem solu\u00e7\u00f5es prontas para as diversas quest\u00f5es. Mas, unida \u00e0s outras for\u00e7as sociais, lutar\u00e1 pelas respostas que melhor correspondam \u00e0 justa medida do ser humano. Aquilo que ela identificou como valores fundamentais, constitutivos e n\u00e3o negoci\u00e1veis da exist\u00eancia humana, deve defend\u00ea-lo com a m\u00e1xima clareza. Deve fazer todo o poss\u00edvel por criar uma convic\u00e7\u00e3o que possa depois traduzir-se em ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p>Na situa\u00e7\u00e3o actual da humanidade, o di\u00e1logo das religi\u00f5es \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a paz no mundo, constituindo por isso mesmo um dever para os crist\u00e3os bem como para as outras cren\u00e7as religiosas. Este di\u00e1logo das religi\u00f5es possui diversas dimens\u00f5es. H\u00e1-de ser, antes de tudo, simplesmente um di\u00e1logo da vida, um di\u00e1logo da ac\u00e7\u00e3o compartilhada. Nele, n\u00e3o se falar\u00e1 dos grandes temas da f\u00e9 \u2013 se Deus \u00e9 trinit\u00e1rio, ou como se deve entender a inspira\u00e7\u00e3o das Escrituras Sagradas, etc. \u2013, mas trata-se dos problemas concretos da conviv\u00eancia e da responsabilidade comum pela sociedade, pelo Estado, pela humanidade. Aqui \u00e9 preciso aprender a aceitar o outro na sua forma de ser e pensar de modo diverso. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio fazer da responsabilidade comum pela justi\u00e7a e a paz o crit\u00e9rio basilar do di\u00e1logo. Um di\u00e1logo, onde se trate de paz e de justi\u00e7a indo mais al\u00e9m do que \u00e9 simplesmente pragm\u00e1tico, torna-se por si mesmo uma luta \u00e9tica sobre a verdade e sobre o ser humano; um di\u00e1logo sobre os valores que s\u00e3o pressupostos em tudo. Assim o di\u00e1logo, ao princ\u00edpio meramente pr\u00e1tico, torna-se tamb\u00e9m uma luta pelo justo modo de ser pessoa humana. Embora as escolhas b\u00e1sicas n\u00e3o estejam enquanto tais em discuss\u00e3o, os esfor\u00e7os \u00e0 volta duma quest\u00e3o concreta tornam-se um percurso no qual ambas as partes podem encontrar purifica\u00e7\u00e3o e enriquecimento atrav\u00e9s da escuta do outro. Assim estes esfor\u00e7os podem ter o significado tamb\u00e9m de passos comuns rumo \u00e0 \u00fanica verdade, sem que as escolhas b\u00e1sicas sejam alteradas. Se ambas as partes se movem a partir duma hermen\u00eautica de justi\u00e7a e de paz, a diferen\u00e7a b\u00e1sica n\u00e3o desaparecer\u00e1, mas crescer\u00e1 uma proximidade mais profunda entre eles.<\/span><\/p>\n<p>Hoje em geral, para a ess\u00eancia do di\u00e1logo inter-religioso, consideram-se fundamentais duas regras:<\/span><\/p>\n<p>1\u00aa) O di\u00e1logo n\u00e3o tem como alvo a convers\u00e3o, mas a compreens\u00e3o. Nisto se distingue da evangeliza\u00e7\u00e3o, da miss\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>2\u00aa) De acordo com isso, neste di\u00e1logo, ambas as partes permanecem deliberadamente na sua identidade pr\u00f3pria, que, no di\u00e1logo, n\u00e3o p\u00f5em em quest\u00e3o nem para si mesmo nem para os outros.<\/span><\/p>\n<p>Estas regras s\u00e3o justas; mas penso que assim estejam formuladas demasiado superficialmente. Sim, o di\u00e1logo n\u00e3o visa a convers\u00e3o, mas uma melhor compreens\u00e3o rec\u00edproca: isto \u00e9 correcto. Contudo a busca de conhecimento e compreens\u00e3o sempre pretende ser tamb\u00e9m uma aproxima\u00e7\u00e3o da verdade. Assim, ambas as partes, aproximando-se passo a passo da verdade, avan\u00e7am e caminham para uma maior partilha, que se funda sobre a unidade da verdade. Quanto a permanecer fi\u00e9is \u00e0 pr\u00f3pria identidade, seria demasiado pouco se o crist\u00e3o, com a sua decis\u00e3o a favor da pr\u00f3pria identidade, interrompesse por assim dizer por vontade pr\u00f3pria o caminho para a verdade. Ent\u00e3o o seu ser crist\u00e3o tornar-se-ia algo de arbitr\u00e1rio, uma escolha simplesmente factual. Nesse caso, evidentemente, ele n\u00e3o teria em conta que a religi\u00e3o tem a ver com a verdade. A prop\u00f3sito disto, eu diria que o crist\u00e3o possui a grande confian\u00e7a, mais ainda, a certeza basilar de poder tranquilamente fazer-se ao largo no vasto mar da verdade, sem dever temer pela sua identidade de crist\u00e3o. Sem d\u00favida, n\u00e3o somos n\u00f3s que possu\u00edmos a verdade, mas \u00e9 ela que nos possui a n\u00f3s: Cristo, que \u00e9 a Verdade, tomou-nos pela m\u00e3o e, no caminho da nossa busca apaixonada de conhecimento, sabemos que a sua m\u00e3o nos sustenta firmemente. O facto de sermos interiormente sustentados pela m\u00e3o de Cristo torna-nos simultaneamente livres e seguros. Livres: se somos sustentados por Ele, podemos, abertamente e sem medo, entrar em qualquer di\u00e1logo. Seguros, porque Ele n\u00e3o nos deixa, a n\u00e3o ser que sejamos n\u00f3s mesmos a desligar-nos d&#8217;Ele. Unidos a Ele, estamos na luz da verdade.<\/span><\/p>\n<p>Por \u00faltimo, imp\u00f5e-se ainda uma breve considera\u00e7\u00e3o sobre o an\u00fancio, sobre a evangeliza\u00e7\u00e3o, de que, na sequ\u00eancia das propostas dos Padres Sinodais, falar\u00e1 efectiva e amplamente o documento p\u00f3s-sinodal. Acho que os elementos essenciais do processo de evangeliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis, de forma muito eloquente, na narra\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o sobre a voca\u00e7\u00e3o de dois disc\u00edpulos do Baptista, que se tornam disc\u00edpulos de Cristo (cf. Jo 1, 35-39). Antes de tudo, h\u00e1 o simples acto do an\u00fancio. Jo\u00e3o Baptista indica Jesus e diz: \u00abEis o Cordeiro de Deus!\u00bb Pouco depois o evangelista vai narrar um facto parecido; agora \u00e9 Andr\u00e9 que diz a Sim\u00e3o, seu irm\u00e3o: \u00abEncontr\u00e1mos o Messias!\u00bb (1, 41). O primeiro elemento fundamental \u00e9 o an\u00fancio puro e simples, o kerigma, cuja for\u00e7a deriva da convic\u00e7\u00e3o interior do arauto. Na narra\u00e7\u00e3o dos dois disc\u00edpulos, temos depois a escuta, o seguir os passos de Jesus; um seguir que n\u00e3o \u00e9 ainda verdadeiro seguimento, mas antes uma santa curiosidade, um movimento de busca. Na realidade, ambos os disc\u00edpulos s\u00e3o pessoas \u00e0 procura; pessoas que, para al\u00e9m do quotidiano, vivem na expectativa de Deus: na expectativa, porque Ele est\u00e1 presente e, portanto, manifestar-Se-\u00e1. E a busca, tocada pelo an\u00fancio, torna-se concreta: querem conhecer melhor Aquele que o Baptista designou como o Cordeiro de Deus. Depois vem o terceiro acto que tem in\u00edcio com o facto de Jesus Se voltar para tr\u00e1s, Se voltar para eles e lhes perguntar: \u00abQue pretendeis?\u00bb A resposta dos dois \u00e9 uma nova pergunta que indica a abertura da sua expectativa, a disponibilidade para cumprir novos passos. Perguntam: \u00abRabi, onde moras?\u00bb A resposta de Jesus \u2013 \u00abvinde e vereis\u00bb \u2013 \u00e9 um convite para O acompanharem e, caminhando com Ele, tornarem-se videntes.<\/span><\/p>\n<p>A palavra do an\u00fancio torna-se eficaz quando existe no homem uma d\u00f3cil disponibilidade para se aproximar de Deus, quando o homem anda interiormente \u00e0 procura e, deste modo, est\u00e1 a caminho rumo ao Senhor. Ent\u00e3o, vendo a solicitude de Jesus sente-se atingido no cora\u00e7\u00e3o; depois o impacto com o an\u00fancio suscita uma santa curiosidade de conhecer Jesus mais de perto. Este ir com Ele leva ao lugar onde Jesus habita: \u00e0 comunidade da Igreja, que \u00e9 o seu Corpo. Significa entrar na comunh\u00e3o itinerante dos catec\u00famenos, que \u00e9 uma comunh\u00e3o feita de aprofundamento e, ao mesmo tempo, de vida, onde o caminhar com Jesus nos faz tornar videntes.<\/span><\/p>\n<p>\u00abVinde e vereis\u00bb. Esta palavra dirigida aos dois disc\u00edpulos \u00e0 procura, Jesus dirige-a tamb\u00e9m \u00e0s pessoas de hoje que est\u00e3o em busca. No final do ano, queremos pedir ao Senhor para que a Igreja, n\u00e3o obstante as pr\u00f3prias pobrezas, se torne cada vez mais reconhec\u00edvel como sua morada. Pedimos-Lhe para que, no caminho rumo \u00e0 sua casa, nos torne, tamb\u00e9m a n\u00f3s, sempre mais videntes a fim de podermos afirmar sempre melhor e de modo cada mais convincente: encontr\u00e1mos Aquele que todo o mundo espera, ou seja, Jesus Cristo, verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro homem. Neste esp\u00edrito, desejo de cora\u00e7\u00e3o a todos v\u00f3s um santo Natal e um feliz Ano Novo.<\/span><\/p>\n<p>Obrigado!<\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: right;\">Bento XVI, Audi\u00eancia \u00e0 C\u00faria Romana por ocasi\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o dos votos natal\u00edcios,<\/p>\n<div style=\"text-align: right;\">Cidade do Vaticano, 21 de Dezembro de 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Audi\u00eancia do Santo Padre \u00e0 C\u00faria Romana por ocasi\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o dos votos natal\u00edcios Senhores Cardeais, venerados Irm\u00e3os no Episcopado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-1045","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-papa-bento-xvi"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - 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