{"id":1081,"date":"2013-01-30T22:07:36","date_gmt":"2013-01-30T22:07:36","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/site\/?p=1081"},"modified":"2026-03-21T15:41:24","modified_gmt":"2026-03-21T15:41:24","slug":"a-rececao-do-concilio-o-que-mudou-desde-entao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/a-rececao-do-concilio-o-que-mudou-desde-entao\/","title":{"rendered":"A rece\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio \u2013 o que mudou desde ent\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>A rece\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio \u2013 o que mudou desde ent\u00e3o<img decoding=\"async\" class=\" alignright size-full wp-image-1080\" style=\"margin: 0px 0px 0px 8px; float: right;\" alt=\"DClemente\" src=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/DClemente.jpg\" height=\"109\" width=\"150\" srcset=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/DClemente.jpg 948w, https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/DClemente-300x217.jpg 300w, https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/DClemente-768x556.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/strong><\/span><br \/>\nO tema \u00e9 muito vasto para uma confer\u00eancia breve, aludindo a meio s\u00e9culo da vida da Igreja e do mundo, ou da Igreja no mundo, usando linguagem mais &#8220;conciliar&#8221;. <\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Limitar-me-ei, por isso, a uma linha de verifica\u00e7\u00e3o muito restrita, a saber, qual a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade que nos toca mais de perto e como se compagina ela com as previs\u00f5es conciliares; olharei tamb\u00e9m para a revis\u00e3o deste ponto na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal Ecclesia in Europa, de 2003, concluindo com algumas das respetivas sugest\u00f5es pastorais.<\/span><\/p>\n<p>A base conciliar propriamente dita vou busc\u00e1-la \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o pastoral Gaudium et Spes, em duas passagens de particular acerto. Como a seguinte: \u00abO g\u00e9nero humano encontra-se hoje numa idade nova da sua hist\u00f3ria, em que mudan\u00e7as profundas e r\u00e1pidas se estendem gradualmente ao mundo inteiro. Provocadas pela intelig\u00eancia e pela atividade criadora do homem, refletem-se no pr\u00f3prio homem, nos seus ju\u00edzos, nos seus desejos individuais e coletivos, no seu modo de pensar e de agir, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas como aos homens. Assim, pode falar-se de uma verdadeira metamorfose social e cultural, cujos efeitos se repercutem tamb\u00e9m na vida religiosa\u00bb (GS, 4).<\/span><\/p>\n<p>Inserida no n\u00famero dedicado aos &#8220;sinais dos tempos&#8221; e \u00e0 respetiva interpreta\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, esta passagem nunca perdeu atualidade. Isto se diga da &#8220;idade nova&#8221; da hist\u00f3ria, nem sempre advertida pelos que a vivemos j\u00e1; isto se diga das &#8220;mudan\u00e7as&#8221;, tornadas em categoria base dum entendimento sociocultural correto; isto se diga ainda de ju\u00edzos qualitativos, que hoje n\u00e3o s\u00e3o pr\u00e9vios, mas posteriores \u00e0s inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e por elas condicionados, nem sempre no melhor sentido, humana e religiosamente falando&#8230;<\/span><\/p>\n<p>Particularmente tocadas por tais mudan\u00e7as foram e s\u00e3o as tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es que o p\u00f3s-conc\u00edlio j\u00e1 leva. Exatamente por isso, n\u00e3o t\u00eam em rela\u00e7\u00e3o ao passado o acolhimento espont\u00e2neo que havia noutros tempos. \u00c9 como se tudo tivesse de ser explicado desde o princ\u00edpio, para conquistar anu\u00eancia e assun\u00e7\u00e3o pessoal, de al\u00ednea a al\u00ednea. Mas a constitui\u00e7\u00e3o conciliar j\u00e1 o verificava, como se l\u00ea a seguir: \u00abA transforma\u00e7\u00e3o das mentalidades e das estruturas leva com frequ\u00eancia \u00e0 discuss\u00e3o dos valores recebidos particularmente entre os jovens [&#8230;]. Est\u00e1 aqui o motivo de, n\u00e3o raro, pais e educadores experimentarem dificuldades sempre maiores no cumprimento das suas tarefas. As institui\u00e7\u00f5es, as leis, os modos de pensar e de sentir, herdados do passado, nem sempre parecem adaptar-se bem ao condicionalismo atual: daqui uma grande perturba\u00e7\u00e3o no comportamento e at\u00e9 nas normas que o regulam\u00bb (GS, 7). E tudo isto realmente aconteceu e acontece, a coincidir com uma \u00e9poca em que escasseia o que mais seria preciso para acolher e dialogar, quer nas fam\u00edlias, quer nas escolas, quer nas pr\u00f3prias comunidades crist\u00e3s: o tempo, muito tempo at\u00e9.<\/span><\/p>\n<p>A incid\u00eancia religiosa destas mudan\u00e7as \u00e9 igualmente \u00f3bvia e decorrente. Ambivalente tamb\u00e9m. J\u00e1 o era para os autores da Gaudium et Spes, quando conclu\u00edam: \u00abPor um lado, o desenvolvimento do esp\u00edrito cr\u00edtico purifica-a [a religi\u00e3o] de uma conce\u00e7\u00e3o m\u00e1gica do mundo e de supersti\u00e7\u00f5es que v\u00e3o sobrevivendo, e exige uma ades\u00e3o \u00e0 f\u00e9 cada vez mais pessoal e atuante, o que faz que n\u00e3o poucos atinjam um sentido mais vivo de Deus. Por outro lado, multid\u00f5es cada vez mais numerosas afastam-se, na pr\u00e1tica, da religi\u00e3o. Recusar Deus ou a religi\u00e3o, n\u00e3o se preocupar com isso, n\u00e3o \u00e9, ao contr\u00e1rio de outros tempos, um facto excecional e individual: hoje, com efeito, tal atitude \u00e9 frequentemente apresentada como uma exig\u00eancia do progresso cient\u00edfico ou de um qualquer novo humanismo. Em numerosas regi\u00f5es, tudo isto n\u00e3o se exprime s\u00f3 ao n\u00edvel filos\u00f3fico; afeta tamb\u00e9m, e em mui larga escala, a literatura e a arte, a conce\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias do homem e da hist\u00f3ria e as pr\u00f3prias leis civis&#8230;\u00bb (ibidem).<\/span><\/p>\n<p>A \u00fanica nuance a fazer a este trecho conciliar \u00e9 que, entretanto, se difundiu uma certa recupera\u00e7\u00e3o do m\u00e1gico, bem como da religiosidade n\u00e3o institucional, de tipo new age. Mais, muito mais, como devaneio itinerante do que como compromisso certo. E quem tiver passado as \u00faltimas d\u00e9cadas em contacto com o sistema de ensino, os meios &#8220;culturais&#8221; e os media, conhece o aut\u00eantico bloqueio cultural com que a afirma\u00e7\u00e3o crente se defronta, por parte dum &#8220;cientismo&#8221; satisfeito ou meramente ignorante. Considero este bloqueio uma das fronteiras mais dif\u00edceis e exigentes da nova evangeliza\u00e7\u00e3o, requerendo da nossa parte muito estudo e vontade de aprender, bem como refor\u00e7ada disposi\u00e7\u00e3o para o di\u00e1logo e o esclarecimento, com a maior coer\u00eancia pr\u00e1tica tamb\u00e9m. Poucas vezes ter\u00e1 sido t\u00e3o necess\u00e1rio cumprir a indica\u00e7\u00e3o de 1 Pe 3, 15-16: \u00ab&#8230; no \u00edntimo do vosso cora\u00e7\u00e3o, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a raz\u00e3o da vossa esperan\u00e7a a todo aquele que vo-la pe\u00e7a; com mansid\u00e3o e respeito, mantende limpa a consci\u00eancia &#8230;\u00bb.<\/span><\/p>\n<p>Olhemos mais de perto a sociedade portuguesa do \u00faltimo meio s\u00e9culo, genericamente quantificada e qualificada. Sirvo-me do texto muito recente dum s\u00f3lido historiador do Portugal contempor\u00e2neo e basta reter-lhe alguns trechos, mais coincidentes com o fio condutor do nosso discurso.<\/span><\/p>\n<p>Fa\u00e7amo-lo \u00e0 luz da j\u00e1 citada passagem da Gaudium et Spes: \u00abProvocadas pela intelig\u00eancia e pela atividade criadora do homem, [as mudan\u00e7as] refletem-se no pr\u00f3prio homem, nos seus ju\u00edzos, nos seus desejos individuais e coletivos, no seu modo de pensar e de agir, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas como aos homens\u00bb. E verifiquemo-lo entre n\u00f3s, onde as mudan\u00e7as foram realmente estruturais, como mostram os seguintes quantitativos, logo qualitativos pela grandeza: \u00abA pre\u00e7os constantes, o PIB per capita passou de cerca de 5000 euros na d\u00e9cada de 1970 para 15.238 euros [atualmente]. A popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mais urbana, mais saud\u00e1vel, mais instru\u00edda, mais velha e mais diversificada (o pa\u00eds ganhou 400 mil novos residentes atrav\u00e9s da imigra\u00e7\u00e3o). 62,8% dos portugueses est\u00e3o agora ocupados no setor terci\u00e1rio (a agricultura n\u00e3o representa mais do que 9,9% e a ind\u00fastria 27,3%). H\u00e1 mais funcion\u00e1rios p\u00fablicos do que trabalhadores rurais. O &#8220;Estado Social&#8221; tornou-se um modo de vida: estima-se que mais de 50% dos portugueses retirem rendimentos do Estado por via de emprego, subs\u00eddio, ou pens\u00e3o\u00bb (Rui Ramos, 40 anos que abalaram Portugal, Expresso \u2013 Revista, 5 de janeiro de 2013, p. 78).<\/span><\/p>\n<p>Nova rela\u00e7\u00e3o vida \u2013 trabalho, grandes mudan\u00e7as na pr\u00f3pria vida, necessariamente. &#8211; Reflexos humanos e sociais? Tamb\u00e9m n\u00e3o puderam faltar, come\u00e7ando pela pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o geracional: \u00abA partir da d\u00e9cada de 1970, os anticoncecionais tornaram poss\u00edvel uma sociedade altamente sexualizada, mas com baixa natalidade. Nascem hoje metade das crian\u00e7as que nasciam na d\u00e9cada de 1960, e quase metade fora do casamento. Um dos pa\u00edses mais jovens da Europa ocidental em 1973 \u00e9, em 2013, um dos mais envelhecidos. Havia, em 2011, 128 idosos para cada 100 jovens. Em 2050, um em cada tr\u00eas portugueses ter\u00e1 mais de 65 anos. Desde 1983, que Portugal n\u00e3o substitui gera\u00e7\u00f5es\u00bb (ibidem).<\/span><\/p>\n<p>Menos gente nova, com novos e velhos a fazerem outras coisas, assim estamos hoje. E, os que vivemos h\u00e1 mais tempo, fomos certamente reparando na grande diferen\u00e7a da paisagem rural e urbana, dos tempos do Conc\u00edlio aos nossos dias. Dos anos 80 para os 90, \u00aba velha agricultura e a velha ind\u00fastria do s\u00e9culo XX desapareceram, deixando um rasto de ru\u00ednas \u2013 quintas devolvidas ao mato, f\u00e1bricas reduzidas \u00e0s paredes. Arvoredos regularmente varridos por inc\u00eandios, aldeias e bairros fantasm\u00e1ticos. Ao lado desse pa\u00eds abandonado, surgiu outro, nas grandes \u00e1reas metropolitanas de Lisboa e Porto, onde a popula\u00e7\u00e3o se concentrou: um pa\u00eds de pr\u00e9dios, estradas, centros comerciais e muitos autom\u00f3veis\u00bb (ibidem, p. 82).<\/span><\/p>\n<p>Desenraizamentos que acarretaram dilui\u00e7\u00f5es institucionais. Ainda uma vez, as verifica\u00e7\u00f5es e os n\u00fameros: \u00abAs fontes tradicionais da autoridade secaram. As for\u00e7as armadas est\u00e3o reduzidas a pequenos corpos profissionais. A universidade integrou intelectuais e artistas, mais uma enorme massa de estudantes, mas perdeu carisma. Os sindicatos perderam filiados e poder. A imprensa escrita vive atormentada pela internet. As televis\u00f5es trocaram velhas pretens\u00f5es pedag\u00f3gicas por um populismo satisfeito. Apesar da vitalidade religiosa do resto do mundo, as antigas igrejas de Estado recuam na Europa. Em Portugal, os casamentos n\u00e3o cat\u00f3licos, menos de 20% na d\u00e9cada de 1970, representavam 57,5% em 2010\u00bb (ibidem, p. 88).<\/span><\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos de ir mais longe para concluir que as mudan\u00e7as civilizacionais (mais quantitativas e de organiza\u00e7\u00e3o) e culturais (mais qualitativas e de mentalidade), bem previstas pelo Conc\u00edlio, acarretam profundas consequ\u00eancias para a evangeliza\u00e7\u00e3o, antiga ou nova. O que sobra, transmite-se com muita dificuldade, embatendo com resist\u00eancias de toda a ordem, na fam\u00edlia, nas comunidades e no meio ambiente.<\/span><\/p>\n<p>O que se h\u00e1 de transmitir &#8220;de novo&#8221; ensaia \u2013 mas apenas ensaia \u2013 &#8220;novos m\u00e9todos e novas express\u00f5es&#8221;, sempre que assenta num &#8220;novo ardor&#8221;, para usar a trilogia da &#8220;nova evangeliza\u00e7\u00e3o&#8221; de Jo\u00e3o Paulo II (1983). E posso resumir a reflex\u00e3o da \u00faltima assembleia do S\u00ednodo dos Bispos sublinhando alguns desses &#8220;ensaios&#8221;, que se revelam particularmente promissores, um pouco por todo o mundo: insistir em comunidades de acolhimento e miss\u00e3o, onde se reproduza a cena evang\u00e9lica do po\u00e7o de Jacob (Jo 4) &#8211; do encontro da &#8220;\u00e1gua viva&#8221;, que Cristo proporciona, ao testemunho alegre de que isso mesmo aconteceu connosco; a import\u00e2ncia das fam\u00edlias, quer como igrejas dom\u00e9sticas para os seus membros e vizinhos, quer como tecido b\u00e1sico das comunidades, j\u00e1 chamadas &#8220;fam\u00edlias de fam\u00edlias&#8221;; a refor\u00e7ada disponibilidade dos pastores, e em especial dos &#8220;sacerdotes&#8221;, para o acompanhamento espiritual e personalizado, tamb\u00e9m no sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o \u2013 que no S\u00ednodo quase apareceu como &#8220;o sacramento da nova evangeliza\u00e7\u00e3o&#8221;&#8230;<\/span><\/p>\n<p>A exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal Ecclesia in Europa, de 2003, mereceria mais aten\u00e7\u00e3o da nossa parte. Sempre que a releio, noto-lhe o eco da Gaudium et Spes, quatro d\u00e9cadas depois. Come\u00e7a tamb\u00e9m com uma leitura dos sinais dos tempos, para sugerir de seguida o que a Igreja h\u00e1 de ser e fazer no novo contexto. Trata-se de heran\u00e7a conciliar em sentido pleno.<\/span><\/p>\n<p>Olha para o &#8220;velho&#8221; continente e n\u00e3o demora em concluir: \u00abDe facto, os nossos dias, com todos os desafios que nos lan\u00e7am, apresentam-se como um tempo de crise. Muitos homens e mulheres parecem desorientados, incertos, sem esperan\u00e7a; e n\u00e3o poucos crist\u00e3os partilham estes estados de alma. Numerosos s\u00e3o os sinais preocupantes que inquietam, ao in\u00edcio do terceiro mil\u00e9nio, o horizonte do continente europeu&#8230;\u00bb (Ecclesia in Europa, 7).<\/span><\/p>\n<p>&#8220;Preocupantes&#8221;, s\u00e3o agora os sinais dos tempos. E a exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica enumera alguns: a &#8220;crise da mem\u00f3ria e heran\u00e7a crist\u00e3s&#8221; (ibidem), t\u00e3o coincidente com a quebra cultural acima anotada; o &#8220;medo de enfrentar o futuro&#8221; (EE, 8), porque dificilmente se projeta sem base e sem encosto; a &#8220;fragmenta\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia&#8221; (ibidem), pr\u00f3pria dum ego sem amarra\u00e7\u00e3o externa e interna; o &#8220;enfraquecimento progressivo da solidariedade&#8221; (ibidem), que a remete para as institui\u00e7\u00f5es espec\u00edficas; e, mais radical ainda, &#8220;uma antropologia sem Deus e sem Cristo&#8221; (EE, 9), qual &#8220;apostasia silenciosa&#8221;, ou &#8220;nova cultura&#8221;. Muito problem\u00e1tica, esta: \u00abEstamos perante o aparecimento duma nova cultura, influenciada em larga escala pelos mass-media, com caracter\u00edsticas e conte\u00fados frequentemente contr\u00e1rios ao Evangelho e \u00e0 dignidade da pessoa humana. Tamb\u00e9m faz parte de tal cultura um agnosticismo religioso cada vez mais generalizado, conexo com um relativismo moral e jur\u00eddico mais profundo que tem as suas ra\u00edzes na crise da verdade do homem como fundamento dos direitos inalien\u00e1veis de cada um\u00bb (ibidem).<\/span><\/p>\n<p>A estes &#8220;sinais preocupantes&#8221;, a exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica n\u00e3o deixou de contrapor alguns &#8220;sinais de esperan\u00e7a&#8221;, considerando-os outras tantas marcas do \u00abinfluxo do Evangelho de Cristo na vida da sociedade\u00bb (EE, 11). E especificou: a liberdade da Igreja no Leste europeu, a concentra\u00e7\u00e3o na miss\u00e3o espiritual e na evangeliza\u00e7\u00e3o, a maior consci\u00eancia dos batizados quanto aos seus dons e tarefas e a maior presen\u00e7a da mulher nas estruturas e setores da comunidade crist\u00e3 (cf. ibidem). N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil apurar a coincid\u00eancia destes pontos com as verifica\u00e7\u00f5es e expectativas da Gaudium et Spes \u2013 especialmente nos seus n\u00fameros 40 a 45, dedicados \u00e0 \u00abmiss\u00e3o da Igreja no mundo do nosso tempo\u00bb. Mas a persist\u00eancia das an\u00e1lises s\u00f3 pode motivar-nos para uma correspond\u00eancia eclesial mais expedita.<\/span><\/p>\n<p>Tal correspond\u00eancia, incidindo na vida interna e externa da Igreja, ou melhor, redefinindo a sua vida interna no sentido da miss\u00e3o e da nova evangeliza\u00e7\u00e3o, s\u00f3 poder\u00e1 ter como suporte a comunidade crist\u00e3 nas suas v\u00e1rias concretiza\u00e7\u00f5es, a que poderemos chamar o sujeito comunit\u00e1rio da evangeliza\u00e7\u00e3o. Como estipulou em 1988 outra exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal, tamb\u00e9m em direta decorr\u00eancia conciliar: \u00ab\u00c9 urgente, sem d\u00favida, refazer em toda a parte o tecido crist\u00e3o da sociedade humana. Mas, a condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a de refazer o tecido crist\u00e3o das pr\u00f3prias comunidades eclesiais&#8230;\u00bb (Christifideles Laici, n\u00ba 34).<\/span><\/p>\n<p>A este prop\u00f3sito, a Ecclesia in Europa esclarece e detalha: \u00abO Evangelho continua a dar os seus frutos nas comunidades paroquiais, no meio das pessoas consagradas, nas associa\u00e7\u00f5es de leigos, nos grupos de ora\u00e7\u00e3o e de apostolado, nas diversas comunidades juvenis, e tamb\u00e9m atrav\u00e9s da presen\u00e7a e difus\u00e3o de novos movimentos e realidades eclesiais. De facto, em cada um deles o mesmo Esp\u00edrito consegue suscitar renovada dedica\u00e7\u00e3o ao Evangelho, generosa disponibilidade para o servi\u00e7o, vida crist\u00e3 caracterizada por radicalismo evang\u00e9lico e zelo mission\u00e1rio\u00bb (EE, 15).<\/span><\/p>\n<p>Inegavelmente, a par\u00f3quia continua a ter um papel central, em termos de vizinhan\u00e7a e ritmo crist\u00e3o da vida para o comum dos crentes. Tem a for\u00e7a de mil\u00e9nio e meio de progressiva exist\u00eancia e a debilidade de ter nascido sobretudo em meio rural, que dificilmente se projeta tal e qual em meio urbano e, ainda mais, de urbaniza\u00e7\u00e3o massiva. A Ecclesia in Europa cr\u00ea que, \u00abembora carecida de constante renova\u00e7\u00e3o\u00bb, a par\u00f3quia \u00ab\u00e9 capaz ainda de proporcionar aos fi\u00e9is o espa\u00e7o para um real exerc\u00edcio da vida crist\u00e3 e ser lugar tamb\u00e9m de aut\u00eantica humaniza\u00e7\u00e3o e sociabiliza\u00e7\u00e3o, quer no contexto dispersivo e an\u00f3nimo t\u00edpico das grandes cidades modernas quer em zonas rurais com pouca popula\u00e7\u00e3o\u00bb (EE, 15).<\/span><\/p>\n<p>Renova\u00e7\u00e3o paroquial que passar\u00e1 pela sua tessitura interna, em termos de &#8220;comunidades de comunidades&#8221; e &#8220;fam\u00edlia de fam\u00edlias&#8221;, para usar express\u00f5es t\u00edpicas do pontificado wojtyliano; passar\u00e1 tamb\u00e9m pela necess\u00e1ria coopera\u00e7\u00e3o inter-paroquial, no esquema de &#8220;unidades pastorais&#8221; ou outro semelhante; e contar\u00e1 decerto com a coopera\u00e7\u00e3o que podem oferecer \u00abos novos movimentos e as novas comunidades eclesiais\u00bb que, sempre segundo a Ecclesia in Europa e as propostas sinodais que lhe subjazem, \u00abajudam os crist\u00e3os a viverem mais radicalmente segundo o Evangelho; s\u00e3o ber\u00e7o de diversas voca\u00e7\u00f5es e geram novas formas de consagra\u00e7\u00e3o; promovem sobretudo a voca\u00e7\u00e3o dos leigos e levam-na a exprimir-se nos diversos \u00e2mbitos da vida; favorecem a santidade do povo; podem ser an\u00fancio e exorta\u00e7\u00e3o para muitos que de outro modo n\u00e3o se cruzariam com a Igreja; frequentemente apoiam o caminho ecum\u00e9nico e abrem sendas para o di\u00e1logo inter-religioso; servem de ant\u00eddoto contra a difus\u00e3o das seitas; s\u00e3o de grande ajuda para irradiar vitalidade e alegria na Igreja\u00bb (EE, 16). Tamb\u00e9m nestes pontos se recebe a heran\u00e7a conciliar, assim expressa, por exemplo, no decreto sobre o apostolado dos leigos: \u00abOs crist\u00e3os devem exercer o seu apostolado unindo os seus esfor\u00e7os. Sejam ap\u00f3stolos tanto nas suas fam\u00edlias como nas suas par\u00f3quias e dioceses \u2013 comunidades que exprimem a natureza comunit\u00e1ria do apostolado -, e tamb\u00e9m nas associa\u00e7\u00f5es e grupos que livremente resolverem formar\u00bb (Apostolicam Actuositatem, 18).<\/span><\/p>\n<p>O objetivo continua a ser a miss\u00e3o, que \u00e9, ao mesmo tempo, a natureza da Igreja, como lembrou o Conc\u00edlio. E n\u00e3o podia ser mais claro: \u00abA Igreja peregrina \u00e9, por natureza, mission\u00e1ria, visto que, segundo o des\u00edgnio de Deus Pai, tem a sua origem na miss\u00e3o do Filho e na miss\u00e3o do Esp\u00edrito Santo\u00bb (Ad Gentes, 2). E, em tempos de &#8220;nova evangeliza\u00e7\u00e3o&#8221; \u2013 termo desconhecido pelo Vaticano II -, o mesmo decreto sobre a atividade mission\u00e1ria da Igreja j\u00e1 previa que as formas, geografias e etapas da evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser absolutamente sucessivas e estanques. Oi\u00e7amos: \u00abOs grupos humanos no meio dos quais a Igreja vive, n\u00e3o raras vezes, por diversas raz\u00f5es, mudam radicalmente, de tal forma que podem surgir situa\u00e7\u00f5es totalmente novas. A Igreja deve ent\u00e3o ponderar se essas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o exigir\u00e3o de novo a sua atividade mission\u00e1ria\u00bb (AG, 6).<\/span><\/p>\n<p>Quarenta anos depois, a Ecclesia in Europa j\u00e1 n\u00e3o tem qualquer d\u00favida a esse respeito: \u00abEm v\u00e1rias partes da Europa, h\u00e1 necessidade do primeiro an\u00fancio do Evangelho [&#8230;]. Com efeito, a Europa faz parte j\u00e1 daqueles espa\u00e7os tradicionalmente crist\u00e3os, onde, para al\u00e9m duma nova evangeliza\u00e7\u00e3o, se requer em determinados casos a primeira evangeliza\u00e7\u00e3o. A Igreja n\u00e3o pode subtrair-se ao dever dum corajoso diagn\u00f3stico, que lhe permita predispor as terapias mais oportunas. Mesmo no &#8220;velho&#8221; continente existem extensas \u00e1reas sociais e culturais onde se torna necess\u00e1ria uma verdadeira e pr\u00f3pria missio ad gentes\u00bb (EE, 46).<\/span><\/p>\n<p>E ainda aqui estaremos em aut\u00eantica rece\u00e7\u00e3o conciliar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">D. Manuel Clemente<br \/>Jornadas de Forma\u00e7\u00e3o Permanente do Clero, <br \/>Lisboa, 29 de janeiro de 2013<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rece\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio \u2013 o que mudou desde ent\u00e3o O tema \u00e9 muito vasto para uma confer\u00eancia breve, aludindo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1080,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-1081","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-espaco-eclesial"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - 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