{"id":1375,"date":"2015-05-22T09:56:00","date_gmt":"2015-05-22T09:56:00","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/site\/?p=1375"},"modified":"2026-03-21T15:40:57","modified_gmt":"2026-03-21T15:40:57","slug":"os-dons-do-espirito-santo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/os-dons-do-espirito-santo\/","title":{"rendered":"Os dons do Esp\u00edrito Santo"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" alignright size-full wp-image-1374\" style=\"float: right;\" src=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Esp028.jpg\" alt=\"Esp028\" width=\"300\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Esp028.jpg 640w, https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/Esp028-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>De 9 de Abril a 18 de Junho de 1989, o Santo Padre <strong>Jo\u00e3o Paulo II<\/strong> fez uma s\u00e9rie de catequeses sobre os dons do Esp\u00edrito Santo. Eis o texto.<\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><br \/>Ecoam em toda a Igreja as palavras que Cristo ressuscitado dirigiu aos seus ap\u00f3stolos na tarde da ressurrei\u00e7\u00e3o, palavras de dom e promessa: &#8220;Recebei o Esp\u00edrito Santo&#8221; (Jo\u00e3o 20,23). A ressurrei\u00e7\u00e3o realizou em plenitude o des\u00edgnio salv\u00edfico do Redentor, o derramar ilimitado do Amor divino sobre os homens. Incumbe agora ao Esp\u00edrito implicar cada um de n\u00f3s nesse des\u00edgnio de Amor.<\/p>\n<p>Por isso existe uma estreita liga\u00e7\u00e3o entre a miss\u00e3o de Cristo e o dom do Esp\u00edrito Santo, prometido aos Ap\u00f3stolos, pouco antes da Paix\u00e3o, como fruto do sacrif\u00edcio da Cruz: &#8220;Eu apelarei ao Pai e Ele vos dar\u00e1 outro Par\u00e1clito para que esteja sempre convosco, o Esp\u00edrito da Verdade&#8230; que vos ensinar\u00e1 tudo, e h\u00e1-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse (Jo\u00e3o 14-16,17,26). Significati\u00acvamente, j\u00e1 moribundo na Cruz, Cristo &#8220;entregou o Esp\u00edrito&#8221; como prim\u00edcia da Reden\u00e7\u00e3o (cf. Jo\u00e3o 19-30). Por isso, num certo sentido a P\u00e1scoa bem pode chamar-se o primeiro Pentecostes &#8211; &#8220;recebei o Esp\u00edrito Santo&#8221; &#8211; na espera do Seu derramamento p\u00fablico e solene sobre a comunidade primitiva do Cen\u00e1culo, cinquenta dias depois.<\/p>\n<p>&#8220;O Esp\u00edrito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos&#8221; (Rm 8, 11) deve habitar em n\u00f3s e levar-nos a uma vida cada vez mais conforme \u00e0 de Cristo ressuscitado. Todo o mist\u00e9rio da Salva\u00e7\u00e3o \u00e9 um acontecimento de amor trinit\u00e1rio, do Amor que medeia entre o Pai e o Filho no Esp\u00edrito Santo. A P\u00e1scoa introduz-nos neste Amor pela comunica\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, &#8220;que \u00e9 o Senhor e fonte da vida&#8221; (Symbolum niceno-constantino).<\/p>\n<p>Assim, meditemos sobre os dons do Esp\u00edrito Santo. E invocaremos a intercess\u00e3o da Virgem para que nos conceda compreender mais em profundidade tais dons, recordando com f\u00e9 que foi sobre ela que desceu primeiro o Esp\u00edrito Santo e a for\u00e7a do Alt\u00edssimo estendeu a Sua sombra&#8221; (Lucas 1-35).Jo\u00e3o Paulo II, em audi\u00eancias<\/p>\n<p><strong>1. SABEDORIA<\/strong><br \/>O primeiro e maior dos dons do Esp\u00edrito Santo \u00e9 a Sabedoria, que \u00e9 a luz que se recebe do alto; \u00e9 uma participa\u00e7\u00e3o especial no conhecimento misterioso e superior que \u00e9 pr\u00f3prio de Deus. Podemos ler na Sagrada Escritura: &#8220;Por isso pedi, e foi-me dada a intelig\u00eancia; supliquei, e veio a mim o esp\u00edrito de sabedoria. Preferi-a aos ceptros e aos tronos, e, em compara\u00e7\u00e3o com ela, vi que n\u00e3o eram nada as riquezas (Sb 7, 7-8). Esta sabedoria superior \u00e9 a raiz de um novo conhecimento impregnado de caridade, gra\u00e7as ao qual a alma adquire familiaridade com as coisas divinas e, de certa forme, prova o seu sabor. S. Tom\u00e1s fala precisamente de &#8220;um certo sabor de Deus&#8221; (Summa Theol. II-II, q.45, a. 2, ad. 1), pelo que o verdadeiro S\u00e1bio n\u00e3o \u00e9 o que sabe as coisas de Deus mas sim o que as experimenta e as vive.<\/p>\n<p>Por outro lado, este conhecimento sapiencial d\u00e1-nos uma capacidade especial para julgar as coisas humanas segunda a medida de Deus, \u00e0 luz de Deus. Iluminado por este dom, o crist\u00e3o sabe aperceber interiormente as realidades do mundo: ningu\u00e9m melhor que ele \u00e9 capaz de apreciar os valores aut\u00eanticos da cria\u00e7\u00e3o, olhando-os com os pr\u00f3prios olhos de Deus. Um exemplo fascinante desta percep\u00e7\u00e3o superior da &#8220;linguagem da cria\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 o que podemos encontrar no C\u00e2ntico das Criaturas de S. Francisco de Assis.<br \/>Gra\u00e7as a este dom, toda a vida do crist\u00e3o, com os seus acontecimentos, projectos, realiza\u00e7\u00f5es, \u00e9 alcan\u00e7ada pelo sopro do Esp\u00edrito, que a impregna com a luz &#8220;que vem do Alto&#8221;, como o testemunharam tantas almas escolhidas tamb\u00e9m nos nossos tempos. Em todas estas almas repetem-se as &#8220;grandes coisas&#8221; operadas em Maria pelo Esp\u00edrito. Ela, a quem a piedade tradicional venera como &#8220;Sedes Sapientiae&#8221;, nos conduza, a cada um de n\u00f3s, a provar interiormente as coisas celestes.<\/p>\n<p><strong>2. ENTENDIMENTO<\/strong><br \/>Detenhamo-nos no segundo dom do Esp\u00edrito Santo: o entendimento. Sabemos bem que a f\u00e9 \u00e9 ades\u00e3o a Deus no lusco-fusco do mist\u00e9rio; mas \u00e9 tamb\u00e9m busca movida pelo desejo de conhecer mais e melhor a verdade revelada. Este impulso interior vem-nos do Esp\u00edrito, que em conjunto com a f\u00e9 nos concede precisamente este dom especial de intelig\u00eancia, quase de intui\u00e7\u00e3o da verdade divina.<\/p>\n<p>A palavra intelig\u00eancia deriva do latim intus legere, que significa ler dentro, penetrar, compreender a fundo. Atrav\u00e9s deste dom, o Esp\u00edrito Santo, que &#8220;penetra as profundidades de Deus&#8221; (1 Co 2, 10), comunica ao crente uma centelha dessa capacidade penetrante que lhe abre o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 gozosa percep\u00e7\u00e3o do des\u00edgnio amoroso de Deus. Renova-se assim a experi\u00eancia dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas, os quais, depois de terem reconhecido o Ressuscitado na frac\u00e7\u00e3o do p\u00e3o, diziam uns aos outros: &#8220;N\u00e3o nos ardia o cora\u00e7\u00e3o, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?&#8221; (Lc 24, 32).<\/p>\n<p>Esta intelig\u00eancia sobrenatural \u00e9 dada n\u00e3o apenas individualmente mas tamb\u00e9m \u00e0 comunidade: aos Pastores que, como sucessores dos Ap\u00f3stolos, s\u00e3o herdeiros da promessa espec\u00edfica que Cristo lhes fez (cf. Jo 14, 26; 16, 13) e aos fi\u00e9is que, gra\u00e7as \u00e0 &#8220;un\u00e7\u00e3o&#8221; do Esp\u00edrito (cf. 1Jo 2, 20 e 27 &#8211; &#8220;V\u00f3s, por\u00e9m, tendes uma un\u00e7\u00e3o recebida do Santo e todos estais instru\u00eddos&#8230;&#8221;) possuem um especial &#8220;&#8221;sentido da f\u00e9&#8221; (sensus fidei) que os guia nas op\u00e7\u00f5es concretas. Efectivamente, a luz do Esp\u00edrito, ao mesmo tempo que agudiza a intelig\u00eancia das coisas divinas, torna tamb\u00e9m mais l\u00edmpido e penetrante o entendimento das coisas humanas. Gra\u00e7as a essa luz, v\u00eaem-se melhor os numerosos sinais de Deus que est\u00e3o inscritos na cria\u00e7\u00e3o. Descobre-se a dimens\u00e3o n\u00e3o apenas terrena dos acontecimentos de que \u00e9 tecida a hist\u00f3ria humana. E pode conseguir-se mesmo decifrar profeticamente o tempo presente e o futuro: sinais dos tempos, sinais de Deus!<\/p>\n<p>Dirijamo-nos ao Esp\u00edrito com as palavras da liturgia: &#8220;Vinde, \u00d3 Santo Esp\u00edrito, acendei na terra vossa luz fulgente&#8221; (Sequ\u00eancia de Pentecostes). Invoquemo-lo por intercess\u00e3o de Maria Sant\u00edssima, Virgem da Escuta, que conseguiu ler incansavelmente \u00e0 luz do Esp\u00edrito o sentido profundo dos mist\u00e9rios nela realizados pelo Todo-poderoso (cf. Lc 2, 19 e 51). A contempla\u00e7\u00e3o das maravilhas de Deus ser\u00e1 tamb\u00e9m para n\u00f3s fonte de alegria inesgot\u00e1vel: &#8220;A minha alma glorifica o Senhor e o meu esp\u00edrito se alegra em Deus, meu Salvador&#8221; (Lc 1, 46s.).<\/p>\n<p><strong>3. CI\u00caNCIA<\/strong><br \/>Falemos de outro dom do Esp\u00edrito Santo, o da ci\u00eancia, pelo qual nos \u00e9 dado a conhecer o verdadeiro valor das criaturas na sua rela\u00e7\u00e3o com o Criador. Sabemos que o homem moderno, precisamente em virtude do desenvolvimento das ci\u00eancias, est\u00e1 particularmente exposto \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de dar uma interpreta\u00e7\u00e3o natural\u00edstica ao mundo; perante a riqueza multiforme das coisas, da sua complexidade, variedade e beleza, a humanidade corre o risco de as absolutizar e quase de diviniz\u00e1-las at\u00e9 as transformar no fim supremo da vida de cada um. Isto sucede, sobretudo, quando se trata das riquezas, do prazer ou do poder que as coisas materiais podem proporcionar. \u00c9 perante estes \u00eddolos que o mundo hoje frequentemente se verga.<\/p>\n<p>Para resistir a essa tenta\u00e7\u00e3o subtil e para remediar as consequ\u00eancias nefastas que da\u00ed podem advir, o Esp\u00edrito Santo socorre o homem com o dom da ci\u00eancia. \u00c9 esta que ajuda a valorar correcta\u00acmente as coisas na sua depend\u00eancia essencial em rela\u00e7\u00e3o ao Criador. Gra\u00e7as a ela &#8211; como escreve S. Tom\u00e1s &#8211; o homem n\u00e3o estima as criaturas mais do que elas valem e n\u00e3o as transforma na finalidade da sua vida em detrimento de Deus (cf. S. Th., II-II, q. 9, a. 4). Assim, consegue descobrir o sentido teol\u00f3gico da cria\u00e7\u00e3o vendo as coisas como manifesta\u00e7\u00f5es verdadeiras e reais, embora limitadas, da verdade, da beleza do amor infinito que \u00e9 Deus e, consequentemente, sente-se impelido a traduzir esta descoberta em louvor, c\u00e2nticos, ora\u00e7\u00e3o e ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as. \u00c9 isto que tantas vezes e de tantas formas nos sugere o livro dos Salmos, como entre outros: &#8220;Os c\u00e9us proclamam a gl\u00f3ria de Deus; o firmamento anuncia a obra das suas m\u00e3os&#8221; (Sal 18\/19, 2; cf. Sal 8, 2), &#8220;Louvai ao SENHOR do alto dos c\u00e9us; louvai-o nas alturas! Louvai-o, Sol e Lua; louvai-o, estrelas luminosas&#8221; (Sal 148 1. 3).<br \/>O homem, iluminado pela Ci\u00eancia, descobre ainda a infinita dist\u00e2ncia que separa o criador da cria\u00e7\u00e3o, a sua intr\u00ednseca limita\u00e7\u00e3o, a ins\u00eddia que pode constituir quando, pelo pecado, dela (cria\u00e7\u00e3o) \u00e9 feito mau uso. \u00c9 uma descoberta que o leva a aperceber-se da sua pequenez e lhe d\u00e1 \u00edmpeto e confian\u00e7a para se voltar para Aquele que \u00e9 o \u00fanico que pode saci\u00e1-lo no seu apetite pelo infinito. Esta foi a experi\u00eancia dos Santos, mas foi vivida de forma singular pela Virgem que, com o exemplo do seu percurso, nos ensina a caminhar entre as vicissitudes do mundo com os nossos cora\u00e7\u00f5es fixados na \u00fanica fonte da verdadeira alegria. Jo\u00e3o Paulo II, em audi\u00eancias entre 2 de Abril e 11 de Junho de 1989.<\/p>\n<p><strong>4. CONSELHO<\/strong><br \/>Continuando a reflex\u00e3o sobre os dons do Esp\u00edrito Santo, vejamos o dom do Conselho. \u00c9 dado ao crist\u00e3o para iluminar a consci\u00eancia nas op\u00e7\u00f5es morais que a vida diariamente imp\u00f5e. \u00c9 uma necessidade muito sentida no nosso tempo, turvado por muitos focos de crise e por um ambiente de incerteza lan\u00e7ado sobre os verdadeiros valores, sendo necess\u00e1rio proceder a uma esp\u00e9cie de &#8220;reconstru\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias&#8221;. H\u00e1 necessidade de neutralizar alguns factores destrutivos que facilmente se insinuam no esp\u00edrito humano quando este se mostra agitado pelas paix\u00f5es; e h\u00e1 necessidade de introduzir nas consci\u00eancias elementos s\u00e3os e positivos.<\/p>\n<p>Neste empenho de recupera\u00e7\u00e3o moral, a Igreja deve estar e est\u00e1 na primeira linha: e da\u00ed a s\u00faplica que brota do cora\u00e7\u00e3o dos seus membros &#8211; todos n\u00f3s &#8211; para obter antes de mais a ajuda de uma luz do alto. O Esp\u00edrito de Deus vem ao encontro desta s\u00faplica com o Dom do Conselho, com o qual enriquece e aperfei\u00e7oa a virtude da prud\u00eancia e guia interiormente a alma iluminando-a sobre o que deve fazer, especialmente quando se trata de op\u00e7\u00f5es importantes ou de um caminho a percorrer entre dificuldades e obst\u00e1culos. E, na realidade, a experi\u00eancia confirma que &#8220;Os pensamentos dos mortais s\u00e3o hesitantes, e incertas as nossas reflex\u00f5es&#8221;, como diz o Livro da Sabedoria (9, 14).<\/p>\n<p>O dom do conselho actua como um sopro novo na consci\u00eancia, sugerindo-lhe o que \u00e9 l\u00edcito, o que corresponde ou conv\u00e9m mais \u00e0 alma (cf. S. Boaventura, Collationes de septem donis Spiritus Sancti, VII, 5). A consci\u00eancia converte-se ent\u00e3o no &#8220;olho s\u00e3o&#8221; de que fala o Evangelho (Mt 6, 22) e adquire uma esp\u00e9cie de nova pupila gra\u00e7as \u00e0 qual se torna poss\u00edvel ver melhor o que h\u00e1 que fazer em determinadas circunst\u00e2ncias por mais complicadas ou dif\u00edceis. O crist\u00e3o, ajudado por este dom, penetra no verdadeiro sentido dos valores evang\u00e9licos, especialmente nos manifestados no Serm\u00e3o da Montanha (cf. Mt 5-7).<\/p>\n<p>Por isso, pe\u00e7amos o dom do conselho. Pe\u00e7amo-lo para n\u00f3s e, de modo particular, para os Pastores da Igreja, chamados tantas vezes pelo dever a tomar decis\u00f5es \u00e1rduas e penosas. E pe\u00e7amo-lo por intercess\u00e3o daquela a quem saudamos nas &#8220;ladainhas&#8221; (litanias) como Mater Boni Consilii, M\u00e3e do Bom Conselho.<\/p>\n<p><strong>5. FORTALEZA<\/strong><br \/>No nosso tempo muitos exaltam a for\u00e7a f\u00edsica, chegando inclusivamente a aprovar as mani-festa\u00e7\u00f5es extremas de viol\u00eancia. Mas, na realidade, o homem apercebe-se continuamente da sua debilidade, especialmente no campo espiritual e moral, cedendo aos impulsos das paix\u00f5es internas e das press\u00f5es que sobre ele exerce o ambiente circundante. \u00c9 precisamente para resistir a estas m\u00faltiplas provoca\u00e7\u00f5es que \u00e9 necess\u00e1ria a virtude da fortaleza, que \u00e9 uma das quatro virtudes cardeais sobre as quais se apoia todo o edif\u00edcio da vida moral: a fortaleza \u00e9 a virtude de quem cumpre o seu dever sem olhar a compromissos.<\/p>\n<p>Esta virtude encontra pouco espa\u00e7o numa sociedade em que est\u00e3o difundidas as pr\u00e1ticas da ced\u00eancia e da acomoda\u00e7\u00e3o perante os atropelos e a dureza utilizadas nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, sociais e pol\u00edticas. A timidez e a agressividade s\u00e3o duas formas de falta de fortaleza que, frequentemente, se encontram no comportamento humano, com a consequente repeti\u00e7\u00e3o do triste espect\u00e1culo de quem \u00e9 manso e submisso com os poderosos e prepotente em face dos indefesos. Talvez nunca como hoje a virtude moral da fortaleza tenha necessidade de ser suportada pelo dom hom\u00f3nimo do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>O dom da fortaleza \u00e9 um impulso sobrenatural, que d\u00e1 vigor \u00e0 alma n\u00e3o apenas em momentos dram\u00e1ticos como no caso do mart\u00edrio, mas tamb\u00e9m nas situa\u00e7\u00f5es normais de dificuldade: na luta por permanecermos coerentes com os nossos princ\u00edpios; no suportar ofensas e ataques injustos; na perseveran\u00e7a valente no caminho da verdade e honradez, mesmo que por entre incompreens\u00f5es e hostilidades.<\/p>\n<p>Quando experimentamos, como Jesus no Gets\u00e9mani, a &#8220;debilidade da carne&#8221; (cf. Mt 26, 41; Mc 14, 38), quer dizer, da natureza humana submetida \u00e0s dificuldades f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas, temos que invocar do Esp\u00edrito Santo o dom da fortaleza para permanecer firmes e decididos no caminho do bem. Ent\u00e3o poderemos repetir com S\u00e3o Paulo: &#8220;Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas persegui\u00e7\u00f5es e nas ang\u00fastias, por Cristo. Pois quando sou fraco, ent\u00e3o \u00e9 que sou forte&#8221; (2 Co 12, 10).<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os seguidores de Cristo &#8211; Pastores e fi\u00e9is, sacerdotes, religiosos e leigos, comprometidos em todo o campo do apostolado e da vida social &#8211; que, em todos os tempos e tamb\u00e9m no nosso, conheceram e conhecem o mart\u00edrio do corpo e da alma, em \u00edntima uni\u00e3o com a Mater Dolorosa junto \u00e0 cruz. Eles superaram tudo gra\u00e7as a este dom do Esp\u00edrito. Pe\u00e7amos a Maria, a quem saudamos como Regina coeli, que nos obtenha o dom da fortaleza em todas as vicissitudes da vida e na hora da nossa morte.<\/p>\n<p><strong>6. PIEDADE<\/strong><br \/>Falemos agora de outro insigne dom do Esp\u00edrito Santo: a Piedade. Atrav\u00e9s deste, o Esp\u00edrito cura o nosso cora\u00e7\u00e3o de todo o tipo de dureza e abre-o \u00e0 ternura para com Deus e com os Irm\u00e3os.<\/p>\n<p>A ternura, como atitude sinceramente filial para com Deus, exprime-se na ora\u00e7\u00e3o. A expe-ri\u00eancia da pr\u00f3pria pobreza existencial, do vazio que tantas coisas terrenas deixam na alma, suscita no homem a necessidade de recorrer a Deus para obter gra\u00e7a, ajuda, perd\u00e3o. O dom da piedade orienta e alimenta essa necessidade, enriquecendo-a com sentimentos de profunda confian\u00e7a em Deus, experimentado como pai providente e bom. Neste sentido, escreveu S. Paulo: &#8220;Deus enviou o seu Filho &#8230; a fim de recebermos a adop\u00e7\u00e3o de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos cora\u00e7\u00f5es o Esp\u00edrito do seu Filho, que clama: &#8216;Abb\u00e1! &#8211; Pai!&#8217; Deste modo, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9s escravo, mas filho&#8230;&#8221; (Ga 4, 4-7; cf. Rm 8, 15).<\/p>\n<p>A ternura, como abertura autenticamente fraterna ao pr\u00f3ximo, manifesta-se na mansid\u00e3o. Com o dom da piedade, o Esp\u00edrito Santo infunde no crente uma nova capacidade de amar o pr\u00f3ximo, fazendo com que o seu cora\u00e7\u00e3o de certa forma participe da mesma mansid\u00e3o do Cora\u00e7\u00e3o de Cristo. O crist\u00e3o piedoso sempre consegue ver os outros como filhos do mesmo pai, chamados a tomar parte na fam\u00edlia de Deus que \u00e9 a Igreja. Por isto, sente-se impelido a trat\u00e1-los com a gentileza e amabilidade pr\u00f3prias de uma genu\u00edna rela\u00e7\u00e3o fraterna. Acresce que o dom da piedade extingue no cora\u00e7\u00e3o os focos de tens\u00e3o e de divis\u00e3o como a amargura, a c\u00f3lera, a impaci\u00eancia e alimenta-o com sentimentos de compreens\u00e3o, toler\u00e2ncia e perd\u00e3o. Este dom est\u00e1, por isso, na raiz daquela nova comunidade humana que se fundamenta na civiliza\u00e7\u00e3o do amor.<\/p>\n<p>Invoquemos ao Esp\u00edrito Santo una renovada efus\u00e3o deste dom, confiando a nossa s\u00faplica \u00e0 intercess\u00e3o de Maria, modelo sublime de ora\u00e7\u00e3o fervorosa e de do\u00e7ura materna. Ela, a quem a Igreja nas ladainhas (litanias) de Loreto sa\u00fada como Vas insignae devotionis, nos ensine a adorar a Deus &#8220;em esp\u00edrito e verdade&#8221; (Jo 4, 23) e a abrir-nos, com cora\u00e7\u00e3o manso e acolhedor a todos os que s\u00e3o Seus filhos e, por isso, nossos irm\u00e3os. Pe\u00e7amo-lo com as palavras do Salve Regina: &#8220;&#8230;O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria!&#8221;.<\/p>\n<p><strong>7. TEMOR DE DEUS<\/strong><br \/>Completo as minhas reflex\u00f5es sobre os dons do Esp\u00edrito Santo falando do dom do Temor de Deus. A Sagrada Escritura afirma que &#8220;o temor do SENHOR \u00e9 o princ\u00edpio da sabedoria&#8221; (Sal 110\/111, 10; Pr 1, 7). Mas de que temor se trata? N\u00e3o certamente de esse &#8220;medo de Deus&#8221; que leva a que se evite mesmo pensar n&#8217;Ele, como algo ou algu\u00e9m que perturba e inquieta. Este foi o estado de esp\u00edrito que, segundo a B\u00edblia, levou os nossos antepassados, ap\u00f3s o pecado, a esconder-se &#8220;do Senhor Deus, por entre o arvoredo do jardim&#8221; (Gn 3, 8); este foi tamb\u00e9m o sentimento do servo pregui\u00e7oso e mau da par\u00e1bola evang\u00e9lica, que fez &#8220;um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor&#8221; (cf. Mt 25, 18. 26). Mas este conceito de temor como sin\u00f3nimo de medo n\u00e3o \u00e9 semelhante ao conceito de temor como dom do Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Aqui trata-se de algo muito mais nobre e sublime; \u00e9 o sentimento sincero que o homem experimenta frente \u00e0 tremenda majestade de Deus, especialmente quando reflecte sobre as pr\u00f3prias infidelidades e sobre o perigo de ser &#8220;pesado na balan\u00e7a e encontrado muito leve&#8221; (Dn 5, 27) no ju\u00edzo final ao qual ningu\u00e9m pode escapar. O crente apresenta-se e p\u00f5e-se diante de Deus com o &#8220;esp\u00edrito contrito&#8221; e com o &#8220;cora\u00e7\u00e3o arrependido&#8221; (cf. Sal 50\/51, 19), sabendo bem que deve atender \u00e0 pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o &#8220;com temor e tremor&#8221; (Flp 2, 12). Por\u00e9m, tal n\u00e3o significa medo irracional mas sim sentido de responsabilidade e de fidelidade \u00e0 Sua lei.<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito Santo assume todo este conjunto e eleva-o com o dom do temor de Deus. Certamente ele n\u00e3o exclui a inquieta\u00e7\u00e3o que nasce da consci\u00eancia das faltas cometidas e da perspectiva do castigo divino, mas suaviza com a f\u00e9 na miseric\u00f3rdia divina e com a certeza da solicitude paterna de Deus, que quer a salva\u00e7\u00e3o eterna de todos. Assim, com este dom o Esp\u00edrito Santo infunde na alma especialmente o temor filial, que \u00e9 um sentimento arreigado no amor de Deus: a alma preocupa-se ent\u00e3o em n\u00e3o desgostar Deus, amado como Pai, e de O n\u00e3o ofender em nada, de &#8220;permanecer e crescer na caridade&#8221; (cf. Jo 15, 4-7).<\/p>\n<p>Deste santo e justo temor, conjugado na alma com o amor a Deus, depende toda a pr\u00e1tica das virtudes crist\u00e3s, e especialmente as da humildade, da temperan\u00e7a, da castidade, da mortifica\u00e7\u00e3o dos sentidos. Recordemos a exorta\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo Paulo aos Cor\u00edntios: &#8220;car\u00edssimos, purifiquemo-nos de toda a m\u00e1cula da carne e do esp\u00edrito, completando a obra da nossa santifica\u00e7\u00e3o no temor de Deus&#8221; (2 Cor 7, 1). \u00c9 uma advert\u00eancia para todos n\u00f3s que, por vezes, com tanta facilidade transgredimos a Lei de Deus, ignorando ou desafiando os seus castigos.<\/p>\n<p>Invoquemos o Esp\u00edrito Santo para que derrame largamente o dom do santo temor a Deus nos homens do nosso tempo. Invoquemo-lo por intercess\u00e3o de Aquela que, perante o an\u00fancio da mensagem do anjo &#8220;se perturbou&#8221; (Lc 1, 29) e, ainda nervosa pela inaudita responsabilidade que lhe era confiada, soube pronunciar o &#8220;fiat&#8221; da f\u00e9, da obedi\u00eancia e do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>S. Jo\u00e3o Paulo II,<\/strong><br \/><span style=\"font-size: 8pt;\">Vaticano, Audi\u00eancias papais de 9 de Abril a 18 de Junho de 1989<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De 9 de Abril a 18 de Junho de 1989, o Santo Padre Jo\u00e3o Paulo II fez uma s\u00e9rie de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1374,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[],"class_list":["post-1375","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-espirito-santo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - 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