{"id":1384,"date":"2015-06-18T18:59:51","date_gmt":"2015-06-18T18:59:51","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/site\/?p=1384"},"modified":"2026-03-21T15:40:57","modified_gmt":"2026-03-21T15:40:57","slug":"laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/","title":{"rendered":"LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco"},"content":{"rendered":"<p><strong><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" alignright size-full wp-image-1383\" style=\"float: right;\" src=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/natureza.jpg\" alt=\"natureza\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/natureza.jpg 500w, https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/natureza-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>LAUDATO SI &#8211; Carta Enc\u00edclica sobre o cuidado da casa comum<\/strong><\/p>\n<p><span>&#8220;Alguns eixos atravessam toda a enc\u00edclica. Por exemplo: a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convic\u00e7\u00e3o de que tudo est\u00e1 estreitamente interligado no mundo, a cr\u00edtica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor pr\u00f3prio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da pol\u00edtica internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida. Estes temas nunca se d\u00e3o por encerrados nem se abandonam, mas s\u00e3o constantemente retomados e enriquecidos.&#8221; (Papa Francisco)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800000;\"><em>Louvado sejas, \u00f3 meu Senhor, pelo nosso papa Francisco que hoje (18-06-2015), nos entregou a sua nova Enc\u00edclica sobre o cuidado da casa comum!<\/em><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p>1. \u00abLAUDATO SI&#8217;, mi&#8217; Signore \u2013 Louvado sejas, meu Senhor\u00bb, cantava S\u00e3o Francisco de Assis. Neste gracioso c\u00e2ntico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irm\u00e3, com quem partilhamos a exist\u00eancia, ora a uma boa m\u00e3e, que nos acolhe nos seus bra\u00e7os: \u00abLouvado sejas, meu Senhor, pela nossa irm\u00e3, a m\u00e3e terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras\u00bb.[1]<\/p>\n<p>2. Esta irm\u00e3 clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irrespons\u00e1vel e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que \u00e9ramos seus propriet\u00e1rios e dominadores, autorizados a saque\u00e1-la. A viol\u00eancia, que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doen\u00e7a que notamos no solo, na \u00e1gua, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que \u00abgeme e sofre as dores do parto\u00bb (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que n\u00f3s mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo \u00e9 constitu\u00eddo pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua \u00e1gua vivifica-nos e restaura-nos.<\/p>\n<p><strong>Nada deste mundo nos \u00e9 indiferente<\/strong><br \/>3. Mais de cinquenta anos atr\u00e1s, quando o mundo estava oscilando sobre o fio duma crise nuclear, o Santo Papa Jo\u00e3o XXIII escreveu uma enc\u00edclica na qual n\u00e3o se limitava a rejeitar a guerra, mas quis transmitir uma proposta de paz. Dirigiu a sua mensagem Pacem in terris a todo o mundo cat\u00f3lico, mas acrescentava: e a todas as pessoas de boa vontade. Agora, \u00e0 vista da deteriora\u00e7\u00e3o global do ambiente, quero dirigir-me a cada pessoa que habita neste planeta. Na minha exorta\u00e7\u00e3o Evangelii gaudium, escrevi aos membros da Igreja, a fim de os mobilizar para um processo de reforma mission\u00e1ria ainda pendente. Nesta enc\u00edclica, pretendo especialmente entrar em di\u00e1logo com todos acerca da nossa casa comum.<\/p>\n<p>4. Oito anos depois da Pacem in terris, em 1971, o Beato Papa Paulo VI referiu-se \u00e0 problem\u00e1tica ecol\u00f3gica, apresentando-a como uma crise que \u00e9 \u00abconsequ\u00eancia dram\u00e1tica\u00bb da actividade descontrolada do ser humano: \u00abPor motivo de uma explora\u00e7\u00e3o inconsiderada da natureza, [o ser humano] come\u00e7a a correr o risco de a destruir e de vir a ser, tamb\u00e9m ele, v\u00edtima dessa degrada\u00e7\u00e3o\u00bb.[2] E, dirigindo-se \u00e0 FAO, falou da possibilidade duma \u00abcat\u00e1strofe ecol\u00f3gica sob o efeito da explos\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o industrial\u00bb, sublinhando a \u00abnecessidade urgente duma mudan\u00e7a radical no comportamento da humanidade\u00bb, porque \u00abos progressos cient\u00edficos mais extraordin\u00e1rios, as inven\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas mais assombrosas, o desenvolvimento econ\u00f3mico mais prodigioso, se n\u00e3o estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem\u00bb.[3]<\/p>\n<p>5. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II debru\u00e7ou-se, com interesse sempre maior, sobre este tema. Na sua primeira enc\u00edclica, advertiu que o ser humano parece \u00abn\u00e3o dar-se conta de outros significados do seu ambiente natural, para al\u00e9m daqueles que servem somente para os fins de um uso ou consumo imediatos\u00bb.[4] Mais tarde, convidou a uma convers\u00e3o ecol\u00f3gica global.[5] Entretanto fazia notar o pouco empenho que se p\u00f5e em \u00absalvaguardar as condi\u00e7\u00f5es morais de uma aut\u00eantica ecologia humana\u00bb.[6] A destrui\u00e7\u00e3o do ambiente humano \u00e9 um facto muito grave, porque, por um lado, Deus confiou o mundo ao ser humano e, por outro, a pr\u00f3pria vida humana \u00e9 um dom que deve ser protegido de v\u00e1rias formas de degrada\u00e7\u00e3o. Toda a pretens\u00e3o de cuidar e melhorar o mundo requer mudan\u00e7as profundas \u00abnos estilos de vida, nos modelos de produ\u00e7\u00e3o e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades\u00bb.[7] O progresso humano aut\u00eantico possui um car\u00e1cter moral e pressup\u00f5e o pleno respeito pela pessoa humana, mas deve prestar aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ao mundo natural e \u00abter em conta a natureza de cada ser e as liga\u00e7\u00f5es m\u00fatuas entre todos, num sistema ordenado\u00bb.[8] Assim, a capacidade do ser humano transformar a realidade deve desenvolver-se com base na doa\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria das coisas por parte de Deus.[9]<\/p>\n<p>6. O meu predecessor, Bento XVI, renovou o convite a \u00abeliminar as causas estruturais das disfun\u00e7\u00f5es da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente\u00bb.[10] Lembrou que o mundo n\u00e3o pode ser analisado concentrando-se apenas sobre um dos seus aspectos, porque \u00abo livro da natureza \u00e9 uno e indivis\u00edvel\u00bb, incluindo, entre outras coisas, o ambiente, a vida, a sexualidade, a fam\u00edlia, as rela\u00e7\u00f5es sociais. \u00c9 que \u00aba degrada\u00e7\u00e3o da natureza est\u00e1 estreitamente ligada \u00e0 cultura que molda a conviv\u00eancia humana\u00bb.[11] O Papa Bento XVI prop\u00f4s-nos reconhecer que o ambiente natural est\u00e1 cheio de chagas causadas pelo nosso comportamento irrespons\u00e1vel; o pr\u00f3prio ambiente social tem as suas chagas. Mas, fundamentalmente, todas elas se ficam a dever ao mesmo mal, isto \u00e9, \u00e0 ideia de que n\u00e3o existem verdades indiscut\u00edveis a guiar a nossa vida, pelo que a liberdade humana n\u00e3o tem limites. Esquece-se que \u00abo homem n\u00e3o \u00e9 apenas uma liberdade que se cria por si pr\u00f3pria. O homem n\u00e3o se cria a si mesmo. Ele \u00e9 esp\u00edrito e vontade, mas \u00e9 tamb\u00e9m natureza\u00bb.[12]Com paterna solicitude, convidou-nos a reconhecer que a cria\u00e7\u00e3o resulta comprometida \u00abonde n\u00f3s mesmos somos a \u00faltima inst\u00e2ncia, onde o conjunto \u00e9 simplesmente nossa propriedade e onde o consumimos somente para n\u00f3s mesmos. E o desperd\u00edcio da cria\u00e7\u00e3o come\u00e7a onde j\u00e1 n\u00e3o reconhecemos qualquer inst\u00e2ncia acima de n\u00f3s, mas vemo-nos unicamente a n\u00f3s mesmos\u00bb.[13]<\/p>\n<p><strong>Unidos por uma preocupa\u00e7\u00e3o comum<\/strong><br \/>7. Estas contribui\u00e7\u00f5es dos Papas recolhem a reflex\u00e3o de in\u00fameros cientistas, fil\u00f3sofos, te\u00f3logos e organiza\u00e7\u00f5es sociais que enriqueceram o pensamento da Igreja sobre estas quest\u00f5es. Mas n\u00e3o podemos ignorar que, tamb\u00e9m fora da Igreja Cat\u00f3lica, noutras Igrejas e Comunidades crist\u00e3s \u2013 bem como noutras religi\u00f5es \u2013 se tem desenvolvido uma profunda preocupa\u00e7\u00e3o e uma reflex\u00e3o valiosa sobre estes temas que a todos nos est\u00e3o a peito. Apenas para dar um exemplo particularmente significativo, quero retomar brevemente parte da contribui\u00e7\u00e3o do amado Patriarca Ecum\u00e9nico Bartolomeu, com quem partilhamos a esperan\u00e7a da plena comunh\u00e3o eclesial.<\/p>\n<p>8. O Patriarca Bartolomeu tem-se referido particularmente \u00e0 necessidade de cada um se arrepender do pr\u00f3prio modo de maltratar o planeta, porque \u00abtodos, na medida em que causamos pequenos danos ecol\u00f3gicos\u00bb, somos chamados a reconhecer \u00aba nossa contribui\u00e7\u00e3o \u2013 pequena ou grande \u2013 para a desfigura\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o do ambiente\u00bb.[14] Sobre este ponto, ele pronunciou-se repetidamente, de maneira firme e encorajadora, convidando-nos a reconhecer os pecados contra a cria\u00e7\u00e3o: \u00abQuando os seres humanos destroem a biodiversidade na cria\u00e7\u00e3o de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas h\u00famidas; quando os seres humanos contaminam as \u00e1guas, o solo, o ar&#8230; tudo isso \u00e9 pecado\u00bb.[15] Porque \u00abum crime contra a natureza \u00e9 um crime contra n\u00f3s mesmos e um pecado contra Deus\u00bb.[16]<\/p>\n<p>9. Ao mesmo tempo Bartolomeu chamou a aten\u00e7\u00e3o para as ra\u00edzes \u00e9ticas e espirituais dos problemas ambientais, que nos convidam a encontrar solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 na t\u00e9cnica mas tamb\u00e9m numa mudan\u00e7a do ser humano; caso contr\u00e1rio, estar\u00edamos a enfrentar apenas os sintomas. Prop\u00f4s-nos passar do consumo ao sacrif\u00edcio, da avidez \u00e0 generosidade, do desperd\u00edcio \u00e0 capacidade de partilha, numa ascese que \u00absignifica aprender a dar, e n\u00e3o simplesmente renunciar. \u00c9 um modo de amar, de passar pouco a pouco do que eu quero \u00e0quilo de que o mundo de Deus precisa. \u00c9 liberta\u00e7\u00e3o do medo, da avidez, da depend\u00eancia\u00bb.[17] Al\u00e9m disso n\u00f3s, crist\u00e3os, somos chamados a \u00abaceitar o mundo como sacramento de comunh\u00e3o, como forma de partilhar com Deus e com o pr\u00f3ximo numa escala global. \u00c9 nossa humilde convic\u00e7\u00e3o que o divino e o humano se encontram no menor detalhe da t\u00fanica incons\u00fatil da cria\u00e7\u00e3o de Deus, mesmo no \u00faltimo gr\u00e3o de poeira do nosso planeta\u00bb.[18]<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o Francisco de Assis<\/strong><br \/>10. N\u00e3o quero prosseguir esta enc\u00edclica sem invocar um modelo belo e motivador. Tomei o seu nome por guia e inspira\u00e7\u00e3o, no momento da minha elei\u00e7\u00e3o para Bispo de Roma. Acho que Francisco \u00e9 o exemplo por excel\u00eancia do cuidado pelo que \u00e9 fr\u00e1gil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. \u00c9 o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado tamb\u00e9m por muitos que n\u00e3o s\u00e3o crist\u00e3os. Manifestou uma aten\u00e7\u00e3o particular pela cria\u00e7\u00e3o de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado pela sua alegria, a sua dedica\u00e7\u00e3o generosa, o seu cora\u00e7\u00e3o universal. Era um m\u00edstico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota at\u00e9 que ponto s\u00e3o insepar\u00e1veis a preocupa\u00e7\u00e3o pela natureza, a justi\u00e7a para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior.<\/p>\n<p>11. O seu testemunho mostra-nos tamb\u00e9m que uma ecologia integral requer abertura para categorias que transcendem a linguagem das ci\u00eancias exactas ou da biologia e nos p\u00f5em em contacto com a ess\u00eancia do ser humano. Tal como acontece a uma pessoa quando se enamora por outra, a reac\u00e7\u00e3o de Francisco, sempre que olhava o sol, a lua ou os min\u00fasculos animais, era cantar, envolvendo no seu louvor todas as outras criaturas. Entrava em comunica\u00e7\u00e3o com toda a cria\u00e7\u00e3o, chegando mesmo a pregar \u00e0s flores \u00abconvidando-as a louvar o Senhor, como se gozassem do dom da raz\u00e3o\u00bb.[19] A sua reac\u00e7\u00e3o ultrapassava de longe uma mera avalia\u00e7\u00e3o intelectual ou um c\u00e1lculo econ\u00f3mico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irm\u00e3, unida a ele por la\u00e7os de carinho. Por isso, sentia-se chamado a cuidar de tudo o que existe. S\u00e3o Boaventura, seu disc\u00edpulo, contava que ele, \u00abenchendo-se da maior ternura ao considerar a origem comum de todas as coisas, dava a todas as criaturas \u2013 por mais desprez\u00edveis que parecessem \u2013 o doce nome de irm\u00e3os e irm\u00e3s\u00bb.[20] Esta convic\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser desvalorizada como romantismo irracional, pois influi nas op\u00e7\u00f5es que determinam o nosso comportamento. Se nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admira\u00e7\u00e3o e o encanto, se deixarmos de falar a l\u00edngua da fraternidade e da beleza na nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo, ent\u00e3o as nossas atitudes ser\u00e3o as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de p\u00f4r um limite aos seus interesses imediatos. Pelo contr\u00e1rio, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, ent\u00e3o brotar\u00e3o de modo espont\u00e2neo a sobriedade e a solicitude. A pobreza e a austeridade de S\u00e3o Francisco n\u00e3o eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma ren\u00fancia a fazer da realidade um mero objecto de uso e dom\u00ednio.<\/p>\n<p>12. Por outro lado, S\u00e3o Francisco, fiel \u00e0 Sagrada Escritura, prop\u00f5e-nos reconhecer a natureza como um livro espl\u00eandido onde Deus nos fala e transmite algo da sua beleza e bondade: \u00abNa grandeza e na beleza das criaturas, contempla-se, por analogia, o seu Criador\u00bb (Sab 13, 5) e \u00abo que \u00e9 invis\u00edvel n&#8217;Ele \u2013 o seu eterno poder e divindade \u2013 tornou-se vis\u00edvel \u00e0 intelig\u00eancia, desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo, nas suas obras\u00bb (Rm 1, 20). Por isso, Francisco pedia que, no convento, se deixasse sempre uma parte do horto por cultivar para a\u00ed crescerem as ervas silvestres, a fim de que, quem as admirasse, pudesse elevar o seu pensamento a Deus, autor de tanta beleza.[21] O mundo \u00e9 algo mais do que um problema a resolver; \u00e9 um mist\u00e9rio gozoso que contemplamos na alegria e no louvor.<\/p>\n<p><strong>O meu apelo<\/strong><br \/>13. O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupa\u00e7\u00e3o de unir toda a fam\u00edlia humana na busca de um desenvolvimento sustent\u00e1vel e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador n\u00e3o nos abandona, nunca recua no seu projecto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na constru\u00e7\u00e3o da nossa casa comum. Desejo agradecer, encorajar e manifestar apre\u00e7o a quantos, nos mais variados sectores da actividade humana, est\u00e3o a trabalhar para garantir a protec\u00e7\u00e3o da casa que partilhamos. Uma especial gratid\u00e3o \u00e9 devida \u00e0queles que lutam, com vigor, por resolver as dram\u00e1ticas consequ\u00eancias da degrada\u00e7\u00e3o ambiental na vida dos mais pobres do mundo. Os jovens exigem de n\u00f3s uma mudan\u00e7a; interrogam-se como se pode pretender construir um futuro melhor, sem pensar na crise do meio ambiente e nos sofrimentos dos exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>14. Lan\u00e7o um convite urgente a renovar o di\u00e1logo sobre a maneira como estamos a construir o futuro do planeta. Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas ra\u00edzes humanas dizem respeito e t\u00eam impacto sobre todos n\u00f3s. O movimento ecol\u00f3gico mundial j\u00e1 percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agrega\u00e7\u00f5es de cidad\u00e3os que ajudaram na consciencializa\u00e7\u00e3o. Infelizmente, muitos esfor\u00e7os na busca de solu\u00e7\u00f5es concretas para a crise ambiental acabam, com frequ\u00eancia, frustrados n\u00e3o s\u00f3 pela recusa dos poderosos, mas tamb\u00e9m pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solu\u00e7\u00e3o, mesmo entre os crentes, v\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o do problema \u00e0 indiferen\u00e7a, \u00e0 resigna\u00e7\u00e3o acomodada ou \u00e0 confian\u00e7a cega nas solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. Precisamos de nova solidariedade universal. Como disseram os bispos da \u00c1frica do Sul, \u00abs\u00e3o necess\u00e1rios os talentos e o envolvimento de todos para reparar o dano causado pelos humanos sobre a cria\u00e7\u00e3o de Deus\u00bb.[22] Todos podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da cria\u00e7\u00e3o, cada um a partir da sua cultura, experi\u00eancia, iniciativas e capacidades.<\/p>\n<p>15. Espero que esta carta enc\u00edclica, que se insere no magist\u00e9rio social da Igreja, nos ajude a reconhecer a grandeza, a urg\u00eancia e a beleza do desafio que temos pela frente. Em primeiro lugar, farei uma breve resenha dos v\u00e1rios aspectos da actual crise ecol\u00f3gica, com o objectivo de assumir os melhores frutos da pesquisa cient\u00edfica actualmente dispon\u00edvel, deixar-se tocar por ela em profundidade e dar uma base concreta ao percurso \u00e9tico e espiritual seguido. A partir desta panor\u00e2mica, retomarei algumas argumenta\u00e7\u00f5es que derivam da tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, a fim de dar maior coer\u00eancia ao nosso compromisso com o meio ambiente. Depois procurarei chegar \u00e0s ra\u00edzes da situa\u00e7\u00e3o actual, de modo a individuar n\u00e3o apenas os seus sintomas, mas tamb\u00e9m as causas mais profundas. Poderemos assim propor uma ecologia que, nas suas v\u00e1rias dimens\u00f5es, integre o lugar espec\u00edfico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas rela\u00e7\u00f5es com a realidade que o rodeia. \u00c0 luz desta reflex\u00e3o, quereria dar mais um passo, verificando algumas das grandes linhas de di\u00e1logo e de ac\u00e7\u00e3o que envolvem seja cada um de n\u00f3s seja a pol\u00edtica internacional. Finalmente, convencido \u2013 como estou \u2013 de que toda a mudan\u00e7a tem necessidade de motiva\u00e7\u00f5es e dum caminho educativo, proporei algumas linhas de matura\u00e7\u00e3o humana inspiradas no tesouro da experi\u00eancia espiritual crist\u00e3.<\/p>\n<p>16. Embora cada cap\u00edtulo tenha a sua tem\u00e1tica pr\u00f3pria e uma metodologia espec\u00edfica, o sucessivo retoma por sua vez, a partir duma nova perspectiva, quest\u00f5es importantes abordadas nos cap\u00edtulos anteriores. Isto diz respeito especialmente a alguns eixos que atravessam a enc\u00edclica inteira. Por exemplo: a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convic\u00e7\u00e3o de que tudo est\u00e1 estreitamente interligado no mundo, a cr\u00edtica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor pr\u00f3prio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da pol\u00edtica internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida. Estes temas nunca se d\u00e3o por encerrados nem se abandonam, mas s\u00e3o constantemente retomados e enriquecidos.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAP\u00cdTULO I<\/strong><br \/><strong>O QUE EST\u00c1 A ACONTECER \u00c0 NOSSA CASA<\/strong><\/p>\n<p>17. As reflex\u00f5es teol\u00f3gicas ou filos\u00f3ficas sobre a situa\u00e7\u00e3o da humanidade e do mundo podem soar como uma mensagem repetida e vazia, se n\u00e3o forem apresentadas novamente a partir dum confronto com o contexto actual no que este tem de in\u00e9dito para a hist\u00f3ria da humanidade. Por isso, antes de reconhecer como a f\u00e9 traz novas motiva\u00e7\u00f5es e exig\u00eancias face ao mundo de que fazemos parte, proponho que nos detenhamos brevemente a considerar o que est\u00e1 a acontecer \u00e0 nossa casa comum.<\/p>\n<p>18. A cont\u00ednua acelera\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as na humanidade e no planeta junta-se, hoje, \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o dos ritmos de vida e trabalho, que alguns, em espanhol, designam por \u00abrapidaci\u00f3n\u00bb. Embora a mudan\u00e7a fa\u00e7a parte da din\u00e2mica dos sistemas complexos, a velocidade que hoje lhe imp\u00f5em as ac\u00e7\u00f5es humanas contrasta com a lentid\u00e3o natural da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. A isto vem juntar-se o problema de que os objectivos desta mudan\u00e7a r\u00e1pida e constante n\u00e3o est\u00e3o necessariamente orientados para o bem comum e para um desenvolvimento humano sustent\u00e1vel e integral. A mudan\u00e7a \u00e9 algo desej\u00e1vel, mas torna-se preocupante quando se transforma em deteriora\u00e7\u00e3o do mundo e da qualidade de vida de grande parte da humanidade.<\/p>\n<p>19. Depois dum tempo de confian\u00e7a irracional no progresso e nas capacidades humanas, uma parte da sociedade est\u00e1 a entrar numa etapa de maior consciencializa\u00e7\u00e3o. Nota-se uma crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da natureza, e cresce uma sincera e sentida preocupa\u00e7\u00e3o pelo que est\u00e1 a acontecer ao nosso planeta. Fa\u00e7amos uma resenha, certamente incompleta, das quest\u00f5es que hoje nos causam inquieta\u00e7\u00e3o e j\u00e1 n\u00e3o se podem esconder debaixo do tapete. O objectivo n\u00e3o \u00e9 recolher informa\u00e7\u00f5es ou satisfazer a nossa curiosidade, mas tomar dolorosa consci\u00eancia, ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribui\u00e7\u00e3o que cada um lhe pode dar.<\/p>\n<p><strong>1. Polui\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><br \/>Polui\u00e7\u00e3o, res\u00edduos e cultura do descarte<\/p>\n<p>20. Existem formas de polui\u00e7\u00e3o que afectam diariamente as pessoas. A exposi\u00e7\u00e3o aos poluentes atmosf\u00e9ricos produz uma vasta gama de efeitos sobre a sa\u00fade, particularmente dos mais pobres, e provocam milh\u00f5es de mortes prematuras. Adoecem, por exemplo, por causa da inala\u00e7\u00e3o de elevadas quantidades de fumo produzido pelos combust\u00edveis utilizados para cozinhar ou aquecer-se. A isto vem juntar-se a polui\u00e7\u00e3o que afecta a todos, causada pelo transporte, pelos fumos da ind\u00fastria, pelas descargas de subst\u00e2ncias que contribuem para a acidifica\u00e7\u00e3o do solo e da \u00e1gua, pelos fertilizantes, insecticidas, fungicidas, pesticidas e agro-t\u00f3xicos em geral. Na realidade a tecnologia, que, ligada \u00e0 finan\u00e7a, pretende ser a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o dos problemas, \u00e9 incapaz de ver o mist\u00e9rio das m\u00faltiplas rela\u00e7\u00f5es que existem entre as coisas e, por isso, \u00e0s vezes resolve um problema criando outros.<\/p>\n<p>21. Devemos considerar tamb\u00e9m a polui\u00e7\u00e3o produzida pelos res\u00edduos, incluindo os perigosos presentes em variados ambientes. Produzem-se anualmente centenas de milh\u00f5es de toneladas de res\u00edduos, muitos deles n\u00e3o biodegrad\u00e1veis: res\u00edduos dom\u00e9sticos e comerciais, detritos de demoli\u00e7\u00f5es, res\u00edduos cl\u00ednicos, electr\u00f3nicos e industriais, res\u00edduos altamente t\u00f3xicos e radioactivos. A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso dep\u00f3sito de lixo. Em muitos lugares do planeta, os idosos recordam com saudade as paisagens de outrora, que agora v\u00eaem submersas de lixo. Tanto os res\u00edduos industriais como os produtos qu\u00edmicos utilizados nas cidades e nos campos podem produzir um efeito de bioacumula\u00e7\u00e3o nos organismos dos moradores nas \u00e1reas lim\u00edtrofes, que se verifica mesmo quando \u00e9 baixo o n\u00edvel de presen\u00e7a dum elemento t\u00f3xico num lugar. Muitas vezes s\u00f3 se adoptam medidas quando j\u00e1 se produziram efeitos irrevers\u00edveis na sa\u00fade das pessoas.<\/p>\n<p>22. Estes problemas est\u00e3o intimamente ligados \u00e0 cultura do descarte, que afecta tanto os seres humanos exclu\u00eddos como as coisas que se convertem rapidamente em lixo. Note-se, por exemplo, como a maior parte do papel produzido se desperdi\u00e7a sem ser reciclado. Custa-nos a reconhecer que o funcionamento dos ecossistemas naturais \u00e9 exemplar: as plantas sintetizam subst\u00e2ncias nutritivas que alimentam os herb\u00edvoros; estes, por sua vez, alimentam os carn\u00edvoros que fornecem significativas quantidades de res\u00edduos org\u00e2nicos, que d\u00e3o origem a uma nova gera\u00e7\u00e3o de vegetais. Ao contr\u00e1rio, o sistema industrial, no final do ciclo de produ\u00e7\u00e3o e consumo, n\u00e3o desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar res\u00edduos e esc\u00f3rias. Ainda n\u00e3o se conseguiu adoptar um modelo circular de produ\u00e7\u00e3o que assegure recursos para todos e para as gera\u00e7\u00f5es futuras e que exige limitar, o mais poss\u00edvel, o uso dos recursos n\u00e3o-renov\u00e1veis, moderando o seu consumo, maximizando a efici\u00eancia no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os. A resolu\u00e7\u00e3o desta quest\u00e3o seria uma maneira de contrastar a cultura do descarte que acaba por danificar o planeta inteiro, mas nota-se que os progressos neste sentido s\u00e3o ainda muito escassos.<\/p>\n<p><strong>O clima como bem comum<\/strong><br \/>23. O clima \u00e9 um bem comum, um bem de todos e para todos. A n\u00edvel global, \u00e9 um sistema complexo, que tem a ver com muitas condi\u00e7\u00f5es essenciais para a vida humana. H\u00e1 um consenso cient\u00edfico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema clim\u00e1tico. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, este aquecimento foi acompanhado por uma eleva\u00e7\u00e3o constante do n\u00edvel do mar, sendo dif\u00edcil n\u00e3o o relacionar ainda com o aumento de acontecimentos meteorol\u00f3gicos extremos, embora n\u00e3o se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a cada fen\u00f3meno particular. A humanidade \u00e9 chamada a tomar consci\u00eancia da necessidade de mudan\u00e7as de estilos de vida, de produ\u00e7\u00e3o e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam. \u00c9 verdade que h\u00e1 outros factores (tais como o vulcanismo, as varia\u00e7\u00f5es da \u00f3rbita e do eixo terrestre, o ciclo solar), mas numerosos estudos cient\u00edficos indicam que a maior parte do aquecimento global das \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 devida \u00e0 alta concentra\u00e7\u00e3o de gases com efeito de estufa (anidrido carb\u00f3nico, metano, \u00f3xido de azoto, e outros) emitidos sobretudo por causa da actividade humana. A sua concentra\u00e7\u00e3o na atmosfera impede que o calor dos raios solares reflectidos pela terra se dilua no espa\u00e7o. Isto \u00e9 particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combust\u00edveis f\u00f3sseis, que est\u00e1 no centro do sistema energ\u00e9tico mundial. E incidiu tamb\u00e9m a pr\u00e1tica crescente de mudar a utiliza\u00e7\u00e3o do solo, principalmente o desflorestamento para finalidade agr\u00edcola.<\/p>\n<p>24. Por sua vez, o aquecimento influi sobre o ciclo do carbono. Cria um ciclo vicioso que agrava ainda mais a situa\u00e7\u00e3o e que incidir\u00e1 sobre a disponibilidade de recursos essenciais como a \u00e1gua pot\u00e1vel, a energia e a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola das \u00e1reas mais quentes e provocar\u00e1 a extin\u00e7\u00e3o de parte da biodiversidade do planeta. O derretimento das calotas polares e dos glaciares a grande altitude amea\u00e7a com uma liberta\u00e7\u00e3o, de alto risco, de g\u00e1s metano, e a decomposi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria org\u00e2nica congelada poderia acentuar ainda mais a emiss\u00e3o de anidrido carb\u00f3nico. Entretanto a perda das florestas tropicais piora a situa\u00e7\u00e3o, pois estas ajudam a mitigar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. A polui\u00e7\u00e3o produzida pelo anidrido carb\u00f3nico aumenta a acidez dos oceanos e compromete a cadeia alimentar marinha. Se a tend\u00eancia actual se mantiver, este s\u00e9culo poder\u00e1 ser testemunha de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas inauditas e duma destrui\u00e7\u00e3o sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequ\u00eancias para todos n\u00f3s. Por exemplo, a subida do n\u00edvel do mar pode criar situa\u00e7\u00f5es de extrema gravidade, se se considera que um quarto da popula\u00e7\u00e3o mundial vive \u00e0 beira-mar ou muito perto dele, e a maior parte das megacidades est\u00e3o situadas em \u00e1reas costeiras.<\/p>\n<p>25. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o um problema global com graves implica\u00e7\u00f5es ambientais, sociais, econ\u00f3micas, distributivas e pol\u00edticas, constituindo actualmente um dos principais desafios para a humanidade. Provavelmente os impactos mais s\u00e9rios recair\u00e3o, nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, sobre os pa\u00edses em vias de desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente afectados por fen\u00f3menos relacionados com o aquecimento, e os seus meios de subsist\u00eancia dependem fortemente das reservas naturais e dos chamados servi\u00e7os do ecossistema como a agricultura, a pesca e os recursos florestais. N\u00e3o possuem outras disponibilidades econ\u00f3micas nem outros recursos que lhes permitam adaptar-se aos impactos clim\u00e1ticos ou enfrentar situa\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas, e gozam de reduzido acesso a servi\u00e7os sociais e de protec\u00e7\u00e3o. Por exemplo, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas d\u00e3o origem a migra\u00e7\u00f5es de animais e vegetais que nem sempre conseguem adaptar-se; e isto, por sua vez, afecta os recursos produtivos dos mais pobres, que s\u00e3o for\u00e7ados tamb\u00e9m a emigrar com grande incerteza quanto ao futuro da sua vida e dos seus filhos. \u00c9 tr\u00e1gico o aumento de emigrantes em fuga da mis\u00e9ria agravada pela degrada\u00e7\u00e3o ambiental, que, n\u00e3o sendo reconhecidos como refugiados nas conven\u00e7\u00f5es internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. Infelizmente, verifica-se uma indiferen\u00e7a geral perante estas trag\u00e9dias, que est\u00e3o acontecendo agora mesmo em diferentes partes do mundo. A falta de reac\u00e7\u00f5es diante destes dramas dos nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s \u00e9 um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.<\/p>\n<p>26. Muitos daqueles que det\u00eam mais recursos e poder econ\u00f3mico ou pol\u00edtico parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Mas muitos sintomas indicam que tais efeitos poder\u00e3o ser cada vez piores, se continuarmos com os modelos actuais de produ\u00e7\u00e3o e consumo. Por isso, tornou-se urgente e imperioso o desenvolvimento de pol\u00edticas capazes de fazer com que, nos pr\u00f3ximos anos, a emiss\u00e3o de anidrido carb\u00f3nico e outros gases altamente poluentes se reduza drasticamente, por exemplo, substituindo os combust\u00edveis f\u00f3sseis e desenvolvendo fontes de energia renov\u00e1vel. No mundo, \u00e9 ex\u00edguo o n\u00edvel de acesso a energias limpas e renov\u00e1veis. Mas ainda \u00e9 necess\u00e1rio desenvolver adequadas tecnologias de acumula\u00e7\u00e3o. Entretanto, nalguns pa\u00edses, registaram-se avan\u00e7os que come\u00e7am a ser significativos, embora estejam longe de atingir uma propor\u00e7\u00e3o importante. Houve tamb\u00e9m alguns investimentos em modalidades de produ\u00e7\u00e3o e transporte que consomem menos energia exigindo menor quantidade de mat\u00e9rias-primas, bem como em modalidades de constru\u00e7\u00e3o ou restrutura\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios para se melhorar a sua efici\u00eancia energ\u00e9tica. Mas estas pr\u00e1ticas promissoras est\u00e3o longe de se tornar omnipresentes.<\/p>\n<p><strong>2. A quest\u00e3o da \u00e1gua<\/strong><br \/>27. Outros indicadores da situa\u00e7\u00e3o actual t\u00eam a ver com o esgotamento dos recursos naturais. \u00c9 bem conhecida a impossibilidade de sustentar o n\u00edvel actual de consumo dos pa\u00edses mais desenvolvidos e dos sectores mais ricos da sociedade, onde o h\u00e1bito de desperdi\u00e7ar e jogar fora atinge n\u00edveis inauditos. J\u00e1 se ultrapassaram certos limites m\u00e1ximos de explora\u00e7\u00e3o do planeta, sem termos resolvido o problema da pobreza.<\/p>\n<p>28. A \u00e1gua pot\u00e1vel e limpa constitui uma quest\u00e3o de primordial import\u00e2ncia, porque \u00e9 indispens\u00e1vel para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aqu\u00e1ticos. As fontes de \u00e1gua doce fornecem os sectores sanit\u00e1rios, agro-pecu\u00e1rios e industriais. A disponibilidade de \u00e1gua manteve-se relativamente constante durante muito tempo, mas agora, em muitos lugares, a procura excede a oferta sustent\u00e1vel, com graves consequ\u00eancias a curto e longo prazo. Grandes cidades, que dependem de importantes reservas h\u00eddricas, sofrem per\u00edodos de car\u00eancia do recurso, que, nos momentos cr\u00edticos, nem sempre se administra com uma gest\u00e3o adequada e com imparcialidade. A pobreza da \u00e1gua p\u00fablica verifica-se especialmente na \u00c1frica, onde grandes sectores da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel segura, ou sofrem secas que tornam dif\u00edcil a produ\u00e7\u00e3o de alimento. Nalguns pa\u00edses, h\u00e1 regi\u00f5es com abund\u00e2ncia de \u00e1gua, enquanto outras sofrem de grave escassez.<\/p>\n<p>29. Um problema particularmente s\u00e9rio \u00e9 o da qualidade da \u00e1gua dispon\u00edvel para os pobres, que diariamente ceifa muitas vidas. Entre os pobres, s\u00e3o frequentes as doen\u00e7as relacionadas com a \u00e1gua, incluindo as causadas por microorganismos e subst\u00e2ncias qu\u00edmicas. A diarreia e a c\u00f3lera, devidas a servi\u00e7os de higiene e reservas de \u00e1gua inadequados, constituem um factor significativo de sofrimento e mortalidade infantil. Em muitos lugares, os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos est\u00e3o amea\u00e7ados pela polui\u00e7\u00e3o produzida por algumas actividades extractivas, agr\u00edcolas e industriais, sobretudo em pa\u00edses desprovidos de regulamenta\u00e7\u00e3o e controles suficientes. N\u00e3o pensamos apenas nas descargas provenientes das f\u00e1bricas; os detergentes e produtos qu\u00edmicos que a popula\u00e7\u00e3o utiliza em muitas partes do mundo continuam a ser derramados em rios, lagos e mares.<\/p>\n<p>30. Enquanto a qualidade da \u00e1gua dispon\u00edvel piora constantemente, em alguns lugares cresce a tend\u00eancia para se privatizar este recurso escasso, tornando-se uma mercadoria sujeita \u00e0s leis do mercado. Na realidade, o acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel e segura \u00e9 um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobreviv\u00eancia das pessoas e, portanto, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para o exerc\u00edcio dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave d\u00edvida social para com os pobres que n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, porque isto \u00e9 negar-lhes o direito \u00e0 vida radicado na sua dignidade inalien\u00e1vel. Esta d\u00edvida \u00e9 parcialmente saldada com maiores contribui\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas para prover de \u00e1gua limpa e saneamento as popula\u00e7\u00f5es mais pobres. Entretanto nota-se um desperd\u00edcio de \u00e1gua n\u00e3o s\u00f3 nos pa\u00edses desenvolvidos, mas tamb\u00e9m naqueles em vias de desenvolvimento que possuem grandes reservas. Isto mostra que o problema da \u00e1gua \u00e9, em parte, uma quest\u00e3o educativa e cultural, porque n\u00e3o h\u00e1 consci\u00eancia da gravidade destes comportamentos num contexto de grande desigualdade.<\/p>\n<p>31. Uma maior escassez de \u00e1gua provocar\u00e1 o aumento do custo dos alimentos e de v\u00e1rios produtos que dependem do seu uso. Alguns estudos assinalaram o risco de sofrer uma aguda escassez de \u00e1gua dentro de poucas d\u00e9cadas, se n\u00e3o forem tomadas medidas urgentes. Os impactos ambientais poderiam afectar milhares de milh\u00f5es de pessoas, sendo previs\u00edvel que o controle da \u00e1gua por grandes empresas mundiais se transforme numa das principais fontes de conflitos deste s\u00e9culo.[23]<\/p>\n<p><strong>3. Perda de biodiversidade<\/strong><br \/>32. Os recursos da terra est\u00e3o a ser depredados tamb\u00e9m por causa de formas imediatistas de entender a economia e a actividade comercial e produtiva. A perda de florestas e bosques implica simultaneamente a perda de esp\u00e9cies que poderiam constituir, no futuro, recursos extremamente importantes n\u00e3o s\u00f3 para a alimenta\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m para a cura de doen\u00e7as e v\u00e1rios servi\u00e7os. As diferentes esp\u00e9cies cont\u00eam genes que podem ser recursos-chave para resolver, no futuro, alguma necessidade humana ou regular algum problema ambiental.<\/p>\n<p>33. Entretanto n\u00e3o basta pensar nas diferentes esp\u00e9cies apenas como eventuais \u00abrecursos\u00bb explor\u00e1veis, esquecendo que possuem um valor em si mesmas. Anualmente, desaparecem milhares de esp\u00e9cies vegetais e animais, que j\u00e1 n\u00e3o poderemos conhecer, que os nossos filhos n\u00e3o poder\u00e3o ver, perdidas para sempre. A grande maioria delas extingue-se por raz\u00f5es que t\u00eam a ver com alguma actividade humana. Por nossa causa, milhares de esp\u00e9cies j\u00e1 n\u00e3o dar\u00e3o gl\u00f3ria a Deus com a sua exist\u00eancia, nem poder\u00e3o comunicar-nos a sua pr\u00f3pria mensagem. N\u00e3o temos direito de o fazer.<\/p>\n<p>34. Possivelmente perturba-nos saber da extin\u00e7\u00e3o dum mam\u00edfero ou duma ave, pela sua maior visibilidade; mas, para o bom funcionamento dos ecossistemas, tamb\u00e9m s\u00e3o necess\u00e1rios os fungos, as algas, os vermes, os pequenos insectos, os r\u00e9pteis e a variedade inumer\u00e1vel de microorganismos. Algumas esp\u00e9cies pouco numerosas, que habitualmente nos passam despercebidas, desempenham uma fun\u00e7\u00e3o cens\u00f3ria fundamental para estabelecer o equil\u00edbrio dum lugar. \u00c9 verdade que o ser humano deve intervir quando um geosistema cai em estado cr\u00edtico, mas hoje o n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o humana numa realidade t\u00e3o complexa como a natureza \u00e9 tal, que os desastres constantes causados pelo ser humano provocam uma nova interven\u00e7\u00e3o dele de modo que a actividade humana torna-se omnipresente, com todos os riscos que isto implica. Normalmente cria-se um c\u00edrculo vicioso, no qual a interven\u00e7\u00e3o humana, para resolver uma dificuldade, muitas vezes ainda agrava mais a situa\u00e7\u00e3o. Por exemplo, muitos p\u00e1ssaros e insectos, que desaparecem por causa dos agro-t\u00f3xicos criados pela tecnologia, s\u00e3o \u00fateis para a pr\u00f3pria agricultura, e o seu desaparecimento dever\u00e1 ser compensado por outra interven\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que possivelmente trar\u00e1 novos efeitos nocivos. S\u00e3o louv\u00e1veis e, \u00e0s vezes, admir\u00e1veis os esfor\u00e7os de cientistas e t\u00e9cnicos que procuram dar solu\u00e7\u00e3o aos problemas criados pelo ser humano. Mas, contemplando o mundo, damo-nos conta de que este n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o humana, muitas vezes ao servi\u00e7o da finan\u00e7a e do consumismo, faz com que esta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta, enquanto ao mesmo tempo o desenvolvimento da tecnologia e das ofertas de consumo continua a avan\u00e7ar sem limites. Assim, parece que nos iludimos de poder substituir uma beleza insupr\u00edvel e irrecuper\u00e1vel por outra criada por n\u00f3s.<\/p>\n<p>35. Quando se analisa o impacto ambiental de qualquer iniciativa econ\u00f3mica, costuma-se olhar para os seus efeitos no solo, na \u00e1gua e no ar, mas nem sempre se inclui um estudo cuidadoso do impacto na biodiversidade, como se a perda de algumas esp\u00e9cies ou de grupos animais ou vegetais fosse algo de pouca relev\u00e2ncia. As estradas, os novos cultivos, as reservas, as barragens e outras constru\u00e7\u00f5es v\u00e3o tomando posse dos habitats e, por vezes, fragmentam-nos de tal maneira que as popula\u00e7\u00f5es de animais j\u00e1 n\u00e3o podem migrar nem mover-se livremente, pelo que algumas esp\u00e9cies correm o risco de extin\u00e7\u00e3o. Existem alternativas que, pelo menos, mitigam o impacto destas obras, como a cria\u00e7\u00e3o de corredores biol\u00f3gicos, mas s\u00e3o poucos os pa\u00edses em que se adverte este cuidado e preven\u00e7\u00e3o. Quando se explora comercialmente algumas esp\u00e9cies, nem sempre se estuda a sua modalidade de crescimento para evitar a sua diminui\u00e7\u00e3o excessiva e consequente desequil\u00edbrio do ecossistema.<\/p>\n<p>36. O cuidado dos ecossistemas requer uma perspectiva que se estenda para al\u00e9m do imediato, porque, quando se busca apenas um ganho econ\u00f3mico r\u00e1pido e f\u00e1cil, j\u00e1 ningu\u00e9m se importa realmente com a sua preserva\u00e7\u00e3o. Mas o custo dos danos provocados pela neglig\u00eancia ego\u00edsta \u00e9 muit\u00edssimo maior do que o benef\u00edcio econ\u00f3mico que se possa obter. No caso da perda ou dano grave dalgumas esp\u00e9cies, fala-se de valores que excedem todo e qualquer c\u00e1lculo. Por isso, podemos ser testemunhas mudas de grav\u00edssimas desigualdades, quando se pretende obter benef\u00edcios significativos, fazendo pagar ao resto da humanidade, presente e futura, os alt\u00edssimos custos da degrada\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>37. Alguns pa\u00edses fizeram progressos na conserva\u00e7\u00e3o eficaz de certos lugares e \u00e1reas \u2013 na terra e nos oceanos \u2013, proibindo a\u00ed toda a interven\u00e7\u00e3o humana que possa modificar a sua fisionomia ou alterar a sua constitui\u00e7\u00e3o original. No cuidado da biodiversidade, os especialistas insistem na necessidade de prestar uma especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1reas mais ricas em variedade de esp\u00e9cies, em esp\u00e9cies end\u00e9micas, raras ou com menor grau de efectiva protec\u00e7\u00e3o. H\u00e1 lugares que requerem um cuidado particular pela sua enorme import\u00e2ncia para o ecossistema mundial, ou que constituem significativas reservas de \u00e1gua assegurando assim outras formas de vida.<\/p>\n<p>38. Mencionemos, por exemplo, os pulm\u00f5es do planeta repletos de biodiversidade que s\u00e3o a Amaz\u00f3nia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos e os glaciares. A import\u00e2ncia destes lugares para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade n\u00e3o se pode ignorar. Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma biodiversidade de enorme complexidade, quase imposs\u00edvel de conhecer completamente, mas quando estas florestas s\u00e3o queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se in\u00fameras esp\u00e9cies, ou tais \u00e1reas transformam-se em \u00e1ridos desertos. Todavia, ao falar sobre estes lugares, imp\u00f5e-se um delicado equil\u00edbrio, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar tamb\u00e9m os enormes interesses econ\u00f3micos internacionais que, a pretexto de cuidar deles, podem atentar contra as soberanias nacionais. Com efeito, h\u00e1 \u00abpropostas de internacionaliza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f3nia que s\u00f3 servem aos interesses econ\u00f3micos das corpora\u00e7\u00f5es internacionais\u00bb.[24] \u00c9 louv\u00e1vel a tarefa de organismos internacionais e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil que sensibilizam as popula\u00e7\u00f5es e colaboram de forma cr\u00edtica, inclusive utilizando leg\u00edtimos mecanismos de press\u00e3o, para que cada governo cumpra o dever pr\u00f3prio e n\u00e3o-deleg\u00e1vel de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu pa\u00eds, sem se vender a esp\u00farios interesses locais ou internacionais.<\/p>\n<p>39. Habitualmente tamb\u00e9m n\u00e3o se faz objecto de adequada an\u00e1lise a substitui\u00e7\u00e3o da flora silvestre por \u00e1reas florestais com \u00e1rvores, que geralmente s\u00e3o monoculturas. \u00c9 que pode afectar gravemente uma biodiversidade que n\u00e3o \u00e9 albergada pelas novas esp\u00e9cies que se implantam. Tamb\u00e9m as zonas h\u00famidas, que s\u00e3o transformadas em terrenos agr\u00edcolas, perdem a enorme biodiversidade que abrigavam. \u00c9 preocupante, nalgumas \u00e1reas costeiras, o desaparecimento dos ecossistemas constitu\u00eddos por manguezais.<\/p>\n<p>40. Os oceanos cont\u00eam n\u00e3o s\u00f3 a maior parte da \u00e1gua do planeta, mas tamb\u00e9m a maior parte da vasta variedade dos seres vivos, muitos deles ainda desconhecidos para n\u00f3s e amea\u00e7ados por diversas causas. Al\u00e9m disso, a vida nos rios, lagos, mares e oceanos, que nutre grande parte da popula\u00e7\u00e3o mundial, \u00e9 afectada pela extrac\u00e7\u00e3o descontrolada dos recursos ict\u00edicos, que provoca dr\u00e1sticas diminui\u00e7\u00f5es dalgumas esp\u00e9cies. E no entanto continuam a desenvolver-se modalidades selectivas de pesca, que descartam grande parte das esp\u00e9cies apanhadas. Particularmente amea\u00e7ados est\u00e3o organismos marinhos que n\u00e3o temos em considera\u00e7\u00e3o, como certas formas de pl\u00e2ncton que constituem um componente muito importante da cadeia alimentar marinha e de que dependem, em \u00faltima inst\u00e2ncia, esp\u00e9cies que se utilizam para a alimenta\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>41. Passando aos mares tropicais e subtropicais, encontramos os recifes de coral, que equivalem \u00e0s grandes florestas da terra firme, porque abrigam cerca de um milh\u00e3o de esp\u00e9cies, incluindo peixes, caranguejos, moluscos, esponjas, algas e outras. Hoje, muitos dos recifes de coral no mundo j\u00e1 s\u00e3o est\u00e9reis ou encontram-se num estado cont\u00ednuo de decl\u00ednio: \u00abQuem transformou o maravilhoso mundo marinho em cemit\u00e9rios subaqu\u00e1ticos despojados de vida e de cor?\u00bb[25] Este fen\u00f3meno deve-se, em grande parte, \u00e0 polui\u00e7\u00e3o que chega ao mar resultante do desflorestamento, das monoculturas agr\u00edcolas, das descargas industriais e de m\u00e9todos de pesca destrutivos, nomeadamente os que utilizam cianeto e dinamite. \u00c9 agravado pelo aumento da temperatura dos oceanos. Tudo isso nos ajuda a compreender como qualquer ac\u00e7\u00e3o sobre a natureza pode ter consequ\u00eancias que n\u00e3o advertimos \u00e0 primeira vista e como certas formas de explora\u00e7\u00e3o de recursos se obt\u00eam \u00e0 custa duma degrada\u00e7\u00e3o que acaba por chegar at\u00e9 ao fundo dos oceanos.<\/p>\n<p>42. \u00c9 preciso investir muito mais na pesquisa para se entender melhor o comportamento dos ecossistemas e analisar adequadamente as diferentes vari\u00e1veis de impacto de qualquer modifica\u00e7\u00e3o importante do meio ambiente. Visto que todas as criaturas est\u00e3o interligadas, deve ser reconhecido com carinho e admira\u00e7\u00e3o o valor de cada uma, e todos n\u00f3s, seres criados, precisamos uns dos outros. Cada territ\u00f3rio det\u00e9m uma parte de responsabilidade no cuidado desta fam\u00edlia, pelo que deve fazer um invent\u00e1rio cuidadoso das esp\u00e9cies que alberga a fim de desenvolver programas e estrat\u00e9gias de protec\u00e7\u00e3o, cuidando com particular solicitude das esp\u00e9cies em vias de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>4. Deteriora\u00e7\u00e3o da qualidade de vida humana e degrada\u00e7\u00e3o social<\/strong><br \/>43. Tendo em conta que o ser humano tamb\u00e9m \u00e9 uma criatura deste mundo, que tem direito a viver e ser feliz e, al\u00e9m disso, possui uma dignidade especial, n\u00e3o podemos deixar de considerar os efeitos da degrada\u00e7\u00e3o ambiental, do modelo actual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas.<\/p>\n<p>44. Nota-se hoje, por exemplo, o crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que se tornaram pouco saud\u00e1veis para viver, devido n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 polui\u00e7\u00e3o proveniente de emiss\u00f5es t\u00f3xicas mas tamb\u00e9m ao caos urbano, aos problemas de transporte e \u00e0 polui\u00e7\u00e3o visiva e ac\u00fastica. Muitas cidades s\u00e3o grandes estruturas que n\u00e3o funcionam, gastando energia e \u00e1gua em excesso. H\u00e1 bairros que, embora constru\u00eddos recentemente, apresentam-se congestionados e desordenados, sem espa\u00e7os verdes suficientes. N\u00e3o \u00e9 conveniente para os habitantes deste planeta viver cada vez mais submersos de cimento, asfalto, vidro e metais, privados do contacto f\u00edsico com a natureza.<\/p>\n<p>45. Nalguns lugares, rurais e urbanos, a privatiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os tornou dif\u00edcil o acesso dos cidad\u00e3os a \u00e1reas de especial beleza; noutros, criaram-se \u00e1reas residenciais \u00abecol\u00f3gicas\u00bb postas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o s\u00f3 de poucos, procurando-se evitar que outros entrem a perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes encontra-se uma cidade bela e cheia de espa\u00e7os verdes e bem cuidados nalgumas \u00e1reas \u00abseguras\u00bb, mas n\u00e3o em \u00e1reas menos vis\u00edveis, onde vivem os descartados da sociedade.<\/p>\n<p>46. Entre os componentes sociais da mudan\u00e7a global, incluem-se os efeitos laborais dalgumas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, a exclus\u00e3o social, a desigualdade no fornecimento e consumo da energia e doutros servi\u00e7os, a fragmenta\u00e7\u00e3o social, o aumento da viol\u00eancia e o aparecimento de novas formas de agressividade social, o narcotr\u00e1fico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens, a perda de identidade. S\u00e3o alguns sinais, entre outros, que mostram como o crescimento nos \u00faltimos dois s\u00e9culos n\u00e3o significou, em todos os seus aspectos, um verdadeiro progresso integral e uma melhoria da qualidade de vida. Alguns destes sinais s\u00e3o ao mesmo tempo sintomas duma verdadeira degrada\u00e7\u00e3o social, duma silenciosa ruptura dos v\u00ednculos de integra\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o social.<\/p>\n<p>47. A isto v\u00eam juntar-se as din\u00e2micas dos mass-media e do mundo digital, que, quando se tornam omnipresentes, n\u00e3o favorecem o desenvolvimento duma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Neste contexto, os grandes s\u00e1bios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ru\u00eddo dispersivo da informa\u00e7\u00e3o. Isto exige de n\u00f3s um esfor\u00e7o para que esses meios se traduzam num novo desenvolvimento cultural da humanidade, e n\u00e3o numa deteriora\u00e7\u00e3o da sua riqueza mais profunda. A verdadeira sabedoria, fruto da reflex\u00e3o, do di\u00e1logo e do encontro generoso entre as pessoas, n\u00e3o se adquire com uma mera acumula\u00e7\u00e3o de dados, que, numa esp\u00e9cie de polui\u00e7\u00e3o mental, acabam por saturar e confundir. Ao mesmo tempo tendem a substituir as rela\u00e7\u00f5es reais com os outros, com todos os desafios que implicam, por um tipo de comunica\u00e7\u00e3o mediada pela internet. Isto permite seleccionar ou eliminar a nosso arb\u00edtrio as rela\u00e7\u00f5es e, deste modo, frequentemente gera-se um novo tipo de emo\u00e7\u00f5es artificiais, que t\u00eam a ver mais com dispositivos e monitores do que com as pessoas e a natureza. Os meios actuais permitem-nos comunicar e partilhar conhecimentos e afectos. Mas, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m nos impedem de tomar contacto directo com a ang\u00fastia, a trepida\u00e7\u00e3o, a alegria do outro e com a complexidade da sua experi\u00eancia pessoal. Por isso, n\u00e3o deveria surpreender-nos o facto de, a par da oferta sufocante destes produtos, ir crescendo uma profunda e melanc\u00f3lica insatisfa\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais ou um nocivo isolamento.<\/p>\n<p><strong>5. Desigualdade planet\u00e1ria<\/strong><br \/>48. O ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e n\u00e3o podemos enfrentar adequadamente a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, se n\u00e3o prestarmos aten\u00e7\u00e3o \u00e0s causas que t\u00eam a ver com a degrada\u00e7\u00e3o humana e social. De facto, a deteriora\u00e7\u00e3o do meio ambiente e a da sociedade afectam de modo especial os mais fr\u00e1geis do planeta: \u00abTanto a experi\u00eancia comum da vida quotidiana como a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica demonstram que os efeitos mais graves de todas as agress\u00f5es ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres\u00bb.[26] Por exemplo, o esgotamento das reservas ict\u00edicas prejudica especialmente as pessoas que vivem da pesca artesanal e n\u00e3o possuem qualquer maneira de a substituir, a polui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua afecta particularmente os mais pobres que n\u00e3o t\u00eam possibilidades de comprar \u00e1gua engarrafada, e a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar afecta principalmente as popula\u00e7\u00f5es costeiras mais pobres que n\u00e3o t\u00eam para onde se transferir. O impacto dos desequil\u00edbrios actuais manifesta-se tamb\u00e9m na morte prematura de muitos pobres, nos conflitos gerados pela falta de recursos e em muitos outros problemas que n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7o suficiente nas agendas mundiais.[27]<\/p>\n<p>49. Gostaria de assinalar que muitas vezes falta uma consci\u00eancia clara dos problemas que afectam particularmente os exclu\u00eddos. Estes s\u00e3o a maioria do planeta, milhares de milh\u00f5es de pessoas. Hoje s\u00e3o mencionados nos debates pol\u00edticos e econ\u00f3micos internacionais, mas com frequ\u00eancia parece que os seus problemas se coloquem como um ap\u00eandice, como uma quest\u00e3o que se acrescenta quase por obriga\u00e7\u00e3o ou perifericamente, quando n\u00e3o s\u00e3o considerados meros danos colaterais. Com efeito, na hora da implementa\u00e7\u00e3o concreta, permanecem frequentemente no \u00faltimo lugar. Isto deve-se, em parte, ao facto de que muitos profissionais, formadores de opini\u00e3o, meios de comunica\u00e7\u00e3o e centros de poder est\u00e3o localizados longe deles, em \u00e1reas urbanas isoladas, sem ter contacto directo com os seus problemas. Vivem e reflectem a partir da comodidade dum desenvolvimento e duma qualidade de vida que n\u00e3o est\u00e1 ao alcance da maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial. Esta falta de contacto f\u00edsico e de encontro, \u00e0s vezes favorecida pela fragmenta\u00e7\u00e3o das nossas cidades, ajuda a cauterizar a consci\u00eancia e a ignorar parte da realidade em an\u00e1lises tendenciosas. Isto, \u00e0s vezes, coexiste com um discurso \u00abverde\u00bb. Mas, hoje, n\u00e3o podemos deixar de reconhecer queuma verdadeira abordagem ecol\u00f3gica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justi\u00e7a nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.<\/p>\n<p>50. Em vez de resolver os problemas dos pobres e pensar num mundo diferente, alguns limitam-se a propor uma redu\u00e7\u00e3o da natalidade. N\u00e3o faltam press\u00f5es internacionais sobre os pa\u00edses em vias de desenvolvimento, que condicionam as ajudas econ\u00f3micas a determinadas pol\u00edticas de \u00absa\u00fade reprodutiva\u00bb. Mas, \u00abse \u00e9 verdade que a desigual distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e dos recursos dispon\u00edveis cria obst\u00e1culos ao desenvolvimento e ao uso sustent\u00e1vel do ambiente, deve-se reconhecer que o crescimento demogr\u00e1fico \u00e9 plenamente compat\u00edvel com um desenvolvimento integral e solid\u00e1rio\u00bb.[28] Culpar o incremento demogr\u00e1fico em vez do consumismo exacerbado e selectivo de alguns \u00e9 uma forma de n\u00e3o enfrentar os problemas. Pretende-se, assim, legitimar o modelo distributivo actual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa propor\u00e7\u00e3o que seria imposs\u00edvel generalizar, porque o planeta n\u00e3o poderia sequer conter os res\u00edduos de tal consumo. Al\u00e9m disso, sabemos que se desperdi\u00e7a aproximadamente um ter\u00e7o dos alimentos produzidos, e \u00aba comida que se desperdi\u00e7a \u00e9 como se fosse roubada da mesa do pobre\u00bb.[29] Em todo o caso, \u00e9 verdade que devemos prestar aten\u00e7\u00e3o ao desequil\u00edbrio na distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pelo territ\u00f3rio, tanto a n\u00edvel nacional como a n\u00edvel mundial, porque o aumento do consumo levaria a situa\u00e7\u00f5es regionais complexas pelas combina\u00e7\u00f5es de problemas ligados \u00e0 polui\u00e7\u00e3o ambiental, ao transporte, ao tratamento de res\u00edduos, \u00e0 perda de recursos, \u00e0 qualidade de vida.<\/p>\n<p>51. A desigualdade n\u00e3o afecta apenas os indiv\u00edduos mas pa\u00edses inteiros, e obriga a pensar numa \u00e9tica das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Com efeito, h\u00e1 uma verdadeira \u00abd\u00edvida ecol\u00f3gica\u00bb, particularmente entre o Norte e o Sul, ligada a desequil\u00edbrios comerciais com consequ\u00eancias no \u00e2mbito ecol\u00f3gico e com o uso desproporcionado dos recursos naturais efectuado historicamente por alguns pa\u00edses. As exporta\u00e7\u00f5es de algumas mat\u00e9rias-primas para satisfazer os mercados no Norte industrializado produziram danos locais, como, por exemplo, a contamina\u00e7\u00e3o com merc\u00fario na extrac\u00e7\u00e3o miner\u00e1ria do ouro ou com o di\u00f3xido de enxofre na do cobre. De modo especial \u00e9 preciso calcular o espa\u00e7o ambiental de todo o planeta usado para depositar res\u00edduos gasosos que se foram acumulando ao longo de dois s\u00e9culos e criaram uma situa\u00e7\u00e3o que agora afecta todos os pa\u00edses do mundo. O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns pa\u00edses ricos tem repercuss\u00f5es nos lugares mais pobres da terra, especialmente na \u00c1frica, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos no rendimento das cultiva\u00e7\u00f5es. A isto acrescentam-se os danos causados pela exporta\u00e7\u00e3o de res\u00edduos s\u00f3lidos e l\u00edquidos t\u00f3xicos para os pa\u00edses em vias de desenvolvimento e pela actividade poluente de empresas que fazem nos pa\u00edses menos desenvolvidos aquilo que n\u00e3o podem fazer nos pa\u00edses que lhes d\u00e3o o capital: \u00abConstatamos frequentemente que as empresas que assim procedem s\u00e3o multinacionais, que fazem aqui o que n\u00e3o lhes \u00e9 permitido em pa\u00edses desenvolvidos ou do chamado primeiro mundo. Geralmente, quando cessam as suas actividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento dalgumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecu\u00e1ria local, crateras, colinas devastadas, rios polu\u00eddos e qualquer obra social que j\u00e1 n\u00e3o se pode sustentar\u00bb.[30]<\/p>\n<p>52. A d\u00edvida externa dos pa\u00edses pobres transformou-se num instrumento de controle, mas n\u00e3o se d\u00e1 o mesmo com a d\u00edvida ecol\u00f3gica. De v\u00e1rias maneiras os povos em vias de desenvolvimento, onde se encontram as reservas mais importantes da biosfera, continuam a alimentar o progresso dos pa\u00edses mais ricos \u00e0 custa do seu presente e do seu futuro. A terra dos pobres do Sul \u00e9 rica e pouco contaminada, mas o acesso \u00e0 propriedade de bens e recursos para satisfazerem as suas car\u00eancias vitais \u00e9-lhes vedado por um sistema de rela\u00e7\u00f5es comerciais e de propriedade estruturalmente perverso. \u00c9 necess\u00e1rio que os pa\u00edses desenvolvidos contribuam para resolver esta d\u00edvida, limitando significativamente o consumo de energia n\u00e3o renov\u00e1vel e fornecendo recursos aos pa\u00edses mais necessitados para promover pol\u00edticas e programas de desenvolvimento sustent\u00e1vel. As regi\u00f5es e os pa\u00edses mais pobres t\u00eam menos possibilidade de adoptar novos modelos de redu\u00e7\u00e3o do impacto ambiental, porque n\u00e3o t\u00eam a prepara\u00e7\u00e3o para desenvolver os processos necess\u00e1rios nem podem cobrir os seus custos. Por isso, deve-se manter claramente a consci\u00eancia de que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica tem responsabilidades diversificadas e, como disseram os bispos dos Estados Unidos, \u00e9 oportuno concentrar-se \u00abespecialmente sobre as necessidades dos pobres, fracos e vulner\u00e1veis, num debate muitas vezes dominado pelos interesses mais poderosos\u00bb.[31] \u00c9 preciso revigorar a consci\u00eancia de que somos uma \u00fanica fam\u00edlia humana. N\u00e3o h\u00e1 fronteiras nem barreiras pol\u00edticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>6. A fraqueza das reac\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>53. Estas situa\u00e7\u00f5es provocam os gemidos da irm\u00e3 terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de n\u00f3s outro rumo. Nunca maltrat\u00e1mos e ferimos a nossa casa comum como nos \u00faltimos dois s\u00e9culos. Mas somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao cri\u00e1-lo e corresponda ao seu projecto de paz, beleza e plenitude. O problema \u00e9 que n\u00e3o dispomos ainda da cultura necess\u00e1ria para enfrentar esta crise e h\u00e1 necessidade de construir lideran\u00e7as que tracem caminhos, procurando dar resposta \u00e0s necessidades das gera\u00e7\u00f5es actuais, todos inclu\u00eddos, sem prejudicar as gera\u00e7\u00f5es futuras. Torna-se indispens\u00e1vel criar um sistema normativo que inclua limites inviol\u00e1veis e assegure a protec\u00e7\u00e3o dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma tecno-econ\u00f3mico acabem por arras\u00e1-los n\u00e3o s\u00f3 com a pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m com a liberdade e a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>54. Preocupa a fraqueza da reac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica internacional. A submiss\u00e3o da pol\u00edtica \u00e0 tecnologia e \u00e0 finan\u00e7a demonstra-se na fal\u00eancia das cimeiras mundiais sobre o meio ambiente. H\u00e1 demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse econ\u00f3mico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informa\u00e7\u00e3o para n\u00e3o ver afectados os seus projectos. Nesta linha, o Documento de Aparecida pede que, \u00abnas interven\u00e7\u00f5es sobre os recursos naturais, n\u00e3o predominem os interesses de grupos econ\u00f3micos que arrasam irracionalmente as fontes da vida\u00bb.[32] A alian\u00e7a entre economia e tecnologia acaba por deixar de fora tudo o que n\u00e3o faz parte dos seus interesses imediatos. Deste modo, poder-se-\u00e1 esperar apenas algumas proclama\u00e7\u00f5es superficiais, ac\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas isoladas e ainda esfor\u00e7os por mostrar sensibilidade para com o meio ambiente, enquanto, na realidade, qualquer tentativa das organiza\u00e7\u00f5es sociais para alterar as coisas ser\u00e1 vista como um dist\u00farbio provocado por sonhadores rom\u00e2nticos ou como um obst\u00e1culo a superar.<\/p>\n<p>55. Pouco a pouco alguns pa\u00edses podem mostrar progressos significativos, o desenvolvimento de controles mais eficientes e uma luta mais sincera contra a corrup\u00e7\u00e3o. Cresceu a sensibilidade ecol\u00f3gica das popula\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 ainda insuficiente para mudar os h\u00e1bitos nocivos de consumo, que n\u00e3o parecem diminuir; antes, expandem-se e desenvolvem-se. \u00c9 o que acontece \u2013 s\u00f3 para dar um exemplo simples \u2013 com o crescente aumento do uso e intensidade dos condicionadores de ar: os mercados, apostando num ganho imediato, estimulam ainda mais a procura. Se algu\u00e9m observasse de fora a sociedade planet\u00e1ria, maravilhar-se-ia com tal comportamento que \u00e0s vezes parece suicida.<\/p>\n<p>56. Entretanto os poderes econ\u00f3micos continuam a justificar o sistema mundial actual, onde predomina uma especula\u00e7\u00e3o e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente. Assim se manifesta como est\u00e3o intimamente ligadas a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e a degrada\u00e7\u00e3o humana e \u00e9tica. Muitos dir\u00e3o que n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia de realizar ac\u00e7\u00f5es imorais, porque a constante distrac\u00e7\u00e3o nos tira a coragem de advertir a realidade dum mundo limitado e finito. Por isso, hoje, \u00abqualquer realidade que seja fr\u00e1gil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta\u00bb.[33]<\/p>\n<p>57. \u00c9 previs\u00edvel que, perante o esgotamento de alguns recursos, se v\u00e1 criando um cen\u00e1rio favor\u00e1vel para novas guerras, disfar\u00e7adas sob nobres reivindica\u00e7\u00f5es. A guerra causa sempre danos graves ao meio ambiente e \u00e0 riqueza cultural dos povos, e os riscos avolumam-se quando se pensa na energia nuclear e nas armas biol\u00f3gicas. Com efeito, \u00abn\u00e3o obstante haver acordos internacionais que pro\u00edbem a guerra qu\u00edmica, bacteriol\u00f3gica e biol\u00f3gica, subsiste o facto de continuarem nos laborat\u00f3rios as pesquisas para o desenvolvimento de novas armas ofensivas, capazes de alterar os equil\u00edbrios naturais\u00bb.[34] Exige-se da pol\u00edtica uma maior aten\u00e7\u00e3o para prevenir e resolver as causas que podem dar origem a novos conflitos. Entretanto o poder, ligado com a finan\u00e7a, \u00e9 o que maior resist\u00eancia p\u00f5e a tal esfor\u00e7o, e os projectos pol\u00edticos carecem muitas vezes de amplitude de horizonte. Para que se quer preservar hoje um poder que ser\u00e1 recordado pela sua incapacidade de intervir quando era urgente e necess\u00e1rio faz\u00ea-lo?<\/p>\n<p>58. Nalguns pa\u00edses, h\u00e1 exemplos positivos de resultados na melhoria do ambiente, tais como o saneamento de alguns rios que foram polu\u00eddos durante muitas d\u00e9cadas, a recupera\u00e7\u00e3o de florestas nativas, o embelezamento de paisagens com obras de saneamento ambiental, projectos de edif\u00edcios de grande valor est\u00e9tico, progressos na produ\u00e7\u00e3o de energia limpa, na melhoria dos transportes p\u00fablicos. Estas ac\u00e7\u00f5es n\u00e3o resolvem os problemas globais, mas confirmam que o ser humano ainda \u00e9 capaz de intervir de forma positiva. Como foi criado para amar, no meio dos seus limites germinam inevitavelmente gestos de generosidade, solidariedade e desvelo.<\/p>\n<p>59. Ao mesmo tempo cresce uma ecologia superficial ou aparente que consolida um certo torpor e uma alegre irresponsabilidade. Como frequentemente acontece em \u00e9pocas de crises profundas, que exigem decis\u00f5es corajosas, somos tentados a pensar que aquilo que est\u00e1 a acontecer n\u00e3o \u00e9 verdade. Se nos detivermos na superf\u00edcie, para al\u00e9m de alguns sinais vis\u00edveis de polui\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o, parece que as coisas n\u00e3o estejam assim t\u00e3o graves e que o planeta poderia subsistir ainda por muito tempo nas condi\u00e7\u00f5es actuais. Este comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produ\u00e7\u00e3o e consumo. \u00c9 a forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os v\u00edcios autodestrutivos: tenta n\u00e3o os ver, luta para n\u00e3o os reconhecer, adia as decis\u00f5es importantes, age como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n<p><strong>7. Diversidade de opini\u00f5es<\/strong><br \/>60. Finalmente reconhecemos, a prop\u00f3sito da situa\u00e7\u00e3o e das poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es, que se desenvolveram diferentes perspectivas e linhas de pensamento. Num dos extremos, alguns defendem a todo o custo o mito do progresso, afirmando que os problemas ecol\u00f3gicos resolver-se-\u00e3o simplesmente com novas aplica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, sem considera\u00e7\u00f5es \u00e9ticas nem mudan\u00e7as de fundo. No extremo oposto, outros pensam que o ser humano, com qualquer uma das suas interven\u00e7\u00f5es, s\u00f3 pode amea\u00e7ar e comprometer o ecossistema mundial, pelo que conv\u00e9m reduzir a sua presen\u00e7a no planeta e impedir-lhe todo o tipo de interven\u00e7\u00e3o. Entre estes extremos, a reflex\u00e3o deveria identificar poss\u00edveis cen\u00e1rios futuros, porque n\u00e3o existe s\u00f3 um caminho de solu\u00e7\u00e3o. Isto deixaria espa\u00e7o para uma variedade de contribui\u00e7\u00f5es que poderiam entrar em di\u00e1logo a fim de se chegar a respostas abrangentes.<\/p>\n<p>61. Sobre muitas quest\u00f5es concretas, a Igreja n\u00e3o tem motivo para propor uma palavra definitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opini\u00f5es. Basta, por\u00e9m, olhar a realidade com sinceridade, para ver que h\u00e1 uma grande deteriora\u00e7\u00e3o da nossa casa comum. A esperan\u00e7a convida-nos a reconhecer que sempre h\u00e1 uma sa\u00edda, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas. Todavia parece notar-se sintomas dum ponto de ruptura, por causa da alta velocidade das mudan\u00e7as e da degrada\u00e7\u00e3o, que se manifestam tanto em cat\u00e1strofes naturais regionais como em crises sociais ou mesmo financeiras, uma vez que os problemas do mundo n\u00e3o se podem analisar nem explicar de forma isolada. H\u00e1 regi\u00f5es que j\u00e1 se encontram particularmente em risco e, prescindindo de qualquer previs\u00e3o catastr\u00f3fica, o certo \u00e9 que o actual sistema mundial \u00e9 insustent\u00e1vel a partir de v\u00e1rios pontos de vista, porque deixamos de pensar nas finalidades da ac\u00e7\u00e3o humana: \u00abSe o olhar percorre as regi\u00f5es do nosso planeta, apercebemo-nos depressa de que a humanidade frustrou a expectativa divina\u00bb.[35]<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAP\u00cdTULO II<\/strong><br \/><strong>O EVANGELHO DA CRIA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>62. Por que motivo incluir, neste documento dirigido a todas as pessoas de boa vontade, um cap\u00edtulo referido \u00e0s convic\u00e7\u00f5es de f\u00e9? N\u00e3o ignoro que alguns, no campo da pol\u00edtica e do pensamento, rejeitam decididamente a ideia de um Criador ou consideram-na irrelevante, chegando ao ponto de relegar para o reino do irracional a riqueza que as religi\u00f5es possam oferecer para uma ecologia integral e o pleno desenvolvimento do g\u00e9nero humano; outras vezes, sup\u00f5e-se que elas constituam uma subcultura, que se deve simplesmente tolerar. Todavia a ci\u00eancia e a religi\u00e3o, que fornecem diferentes abordagens da realidade, podem entrar num di\u00e1logo intenso e frutuoso para ambas.<\/p>\n<p><strong>1. A luz que a f\u00e9 oferece<\/strong><br \/>63. Se tivermos presente a complexidade da crise ecol\u00f3gica e as suas m\u00faltiplas causas, deveremos reconhecer que as solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem vir duma \u00fanica maneira de interpretar e transformar a realidade. \u00c9 necess\u00e1rio recorrer tamb\u00e9m \u00e0s diversas riquezas culturais dos povos, \u00e0 arte e \u00e0 poesia, \u00e0 vida interior e \u00e0 espiritualidade. Se quisermos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destru\u00eddo, ent\u00e3o nenhum ramo das ci\u00eancias e nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada, nem sequer a sabedoria religiosa com a sua linguagem pr\u00f3pria. Al\u00e9m disso, a Igreja Cat\u00f3lica est\u00e1 aberta ao di\u00e1logo com o pensamento filos\u00f3fico, o que lhe permite produzir v\u00e1rias s\u00ednteses entre f\u00e9 e raz\u00e3o. No que diz respeito \u00e0s quest\u00f5es sociais, pode-se constatar isto mesmo no desenvolvimento da doutrina social da Igreja, chamada a enriquecer-se cada vez mais a partir dos novos desafios.<\/p>\n<p>64. Por outro lado, embora esta enc\u00edclica se abra a um di\u00e1logo com todos para, juntos, buscarmos caminhos de liberta\u00e7\u00e3o, quero mostrar desde o in\u00edcio como as convic\u00e7\u00f5es da f\u00e9 oferecem aos crist\u00e3os \u2013 e, em parte, tamb\u00e9m a outros crentes \u2013 motiva\u00e7\u00f5es altas para cuidar da natureza e dos irm\u00e3os e irm\u00e3s mais fr\u00e1geis. Se pelo simples facto de ser humanas, as pessoas se sentem movidas a cuidar do ambiente de que fazem parte, \u00abos crist\u00e3os, em particular, advertem que a sua tarefa no seio da cria\u00e7\u00e3o e os seus deveres em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza e ao Criador fazem parte da sua f\u00e9\u00bb.[36] Por isso \u00e9 bom, para a humanidade e para o mundo, que n\u00f3s, crentes, conhe\u00e7amos melhor os compromissos ecol\u00f3gicos que brotam das nossas convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>2. A sabedoria das narra\u00e7\u00f5es b\u00edblicas<\/strong><br \/>65. Sem repropor aqui toda a teologia da Cria\u00e7\u00e3o, queremos saber o que nos dizem as grandes narra\u00e7\u00f5es b\u00edblicas sobre a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com o mundo. Na primeira narra\u00e7\u00e3o da obra criadora, no livro do G\u00e9nesis, o plano de Deus inclui a cria\u00e7\u00e3o da humanidade. Depois da cria\u00e7\u00e3o do homem e da mulher, diz-se que \u00abDeus, vendo a sua obra, considerou-a muito boa\u00bb (Gn 1, 31). A B\u00edblia ensina que cada ser humano \u00e9 criado por amor, feito \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus (cf. Gn 1, 26). Esta afirma\u00e7\u00e3o mostra-nos a imensa dignidade de cada pessoa humana, que \u00abn\u00e3o \u00e9 somente alguma coisa, mas algu\u00e9m. \u00c9 capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar em comunh\u00e3o com outras pessoas\u00bb.[37] S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II recordou que o amor muito especial que o Criador tem por cada ser humano \u00abconfere-lhe uma dignidade infinita\u00bb.[38] Todos aqueles que est\u00e3o empenhados na defesa da dignidade das pessoas podem encontrar, na f\u00e9 crist\u00e3, as raz\u00f5es mais profundas para tal compromisso. Como \u00e9 maravilhosa a certeza de que a vida de cada pessoa n\u00e3o se perde num caos desesperador, num mundo regido pelo puro acaso ou por ciclos que se repetem sem sentido! O Criador pode dizer a cada um de n\u00f3s: \u00abAntes de te haver formado no ventre materno, Eu j\u00e1 te conhecia\u00bb (Jr 1, 5). Fomos concebidos no cora\u00e7\u00e3o de Deus e, por isso, \u00abcada um de n\u00f3s \u00e9 o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de n\u00f3s \u00e9 querido, cada um de n\u00f3s \u00e9 amado, cada um \u00e9 necess\u00e1rio\u00bb.[39<\/p>\n<p>66. As narra\u00e7\u00f5es da cria\u00e7\u00e3o no livro do G\u00e9nesis cont\u00eam, na sua linguagem simb\u00f3lica e narrativa, ensinamentos profundos sobre a exist\u00eancia humana e a sua realidade hist\u00f3rica. Estas narra\u00e7\u00f5es sugerem que a exist\u00eancia humana se baseia sobre tr\u00eas rela\u00e7\u00f5es fundamentais intimamente ligadas: as rela\u00e7\u00f5es com Deus, com o pr\u00f3ximo e com a terra. Segundo a B\u00edblia, estas tr\u00eas rela\u00e7\u00f5es vitais romperam-se n\u00e3o s\u00f3 exteriormente, mas tamb\u00e9m dentro de n\u00f3s. Esta ruptura \u00e9 o pecado. A harmonia entre o Criador, a humanidade e toda a cria\u00e7\u00e3o foi destru\u00edda por termos pretendido ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas. Este facto distorceu tamb\u00e9m a natureza do mandato de \u00abdominar\u00bb a terra (cf. Gn 1, 28) e de a \u00abcultivar e guardar\u00bb (cf. Gn 2, 15). Como resultado, a rela\u00e7\u00e3o originariamente harmoniosa entre o ser humano e a natureza transformou-se num conflito (cf. Gn 3, 17-19). Por isso, \u00e9 significativo que a harmonia vivida por S\u00e3o Francisco de Assis com todas as criaturas tenha sido interpretada como uma sana\u00e7\u00e3o daquela ruptura. Dizia S\u00e3o Boaventura que, atrav\u00e9s da reconcilia\u00e7\u00e3o universal com todas as criaturas, Francisco voltara de alguma forma ao estado de inoc\u00eancia original.[40] Longe deste modelo, o pecado manifesta-se hoje, com toda a sua for\u00e7a de destrui\u00e7\u00e3o, nas guerras, nas v\u00e1rias formas de viol\u00eancia e abuso, no abandono dos mais fr\u00e1geis, nos ataques contra a natureza.<\/p>\n<p>67. N\u00e3o somos Deus. A terra existe antes de n\u00f3s e foi-nos dada. Isto permite responder a uma acusa\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada contra o pensamento judaico-crist\u00e3o: foi dito que a narra\u00e7\u00e3o do G\u00e9nesis, que convida a \u00abdominar\u00bb a terra (cf. Gn 1, 28), favoreceria a explora\u00e7\u00e3o selvagem da natureza, apresentando uma imagem do ser humano como dominador e devastador. Mas esta n\u00e3o \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o correcta da B\u00edblia, como a entende a Igreja. Se \u00e9 verdade que n\u00f3s, crist\u00e3os, algumas vezes interpret\u00e1mos de forma incorrecta as Escrituras, hoje devemos decididamente rejeitar que, do facto de ser criados \u00e0 imagem de Deus e do mandato de dominar a terra, se deduza um dom\u00ednio absoluto sobre as outras criaturas. \u00c9 importante ler os textos b\u00edblicos no seu contexto, com uma justa hermen\u00eautica, e lembrar que nos convidam a \u00abcultivar e guardar\u00bb o jardim do mundo (cf. Gn 2, 15). Enquanto \u00abcultivar\u00bb quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, \u00abguardar\u00bb significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isto implica uma rela\u00e7\u00e3o de reciprocidade respons\u00e1vel entre o ser humano e a natureza. Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobreviv\u00eancia, mas tem tamb\u00e9m o dever de a proteger e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gera\u00e7\u00f5es futuras. Em \u00faltima an\u00e1lise, \u00abao Senhor pertence a terra\u00bb (Sl 24\/23, 1), a Ele pertence \u00aba terra e tudo o que nela existe\u00bb (Dt 10, 14). Por isso, Deus pro\u00edbe-nos toda a pretens\u00e3o de posse absoluta: \u00abNenhuma terra ser\u00e1 vendida definitivamente, porque a terra pertence-Me, e v\u00f3s sois apenas estrangeiros e meus h\u00f3spedes\u00bb (Lv 25, 23).<\/p>\n<p>68. Esta responsabilidade perante uma terra que \u00e9 de Deus implica que o ser humano, dotado de intelig\u00eancia, respeite as leis da natureza e os delicados equil\u00edbrios entre os seres deste mundo, porque \u00abEle deu uma ordem e tudo foi criado; Ele fixou tudo pelos s\u00e9culos sem fim e estabeleceu leis a que n\u00e3o se pode fugir!\u00bb (Sl 148, 5b-6). Consequentemente, a legisla\u00e7\u00e3o b\u00edblica det\u00e9m-se a propor ao ser humano v\u00e1rias normas relativas n\u00e3o s\u00f3 \u00e0s outras pessoas, mas tamb\u00e9m aos restantes seres vivos: \u00abSe vires o jumento do teu irm\u00e3o ou o seu boi ca\u00eddos no caminho, n\u00e3o te desvies deles, mas ajuda-os a levantarem-se. (&#8230;) Se encontrares no caminho, em cima de uma \u00e1rvore ou no ch\u00e3o, um ninho de p\u00e1ssaros com filhotes, ou ovos cobertos pela m\u00e3e, n\u00e3o apanhar\u00e1s a m\u00e3e com a ninhada\u00bb (Dt 22, 4.6). Nesta linha, o descanso do s\u00e9timo dia n\u00e3o \u00e9 proposto s\u00f3 para o ser humano, mas \u00abpara que descansem o teu boi e o teu jumento\u00bb (Ex 23, 12). Assim nos damos conta de que a B\u00edblia n\u00e3o d\u00e1 lugar a um antropocentrismo desp\u00f3tico, que se desinteressa das outras criaturas.<\/p>\n<p>69. Ao mesmo tempo que podemos fazer um uso respons\u00e1vel das coisas, somos chamados a reconhecer que os outros seres vivos t\u00eam um valor pr\u00f3prio diante de Deus e, \u00abpelo simples facto de existirem, eles O bendizem e Lhe d\u00e3o gl\u00f3ria\u00bb[41], porque \u00abo Senhor Se alegra em suas obras\u00bb (Sl 104\/103, 31). Precisamente pela sua dignidade \u00fanica e por ser dotado de intelig\u00eancia, o ser humano \u00e9 chamado a respeitar a cria\u00e7\u00e3o com as suas leis internas, j\u00e1 que \u00abo Senhor fundou a terra com sabedoria\u00bb (Pr 3, 19). Hoje, a Igreja n\u00e3o diz, de forma simplicista, que as outras criaturas est\u00e3o totalmente subordinadas ao bem do ser humano, como se n\u00e3o tivessem um valor em si mesmas e fosse poss\u00edvel dispor delas \u00e0 nossa vontade; mas ensina \u2013 como fizeram os bispos da Alemanha \u2013 que, nas outras criaturas, \u00abse poderia falar da prioridade do ser sobre o ser \u00fateis\u00bb.[42] O Catecismo p\u00f5e em quest\u00e3o, de forma muito directa e insistente, um antropocentrismo desordenado: \u00abCada criatura possui a sua bondade e perfei\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias. (&#8230;) As diferentes criaturas, queridas pelo seu pr\u00f3prio ser, reflectem, cada qual a seu modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus. \u00c9 por isso que o homem deve respeitar a bondade pr\u00f3pria de cada criatura, para evitar o uso desordenado das coisas\u00bb.[43]<\/p>\n<p>70. Na narra\u00e7\u00e3o de Caim e Abel, vemos que a inveja levou Caim a cometer a injusti\u00e7a extrema contra o seu irm\u00e3o. Isto, por sua vez, provocou uma ruptura da rela\u00e7\u00e3o entre Caim e Deus e entre Caim e a terra, da qual foi exilado. Esta passagem aparece sintetizada no dram\u00e1tico col\u00f3quio de Deus com Caim. Deus pergunta: \u00abOnde est\u00e1 o teu irm\u00e3o Abel?\u00bb Caim responde que n\u00e3o sabe, e Deus insiste com ele: \u00abQue fizeste? A voz do sangue do teu irm\u00e3o clama da terra at\u00e9 Mim. De futuro, ser\u00e1s amaldi\u00e7oado pela terra (&#8230;). Ser\u00e1s vagabundo e fugitivo sobre a terra\u00bb (Gn 4, 9-12). O descuido no compromisso de cultivar e manter um correcto relacionamento com o pr\u00f3ximo, relativamente a quem sou devedor da minha solicitude e cust\u00f3dia, destr\u00f3i o relacionamento interior comigo mesmo, com os outros, com Deus e com a terra. Quando todas estas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o negligenciadas, quando a justi\u00e7a deixa de habitar na terra, a B\u00edblia diz-nos que toda a vida est\u00e1 em perigo. Assim no-lo ensina a narra\u00e7\u00e3o de No\u00e9, quando Deus amea\u00e7a acabar com a humanidade pela sua persistente incapacidade de viver \u00e0 altura das exig\u00eancias da justi\u00e7a e da paz: \u00abO fim de toda a humanidade chegou diante de Mim, pois ela encheu a terra de viol\u00eancia\u00bb (Gn 6, 13). Nestas narra\u00e7\u00f5es t\u00e3o antigas, ricas de profundo simbolismo, j\u00e1 estava contida a convic\u00e7\u00e3o actual de que tudo est\u00e1 inter-relacionado e o cuidado aut\u00eantico da nossa pr\u00f3pria vida e das nossas rela\u00e7\u00f5es com a natureza \u00e9 insepar\u00e1vel da fraternidade, da justi\u00e7a e da fidelidade aos outros.<\/p>\n<p>71. Embora Deus reconhecesse que \u00aba maldade dos homens era grande na terra\u00bb (Gn 6, 5), \u00abarrependendo-Se de ter criado o homem sobre a terra\u00bb (Gn 6, 6), Ele decidiu abrir um caminho de salva\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de No\u00e9, que ainda se mantinha \u00edntegro e justo. Assim deu \u00e0 humanidade a possibilidade de um novo in\u00edcio. Basta um homem bom para haver esperan\u00e7a! A tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica estabelece claramente que esta reabilita\u00e7\u00e3o implica a redescoberta e o respeito dos ritmos inscritos na natureza pela m\u00e3o do Criador. Isto est\u00e1 patente, por exemplo, na lei do Shabbath. No s\u00e9timo dia, Deus descansou de todas as suas obras. Deus ordenou a Israel que cada s\u00e9timo dia devia ser celebrado como um dia de descanso, um Shabbath (cf. Gn 2, 2-3; Ex 16, 23; 20, 10). Al\u00e9m disso, de sete em sete anos, instaurou-se tamb\u00e9m um ano sab\u00e1tico para Israel e a sua terra (cf. Lv 25, 1-4), durante o qual se dava descanso completo \u00e0 terra, n\u00e3o se semeava e s\u00f3 se colhia o indispens\u00e1vel para sobreviver e oferecer hospitalidade (cf. Lv 25, 4-6). Por fim, passadas sete semanas de anos, ou seja quarenta e nove anos, celebrava-se o jubileu, um ano de perd\u00e3o universal, \u00abproclamando na vossa terra a liberdade de todos os que a habitam\u00bb (Lv 25, 10). O desenvolvimento desta legisla\u00e7\u00e3o procurou assegurar o equil\u00edbrio e a equidade nas rela\u00e7\u00f5es do ser humano com os outros e com a terra onde vivia e trabalhava. Mas, ao mesmo tempo, era um reconhecimento de que a d\u00e1diva da terra com os seus frutos pertence a todo o povo. Aqueles que cultivavam e guardavam o territ\u00f3rio deviam partilhar os seus frutos, especialmente com os pobres, as vi\u00favas, os \u00f3rf\u00e3os e os estrangeiros: \u00abQuando procederes \u00e0 ceifa das vossas terras, n\u00e3o ceifar\u00e1s as espigas at\u00e9 \u00e0 extremidade do campo, e n\u00e3o apanhar\u00e1s as espigas ca\u00eddas. N\u00e3o rebuscar\u00e1s tamb\u00e9m a tua vinha, e n\u00e3o apanhar\u00e1s os bagos ca\u00eddos. Deix\u00e1-los-\u00e1s para o pobre e para o estrangeiro\u00bb (Lv 19, 9-10).<\/p>\n<p>72. Os Salmos convidam, frequentemente, o ser humano a louvar a Deus criador: \u00abEstendeu a terra sobre as \u00e1guas, porque o seu amor \u00e9 eterno\u00bb (Sl 136\/135, 6). E convidam tamb\u00e9m as outras criaturas a louv\u00e1-Lo: \u00abLouvai-O, sol e lua; louvai-O, estrelas luminosas! Louvai-O, alturas dos c\u00e9us e \u00e1guas que estais acima dos c\u00e9us! Louvem todos o nome do Senhor, porque Ele deu uma ordem e tudo foi criado\u00bb (Sl 148, 3-5). Existimos n\u00e3o s\u00f3 pelo poder de Deus, mas tamb\u00e9m na sua presen\u00e7a e companhia. Por isso O adoramos.<\/p>\n<p>73. Os escritos dos profetas convidam a recuperar for\u00e7as, nos momentos dif\u00edceis, contemplando a Deus poderoso que criou o universo. O poder infinito de Deus n\u00e3o nos leva a escapar da sua ternura paterna, porque n&#8217;Ele se conjugam o carinho e a for\u00e7a. Na verdade, toda a s\u00e3 espiritualidade implica simultaneamente acolher o amor divino e adorar, com confian\u00e7a, o Senhor pelo seu poder infinito. Na B\u00edblia, o Deus que liberta e salva \u00e9 o mesmo que criou o universo, e estes dois modos de agir divino est\u00e3o \u00edntima e inseparavelmente ligados: \u00abAh! Senhor Deus, foste Tu que fizeste o c\u00e9u e a terra com o teu grande poder e o teu bra\u00e7o estendido! Para Ti, nada \u00e9 imposs\u00edvel! (&#8230;) Tu fizeste sair do Egipto o teu povo, Israel, com prod\u00edgios e milagres\u00bb (Jr 32, 17.21). \u00abO Senhor \u00e9 um Deus eterno, que criou os confins da terra. N\u00e3o se cansa nem perde as for\u00e7as. \u00c9 insond\u00e1vel a sua sabedoria. Ele d\u00e1 for\u00e7as ao cansado e enche de vigor o fraco\u00bb (Is 40, 28b-29).<\/p>\n<p>74. A experi\u00eancia do cativeiro em Babil\u00f3nia gerou uma crise espiritual que levou a um aprofundamento da f\u00e9 em Deus, explicitando a sua omnipot\u00eancia criadora, para animar o povo a recuperar a esperan\u00e7a no meio da sua situa\u00e7\u00e3o infeliz. S\u00e9culos mais tarde, noutro momento de prova e persegui\u00e7\u00e3o, quando o Imp\u00e9rio Romano procurou impor um dom\u00ednio absoluto, os fi\u00e9is voltaram a encontrar consola\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a aumentando a sua confian\u00e7a em Deus omnipotente, e cantavam: \u00abGrandes e admir\u00e1veis s\u00e3o as tuas obras, Senhor Deus todo-poderoso! Justos e verdadeiros s\u00e3o os teus caminhos!\u00bb (Ap 15, 3). Se Deus p\u00f4de criar o universo a partir do nada, tamb\u00e9m pode intervir neste mundo e vencer qualquer forma de mal. Por isso, a injusti\u00e7a n\u00e3o \u00e9 invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>75. N\u00e3o podemos defender uma espiritualidade que esque\u00e7a Deus todo-poderoso e criador. Neste caso, acabar\u00edamos por adorar outros poderes do mundo, ou colocar-nos-\u00edamos no lugar do Senhor chegando \u00e0 pretens\u00e3o de espezinhar sem limites a realidade criada por Ele. A melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretens\u00e3o de ser dominador absoluto da terra, \u00e9 voltar a propor a figura de um Pai criador e \u00fanico dono do mundo; caso contr\u00e1rio, o ser humano tender\u00e1 sempre a querer impor \u00e0 realidade as suas pr\u00f3prias leis e interesses.<\/p>\n<p><strong>3. O mist\u00e9rio do universo<\/strong><br \/>76. Na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, dizer \u00abcria\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e9 mais do que dizer natureza, porque tem a ver com um projecto do amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e um significado. A natureza entende-se habitualmente como um sistema que se analisa, compreende e gere, mas a cria\u00e7\u00e3o s\u00f3 se pode conceber como um dom que vem das m\u00e3os abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunh\u00e3o universal.<\/p>\n<p>77. \u00abA palavra do Senhor criou os c\u00e9us\u00bb (Sl 33\/32, 6). Deste modo indica-se que o mundo procede, n\u00e3o do caos nem do acaso, mas duma decis\u00e3o, o que o exalta ainda mais. H\u00e1 uma op\u00e7\u00e3o livre, expressa na palavra criadora. O universo n\u00e3o apareceu como resultado duma omnipot\u00eancia arbitr\u00e1ria, duma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a ou dum desejo de auto-afirma\u00e7\u00e3o. A cria\u00e7\u00e3o pertence \u00e0 ordem do amor. O amor de Deus \u00e9 a raz\u00e3o fundamental de toda a cria\u00e7\u00e3o: \u00abTu amas tudo quanto existe e n\u00e3o detestas nada do que fizeste; pois, se odiasses alguma coisa, n\u00e3o a terias criado\u00bb (Sab 11, 24). Ent\u00e3o cada criatura \u00e9 objecto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo. At\u00e9 a vida ef\u00e9mera do ser mais insignificante \u00e9 objecto do seu amor e, naqueles poucos segundos de exist\u00eancia, Ele envolve-o com o seu carinho. Dizia S\u00e3o Bas\u00edlio Magno que o Criador \u00e9 tamb\u00e9m \u00aba bondade sem c\u00e1lculos\u00bb,[44] e Dante Alighieri falava do \u00abamor que move o sol e as outras estrelas\u00bb.[45] Por isso, das obras criadas pode-se subir \u00ab\u00e0 sua amorosa miseric\u00f3rdia\u00bb.[46]<\/p>\n<p>78. Ao mesmo tempo, o pensamento judaico-crist\u00e3o desmitificou a natureza. Sem deixar de a admirar pelo seu esplendor e imensid\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o lhe atribui um car\u00e1cter divino. Deste modo, ressalta ainda mais o nosso compromisso para com ela. Um regresso \u00e0 natureza n\u00e3o pode ser feito \u00e0 custa da liberdade e da responsabilidade do ser humano, que \u00e9 parte do mundo com o dever de cultivar as pr\u00f3prias capacidades para o proteger e desenvolver as suas potencialidades. Se reconhecermos o valor e a fragilidade da natureza e, ao mesmo tempo, as capacidades que o Criador nos deu, isto permite-nos acabar hoje com o mito moderno do progresso material ilimitado. Um mundo fr\u00e1gil, com um ser humano a quem Deus confia o cuidado do mesmo, interpela a nossa intelig\u00eancia para reconhecer como deveremos orientar, cultivar e limitar o nosso poder.<\/p>\n<p>79. Neste universo, composto por sistemas abertos que entram em comunica\u00e7\u00e3o uns com os outros, podemos descobrir inumer\u00e1veis formas de rela\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o. Isto leva-nos tamb\u00e9m a pensar o todo como aberto \u00e0 transcend\u00eancia de Deus, dentro da qual se desenvolve. A f\u00e9 permite-nos interpretar o significado e a beleza misteriosa do que acontece. A liberdade humana pode prestar a sua contribui\u00e7\u00e3o inteligente para uma evolu\u00e7\u00e3o positiva, como pode tamb\u00e9m acrescentar novos males, novas causas de sofrimento e verdadeiros atrasos. Isto d\u00e1 lugar \u00e0 apaixonante e dram\u00e1tica hist\u00f3ria humana, capaz de transformar-se num desabrochamento de liberta\u00e7\u00e3o, engrandecimento, salva\u00e7\u00e3o e amor, ou, pelo contr\u00e1rio, num percurso de decl\u00ednio e m\u00fatua destrui\u00e7\u00e3o. Por isso a Igreja, com a sua ac\u00e7\u00e3o, procura n\u00e3o s\u00f3 lembrar o dever de cuidar da natureza, mas tamb\u00e9m e \u00absobretudo proteger o homem da destrui\u00e7\u00e3o de si mesmo\u00bb.[47]<\/p>\n<p>80. Apesar disso, Deus, que deseja actuar connosco e contar com a nossa coopera\u00e7\u00e3o, \u00e9 capaz tamb\u00e9m de tirar algo de bom dos males que praticamos, porque \u00abo Esp\u00edrito Santo possui uma inventiva infinita, pr\u00f3pria da mente divina, que sabe prover a desfazer os n\u00f3s das vicissitudes humanas mais complexas e impenetr\u00e1veis\u00bb.[48] De certa maneira, quis limitar-Se a Si mesmo, criando um mundo necessitado de desenvolvimento, onde muitas coisas que consideramos males, perigos ou fontes de sofrimento, na realidade fazem parte das dores de parto que nos estimulam a colaborar com o Criador.[49] Ele est\u00e1 presente no mais \u00edntimo de cada coisa sem condicionar a autonomia da sua criatura, e isto d\u00e1 lugar tamb\u00e9m \u00e0 leg\u00edtima autonomia das realidades terrenas.[50]Esta presen\u00e7a divina, que garante a perman\u00eancia e o desenvolvimento de cada ser, \u00ab\u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o criadora\u00bb.[51] O Esp\u00edrito de Deus encheu o universo de potencialidades que permitem que, do pr\u00f3prio seio das coisas, possa brotar sempre algo de novo: \u00abA natureza nada mais \u00e9 do que a raz\u00e3o de certa arte \u2013 concretamente a arte divina \u2013 inscrita nas coisas, pela qual as pr\u00f3prias coisas se movem para um fim determinado. Como se o mestre construtor de navios pudesse conceder \u00e0 madeira a possibilidade de se mover a si mesma para tomar a forma da nave\u00bb.[52]<\/p>\n<p>81. Embora suponha tamb\u00e9m processos evolutivos, o ser humano implica uma novidade que n\u00e3o se explica cabalmente pela evolu\u00e7\u00e3o doutros sistemas abertos. Cada um de n\u00f3s tem em si uma identidade pessoal, capaz de entrar em di\u00e1logo com os outros e com o pr\u00f3prio Deus. A capacidade de reflex\u00e3o, o racioc\u00ednio, a criatividade, a interpreta\u00e7\u00e3o, a elabora\u00e7\u00e3o art\u00edstica e outras capacidades originais manifestam uma singularidade que transcende o \u00e2mbito f\u00edsico e biol\u00f3gico. A novidade qualitativa, implicada no aparecimento dum ser pessoal dentro do universo material, pressup\u00f5e uma ac\u00e7\u00e3o directa de Deus, uma chamada peculiar \u00e0 vida e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de um Tu com outro tu. A partir dos textos b\u00edblicos, consideramos o ser humano como sujeito, que nunca pode ser reduzido \u00e0 categoria de objecto.<\/p>\n<p>82. Mas seria errado tamb\u00e9m pensar que os outros seres vivos devam ser considerados como meros objectos submetidos ao dom\u00ednio arbitr\u00e1rio do ser humano. Quando se prop\u00f5e uma vis\u00e3o da natureza unicamente como objecto de lucro e interesse, isso comporta graves consequ\u00eancias tamb\u00e9m para a sociedade. A vis\u00e3o que consolida o arb\u00edtrio do mais forte favoreceu imensas desigualdades, injusti\u00e7as e viol\u00eancias para a maior parte da humanidade, porque os recursos tornam-se propriedade do primeiro que chega ou de quem tem mais poder: o vencedor leva tudo. O ideal de harmonia, justi\u00e7a, fraternidade e paz que Jesus prop\u00f5e situa-se nos ant\u00edpodas de tal modelo, como Ele mesmo Se expressou ao compar\u00e1-lo com os poderes do seu tempo: \u00abSabeis que os chefes das na\u00e7\u00f5es as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. N\u00e3o seja assim entre v\u00f3s. Pelo contr\u00e1rio, quem entre v\u00f3s quiser fazer-se grande, seja o vosso servo\u00bb (Mt 20, 25-26).<br \/>83. A meta do caminho do universo situa-se na plenitude de Deus, que j\u00e1 foi alcan\u00e7ada por Cristo ressuscitado, fulcro da matura\u00e7\u00e3o universal.[53] E assim juntamos mais um argumento para rejeitar todo e qualquer dom\u00ednio desp\u00f3tico e irrespons\u00e1vel do ser humano sobre as outras criaturas. O fim \u00faltimo das restantes criaturas n\u00e3o somos n\u00f3s. Mas todas avan\u00e7am, juntamente connosco e atrav\u00e9s de n\u00f3s, para a meta comum, que \u00e9 Deus, numa plenitude transcendente onde Cristo ressuscitado tudo abra\u00e7a e ilumina. Com efeito, o ser humano, dotado de intelig\u00eancia e amor e atra\u00eddo pela plenitude de Cristo, \u00e9 chamado a reconduzir todas as criaturas ao seu Criador.<\/p>\n<p><strong>4. A mensagem de cada criatura na harmonia de toda a cria\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>84. O facto de insistir na afirma\u00e7\u00e3o de que o ser humano \u00e9 imagem de Deus n\u00e3o deveria fazer-nos esquecer que cada criatura tem uma fun\u00e7\u00e3o e nenhuma \u00e9 sup\u00e9rflua. Todo o universo material \u00e9 uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por n\u00f3s. O solo, a \u00e1gua, as montanhas: tudo \u00e9 car\u00edcia de Deus. A hist\u00f3ria da pr\u00f3pria amizade com Deus desenrola-se sempre num espa\u00e7o geogr\u00e1fico que se torna um sinal muito pessoal, e cada um de n\u00f3s guarda na mem\u00f3ria lugares cuja lembran\u00e7a nos faz muito bem. Quem cresceu no meio de montes, quem na inf\u00e2ncia se sentava junto do riacho a beber, ou quem jogava numa pra\u00e7a do seu bairro, quando volta a esses lugares sente-se chamado a recuperar a sua pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>85. Deus escreveu um livro estupendo, \u00abcujas letras s\u00e3o representadas pela multid\u00e3o de criaturas presentes no universo\u00bb.[54] E justamente afirmaram os bispos do Canad\u00e1 que nenhuma criatura fica fora desta manifesta\u00e7\u00e3o de Deus: \u00abDesde os panoramas mais amplos \u00e0s formas de vida mais fr\u00e1geis, a natureza \u00e9 um manancial incessante de encanto e rever\u00eancia. Trata-se duma cont\u00ednua revela\u00e7\u00e3o do divino\u00bb.[55]Os bispos do Jap\u00e3o, por sua vez, disseram algo muito sugestivo: \u00abSentir cada criatura que canta o hino da sua exist\u00eancia \u00e9 viver jubilosamente no amor de Deus e na esperan\u00e7a\u00bb.[56] Esta contempla\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o permite-nos descobrir qualquer ensinamento que Deus nos quer transmitir atrav\u00e9s de cada coisa, porque, \u00abpara o crente, contemplar a cria\u00e7\u00e3o significa tamb\u00e9m escutar uma mensagem, ouvir uma voz paradoxal e silenciosa\u00bb.[57] Podemos afirmar que, \u00abao lado da revela\u00e7\u00e3o propriamente dita, contida nas Sagradas Escrituras, h\u00e1 uma manifesta\u00e7\u00e3o divina no despontar do sol e no cair da noite\u00bb.[58] Prestando aten\u00e7\u00e3o a esta manifesta\u00e7\u00e3o, o ser humano aprende a reconhecer-se a si mesmo na rela\u00e7\u00e3o com as outras criaturas: \u00abEu expresso-me exprimindo o mundo; exploro a minha sacralidade decifrando a do mundo\u00bb.[59]<\/p>\n<p>86. O conjunto do universo, com as suas m\u00faltiplas rela\u00e7\u00f5es, mostra melhor a riqueza inesgot\u00e1vel de Deus. S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino sublinhava, sabiamente, que a multiplicidade e a variedade \u00abprov\u00eam da inten\u00e7\u00e3o do primeiro agente\u00bb, o Qual quis que \u00abo que falta a cada coisa, para representar a bondade divina, seja suprido pelas outras\u00bb,[60] pois a sua bondade \u00abn\u00e3o pode ser convenientemente representada por uma s\u00f3 criatura\u00bb.[61] Por isso, precisamos de individuar a variedade das coisas nas suas m\u00faltiplas rela\u00e7\u00f5es.[62] Assim, compreende-se melhor a import\u00e2ncia e o significado de qualquer criatura, se a contemplarmos no conjunto do plano de Deus. Tal \u00e9 o ensinamento do Catecismo: \u00abA interdepend\u00eancia das criaturas \u00e9 querida por Deus. O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a \u00e1guia e o pardal: o espect\u00e1culo das suas incont\u00e1veis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas s\u00f3 existem na depend\u00eancia umas das outras, para se completarem mutuamente no servi\u00e7o umas das outras\u00bb.[63]<\/p>\n<p>87. Quando nos damos conta do reflexo de Deus em tudo o que existe, o cora\u00e7\u00e3o experimenta o desejo de adorar o Senhor por todas as suas criaturas e juntamente com elas, como se v\u00ea neste gracioso c\u00e2ntico de S\u00e3o Francisco de Assis:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 30px;\"><strong>\u00abLouvado sejas, meu Senhor,<\/strong><br \/><strong>com todas as tuas criaturas,<\/strong><br \/><strong>especialmente o meu senhor irm\u00e3o sol,<\/strong><br \/><strong>o qual faz o dia e por ele nos alumia.<\/strong><br \/><strong>E ele \u00e9 belo e radiante com grande esplendor:<\/strong><br \/><strong>de Ti, Alt\u00edssimo, nos d\u00e1 ele a imagem.<\/strong><br \/><strong>Louvado sejas, meu Senhor,<\/strong><br \/><strong>pela irm\u00e3 lua e pelas estrelas,<\/strong><br \/><strong>que no c\u00e9u formaste claras, preciosas e belas.<\/strong><br \/><strong>Louvado sejas, meu Senhor, pelo irm\u00e3o vento<\/strong><br \/><strong>pelo ar, pela nuvem, pelo sereno, e todo o tempo,<\/strong><br \/><strong>com o qual, \u00e0s tuas criaturas, d\u00e1s o sustento.<\/strong><br \/><strong>Louvado sejas, meu Senhor, pela irm\u00e3 \u00e1gua,<\/strong><br \/><strong>que \u00e9 t\u00e3o \u00fatil e humilde, e preciosa e casta.<\/strong><br \/><strong>Louvado sejas, meu Senhor, pelo irm\u00e3o fogo,<\/strong><br \/><strong>pelo qual iluminas a noite:<\/strong><br \/><strong>ele \u00e9 belo e alegre, vigoroso e forte\u00bb.<\/strong>[64]<\/p>\n<p>88. Os bispos do Brasil sublinharam que toda a natureza, al\u00e9m de manifestar Deus, \u00e9 lugar da sua presen\u00e7a. Em cada criatura, habita o seu Esp\u00edrito vivificante, que nos chama a um relacionamento com Ele.[65] A descoberta desta presen\u00e7a estimula em n\u00f3s o desenvolvimento das \u00abvirtudes ecol\u00f3gicas\u00bb.[66] Mas, quando dizemos isto, n\u00e3o esque\u00e7amos que h\u00e1 tamb\u00e9m uma dist\u00e2ncia infinita, pois as coisas deste mundo n\u00e3o possuem a plenitude de Deus. Esquec\u00ea-lo, ali\u00e1s, tamb\u00e9m n\u00e3o faria bem \u00e0s criaturas, porque n\u00e3o reconhecer\u00edamos o seu lugar verdadeiro e pr\u00f3prio, acabando por lhes exigir indevidamente aquilo que, na sua pequenez, n\u00e3o nos podem dar.<\/p>\n<p><strong>5. Uma comunh\u00e3o universal<\/strong><br \/>89. As criaturas deste mundo n\u00e3o podem ser consideradas um bem sem dono: \u00abTodas s\u00e3o tuas, \u00f3 Senhor, que amas a vida\u00bb (Sab 11, 26). Isto gera a convic\u00e7\u00e3o de que n\u00f3s e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por la\u00e7os invis\u00edveis e formamos uma esp\u00e9cie de fam\u00edlia universal, uma comunh\u00e3o sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde. Quero lembrar que \u00abDeus uniu-nos t\u00e3o estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertifica\u00e7\u00e3o do solo \u00e9 como uma doen\u00e7a para cada um, e podemos lamentar a extin\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie como se fosse uma mutila\u00e7\u00e3o\u00bb.[67]<\/p>\n<p>90. Isto n\u00e3o significa igualar todos os seres vivos e tirar ao ser humano aquele seu valor peculiar que, simultaneamente, implica uma tremenda responsabilidade. Tamb\u00e9m n\u00e3o requer uma diviniza\u00e7\u00e3o da terra, que nos privaria da nossa voca\u00e7\u00e3o de colaborar com ela e proteger a sua fragilidade. Estas concep\u00e7\u00f5es acabariam por criar novos desequil\u00edbrios, na tentativa de fugir da realidade que nos interpela.[68] \u00c0s vezes nota-se a obsess\u00e3o de negar qualquer preemin\u00eancia \u00e0 pessoa humana, conduzindo-se uma luta em prol das outras esp\u00e9cies que n\u00e3o se v\u00ea na hora de defender igual dignidade entre os seres humanos. Devemos, certamente, ter a preocupa\u00e7\u00e3o de que os outros seres vivos n\u00e3o sejam tratados de forma irrespons\u00e1vel, mas deveriam indignar-nos sobretudo as enormes desigualdades que existem entre n\u00f3s, porque continuamos a tolerar que alguns se considerem mais dignos do que outros. Deixamos de notar que alguns se arrastam numa mis\u00e9ria degradante, sem possibilidades reais de melhoria, enquanto outros n\u00e3o sabem sequer que fazer ao que t\u00eam, ostentam vaidosamente uma suposta superioridade e deixam atr\u00e1s de si um n\u00edvel de desperd\u00edcio tal que seria imposs\u00edvel generalizar sem destruir o planeta. Na pr\u00e1tica, continuamos a admitir que alguns se sintam mais humanos que outros, como se tivessem nascido com maiores direitos.<\/p>\n<p>91. N\u00e3o pode ser aut\u00eantico um sentimento de uni\u00e3o \u00edntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo n\u00e3o houver no cora\u00e7\u00e3o ternura, compaix\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o pelos seres humanos. \u00c9 evidente a incoer\u00eancia de quem luta contra o tr\u00e1fico de animais em risco de extin\u00e7\u00e3o, mas fica completamente indiferente perante o tr\u00e1fico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano de que n\u00e3o gosta. Isto compromete o sentido da luta pelo meio ambiente. N\u00e3o \u00e9 por acaso que S\u00e3o Francisco, no c\u00e2ntico onde louva a Deus pelas criaturas, acrescenta o seguinte: \u00abLouvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor\u00bb. Tudo est\u00e1 interligado. Por isso, exige-se uma preocupa\u00e7\u00e3o pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um compromisso constante com os problemas da sociedade.<\/p>\n<p>92. Al\u00e9m disso, quando o cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 verdadeiramente aberto a uma comunh\u00e3o universal, nada e ningu\u00e9m fica exclu\u00eddo desta fraternidade. Portanto, \u00e9 verdade tamb\u00e9m que a indiferen\u00e7a ou a crueldade com as outras criaturas deste mundo sempre acabam de alguma forma por repercutir-se no tratamento que reservamos aos outros seres humanos. O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 um s\u00f3, e a pr\u00f3pria mis\u00e9ria que leva a maltratar um animal n\u00e3o tarda a manifestar-se na rela\u00e7\u00e3o com as outras pessoas. Todo o encarni\u00e7amento contra qualquer criatura \u00ab\u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 dignidade humana\u00bb.[69] N\u00e3o podemos considerar-nos grandes amantes da realidade, se exclu\u00edmos dos nossos interesses alguma parte dela: \u00abPaz, justi\u00e7a e conserva\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas quest\u00f5es absolutamente ligadas, que n\u00e3o se poder\u00e3o separar, tratando-as individualmente sob pena de cair novamente no reducionismo\u00bb.[70] Tudo est\u00e1 relacionado, e todos n\u00f3s, seres humanos, caminhamos juntos como irm\u00e3os e irm\u00e3s numa peregrina\u00e7\u00e3o maravilhosa, entrela\u00e7ados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une tamb\u00e9m, com terna afei\u00e7\u00e3o, ao irm\u00e3o sol, \u00e0 irm\u00e3 lua, ao irm\u00e3o rio e \u00e0 m\u00e3e terra.<\/p>\n<p><strong>6. O destino comum dos bens<\/strong><br \/>93. Hoje, crentes e n\u00e3o-crentes est\u00e3o de acordo que a terra \u00e9, essencialmente, uma heran\u00e7a comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. Para os crentes, isto torna-se uma quest\u00e3o de fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos. Por conseguinte, toda a abordagem ecol\u00f3gica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos. O princ\u00edpio da subordina\u00e7\u00e3o da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso \u00e9 uma \u00abregra de ouro\u00bb do comportamento social e o \u00abprimeiro princ\u00edpio de toda a ordem \u00e9tico-social\u00bb.[71] A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 nunca reconheceu como absoluto ou intoc\u00e1vel o direito \u00e0 propriedade privada, e salientou a fun\u00e7\u00e3o social de qualquer forma de propriedade privada. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II lembrou esta doutrina, com grande \u00eanfase, dizendo que \u00abDeus deu a terra a todo o g\u00e9nero humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ningu\u00e9m\u00bb.[72]S\u00e3o palavras densas e fortes. Insistiu que \u00abn\u00e3o seria verdadeiramente digno do homem, um tipo de desenvolvimento que n\u00e3o respeitasse e promovesse os direitos humanos, pessoais e sociais, econ\u00f3micos e pol\u00edticos, incluindo os direitos das na\u00e7\u00f5es e dos povos\u00bb.[73]Com grande clareza, explicou que \u00aba Igreja defende, sim, o leg\u00edtimo direito \u00e0 propriedade privada, mas ensina, com n\u00e3o menor clareza, que sobre toda a propriedade particular pesa sempre uma hipoteca social, para que os bens sirvam ao destino geral que Deus lhes deu\u00bb.[74] Por isso, afirma que \u00abn\u00e3o \u00e9 segundo o des\u00edgnio de Deus gerir este dom de modo tal que os seus benef\u00edcios aproveitem s\u00f3 a alguns poucos\u00bb.[75] Isto p\u00f5e seriamente em discuss\u00e3o os h\u00e1bitos injustos duma parte da humanidade.[76]<\/p>\n<p>94. O rico e o pobre t\u00eam igual dignidade, porque \u00abquem os fez a ambos foi o Senhor\u00bb (Pr 22, 2); \u00abEle criou o pequeno e o grande\u00bb (Sab 6, 7) e \u00abfaz com que o sol se levante sobre os bons e os maus\u00bb (Mt 5, 45). Isto tem consequ\u00eancias pr\u00e1ticas, como explicitaram os bispos do Paraguai: \u00abCada campon\u00eas tem direito natural de possuir um lote razo\u00e1vel de terra, onde possa estabelecer o seu lar, trabalhar para a subsist\u00eancia da sua fam\u00edlia e gozar de seguran\u00e7a existencial. Este direito deve ser de tal forma garantido, que o seu exerc\u00edcio n\u00e3o seja ilus\u00f3rio mas real. Isto significa que, al\u00e9m do t\u00edtulo de propriedade, o campon\u00eas deve contar com meios de forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, empr\u00e9stimos, seguros e acesso ao mercado\u00bb.[77]<br \/>95. O meio ambiente \u00e9 um bem colectivo, patrim\u00f3nio de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte \u00e9 apenas para a administrar em benef\u00edcio de todos. Se n\u00e3o o fizermos, carregamos na consci\u00eancia o peso de negar a exist\u00eancia aos outros. Por isso, os bispos da Nova Zel\u00e2ndia perguntavam-se que significado possa ter o mandamento \u00abn\u00e3o matar\u00e1s\u00bb, quando \u00abuns vinte por cento da popula\u00e7\u00e3o mundial consomem recursos numa medida tal que roubam \u00e0s na\u00e7\u00f5es pobres, e \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras, aquilo de que necessitam para sobreviver\u00bb.[78]<\/p>\n<p><strong>7. O olhar de Jesus<\/strong><br \/>96. Jesus retoma a f\u00e9 b\u00edblica no Deus criador e destaca um dado fundamental: Deus \u00e9 Pai (cf. Mt 11, 25). Em col\u00f3quio com os seus disc\u00edpulos, Jesus convidava-os a reconhecer a rela\u00e7\u00e3o paterna que Deus tem com todas as criaturas e recordava-lhes, com comovente ternura, como cada uma delas era importante aos olhos d&#8217;Ele: \u00abN\u00e3o se vendem cinco p\u00e1ssaros por duas pequeninas moedas? Contudo, nenhum deles passa despercebido diante de Deus\u00bb (Lc 12, 6). \u00abOlhai as aves do c\u00e9u: n\u00e3o semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as\u00bb (Mt 6, 26).<\/p>\n<p>97. O Senhor podia convidar os outros a estar atentos \u00e0 beleza que existe no mundo, porque Ele pr\u00f3prio vivia em contacto permanente com a natureza e prestava-lhe uma aten\u00e7\u00e3o cheia de carinho e admira\u00e7\u00e3o. Quando percorria os quatro cantos da sua terra, detinha-Se a contemplar a beleza semeada por seu Pai e convidava os disc\u00edpulos a individuarem, nas coisas, uma mensagem divina: \u00abLevantai os olhos e vede os campos que est\u00e3o doirados para a ceifa\u00bb (Jo 4, 35). \u00abO Reino dos C\u00e9us \u00e9 semelhante a um gr\u00e3o de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. \u00c9 a menor de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa \u00e1rvore\u00bb (Mt 13, 31-32).<br \/>98. Jesus vivia em plena harmonia com a cria\u00e7\u00e3o, com grande maravilha dos outros: \u00abQuem \u00e9 este, a quem at\u00e9 o vento e o mar obedecem?\u00bb (Mt 8, 27). N\u00e3o Se apresentava como um asceta separado do mundo ou inimigo das coisas apraz\u00edveis da vida. Falando de Si mesmo, declarou: \u00abVeio o Filho do Homem que come e bebe, e dizem: &#8220;A\u00ed est\u00e1 um glut\u00e3o e bebedor de vinho&#8221;\u00bb (Mt11, 19). Encontrava-Se longe das filosofias que desprezavam o corpo, a mat\u00e9ria e as realidades deste mundo. Todavia, ao longo da hist\u00f3ria, estes dualismos combalidos tiveram not\u00e1vel influ\u00eancia nalguns pensadores crist\u00e3os e desfiguraram o Evangelho. Jesus trabalhava com suas m\u00e3os, entrando diariamente em contacto com mat\u00e9ria criada por Deus para a moldar com a sua capacidade de artes\u00e3o. \u00c9 digno de nota que a maior parte da sua exist\u00eancia terrena tenha sido consagrada a esta tarefa, levando uma vida simples que n\u00e3o despertava maravilha alguma: \u00abN\u00e3o \u00e9 Ele o carpinteiro, o filho de Maria?\u00bb (Mc 6, 3). Assim santificou o trabalho, atribuindo-lhe um valor peculiar para o nosso amadurecimento. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II ensinava que, \u00absuportando o que h\u00e1 de penoso no trabalho em uni\u00e3o com Cristo crucificado por n\u00f3s, o homem colabora, de alguma forma, com o Filho de Deus na reden\u00e7\u00e3o da humanidade\u00bb.[79]<\/p>\n<p>99. Segundo a compreens\u00e3o crist\u00e3 da realidade, o destino da cria\u00e7\u00e3o inteira passa pelo mist\u00e9rio de Cristo, que nela est\u00e1 presente desde a origem: \u00abTodas as coisas foram criadas por Ele e para Ele\u00bb (Cl 1, 16).[80] O pr\u00f3logo do Evangelho de Jo\u00e3o (1, 1-18) mostra a actividade criadora de Cristo como Palavra divina (Logos). Mas o mesmo pr\u00f3logo surpreende ao afirmar que esta Palavra \u00abSe fez carne\u00bb (Jo 1, 14). Uma Pessoa da Sant\u00edssima Trindade inseriu-Se no universo criado, partilhando a pr\u00f3pria sorte com ele at\u00e9 \u00e0 cruz. Desde o in\u00edcio do mundo, mas de modo peculiar a partir da encarna\u00e7\u00e3o, o mist\u00e9rio de Cristo opera veladamente no conjunto da realidade natural, sem com isso afectar a sua autonomia.<\/p>\n<p>100. O Novo Testamento n\u00e3o nos fala s\u00f3 de Jesus terreno e da sua rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o concreta e amorosa com o mundo; mostra-no-Lo tamb\u00e9m como ressuscitado e glorioso, presente em toda a cria\u00e7\u00e3o com o seu dom\u00ednio universal. \u00abFoi n&#8217;Ele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas (&#8230;), tanto as que est\u00e3o na terra como as que est\u00e3o no c\u00e9u\u00bb (Cl 1, 19-20). Isto lan\u00e7a-nos para o fim dos tempos, quando o Filho entregar ao Pai todas as coisas \u00aba fim de que Deus seja tudo em todos\u00bb (1 Cor 15, 28). Assim, as criaturas deste mundo j\u00e1 n\u00e3o nos aparecem como uma realidade meramente natural, porque o Ressuscitado as envolve misteriosamente e guia para um destino de plenitude. As pr\u00f3prias flores do campo e as aves que Ele, admirado, contemplou com os seus olhos humanos, agora est\u00e3o cheias da sua presen\u00e7a luminosa.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAP\u00cdTULO III<\/strong><br \/><strong>A RAIZ HUMANA DA CRISE ECOL\u00d3GICA<\/strong><\/p>\n<p>101. Para nada serviria descrever os sintomas, se n\u00e3o reconhec\u00eassemos a raiz humana da crise ecol\u00f3gica. H\u00e1 um modo desordenado de conceber a vida e a ac\u00e7\u00e3o do ser humano, que contradiz a realidade at\u00e9 ao ponto de a arruinar. N\u00e3o poderemos deter-nos a pensar nisto mesmo? Proponho, pois, que nos concentremos no paradigma tecnocr\u00e1tico dominante e no lugar que ocupa nele o ser humano e a sua ac\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p><strong>1. A tecnologia: criatividade e poder<br \/><\/strong>102. A humanidade entrou numa nova era, em que o poder da tecnologia nos p\u00f5e diante duma encruzilhada. Somos herdeiros de dois s\u00e9culos de ondas enormes de mudan\u00e7as: a m\u00e1quina a vapor, a ferrovia, o tel\u00e9grafo, a electricidade, o autom\u00f3vel, o avi\u00e3o, as ind\u00fastrias qu\u00edmicas, a medicina moderna, a inform\u00e1tica e, mais recentemente, a revolu\u00e7\u00e3o digital, a rob\u00f3tica, as biotecnologias e as nanotecnologias. \u00c9 justo que nos alegremos com estes progressos e nos entusiasmemos \u00e0 vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes, porque \u00aba ci\u00eancia e a tecnologia s\u00e3o um produto estupendo da criatividade humana que Deus nos deu\u00bb.[81] A transforma\u00e7\u00e3o da natureza para fins \u00fateis \u00e9 uma caracter\u00edstica do g\u00e9nero humano, desde os seus prim\u00f3rdios; e assim a t\u00e9cnica \u00abexprime a tens\u00e3o do \u00e2nimo humano para uma gradual supera\u00e7\u00e3o de certos condicionamentos materiais\u00bb.[82] A tecnologia deu rem\u00e9dio a in\u00fameros males, que afligiam e limitavam o ser humano. N\u00e3o podemos deixar de apreciar e agradecer os progressos alcan\u00e7ados especialmente na medicina, engenharia e comunica\u00e7\u00f5es. Como n\u00e3o havemos de reconhecer todos os esfor\u00e7os de tantos cientistas e t\u00e9cnicos que elaboraram alternativas para um desenvolvimento sustent\u00e1vel?<\/p>\n<p>103. A tecnoci\u00eancia, bem orientada, pode produzir coisas realmente valiosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano, desde os objectos de uso dom\u00e9stico at\u00e9 aos grandes meios de transporte, pontes, edif\u00edcios, espa\u00e7os p\u00fablicos. \u00c9 capaz tamb\u00e9m de produzir coisas belas e fazer o ser humano, imerso no mundo material, dar o \u00absalto\u00bb para o \u00e2mbito da beleza. Poder-se-\u00e1 negar a beleza de um avi\u00e3o ou de alguns arranha-c\u00e9us? H\u00e1 obras pict\u00f3ricas e musicais de valor, obtidas com o recurso aos novos instrumentos t\u00e9cnicos. Assim, no desejo de beleza do art\u00edfice e em quem contempla esta beleza d\u00e1-se o salto para uma certa plenitude propriamente humana.<\/p>\n<p>104. N\u00e3o podemos, por\u00e9m, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a inform\u00e1tica, o conhecimento do nosso pr\u00f3prio DNA e outras potencialidades que adquirimos, nos d\u00e3o um poder tremendo. Ou melhor: d\u00e3o, \u00e0queles que det\u00eam o conhecimento e sobretudo o poder econ\u00f3mico para o desfrutar, um dom\u00ednio impressionante sobre o conjunto do g\u00e9nero humano e do mundo inteiro. Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizar\u00e1 bem, sobretudo se se considera a maneira como o est\u00e1 a fazer. Basta lembrar as bombas at\u00f3micas lan\u00e7adas em pleno s\u00e9culo XX, bem como a grande exibi\u00e7\u00e3o de tecnologia ostentada pelo nazismo, o comunismo e outros regimes totalit\u00e1rios e que serviu para o exterm\u00ednio de milh\u00f5es de pessoas, sem esquecer que hoje a guerra disp\u00f5e de instrumentos cada vez mais mort\u00edferos. Nas m\u00e3os de quem est\u00e1 e pode chegar a estar tanto poder? \u00c9 tremendamente arriscado que resida numa pequena parte da humanidade.<\/p>\n<p>105. Tende-se a crer que \u00abtoda a aquisi\u00e7\u00e3o de poder seja simplesmente progresso, aumento de seguran\u00e7a, de utilidade, de bem-estar, de for\u00e7a vital, de plenitude de valores\u00bb[83], como se a realidade, o bem e a verdade desabrochassem espontaneamente do pr\u00f3prio poder da tecnologia e da economia. A verdade \u00e9 que \u00abo homem moderno n\u00e3o foi educado para o recto uso do poder\u00bb,[84] porque o imenso crescimento tecnol\u00f3gico n\u00e3o foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto \u00e0 responsabilidade, aos valores, \u00e0 consci\u00eancia. Cada \u00e9poca tende a desenvolver uma reduzida autoconsci\u00eancia dos pr\u00f3prios limites. Por isso, \u00e9 poss\u00edvel que hoje a humanidade n\u00e3o se d\u00ea conta da seriedade dos desafios que se lhe apresentam, e \u00abcresce continuamente a possibilidade de o homem fazer mau uso do seu poder\u00bb quando \u00abn\u00e3o existem normas de liberdade, mas apenas pretensas necessidades de utilidade e seguran\u00e7a\u00bb.[85] O ser humano n\u00e3o \u00e9 plenamente aut\u00f3nomo. A sua liberdade adoece, quando se entrega \u00e0s for\u00e7as cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do ego\u00edsmo, da viol\u00eancia brutal. Neste sentido, ele est\u00e1 nu e exposto frente ao seu pr\u00f3prio poder que continua a crescer, sem ter os instrumentos para o controlar. Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma \u00e9tica s\u00f3lida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro dum l\u00facido dom\u00ednio de si.<\/p>\n<p><strong>2. A globaliza\u00e7\u00e3o do paradigma tecnocr\u00e1tico<\/strong><br \/>106. Mas o problema fundamental \u00e9 outro e ainda mais profundo: o modo como realmente a humanidade assumiu a tecnologia e o seu desenvolvimento juntamente com um paradigma homog\u00e9neo e unidimensional. Neste paradigma, sobressai uma concep\u00e7\u00e3o do sujeito que progressivamente, no processo l\u00f3gico-racional, compreende e assim se apropria do objecto que se encontra fora. Um tal sujeito desenvolve-se ao estabelecer o m\u00e9todo cient\u00edfico com a sua experimenta\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 \u00e9 explicitamente uma t\u00e9cnica de posse, dom\u00ednio e transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se o sujeito tivesse \u00e0 sua frente a realidade informe totalmente dispon\u00edvel para a manipula\u00e7\u00e3o. Sempre se verificou a interven\u00e7\u00e3o do ser humano sobre a natureza, mas durante muito tempo teve a caracter\u00edstica de acompanhar, secundar as possibilidades oferecidas pelas pr\u00f3prias coisas; tratava-se de receber o que a realidade natural por si permitia, como que estendendo a m\u00e3o. Mas, agora, o que interessa \u00e9 extrair o m\u00e1ximo poss\u00edvel das coisas por imposi\u00e7\u00e3o da m\u00e3o humana, que tende a ignorar ou esquecer a realidade pr\u00f3pria do que tem \u00e0 sua frente. Por isso, o ser humano e as coisas deixaram de se dar amigavelmente a m\u00e3o, tornando-se contendentes. Daqui passa-se facilmente \u00e0 ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os te\u00f3ricos da finan\u00e7a e da tecnologia. Isto sup\u00f5e a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a \u00abesprem\u00ea-lo\u00bb at\u00e9 ao limite e para al\u00e9m do mesmo. Trata-se do falso pressuposto de que \u00abexiste uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regenera\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel de imediato e que os efeitos negativos das manipula\u00e7\u00f5es da ordem natural podem ser facilmente absorvidos\u00bb.[86]<\/p>\n<p>107. Assim podemos afirmar que, na origem de muitas dificuldades do mundo actual, est\u00e1 principalmente a tend\u00eancia, nem sempre consciente, de elaborar a metodologia e os objectivos da tecnoci\u00eancia segundo um paradigma de compreens\u00e3o que condiciona a vida das pessoas e o funcionamento da sociedade. Os efeitos da aplica\u00e7\u00e3o deste modelo a toda a realidade, humana e social, constatam-se na degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente, mas isto \u00e9 apenas um sinal do reducionismo que afecta a vida humana e a sociedade em todas as suas dimens\u00f5es. \u00c9 preciso reconhecer que os produtos da t\u00e9cnica n\u00e3o s\u00e3o neutros, porque criam uma trama que acaba por condicionar os estilos de vida e orientam as possibilidades sociais na linha dos interesses de determinados grupos de poder. Certas op\u00e7\u00f5es, que parecem puramente instrumentais, na realidade s\u00e3o op\u00e7\u00f5es sobre o tipo de vida social que se pretende desenvolver.<\/p>\n<p>108. N\u00e3o se consegue pensar que seja poss\u00edvel sustentar outro paradigma cultural e servir-se da t\u00e9cnica como mero instrumento, porque hoje o paradigma tecnocr\u00e1tico tornou-se t\u00e3o dominante que \u00e9 muito dif\u00edcil prescindir dos seus recursos, e mais dif\u00edcil ainda \u00e9 utilizar os seus recursos sem ser dominados pela sua l\u00f3gica. Tornou-se anticultural a escolha dum estilo de vida, cujos objectivos possam ser, pelo menos em parte, independentes da t\u00e9cnica, dos seus custos e do seu poder globalizante e massificador. Com efeito, a t\u00e9cnica tem tend\u00eancia a fazer com que nada fique fora da sua l\u00f3gica f\u00e9rrea, e \u00abo homem que \u00e9 o seu protagonista sabe que, em \u00faltima an\u00e1lise, n\u00e3o se trata de utilidade nem de bem-estar, mas de dom\u00ednio; dom\u00ednio no sentido extremo da palavra\u00bb.[87]Por isso, \u00abprocura controlar os elementos da natureza e, conjuntamente, os da exist\u00eancia humana\u00bb.[88] Reduzem-se assim a capacidade de decis\u00e3o, a liberdade mais genu\u00edna e o espa\u00e7o para a criatividade alternativa dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>109. O paradigma tecnocr\u00e1tico tende a exercer o seu dom\u00ednio tamb\u00e9m sobre a economia e a pol\u00edtica. A economia assume todo o desenvolvimento tecnol\u00f3gico em fun\u00e7\u00e3o do lucro, sem prestar aten\u00e7\u00e3o a eventuais consequ\u00eancias negativas para o ser humano. A finan\u00e7a sufoca a economia real. N\u00e3o se aprendeu a li\u00e7\u00e3o da crise financeira mundial e, muito lentamente, se aprende a li\u00e7\u00e3o do deterioramento ambiental. Nalguns c\u00edrculos, defende-se que a economia actual e a tecnologia resolver\u00e3o todos os problemas ambientais, do mesmo modo que se afirma, com linguagens n\u00e3o acad\u00e9micas, que os problemas da fome e da mis\u00e9ria no mundo ser\u00e3o resolvidos simplesmente com o crescimento do mercado. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de teorias econ\u00f3micas, que hoje talvez j\u00e1 ningu\u00e9m se atreva a defender, mas da sua instala\u00e7\u00e3o no desenvolvimento concreto da economia. Aqueles que n\u00e3o o afirmam em palavras defendem-no com os factos, quando parece n\u00e3o preocupar-se com o justo n\u00edvel da produ\u00e7\u00e3o, uma melhor distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, um cuidado respons\u00e1vel do meio ambiente ou os direitos das gera\u00e7\u00f5es futuras. Com os seus comportamentos, afirmam que \u00e9 suficiente o objectivo da maximiza\u00e7\u00e3o dos ganhos. Mas o mercado, por si mesmo, n\u00e3o garante o desenvolvimento humano integral nem a inclus\u00e3o social.[89] Entretanto temos um \u00absuperdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmiss\u00edvel, com perdur\u00e1veis situa\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria desumanizadora\u00bb,[90] mas n\u00e3o se criam, de forma suficientemente r\u00e1pida, institui\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e programas sociais que permitam aos mais pobres terem regularmente acesso aos recursos b\u00e1sicos. N\u00e3o temos suficiente consci\u00eancia de quais sejam as ra\u00edzes mais profundas dos desequil\u00edbrios actuais: estes t\u00eam a ver com a orienta\u00e7\u00e3o, os fins, o sentido e o contexto social do crescimento tecnol\u00f3gico e econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>110. A especializa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da tecnologia comporta grande dificuldade para se conseguir um olhar de conjunto. A fragmenta\u00e7\u00e3o do saber realiza a sua fun\u00e7\u00e3o no momento de se obter aplica\u00e7\u00f5es concretas, mas frequentemente leva a perder o sentido da totalidade, das rela\u00e7\u00f5es que existem entre as coisas, do horizonte alargado: um sentido, que se torna irrelevante. Isto impede de individuar caminhos adequados para resolver os problemas mais complexos do mundo actual, sobretudo os do meio ambiente e dos pobres, que n\u00e3o se podem enfrentar a partir duma \u00fanica perspectiva nem dum \u00fanico tipo de interesses. Uma ci\u00eancia, que pretenda oferecer solu\u00e7\u00f5es para os grandes problemas, deveria necessariamente ter em conta tudo o que o conhecimento gerou nas outras \u00e1reas do saber, incluindo a filosofia e a \u00e9tica social. Mas este \u00e9 actualmente um procedimento dif\u00edcil de seguir. Por isso tamb\u00e9m n\u00e3o se consegue reconhecer verdadeiros horizontes \u00e9ticos de refer\u00eancia. A vida passa a ser uma rendi\u00e7\u00e3o \u00e0s circunst\u00e2ncias condicionadas pela t\u00e9cnica, entendida como o recurso principal para interpretar a exist\u00eancia. Na realidade concreta que nos interpela, aparecem v\u00e1rios sintomas que mostram o erro, tais como a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, a ansiedade, a perda do sentido da vida e da conviv\u00eancia social. Assim se demonstra uma vez mais que \u00aba realidade \u00e9 superior \u00e0 ideia\u00bb.[91]<\/p>\n<p>111. A cultura ecol\u00f3gica n\u00e3o se pode reduzir a uma s\u00e9rie de respostas urgentes e parciais para os problemas que v\u00e3o surgindo \u00e0 volta da degrada\u00e7\u00e3o ambiental, do esgotamento das reservas naturais e da polui\u00e7\u00e3o. Deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma pol\u00edtica, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resist\u00eancia ao avan\u00e7o do paradigma tecnocr\u00e1tico. Caso contr\u00e1rio, at\u00e9 as melhores iniciativas ecologistas podem acabar bloqueadas na mesma l\u00f3gica globalizada. Buscar apenas um rem\u00e9dio t\u00e9cnico para cada problema ambiental que aparece, \u00e9 isolar coisas que, na realidade, est\u00e3o interligadas e esconder os problemas verdadeiros e mais profundos do sistema mundial.<\/p>\n<p>112. Todavia \u00e9 poss\u00edvel voltar a ampliar o olhar, e a liberdade humana \u00e9 capaz de limitar a t\u00e9cnica, orient\u00e1-la e coloc\u00e1-la ao servi\u00e7o doutro tipo de progresso, mais saud\u00e1vel, mais humano, mais social, mais integral. De facto verifica-se a liberta\u00e7\u00e3o do paradigma tecnocr\u00e1tico nalgumas ocasi\u00f5es. Por exemplo, quando comunidades de pequenos produtores optam por sistemas de produ\u00e7\u00e3o menos poluentes, defendendo um modelo n\u00e3o-consumista de vida, alegria e conviv\u00eancia. Ou quando a t\u00e9cnica tem em vista prioritariamente resolver os problemas concretos dos outros, com o compromisso de os ajudar a viver com mais dignidade e menor sofrimento. E ainda quando a busca criadora do belo e a sua contempla\u00e7\u00e3o conseguem superar o poder objectivador numa esp\u00e9cie de salva\u00e7\u00e3o que acontece na beleza e na pessoa que a contempla. A humanidade aut\u00eantica, que convida a uma nova s\u00edntese, parece habitar no meio da civiliza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica de forma quase impercept\u00edvel, como a neblina que filtra por baixo da porta fechada. Ser\u00e1 uma promessa permanente que, apesar de tudo, desbrocha como uma obstinada resist\u00eancia daquilo que \u00e9 aut\u00eantico?<\/p>\n<p>113. Al\u00e9m disso, as pessoas parecem j\u00e1 n\u00e3o acreditar num futuro feliz nem confiam cegamente num amanh\u00e3 melhor a partir das condi\u00e7\u00f5es actuais do mundo e das capacidades t\u00e9cnicas. Tomam consci\u00eancia de que o progresso da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica n\u00e3o equivale ao progresso da humanidade e da hist\u00f3ria, e vislumbram que os caminhos fundamentais para um futuro feliz s\u00e3o outros. Apesar disso, tamb\u00e9m n\u00e3o se imaginam renunciando \u00e0s possibilidades que oferece a tecnologia. A humanidade mudou profundamente, e o avolumar-se de constantes novidades consagra uma fugacidade que nos arrasta \u00e0 superf\u00edcie numa \u00fanica direc\u00e7\u00e3o. Torna-se dif\u00edcil parar para recuperarmos a profundidade da vida. Se a arquitectura reflecte o esp\u00edrito duma \u00e9poca, as mega-estruturas e as casas em s\u00e9rie expressam o esp\u00edrito da t\u00e9cnica globalizada, onde a permanente novidade dos produtos se une a um t\u00e9dio enfadonho. N\u00e3o nos resignemos a isto nem renunciemos a perguntar-nos pelos fins e o sentido de tudo. Caso contr\u00e1rio, apenas legitimaremos o estado de facto e precisaremos de mais suced\u00e2neos para suportar o vazio.<\/p>\n<p>114. O que est\u00e1 a acontecer p\u00f5e-nos perante a urg\u00eancia de avan\u00e7ar numa corajosa revolu\u00e7\u00e3o cultural. A ci\u00eancia e a tecnologia n\u00e3o s\u00e3o neutrais, mas podem, desde o in\u00edcio at\u00e9 ao fim dum processo, envolver diferentes inten\u00e7\u00f5es e possibilidades que se podem configurar de v\u00e1rias maneiras. Ningu\u00e9m quer o regresso \u00e0 Idade da Pedra, mas \u00e9 indispens\u00e1vel abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma, recolher os avan\u00e7os positivos e sustent\u00e1veis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objectivos arrasados por um desenfreamento megal\u00f3mano.<\/p>\n<p><strong>3. Crise do antropocentrismo moderno e suas consequ\u00eancias<\/strong><br \/>115. O antropocentrismo moderno acabou, paradoxalmente, por colocar a raz\u00e3o t\u00e9cnica acima da realidade, porque este ser humano \u00abj\u00e1 n\u00e3o sente a natureza como norma v\u00e1lida nem como um ref\u00fagio vivente. Sem se p\u00f4r qualquer hip\u00f3tese, v\u00ea-a, objectivamente, como espa\u00e7o e mat\u00e9ria onde realizar uma obra em que se imerge completamente, sem se importar com o que possa suceder a ela\u00bb.[92] Assim debilita-se o valor intr\u00ednseco do mundo. Mas, se o ser humano n\u00e3o redescobre o seu verdadeiro lugar, compreende-se mal a si mesmo e acaba por contradizer a sua pr\u00f3pria realidade. \u00abN\u00e3o s\u00f3 a terra foi dada por Deus ao homem, que a deve usar respeitando a inten\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria de bem, segundo a qual lhe foi entregue; mas o homem \u00e9 doado a si mesmo por Deus, devendo por isso respeitar a estrutura natural e moral de que foi dotado\u00bb.[93]<\/p>\n<p>116. Nos tempos modernos, verificou-se um not\u00e1vel excesso antropoc\u00eantrico, que hoje, com outra roupagem, continua a minar toda a refer\u00eancia a algo de comum e qualquer tentativa de refor\u00e7ar os la\u00e7os sociais. Por isso, chegou a hora de prestar novamente aten\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade com os limites que a mesma imp\u00f5e e que, por sua vez, constituem a possibilidade dum desenvolvimento humano e social mais saud\u00e1vel e fecundo. Uma apresenta\u00e7\u00e3o inadequada da antropologia crist\u00e3 acabou por promover uma concep\u00e7\u00e3o errada da rela\u00e7\u00e3o do ser humano com o mundo. Muitas vezes foi transmitido um sonho prometeico de dom\u00ednio sobre o mundo, que provocou a impress\u00e3o de que o cuidado da natureza fosse actividade de fracos. Mas a interpreta\u00e7\u00e3o correcta do conceito de ser humano como senhor do universo \u00e9 entend\u00ea-lo no sentido de administrador respons\u00e1vel.[94]<\/p>\n<p>117. A falta de preocupa\u00e7\u00e3o por medir os danos \u00e0 natureza e o impacto ambiental das decis\u00f5es \u00e9 apenas o reflexo evidente do desinteresse em reconhecer a mensagem que a natureza traz inscrita nas suas pr\u00f3prias estruturas. Quando, na pr\u00f3pria realidade, n\u00e3o se reconhece a import\u00e2ncia dum pobre, dum embri\u00e3o humano, duma pessoa com defici\u00eancia \u2013 s\u00f3 para dar alguns exemplos \u2013, dificilmente se saber\u00e1 escutar os gritos da pr\u00f3pria natureza. Tudo est\u00e1 interligado. Se o ser humano se declara aut\u00f3nomo da realidade e se constitui dominador absoluto, desmorona-se a pr\u00f3pria base da sua exist\u00eancia, porque \u00abem vez de realizar o seu papel de colaborador de Deus na obra da cria\u00e7\u00e3o, o homem substitui-se a Deus, e deste modo acaba por provocar a revolta da natureza\u00bb.[95]<\/p>\n<p>118. Esta situa\u00e7\u00e3o leva-nos a uma esquizofrenia permanente, que se estende da exalta\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica, que n\u00e3o reconhece aos outros seres um valor pr\u00f3prio, at\u00e9 \u00e0 reac\u00e7\u00e3o de negar qualquer valor peculiar ao ser humano. Contudo n\u00e3o se pode prescindir da humanidade. N\u00e3o haver\u00e1 uma nova rela\u00e7\u00e3o com a natureza, sem um ser humano novo. N\u00e3o h\u00e1 ecologia sem uma adequada antropologia. Quando a pessoa humana \u00e9 considerada apenas mais um ser entre outros, que prov\u00e9m de jogos do acaso ou dum determinismo f\u00edsico, \u00abcorre o risco de atenuar-se, nas consci\u00eancias, a no\u00e7\u00e3o da responsabilidade\u00bb.[96] Um antropocentrismo desordenado n\u00e3o deve necessariamente ser substitu\u00eddo por um \u00abbiocentrismo\u00bb, porque isto implicaria introduzir um novo desequil\u00edbrio que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o resolver\u00e1 os problemas existentes, mas acrescentar\u00e1 outros. N\u00e3o se pode exigir do ser humano um compromisso para com o mundo, se ao mesmo tempo n\u00e3o se reconhecem e valorizam as suas peculiares capacidades de conhecimento, vontade, liberdade e responsabilidade.<\/p>\n<p>119. A cr\u00edtica do antropocentrismo desordenado n\u00e3o deveria deixar em segundo plano tamb\u00e9m o valor das rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas. Se a crise ecol\u00f3gica \u00e9 uma express\u00e3o ou uma manifesta\u00e7\u00e3o externa da crise \u00e9tica, cultural e espiritual da modernidade, n\u00e3o podemos iludir-nos de sanar a nossa rela\u00e7\u00e3o com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as rela\u00e7\u00f5es humanas fundamentais. Quando o pensamento crist\u00e3o reivindica, para o ser humano, um valor peculiar acima das outras criaturas, suscita a valoriza\u00e7\u00e3o de cada pessoa humana e, assim, estimula o reconhecimento do outro. A abertura a um \u00abtu\u00bb capaz de conhecer, amar e dialogar continua a ser a grande nobreza da pessoa humana. Por isso, para uma rela\u00e7\u00e3o adequada com o mundo criado, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio diminuir a dimens\u00e3o social do ser humano nem a sua dimens\u00e3o transcendente, a sua abertura ao \u00abTu\u00bb divino. Com efeito, n\u00e3o se pode propor uma rela\u00e7\u00e3o com o ambiente, prescindindo da rela\u00e7\u00e3o com as outras pessoas e com Deus. Seria um individualismo rom\u00e2ntico disfar\u00e7ado de beleza ecol\u00f3gica e um confinamento asfixiante na iman\u00eancia.<\/p>\n<p>120. Uma vez que tudo est\u00e1 relacionado, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel a defesa da natureza com a justifica\u00e7\u00e3o do aborto. N\u00e3o parece vi\u00e1vel um percurso educativo para acolher os seres fr\u00e1geis que nos rodeiam e que, \u00e0s vezes, s\u00e3o molestos e inoportunos, quando n\u00e3o se d\u00e1 protec\u00e7\u00e3o a um embri\u00e3o humano ainda que a sua chegada seja causa de inc\u00f3modos e dificuldades: \u00abSe se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham tamb\u00e9m outras formas de acolhimento \u00fateis \u00e0 vida social\u00bb.[97]<\/p>\n<p>121. Espera-se ainda o desenvolvimento duma nova s\u00edntese, que ultrapasse as falsas dial\u00e9cticas dos \u00faltimos s\u00e9culos. O pr\u00f3prio cristianismo, mantendo-se fiel \u00e0 sua identidade e ao tesouro de verdade que recebeu de Jesus Cristo, n\u00e3o cessa de se repensar e reformular em di\u00e1logo com as novas situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, deixando desabrochar assim a sua eterna novidade.[98]<\/p>\n<p><strong>O relativismo pr\u00e1tico<\/strong><br \/>122. Um antropocentrismo desordenado gera um estilo de vida desordenado. Na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Evangelii gaudium, referi-me ao relativismo pr\u00e1tico que caracteriza a nossa \u00e9poca e que \u00e9 \u00abainda mais perigoso que o doutrinal\u00bb.[99] Quando o ser humano se coloca no centro, acaba por dar prioridade absoluta aos seus interesses contingentes, e tudo o mais se torna relativo. Por isso, n\u00e3o deveria surpreender que, juntamente com a omnipresen\u00e7a do paradigma tecnocr\u00e1tico e a adora\u00e7\u00e3o do poder humano sem limites, se desenvolva nos indiv\u00edduos este relativismo no qual tudo o que n\u00e3o serve os pr\u00f3prios interesses imediatos se torna irrelevante. Nisto, h\u00e1 uma l\u00f3gica que permite compreender como se alimentam mutuamente diferentes atitudes, que provocam ao mesmo tempo a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e a degrada\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>123. A cultura do relativismo \u00e9 a mesma patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se de outra e a trat\u00e1-la como mero objecto, obrigando-a a trabalhos for\u00e7ados, ou reduzindo-a \u00e0 escravid\u00e3o por causa duma d\u00edvida. \u00c9 a mesma l\u00f3gica que leva \u00e0 explora\u00e7\u00e3o sexual das crian\u00e7as, ou ao abandono dos idosos que n\u00e3o servem os interesses pr\u00f3prios. \u00c9 tamb\u00e9m a l\u00f3gica interna daqueles que dizem: \u00abDeixemos que as for\u00e7as invis\u00edveis do mercado regulem a economia, porque os seus efeitos sobre a sociedade e a natureza s\u00e3o danos inevit\u00e1veis\u00bb. Se n\u00e3o h\u00e1 verdades objectivas nem princ\u00edpios est\u00e1veis, fora da satisfa\u00e7\u00e3o das aspira\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias e das necessidades imediatas, que limites pode haver para o tr\u00e1fico de seres humanos, a criminalidade organizada, o narcotr\u00e1fico, o com\u00e9rcio de diamantes ensanguentados e de peles de animais em vias de extin\u00e7\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 a mesma l\u00f3gica relativista a que justifica a compra de \u00f3rg\u00e3os dos pobres com a finalidade de os vender ou utilizar para experimenta\u00e7\u00e3o, ou o descarte de crian\u00e7as porque n\u00e3o correspondem ao desejo de seus pais? \u00c9 a mesma l\u00f3gica do \u00abusa e joga fora\u00bb que produz tantos res\u00edduos, s\u00f3 pelo desejo desordenado de consumir mais do que realmente se tem necessidade. Portanto, n\u00e3o podemos pensar que os programas pol\u00edticos ou a for\u00e7a da lei sejam suficientes para evitar os comportamentos que afectam o meio ambiente, porque, quando \u00e9 a cultura que se corrompe deixando de reconhecer qualquer verdade objectiva ou quaisquer princ\u00edpios universalmente v\u00e1lidos, as leis s\u00f3 se poder\u00e3o entender como imposi\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias e obst\u00e1culos a evitar.<\/p>\n<p><strong>A necessidade de defender o trabalho<\/strong><br \/>124. Em qualquer abordagem de ecologia integral que n\u00e3o exclua o ser humano, \u00e9 indispens\u00e1vel incluir o valor do trabalho, t\u00e3o sabiamente desenvolvido por S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II na sua enc\u00edclica Laborem excercens. Recordemos que, segundo a narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica da cria\u00e7\u00e3o, Deus colocou o ser humano no jardim rec\u00e9m-criado (cf. Gn2, 15), n\u00e3o s\u00f3 para cuidar do existente (guardar), mas tamb\u00e9m para trabalhar nele a fim de que produzisse frutos (cultivar). Assim, os oper\u00e1rios e os artes\u00e3os \u00abasseguram uma cria\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua\u00bb (Sir 38, 34). Na realidade, a interven\u00e7\u00e3o humana que favorece o desenvolvimento prudente da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a forma mais adequada de cuidar dela, porque implica colocar-se como instrumento de Deus para ajudar a fazer desabrochar as potencialidades que Ele mesmo inseriu nas coisas: \u00abO Senhor produziu da terra os medicamentos; e o homem sensato n\u00e3o os desprezar\u00e1\u00bb (Sir38, 4).<\/p>\n<p>125. Se procurarmos pensar quais possam ser as rela\u00e7\u00f5es adequadas do ser humano com o mundo que o rodeia, surge a necessidade duma concep\u00e7\u00e3o correcta do trabalho, porque, falando da rela\u00e7\u00e3o do ser humano com as coisas, imp\u00f5e-se-nos a quest\u00e3o relativa ao sentido e finalidade da ac\u00e7\u00e3o humana sobre a realidade. N\u00e3o falamos apenas do trabalho manual ou do trabalho da terra, mas de qualquer actividade que implique alguma transforma\u00e7\u00e3o do existente, desde a elabora\u00e7\u00e3o dum balan\u00e7o social at\u00e9 ao projecto dum progresso tecnol\u00f3gico. Qualquer forma de trabalho pressup\u00f5e uma concep\u00e7\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o que o ser humano pode ou deve estabelecer com o outro diverso de si mesmo. A espiritualidade crist\u00e3, a par da admira\u00e7\u00e3o contemplativa das criaturas que encontramos em S\u00e3o Francisco de Assis, desenvolveu tamb\u00e9m uma rica e sadia compreens\u00e3o do trabalho, como podemos encontrar, por exemplo, na vida do Beato Carlos de Foucauld e seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>126. Algo se pode recolher tamb\u00e9m da longa tradi\u00e7\u00e3o mon\u00e1stica. Nos prim\u00f3rdios, esta favorecia de certo modo a fuga do mundo, procurando afastar-se da decad\u00eancia urbana. Por isso, os monges buscavam o deserto, convencidos de que fosse o lugar adequado para reconhecer a presen\u00e7a de Deus. Mais tarde, S\u00e3o Bento de N\u00farsia quis que os seus monges vivessem em comunidade, unindo ora\u00e7\u00e3o e estudo com o trabalho manual (\u00abOra et labora\u00bb). Esta introdu\u00e7\u00e3o do trabalho manual impregnada de sentido espiritual revelou-se revolucion\u00e1ria. Aprendeu-se a buscar o amadurecimento e a santifica\u00e7\u00e3o na compenetra\u00e7\u00e3o entre o recolhimento e o trabalho. Esta maneira de viver o trabalho torna-nos mais capazes de ter cuidado e respeito pelo meio ambiente, impregnando de sadia sobriedade a nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo.<\/p>\n<p>127. Afirmamos que \u00abo homem \u00e9 o protagonista, o centro e o fim de toda a vida econ\u00f3mico-social\u00bb.[100] Apesar disso, quando no ser humano se deteriora a capacidade de contemplar e respeitar, criam-se as condi\u00e7\u00f5es para se desfigurar o sentido do trabalho.[101] Conv\u00e9m recordar sempre que o ser humano \u00e9 \u00abcapaz de, por si pr\u00f3prio, ser o agente respons\u00e1vel do seu bem-estar material, progresso moral e desenvolvimento espiritual\u00bb.[102] O trabalho deveria ser o \u00e2mbito deste multiforme desenvolvimento pessoal, onde est\u00e3o em jogo muitas dimens\u00f5es da vida: a criatividade, a projecta\u00e7\u00e3o do futuro, o desenvolvimento das capacidades, a exercita\u00e7\u00e3o dos valores, a comunica\u00e7\u00e3o com os outros, uma atitude de adora\u00e7\u00e3o. Por isso, a realidade social do munda actual exige que, acima dos limitados interesses das empresas e duma discut\u00edvel racionalidade econ\u00f3mica, \u00abse continue a perseguir como priorit\u00e1rio o objectivo do acesso ao trabalho para todos\u00bb.[103]<\/p>\n<p>128. Somos chamados ao trabalho desde a nossa cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se deve procurar que o progresso tecnol\u00f3gico substitua cada vez mais o trabalho humano: procedendo assim, a humanidade prejudicar-se-ia a si mesma. O trabalho \u00e9 uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, \u00e9 caminho de matura\u00e7\u00e3o, desenvolvimento humano e realiza\u00e7\u00e3o pessoal. Neste sentido, ajudar os pobres com o dinheiro deve ser sempre um rem\u00e9dio provis\u00f3rio para enfrentar emerg\u00eancias. O verdadeiro objectivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna atrav\u00e9s do trabalho. Mas a orienta\u00e7\u00e3o da economia favoreceu um tipo de progresso tecnol\u00f3gico cuja finalidade \u00e9 reduzir os custos de produ\u00e7\u00e3o com base na diminui\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho, que s\u00e3o substitu\u00eddos por m\u00e1quinas. \u00c9 mais um exemplo de como a ac\u00e7\u00e3o do homem se pode voltar contra si mesmo. A diminui\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho \u00abtem tamb\u00e9m um impacto negativo no plano econ\u00f3mico com a progressiva corros\u00e3o do &#8220;capital social&#8221;, isto \u00e9, daquele conjunto de rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a, de credibilidade, de respeito das regras, indispens\u00e1vel em qualquer conviv\u00eancia civil\u00bb.[104] Em suma, \u00abos custos humanos s\u00e3o sempre tamb\u00e9m custos econ\u00f3micos, e as disfun\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas acarretam sempre tamb\u00e9m custos humanos\u00bb.[105]Renunciar a investir nas pessoas para se obter maior receita imediata \u00e9 um p\u00e9ssimo neg\u00f3cio para a sociedade.<\/p>\n<p>129. Para se conseguir continuar a dar emprego, \u00e9 indispens\u00e1vel promover uma economia que favore\u00e7a a diversifica\u00e7\u00e3o produtiva e a criatividade empresarial. Por exemplo, h\u00e1 uma grande variedade de sistemas alimentares rurais de pequena escala que continuam a alimentar a maior parte da popula\u00e7\u00e3o mundial, utilizando uma por\u00e7\u00e3o reduzida de terreno e de \u00e1gua e produzindo menos res\u00edduos, quer em pequenas parcelas agr\u00edcolas e hortas, quer na ca\u00e7a e recolha de produtos silvestres, quer na pesca artesanal. As economias de larga escala, especialmente no sector agr\u00edcola, acabam por for\u00e7ar os pequenos agricultores a vender as suas terras ou a abandonar as suas culturas tradicionais. As tentativas feitas por alguns deles no sentido de desenvolverem outras formas de produ\u00e7\u00e3o, mais diversificadas, resultam in\u00fateis por causa da dificuldade de ter acesso aos mercados regionais e globais, ou porque a infra-estrutura de venda e transporte est\u00e1 ao servi\u00e7o das grandes empresas. As autoridades t\u00eam o direito e a responsabilidade de adoptar medidas de apoio claro e firme aos pequenos produtores e \u00e0 diversifica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, para que haja uma liberdade econ\u00f3mica da qual todos realmente beneficiem, pode ser necess\u00e1rio p\u00f4r limites \u00e0queles que det\u00eam maiores recursos e poder financeiro. A simples proclama\u00e7\u00e3o da liberdade econ\u00f3mica, enquanto as condi\u00e7\u00f5es reaisimpedem que muitos possam efectivamente ter acesso a ela e, ao mesmo tempo, se reduz o acesso ao trabalho, torna-se um discurso contradit\u00f3rio que desonra a pol\u00edtica. A actividade empresarial, que \u00e9 uma nobre voca\u00e7\u00e3o orientada para produzir riqueza e melhorar o mundo para todos, pode ser uma maneira muito fecunda de promover a regi\u00e3o onde instala os seus empreendimentos, sobretudo se pensa que a cria\u00e7\u00e3o de postos de trabalho \u00e9 parte imprescind\u00edvel do seu servi\u00e7o ao bem comum.<\/p>\n<p><strong>A inova\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica a partir da pesquisa<\/strong><br \/>130. Na vis\u00e3o filos\u00f3fica e teol\u00f3gica do ser humano e da cria\u00e7\u00e3o que procurei propor, aparece claro que a pessoa humana, com a peculiaridade da sua raz\u00e3o e da sua sabedoria, n\u00e3o \u00e9 um factor externo que deva ser totalmente exclu\u00eddo. No entanto, embora o ser humano possa intervir no mundo vegetal e animal e fazer uso dele quando \u00e9 necess\u00e1rio para a sua vida, o Catecismo ensina que as experimenta\u00e7\u00f5es sobre os animais s\u00f3 s\u00e3o leg\u00edtimas \u00abdesde que n\u00e3o ultrapassem os limites do razo\u00e1vel e contribuam para curar ou poupar vidas humanas\u00bb.[106] Recorda, com firmeza, que o poder humano tem limites e que \u00ab\u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 dignidade humana fazer sofrer inutilmente os animais e dispor indiscriminadamente das suas vidas\u00bb.[107] Todo o uso e experimenta\u00e7\u00e3o \u00abexige um respeito religioso pela integridade da cria\u00e7\u00e3o\u00bb.[108]<\/p>\n<p>131. Quero recolher aqui a posi\u00e7\u00e3o equilibrada de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, pondo em destaque os benef\u00edcios dos progressos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos, que \u00abmanifestam quanto \u00e9 nobre a voca\u00e7\u00e3o do homem para participar de modo respons\u00e1vel na ac\u00e7\u00e3o criadora de Deus\u00bb, mas ao mesmo tempo recordava que \u00abtoda e qualquer interven\u00e7\u00e3o numa \u00e1rea determinada do ecossistema n\u00e3o pode prescindir da considera\u00e7\u00e3o das suas consequ\u00eancias noutras \u00e1reas\u00bb.[109] Afirmava que a Igreja aprecia a contribui\u00e7\u00e3o \u00abdo estudo e das aplica\u00e7\u00f5es da biologia molecular, completada por outras disciplinas como a gen\u00e9tica e a sua aplica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica na agricultura e na ind\u00fastria\u00bb,[110] embora dissesse tamb\u00e9m que isto n\u00e3o deve levar a uma \u00abindiscriminada manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica\u00bb[111] que ignore os efeitos negativos destas interven\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel frenar a criatividade humana. Se n\u00e3o se pode proibir a um artista que exprima a sua capacidade criativa, tamb\u00e9m n\u00e3o se pode obstaculizar quem possui dons especiais para o progresso cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, cujas capacidades foram dadas por Deus para o servi\u00e7o dos outros. Ao mesmo tempo, n\u00e3o se pode deixar de considerar os objectivos, os efeitos, o contexto e os limites \u00e9ticos de tal actividade humana que \u00e9 uma forma de poder com grandes riscos.<\/p>\n<p>132. Neste quadro, deveria situar-se toda e qualquer reflex\u00e3o acerca da interven\u00e7\u00e3o humana sobre o mundo vegetal e animal que implique hoje muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas geradas pela biotecnologia, a fim de aproveitar as possibilidades presentes na realidade material. O respeito da f\u00e9 pela raz\u00e3o pede para se prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que a pr\u00f3pria ci\u00eancia biol\u00f3gica, desenvolvida independentemente dos interesses econ\u00f3micos, possa ensinar a prop\u00f3sito das estruturas biol\u00f3gicas e das suas possibilidades e muta\u00e7\u00f5es. Em todo o caso, \u00e9 leg\u00edtima uma interven\u00e7\u00e3o que actue sobre a natureza \u00abpara a ajudar a desenvolver-se na sua pr\u00f3pria linha, a da cria\u00e7\u00e3o, querida por Deus\u00bb.[112]<\/p>\n<p>133. \u00c9 dif\u00edcil emitir um ju\u00edzo geral sobre o desenvolvimento de organismos modificados geneticamente (OMG), vegetais ou animais, para fins medicinais ou agro-pecu\u00e1rios, porque podem ser muito diferentes entre si e requerer distintas considera\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, os riscos nem sempre se devem atribuir \u00e0 pr\u00f3pria t\u00e9cnica, mas \u00e0 sua aplica\u00e7\u00e3o inadequada ou excessiva. Na realidade, muitas vezes as muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas foram e continuam a ser produzidas pela pr\u00f3pria natureza. E mesmo as provocadas pelo ser humano n\u00e3o s\u00e3o um fen\u00f3meno moderno. A domestica\u00e7\u00e3o de animais, o cruzamento de esp\u00e9cies e outras pr\u00e1ticas antigas e universalmente seguidas podem incluir-se nestas considera\u00e7\u00f5es. \u00c9 oportuno recordar que o in\u00edcio dos progressos cient\u00edficos sobre cereais transg\u00e9nicos foi a observa\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias que, de forma natural e espont\u00e2nea, produziam uma modifica\u00e7\u00e3o no genoma dum vegetal. Mas, na natureza, estes processos t\u00eam um ritmo lento, que n\u00e3o se compara com a velocidade imposta pelos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos actuais, mesmo quando estes avan\u00e7os se baseiam num desenvolvimento cient\u00edfico de v\u00e1rios s\u00e9culos.<\/p>\n<p>134. Embora n\u00e3o disponhamos de provas definitivas acerca do dano que poderiam causar os cereais transg\u00e9nicos aos seres humanos e apesar de, nalgumas regi\u00f5es, a sua utiliza\u00e7\u00e3o ter produzido um crescimento econ\u00f3mico que contribuiu para resolver determinados problemas, h\u00e1 dificuldades importantes que n\u00e3o devem ser minimizadas. Em muitos lugares, na sequ\u00eancia da introdu\u00e7\u00e3o destas culturas, constata-se uma concentra\u00e7\u00e3o de terras produtivas nas m\u00e3os de poucos, devido ao \u00abprogressivo desaparecimento de pequenos produtores, que, em consequ\u00eancia da perda das terras cultivadas, se viram obrigados a retirar-se da produ\u00e7\u00e3o directa\u00bb.[113] Os mais fr\u00e1geis deles tornam-se trabalhadores prec\u00e1rios, e muitos assalariados agr\u00edcolas acabam por emigrar para miser\u00e1veis aglomerados das cidades. A expans\u00e3o destas culturas destr\u00f3i a complexa trama dos ecossistemas, diminui a diversidade na produ\u00e7\u00e3o e afecta o presente ou o futuro das economias regionais. Em v\u00e1rios pa\u00edses, nota-se uma tend\u00eancia para o desenvolvimento de oligop\u00f3lios na produ\u00e7\u00e3o de sementes e outros produtos necess\u00e1rios para o cultivo, e a depend\u00eancia agrava-se quando se pensa na produ\u00e7\u00e3o de sementes est\u00e9reis que acabam por obrigar os agricultores a compr\u00e1-las \u00e0s empresas produtoras.<\/p>\n<p>135. Sem d\u00favida, h\u00e1 necessidade duma aten\u00e7\u00e3o constante, que tenha em considera\u00e7\u00e3o todos os aspectos \u00e9ticos implicados. Para isso, \u00e9 preciso assegurar um debate cient\u00edfico e social que seja respons\u00e1vel e amplo, capaz de considerar toda a informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel e chamar as coisas pelo seu nome. \u00c0s vezes n\u00e3o se coloca sobre a mesa a informa\u00e7\u00e3o completa, mas \u00e9 seleccionada de acordo com os pr\u00f3prios interesses, sejam eles pol\u00edticos, econ\u00f3micos ou ideol\u00f3gicos. Isto torna dif\u00edcil elaborar um ju\u00edzo equilibrado e prudente sobre as v\u00e1rias quest\u00f5es, tendo presente todas as vari\u00e1veis em jogo. \u00c9 necess\u00e1rio dispor de espa\u00e7os de debate, onde todos aqueles que poderiam de algum modo ver-se, directa ou indirectamente, afectados (agricultores, consumidores, autoridades, cientistas, produtores de sementes, popula\u00e7\u00f5es vizinhas dos campos tratados e outros) tenham possibilidade de expor as suas problem\u00e1ticas ou ter acesso a uma informa\u00e7\u00e3o ampla e fidedigna para adoptar decis\u00f5es tendentes ao bem comum presente e futuro. A quest\u00e3o dos OMG \u00e9 uma quest\u00e3o de car\u00e1cter complexo, que requer ser abordada com um olhar abrangente de todos os aspectos; isto exigiria pelo menos um maior esfor\u00e7o para financiar distintas linhas de pesquisa aut\u00f3noma e interdisciplinar que possam trazer nova luz.<\/p>\n<p>136. Al\u00e9m disso, \u00e9 preocupante constatar que alguns movimentos ecologistas defendem a integridade do meio ambiente e, com raz\u00e3o, reclamam a imposi\u00e7\u00e3o de determinados limites \u00e0 pesquisa cient\u00edfica, mas n\u00e3o aplicam estes mesmos princ\u00edpios \u00e0 vida humana. Muitas vezes justifica-se que se ultrapassem todos os limites, quando se faz experi\u00eancias com embri\u00f5es humanos vivos. Esquece-se que o valor inalien\u00e1vel do ser humano \u00e9 independente do seu grau de desenvolvimento. Ali\u00e1s, quando a t\u00e9cnica ignora os grandes princ\u00edpios \u00e9ticos, acaba por considerar leg\u00edtima qualquer pr\u00e1tica. Como vimos neste cap\u00edtulo, a t\u00e9cnica separada da \u00e9tica dificilmente ser\u00e1 capaz de autolimitar o seu poder.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAP\u00cdTULO IV<\/strong><br \/><strong>UMA ECOLOGIA INTEGRAL<\/strong><\/p>\n<p>137. Dado que tudo est\u00e1 intimamente relacionado e que os problemas actuais requerem um olhar que tenha em conta todos os aspectos da crise mundial, proponho que nos detenhamos agora a reflectir sobre os diferentes elementos duma ecologia integral, que inclua claramente as dimens\u00f5es humanas e sociais.<\/p>\n<p><strong>1. Ecologia ambiental, econ\u00f3mica e social<\/strong><br \/>138. A ecologia estuda as rela\u00e7\u00f5es entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem. E isto exige sentar-se a pensar e discutir acerca das condi\u00e7\u00f5es de vida e de sobreviv\u00eancia duma sociedade, com a honestidade de p\u00f4r em quest\u00e3o modelos de desenvolvimento, produ\u00e7\u00e3o e consumo. Nunca \u00e9 demais insistir que tudo est\u00e1 interligado. O tempo e o espa\u00e7o n\u00e3o s\u00e3o independentes entre si; nem os pr\u00f3prios \u00e1tomos ou as part\u00edculas subat\u00f3micas se podem considerar separadamente. Assim como os v\u00e1rios componentes do planeta \u2013 f\u00edsicos, qu\u00edmicos e biol\u00f3gicos \u2013 est\u00e3o relacionados entre si, assim tamb\u00e9m as esp\u00e9cies vivas formam uma trama que nunca acabaremos de individuar e compreender. Boa parte da nossa informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica \u00e9 partilhada com muitos seres vivos. Por isso, os conhecimentos fragment\u00e1rios e isolados podem tornar-se uma forma de ignor\u00e2ncia, quando resistem a integrar-se numa vis\u00e3o mais ampla da realidade.<\/p>\n<p>139. Quando falamos de \u00abmeio ambiente\u00bb, fazemos refer\u00eancia tamb\u00e9m a uma particular rela\u00e7\u00e3o: a rela\u00e7\u00e3o entre a natureza e a sociedade que a habita. Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de n\u00f3s ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos inclu\u00eddos nela, somos parte dela e compenetramo-nos. As raz\u00f5es, pelas quais um lugar se contamina, exigem uma an\u00e1lise do funcionamento da sociedade, da sua economia, do seu comportamento, das suas maneiras de entender a realidade. Dada a amplitude das mudan\u00e7as, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma resposta espec\u00edfica e independente para cada parte do problema. \u00c9 fundamental buscar solu\u00e7\u00f5es integrais que considerem as interac\u00e7\u00f5es dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. N\u00e3o h\u00e1 duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma \u00fanica e complexa crise s\u00f3cio-ambiental. As directrizes para a solu\u00e7\u00e3o requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos exclu\u00eddos e, simultaneamente, cuidar da natureza.<\/p>\n<p>140. Devido \u00e0 quantidade e variedade de elementos a ter em conta na hora de determinar o impacto ambiental dum empreendimento concreto, torna-se indispens\u00e1vel dar aos pesquisadores um papel preponderante e facilitar a sua interac\u00e7\u00e3o com uma ampla liberdade acad\u00e9mica. Esta pesquisa constante deveria permitir reconhecer tamb\u00e9m como as diferentes criaturas se relacionam, formando aquelas unidades maiores que hoje chamamos \u00abecossistemas\u00bb. Temo-los em conta n\u00e3o s\u00f3 para determinar qual \u00e9 o seu uso razo\u00e1vel, mas tamb\u00e9m porque possuem um valor intr\u00ednseco, independente de tal uso. Assim como cada organismo \u00e9 bom e admir\u00e1vel em si mesmo pelo facto de ser uma criatura de Deus, o mesmo se pode dizer do conjunto harm\u00f3nico de organismos num determinado espa\u00e7o, funcionando como um sistema. Embora n\u00e3o tenhamos consci\u00eancia disso, dependemos desse conjunto para a nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia. Conv\u00e9m recordar que os ecossistemas interv\u00eam na reten\u00e7\u00e3o do anidrido carb\u00f3nico, na purifica\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, na contraposi\u00e7\u00e3o a doen\u00e7as e pragas, na composi\u00e7\u00e3o do solo, na decomposi\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos, e muit\u00edssimos outros servi\u00e7os que esquecemos ou ignoramos. Quando se d\u00e3o conta disto, muitas pessoas voltam a tomar consci\u00eancia de que vivemos e agimos a partir duma realidade que nos foi previamente dada, que \u00e9 anterior \u00e0s nossas capacidades e \u00e0 nossa exist\u00eancia. Por isso, quando se fala de \u00abuso sustent\u00e1vel\u00bb, \u00e9 preciso incluir sempre uma considera\u00e7\u00e3o sobre a capacidade regenerativa de cada ecossistema nos seus diversos sectores e aspectos.<\/p>\n<p>141. Al\u00e9m disso, o crescimento econ\u00f3mico tende a gerar automatismos e a homogeneizar, a fim de simplificar os processos e reduzir os custos. Por isso, \u00e9 necess\u00e1ria uma ecologia econ\u00f3mica, capaz de induzir a considerar a realidade de forma mais ampla. Com efeito, \u00aba protec\u00e7\u00e3o do meio ambiente dever\u00e1 constituir parte integrante do processo de desenvolvimento e n\u00e3o poder\u00e1 ser considerada isoladamente\u00bb.[114] Mas, ao mesmo tempo, torna-se actual a necessidade imperiosa do humanismo, que faz apelo aos distintos saberes, incluindo o econ\u00f3mico, para uma vis\u00e3o mais integral e integradora. Hoje, a an\u00e1lise dos problemas ambientais \u00e9 insepar\u00e1vel da an\u00e1lise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da rela\u00e7\u00e3o de cada pessoa consigo mesma, que gera um modo espec\u00edfico de se relacionar com os outros e com o meio ambiente. H\u00e1 uma interac\u00e7\u00e3o entre os ecossistemas e entre os diferentes mundos de refer\u00eancia social e, assim, se demonstra mais uma vez que \u00abo todo \u00e9 superior \u00e0 parte\u00bb.[115]<\/p>\n<p>142. Se tudo est\u00e1 relacionado, tamb\u00e9m o estado de sa\u00fade das institui\u00e7\u00f5es duma sociedade tem consequ\u00eancias no ambiente e na qualidade de vida humana: \u00abtoda a les\u00e3o da solidariedade e da amizade c\u00edvica provoca danos ambientais\u00bb.[116] Neste sentido, a ecologia social \u00e9 necessariamente institucional e progressivamente alcan\u00e7a as diferentes dimens\u00f5es, que v\u00e3o desde o grupo social prim\u00e1rio, a fam\u00edlia, at\u00e9 \u00e0 vida internacional, passando pela comunidade local e a na\u00e7\u00e3o. Dentro de cada um dos n\u00edveis sociais e entre eles, desenvolvem-se as institui\u00e7\u00f5es que regulam as rela\u00e7\u00f5es humanas. Tudo o que as danifica comporta efeitos nocivos, como a perda da liberdade, a injusti\u00e7a e a viol\u00eancia. V\u00e1rios pa\u00edses s\u00e3o governados por um sistema institucional prec\u00e1rio, \u00e0 custa do sofrimento do povo e para benef\u00edcio daqueles que lucram com este estado de coisas. Tanto dentro da administra\u00e7\u00e3o do Estado, como nas diferentes express\u00f5es da sociedade civil, ou nas rela\u00e7\u00f5es dos habitantes entre si, registam-se, com demasiada frequ\u00eancia, comportamentos ilegais. As leis podem estar redigidas de forma correcta, mas muitas vezes permanecem letra morta. Poder-se-\u00e1, assim, esperar que a legisla\u00e7\u00e3o e as normativas relativas ao meio ambiente sejam realmente eficazes? Sabemos, por exemplo, que pa\u00edses dotados duma legisla\u00e7\u00e3o clara sobre a protec\u00e7\u00e3o das florestas continuam a ser testemunhas mudas da sua frequente viola\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o que acontece numa regi\u00e3o influi, directa ou indirectamente, nas outras regi\u00f5es. Assim, por exemplo, o consumo de drogas nas sociedades opulentas provoca uma constante ou crescente procura de produtos que prov\u00eam de regi\u00f5es empobrecidas, onde se corrompem comportamentos, se destroem vidas e se acaba por degradar o meio ambiente.<\/p>\n<p><strong>2. Ecologia cultural<\/strong><br \/>143. A par do patrim\u00f3nio natural, encontra-se igualmente amea\u00e7ado um patrim\u00f3nio hist\u00f3rico, art\u00edstico e cultural. Faz parte da identidade comum de um lugar, servindo de base para construir uma cidade habit\u00e1vel. N\u00e3o se trata de destruir e criar novas cidades hipoteticamente mais ecol\u00f3gicas, onde nem sempre resulta desej\u00e1vel viver. \u00c9 preciso integrar a hist\u00f3ria, a cultura e a arquitectura dum lugar, salvaguardando a sua identidade original. Por isso, a ecologia envolve tamb\u00e9m o cuidado das riquezas culturais da humanidade, no seu sentido mais amplo. Mais directamente, pede que se preste aten\u00e7\u00e3o \u00e0s culturas locais, quando se analisam quest\u00f5es relacionadas com o meio ambiente, fazendo dialogar a linguagem t\u00e9cnico-cient\u00edfica com a linguagem popular. \u00c9 a cultura \u2013 entendida n\u00e3o s\u00f3 como os monumentos do passado, mas especialmente no seu sentido vivo, din\u00e2mico e participativo \u2013 que n\u00e3o se pode excluir na hora de repensar a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com o meio ambiente.<\/p>\n<p>144. A vis\u00e3o consumista do ser humano, incentivada pelos mecanismos da economia globalizada actual, tende a homogeneizar as culturas e a debilitar a imensa variedade cultural, que \u00e9 um tesouro da humanidade. Por isso, pretender resolver todas as dificuldades atrav\u00e9s de normativas uniformes ou por interven\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, leva a negligenciar a complexidade das problem\u00e1ticas locais, que requerem a participa\u00e7\u00e3o activa dos habitantes. Os novos processos em gesta\u00e7\u00e3o nem sempre se podem integrar dentro de modelos estabelecidos do exterior, mas h\u00e3o-de ser provenientes da pr\u00f3pria cultura local. Assim como a vida e o mundo s\u00e3o din\u00e2micos, assim tamb\u00e9m o cuidado do mundo deve ser flex\u00edvel e din\u00e2mico. As solu\u00e7\u00f5es meramente t\u00e9cnicas correm o risco de tomar em considera\u00e7\u00e3o sintomas que n\u00e3o correspondem \u00e0s problem\u00e1ticas mais profundas. \u00c9 preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos e das culturas, dando assim provas de compreender que o desenvolvimento dum grupo social sup\u00f5e um processo hist\u00f3rico no \u00e2mbito dum contexto cultural e requer constantemente o protagonismo dos actores sociais locais a partir da sua pr\u00f3pria cultura. Nem mesmo a no\u00e7\u00e3o da qualidade de vida se pode impor, mas deve ser entendida dentro do mundo de s\u00edmbolos e h\u00e1bitos pr\u00f3prios de cada grupo humano.<\/p>\n<p>145. Muitas formas de intensa explora\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente podem esgotar n\u00e3o s\u00f3 os meios locais de subsist\u00eancia, mas tamb\u00e9m os recursos sociais que consentiram um modo de viver que sustentou, durante longo tempo, uma identidade cultural e um sentido da exist\u00eancia e da conviv\u00eancia social. O desaparecimento duma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento duma esp\u00e9cie animal ou vegetal. A imposi\u00e7\u00e3o dum estilo hegem\u00f3nico de vida ligado a um modo de produ\u00e7\u00e3o pode ser t\u00e3o nocivo como a altera\u00e7\u00e3o dos ecossistemas.<\/p>\n<p>146. Neste sentido, \u00e9 indispens\u00e1vel prestar uma aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0s comunidades abor\u00edgenes com as suas tradi\u00e7\u00f5es culturais. N\u00e3o s\u00e3o apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avan\u00e7a com grandes projectos que afectam os seus espa\u00e7os. Com efeito, para eles, a terra n\u00e3o \u00e9 um bem econ\u00f3mico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espa\u00e7o sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territ\u00f3rios, s\u00e3o quem melhor os cuida. Em v\u00e1rias partes do mundo, por\u00e9m, s\u00e3o objecto de press\u00f5es para que abandonem suas terras e as deixem livres para projectos extractivos e agro-pecu\u00e1rios que n\u00e3o prestam aten\u00e7\u00e3o \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o da natureza e da cultura.<\/p>\n<p><strong>3. Ecologia da vida quotidiana<\/strong><br \/>147. Para se poder falar de aut\u00eantico progresso, ser\u00e1 preciso verificar que se produza uma melhoria global na qualidade de vida humana; isto implica analisar o espa\u00e7o onde as pessoas transcorrem a sua exist\u00eancia. Os ambientes onde vivemos influem sobre a nossa maneira de ver a vida, sentir e agir. Ao mesmo tempo, no nosso quarto, na nossa casa, no nosso lugar de trabalho e no nosso bairro, usamos o ambiente para exprimir a nossa identidade. Esfor\u00e7amo-nos por nos adaptar ao ambiente e, quando este aparece desordenado, ca\u00f3tico ou cheio de polui\u00e7\u00e3o visiva e ac\u00fastica, o excesso de est\u00edmulos p\u00f5e \u00e0 prova as nossas tentativas de desenvolver uma identidade integrada e feliz.<\/p>\n<p>148. Admir\u00e1vel \u00e9 a criatividade e generosidade de pessoas e grupos que s\u00e3o capazes de dar a volta \u00e0s limita\u00e7\u00f5es do ambiente, modificando os efeitos adversos dos condicionalismos e aprendendo a orientar a sua exist\u00eancia no meio da desordem e precariedade. Por exemplo, nalguns lugares onde as fachadas dos edif\u00edcios est\u00e3o muito deterioradas, h\u00e1 pessoas que cuidam com muita dignidade o interior das suas habita\u00e7\u00f5es, ou que se sentem bem pela cordialidade e amizade das pessoas. A vida social positiva e benfazeja dos habitantes enche de luz um ambiente \u00e0 primeira vista inabit\u00e1vel. \u00c9 louv\u00e1vel a ecologia humana que os pobres conseguem desenvolver, no meio de tantas limita\u00e7\u00f5es. A sensa\u00e7\u00e3o de sufocamento, produzida pelos aglomerados residenciais e pelos espa\u00e7os com alta densidade populacional, \u00e9 contrastada se se desenvolvem calorosas rela\u00e7\u00f5es humanas de vizinhan\u00e7a, se se criam comunidades, se as limita\u00e7\u00f5es ambientais s\u00e3o compensadas na interioridade de cada pessoa que se sente inserida numa rede de comunh\u00e3o e perten\u00e7a. Deste modo, qualquer lugar deixa de ser um inferno e torna-se o contexto duma vida digna.<\/p>\n<p>149. Inversamente est\u00e1 provado que a pen\u00faria extrema vivida nalguns ambientes privados de harmonia, magnanimidade e possibilidade de integra\u00e7\u00e3o, facilita o aparecimento de comportamentos desumanos e a manipula\u00e7\u00e3o das pessoas por organiza\u00e7\u00f5es criminosas. Para os habitantes de bairros perif\u00e9ricos muito prec\u00e1rios, a experi\u00eancia di\u00e1ria de passar da superlota\u00e7\u00e3o ao anonimato social, que se vive nas grandes cidades, pode provocar uma sensa\u00e7\u00e3o de desenraizamento que favorece comportamentos anti-sociais e viol\u00eancia. Todavia tenho a peito reiterar que o amor \u00e9 mais forte. Muitas pessoas, nestas condi\u00e7\u00f5es, s\u00e3o capazes de tecer la\u00e7os de perten\u00e7a e conviv\u00eancia que transformam a superlota\u00e7\u00e3o numa experi\u00eancia comunit\u00e1ria, onde se derrubam os muros do eu e superam as barreiras do ego\u00edsmo. Esta experi\u00eancia de salva\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria \u00e9 o que muitas vezes suscita reac\u00e7\u00f5es criativas para melhorar um edif\u00edcio ou um bairro.[117]<\/p>\n<p>150. Dada a rela\u00e7\u00e3o entre os espa\u00e7os urbanizados e o comportamento humano, aqueles que projectam edif\u00edcios, bairros, espa\u00e7os p\u00fablicos e cidades precisam da contribui\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios saberes que permitem compreender os processos, o simbolismo e os comportamentos das pessoas. N\u00e3o \u00e9 suficiente a busca da beleza no projecto, porque tem ainda mais valor servir outro tipo de beleza: a qualidade de vida das pessoas, a sua harmonia com o ambiente, o encontro e ajuda m\u00fatua. Por isso tamb\u00e9m, \u00e9 t\u00e3o importante que o ponto de vista dos habitantes do lugar contribua sempre para a an\u00e1lise da planifica\u00e7\u00e3o urbanista.<\/p>\n<p>151. \u00c9 preciso cuidar dos espa\u00e7os comuns, dos marcos visuais e das estruturas urbanas que melhoram o nosso sentido de perten\u00e7a, a nossa sensa\u00e7\u00e3o de enraizamento, o nosso sentimento de \u00abestar em casa\u00bb dentro da cidade que nos envolve e une. \u00c9 importante que as diferentes partes duma cidade estejam bem integradas e que os habitantes possam ter uma vis\u00e3o de conjunto em vez de se encerrarem num bairro, renunciando a viver a cidade inteira como um espa\u00e7o pr\u00f3prio partilhado com os outros. Toda a interven\u00e7\u00e3o na paisagem urbana ou rural deveria considerar que os diferentes elementos do lugar formam um todo, sentido pelos habitantes como um contexto coerente com a sua riqueza de significados. Assim, os outros deixam de ser estranhos e podemos senti-los como parte de um \u00abn\u00f3s\u00bb que constru\u00edmos juntos. Pela mesma raz\u00e3o, tanto no meio urbano como no rural, conv\u00e9m preservar alguns espa\u00e7os onde se evitem interven\u00e7\u00f5es humanas que os alterem constantemente.<br \/>152. A falta de habita\u00e7\u00e3o \u00e9 grave em muitas partes do mundo, tanto nas \u00e1reas rurais como nas grandes cidades, nomeadamente porque os or\u00e7amentos estatais em geral cobrem apenas uma pequena parte da procura. E n\u00e3o s\u00f3 os pobres, mas uma grande parte da sociedade encontra s\u00e9rias dificuldades para ter uma casa pr\u00f3pria. A propriedade da casa tem muita import\u00e2ncia para a dignidade das pessoas e o desenvolvimento das fam\u00edlias. Trata-se duma quest\u00e3o central da ecologia humana. Se num lugar concreto j\u00e1 se desenvolveram aglomerados ca\u00f3ticos de casas prec\u00e1rias, trata-se primariamente de urbanizar estes bairros, n\u00e3o de erradicar e expulsar os habitantes. Mas, quando os pobres vivem em sub\u00farbios polu\u00eddos ou aglomerados perigosos, \u00abno caso de ter de se proceder \u00e0 sua desloca\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o acrescentar mais sofrimento ao que j\u00e1 padecem, \u00e9 necess\u00e1rio fornecer-lhes uma adequada e pr\u00e9via informa\u00e7\u00e3o, oferecer-lhes alternativas de alojamentos dignos e envolver directamente os interessados\u00bb.[118]Ao mesmo tempo, a criatividade deveria levar \u00e0 integra\u00e7\u00e3o dos bairros prec\u00e1rios numa cidade acolhedora: \u00abComo s\u00e3o belas as cidades que superam a desconfian\u00e7a doentia e integram os que s\u00e3o diferentes, fazendo desta integra\u00e7\u00e3o um novo factor de progresso! Como s\u00e3o encantadoras as cidades que, j\u00e1 no seu projecto arquitect\u00f3nico, est\u00e3o cheias de espa\u00e7os que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro!\u00bb[119]<\/p>\n<p>153. Nas cidades, a qualidade de vida est\u00e1 largamente relacionada com os transportes, que muitas vezes s\u00e3o causa de grandes tribula\u00e7\u00f5es para os habitantes. Nelas, circulam muitos carros utilizados por uma ou duas pessoas, pelo que o tr\u00e1fico torna-se intenso, eleva-se o n\u00edvel de polui\u00e7\u00e3o, consomem-se enormes quantidades de energia n\u00e3o-renov\u00e1vel e torna-se necess\u00e1rio a constru\u00e7\u00e3o de mais estradas e parques de estacionamento que prejudicam o tecido urbano. Muitos especialistas est\u00e3o de acordo sobre a necessidade de dar prioridade ao transporte p\u00fablico. Mas \u00e9 dif\u00edcil que algumas medidas consideradas necess\u00e1rias sejam pacificamente acolhidas pela sociedade, sem uma melhoria substancial do referido transporte, que, em muitas cidades, comporta um tratamento indigno das pessoas devido \u00e0 superlota\u00e7\u00e3o, ao desconforto, ou \u00e0 reduzida frequ\u00eancia dos servi\u00e7os e \u00e0 inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p>154. O reconhecimento da dignidade peculiar do ser humano contrasta frequentemente com a vida ca\u00f3tica que t\u00eam de fazer as pessoas nas nossas cidades. Mas isto n\u00e3o deveria levar a esquecer o estado de abandono e desleixo que sofrem tamb\u00e9m alguns habitantes das \u00e1reas rurais, onde n\u00e3o chegam os servi\u00e7os essenciais e h\u00e1 trabalhadores reduzidos a situa\u00e7\u00f5es de escravid\u00e3o, sem direitos nem expectativas duma vida mais dignificante.<\/p>\n<p>155. A ecologia humana implica tamb\u00e9m algo de muito profundo que \u00e9 indispens\u00e1vel para se poder criar um ambiente mais dignificante: a rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria da vida do ser humano com a lei moral inscrita na sua pr\u00f3pria natureza. Bento XVI dizia que existe uma \u00abecologia do homem\u00bb, porque \u00abtamb\u00e9m o homem possui uma natureza, que deve respeitar e n\u00e3o pode manipular como lhe apetece\u00bb.[120] Nesta linha, \u00e9 preciso reconhecer que o nosso corpo nos p\u00f5e em rela\u00e7\u00e3o directa com o meio ambiente e com os outros seres vivos. A aceita\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo como dom de Deus \u00e9 necess\u00e1ria para acolher e aceitar o mundo inteiro como dom do Pai e casa comum; pelo contr\u00e1rio, uma l\u00f3gica de dom\u00ednio sobre o pr\u00f3prio corpo transforma-se numa l\u00f3gica, por vezes subtil, de dom\u00ednio sobre a cria\u00e7\u00e3o. Aprender a aceitar o pr\u00f3prio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados \u00e9 essencial para uma verdadeira ecologia humana. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio ter apre\u00e7o pelo pr\u00f3prio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que \u00e9 diferente. Assim, \u00e9 poss\u00edvel aceitar com alegria o dom espec\u00edfico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente. Portanto, n\u00e3o \u00e9 salutar um comportamento que pretenda \u00abcancelar a diferen\u00e7a sexual, porque j\u00e1 n\u00e3o sabe confrontar-se com ela\u00bb.[121]<\/p>\n<p><strong>4. O princ\u00edpio do bem comum<\/strong><br \/>156. A ecologia humana \u00e9 insepar\u00e1vel da no\u00e7\u00e3o de bem comum, princ\u00edpio este que desempenha um papel central e unificador na \u00e9tica social. \u00c9 \u00abo conjunto das condi\u00e7\u00f5es da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcan\u00e7ar mais plena e facilmente a pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o\u00bb.[122]<\/p>\n<p>157. O bem comum pressup\u00f5e o respeito pela pessoa humana enquanto tal, com direitos fundamentais e inalien\u00e1veis orientados para o seu desenvolvimento integral. Exige tamb\u00e9m os dispositivos de bem-estar e seguran\u00e7a social e o desenvolvimento dos v\u00e1rios grupos interm\u00e9dios, aplicando o princ\u00edpio da subsidiariedade. Entre tais grupos, destaca-se de forma especial a fam\u00edlia enquanto c\u00e9lula basilar da sociedade. Por fim, o bem comum requer a paz social, isto \u00e9, a estabilidade e a seguran\u00e7a de uma certa ordem, que n\u00e3o se realiza sem uma aten\u00e7\u00e3o particular \u00e0 justi\u00e7a distributiva, cuja viola\u00e7\u00e3o gera sempre viol\u00eancia. Toda a sociedade \u2013 e, nela, especialmente o Estado \u2013 tem obriga\u00e7\u00e3o de defender e promover o bem comum.<br \/>158. Nas condi\u00e7\u00f5es actuais da sociedade mundial, onde h\u00e1 tantas desigualdades e s\u00e3o cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princ\u00edpio do bem comum torna-se imediatamente, como consequ\u00eancia l\u00f3gica e inevit\u00e1vel, um apelo \u00e0 solidariedade e uma op\u00e7\u00e3o preferencial pelos mais pobres. Esta op\u00e7\u00e3o implica tirar as consequ\u00eancias do destino comum dos bens da terra, mas \u2013 como procurei mostrar na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Evangelii gaudium [123] \u2013 exige acima de tudo contemplar a imensa dignidade do pobre \u00e0 luz das mais profundas convic\u00e7\u00f5es de f\u00e9. Basta observar a realidade para compreender que, hoje, esta op\u00e7\u00e3o \u00e9 uma exig\u00eancia \u00e9tica fundamental para a efectiva realiza\u00e7\u00e3o do bem comum.<\/p>\n<p><strong>5. A justi\u00e7a intergeneracional<\/strong><br \/>159. A no\u00e7\u00e3o de bem comum engloba tamb\u00e9m as gera\u00e7\u00f5es futuras. As crises econ\u00f3micas internacionais mostraram, de forma atroz, os efeitos nocivos que traz consigo o desconhecimento de um destino comum, do qual n\u00e3o podem ser exclu\u00eddos aqueles que vir\u00e3o depois de n\u00f3s. J\u00e1 n\u00e3o se pode falar de desenvolvimento sustent\u00e1vel sem uma solidariedade intergeneracional. Quando pensamos na situa\u00e7\u00e3o em que se deixa o planeta \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras, entramos noutra l\u00f3gica: a do dom gratuito, que recebemos e comunicamos. Se a terra nos \u00e9 dada, n\u00e3o podemos pensar apenas a partir dum crit\u00e9rio utilitarista de efici\u00eancia e produtividade para lucro individual. N\u00e3o estamos a falar duma atitude opcional, mas duma quest\u00e3o essencial de justi\u00e7a, pois a terra que recebemos pertence tamb\u00e9m \u00e0queles que h\u00e3o-de vir. Os bispos de Portugal exortaram a assumir este dever de justi\u00e7a: \u00abO ambiente situa-se na l\u00f3gica da recep\u00e7\u00e3o. \u00c9 um empr\u00e9stimo que cada gera\u00e7\u00e3o recebe e deve transmitir \u00e0 gera\u00e7\u00e3o seguinte\u00bb.[124]Uma ecologia integral possui esta perspectiva ampla.<\/p>\n<p>160. Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, \u00e0s crian\u00e7as que est\u00e3o a crescer? Esta pergunta n\u00e3o toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque n\u00e3o se pode p\u00f4r a quest\u00e3o de forma fragment\u00e1ria. Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo \u00e0 sua orienta\u00e7\u00e3o geral, ao seu sentido, aos seus valores. Se n\u00e3o pulsa nelas esta pergunta de fundo, n\u00e3o creio que as nossas preocupa\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas possam alcan\u00e7ar efeitos importantes. Mas, se esta pergunta \u00e9 posta com coragem, leva-nos inexoravelmente a outras quest\u00f5es muito directas: Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de n\u00f3s esta terra? Por isso, j\u00e1 n\u00e3o basta dizer que devemos preocupar-nos com as gera\u00e7\u00f5es futuras; exige-se ter consci\u00eancia de que \u00e9 a nossa pr\u00f3pria dignidade que est\u00e1 em jogo. Somos n\u00f3s os primeiros interessados em deixar um planeta habit\u00e1vel para a humanidade que nos vai suceder. Trata-se de um drama para n\u00f3s mesmos, porque isto chama em causa o significado da nossa passagem por esta terra.<\/p>\n<p>161. As previs\u00f5es catastr\u00f3ficas j\u00e1 n\u00e3o se podem olhar com desprezo e ironia. \u00c0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, poder\u00edamos deixar demasiadas ru\u00ednas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperd\u00edcio e altera\u00e7\u00e3o do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida actual \u2013 por ser insustent\u00e1vel \u2013 s\u00f3 pode desembocar em cat\u00e1strofes, como ali\u00e1s j\u00e1 est\u00e1 a acontecer periodicamente em v\u00e1rias regi\u00f5es. A atenua\u00e7\u00e3o dos efeitos do desequil\u00edbrio actual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuir\u00e3o aqueles que dever\u00e3o suportar as piores consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>162. A dificuldade em levar a s\u00e9rio este desafio tem a ver com uma deteriora\u00e7\u00e3o \u00e9tica e cultural, que acompanha a deteriora\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. O homem e a mulher deste mundo p\u00f3s-moderno correm o risco permanente de se tornar profundamente individualistas, e muitos problemas sociais de hoje est\u00e3o relacionados com a busca ego\u00edsta duma satisfa\u00e7\u00e3o imediata, com as crises dos la\u00e7os familiares e sociais, com as dificuldades em reconhecer o outro. Muitas vezes h\u00e1 um consumo excessivo e m\u00edope dos pais que prejudica os pr\u00f3prios filhos, que sentem cada vez mais dificuldade em comprar casa pr\u00f3pria e fundar uma fam\u00edlia. Al\u00e9m disso esta falta de capacidade para pensar seriamente nas futuras gera\u00e7\u00f5es est\u00e1 ligada com a nossa incapacidade de alargar o horizonte das nossas preocupa\u00e7\u00f5es e pensar naqueles que permanecem exclu\u00eddos do desenvolvimento. N\u00e3o percamos tempo a imaginar os pobres do futuro, \u00e9 suficiente que recordemos os pobres de hoje, que poucos anos t\u00eam para viver nesta terra e n\u00e3o podem continuar a esperar. Por isso, \u00abpara al\u00e9m de uma leal solidariedade entre as gera\u00e7\u00f5es, h\u00e1 que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indiv\u00edduos da mesma gera\u00e7\u00e3o\u00bb.[125]<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAP\u00cdTULO V<\/strong><br \/><strong>ALGUMAS LINHAS DE ORIENTA\u00c7\u00c3O E AC\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>163. Procurei examinar a situa\u00e7\u00e3o actual da humanidade, tanto nas brechas do planeta que habitamos, como nas causas mais profundamente humanas da degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Embora esta contempla\u00e7\u00e3o da realidade em si mesma j\u00e1 nos indique a necessidade duma mudan\u00e7a de rumo e sugira algumas ac\u00e7\u00f5es, procuremos agora delinear grandes percursos de di\u00e1logo que nos ajudem a sair da espiral de autodestrui\u00e7\u00e3o onde estamos a afundar.<\/p>\n<p><strong>1. O di\u00e1logo sobre o meio ambiente na pol\u00edtica internacional<\/strong><br \/>164. Desde meados do s\u00e9culo passado e superando muitas dificuldades, foi-se consolidando a tend\u00eancia de conceber o planeta como p\u00e1tria e a humanidade como povo que habita uma casa comum. Um mundo interdependente n\u00e3o significa unicamente compreender que as consequ\u00eancias danosas dos estilos de vida, produ\u00e7\u00e3o e consumo afectam a todos, mas principalmente procurar que as solu\u00e7\u00f5es sejam propostas a partir duma perspectiva global e n\u00e3o apenas para defesa dos interesses de alguns pa\u00edses. A interdepend\u00eancia obriga-nos a pensar num \u00fanico mundo, num projecto comum. Mas, a mesma intelig\u00eancia que foi utilizada para um enorme desenvolvimento tecnol\u00f3gico n\u00e3o consegue encontrar formas eficazes de gest\u00e3o internacional para resolver as graves dificuldades ambientais e sociais. Para enfrentar os problemas de fundo, que n\u00e3o se podem resolver com ac\u00e7\u00f5es de pa\u00edses isolados, torna-se indispens\u00e1vel um consenso mundial que leve, por exemplo, a programar uma agricultura sustent\u00e1vel e diversificada, desenvolver formas de energia renov\u00e1veis e pouco poluidoras, fomentar uma maior efici\u00eancia energ\u00e9tica, promover uma gest\u00e3o mais adequada dos recursos florestais e marinhos, garantir a todos o acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel.<\/p>\n<p>165. Sabemos que a tecnologia baseada nos combust\u00edveis f\u00f3sseis \u2013 altamente poluentes, sobretudo o carv\u00e3o mas tamb\u00e9m o petr\u00f3leo e, em menor medida, o g\u00e1s \u2013 deve ser, progressivamente e sem demora, substitu\u00edda. Enquanto aguardamos por um amplo desenvolvimento das energias renov\u00e1veis, que j\u00e1 deveria ter come\u00e7ado, \u00e9 leg\u00edtimo optar pelo mal menor ou recorrer a solu\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias. Todavia, na comunidade internacional, n\u00e3o se consegue suficiente acordo sobre a responsabilidade de quem deve suportar os maiores custos da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as quest\u00f5es ambientais deram origem a um amplo debate p\u00fablico, que fez crescer na sociedade civil espa\u00e7os de not\u00e1vel compromisso e generosa dedica\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica e a ind\u00fastria reagem com lentid\u00e3o, longe de estar \u00e0 altura dos desafios mundiais. Neste sentido, pode-se dizer que, enquanto a humanidade do per\u00edodo p\u00f3s-industrial talvez fique recordada como uma das mais irrespons\u00e1veis da hist\u00f3ria, espera-se que a humanidade dos in\u00edcios do s\u00e9culo XXI possa ser lembrada por ter assumido com generosidade as suas graves responsabilidades.<br \/>166. O movimento ecol\u00f3gico mundial j\u00e1 percorreu um longo caminho, enriquecido pelo esfor\u00e7o de muitas organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil. N\u00e3o seria poss\u00edvel mencion\u00e1-las todas aqui, nem repassar a hist\u00f3ria das suas contribui\u00e7\u00f5es. Mas, gra\u00e7as a tanta dedica\u00e7\u00e3o, as quest\u00f5es ambientais t\u00eam estado cada vez mais presentes na agenda p\u00fablica e tornaram-se um convite permanente a pensar a longo prazo. Apesar disso, as cimeiras mundiais sobre o meio ambiente dos \u00faltimos anos n\u00e3o corresponderam \u00e0s expectativas, porque n\u00e3o alcan\u00e7aram, por falta de decis\u00e3o pol\u00edtica, acordos ambientais globais realmente significativos e eficazes.<\/p>\n<p>167. Dentre elas, h\u00e1 que recordar a Cimeira da Terra, celebrada em 1992 no Rio de Janeiro. L\u00e1 se proclamou que \u00abos seres humanos constituem o centro das preocupa\u00e7\u00f5es relacionadas com o desenvolvimento sustent\u00e1vel\u00bb.[126] Retomando alguns conte\u00fados da Declara\u00e7\u00e3o de Estocolmo (1972), sancionou, entre outras coisas, a coopera\u00e7\u00e3o internacional no cuidado do ecossistema de toda a terra, a obriga\u00e7\u00e3o de quem contaminar assumir economicamente os custos derivados, o dever de avaliar o impacto ambiental de toda e qualquer obra ou projecto. Prop\u00f4s o objectivo de estabilizar as concentra\u00e7\u00f5es de gases com efeito de estufa na atmosfera para inverter a tend\u00eancia do aquecimento global. Tamb\u00e9m elaborou uma agenda com um programa de ac\u00e7\u00e3o e uma conven\u00e7\u00e3o sobre biodiversidade, declarou princ\u00edpios em mat\u00e9ria florestal. Embora tal cimeira marcasse um passo em frente e fosse verdadeiramente prof\u00e9tica para a sua \u00e9poca, os acordos tiveram um baixo n\u00edvel de implementa\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o se estabeleceram adequados mecanismos de controle, revis\u00e3o peri\u00f3dica e san\u00e7\u00e3o das viola\u00e7\u00f5es. Os princ\u00edpios enunciados continuam a requerer caminhos eficazes e \u00e1geis de realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>168. Como experi\u00eancias positivas, pode-se mencionar, por exemplo, a Conven\u00e7\u00e3o de Basileia sobre os res\u00edduos perigosos, com um sistema de notifica\u00e7\u00e3o, n\u00edveis estipulados e controles, e tamb\u00e9m a Conven\u00e7\u00e3o vinculante sobre o com\u00e9rcio internacional das esp\u00e9cies da fauna e da flora selvagens amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o, que prev\u00ea miss\u00f5es de verifica\u00e7\u00e3o do seu efectivo cumprimento. Gra\u00e7as \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o de Viena para a protec\u00e7\u00e3o da camada de ozono e a respectiva implementa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do Protocolo de Montreal e as suas emendas, o problema da diminui\u00e7\u00e3o da referida camada parece ter entrado numa fase de solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>169. No cuidado da biodiversidade e no contraste \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o, os avan\u00e7os foram muito menos significativos. Relativamente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, os progressos s\u00e3o, infelizmente, muito escassos. A redu\u00e7\u00e3o de gases com efeito de estufa requer honestidade, coragem e responsabilidade, sobretudo dos pa\u00edses mais poderosos e mais poluentes. A Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, chamada Rio+20 (Rio de Janeiro 2012), emitiu uma Declara\u00e7\u00e3o Final extensa mas ineficaz. As negocia\u00e7\u00f5es internacionais n\u00e3o podem avan\u00e7ar significativamente por causa das posi\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses que privilegiam os seus interesses nacionais sobre o bem comum global. Aqueles que h\u00e3o-de sofrer as consequ\u00eancias que tentamos dissimular, recordar\u00e3o esta falta de consci\u00eancia e de responsabilidade. Durante o per\u00edodo de elabora\u00e7\u00e3o desta enc\u00edclica, o debate adquiriu particular intensidade. N\u00f3s, crentes, n\u00e3o podemos deixar de rezar a Deus pela evolu\u00e7\u00e3o positiva nos debates actuais, para que as gera\u00e7\u00f5es futuras n\u00e3o sofram as consequ\u00eancias de demoras imprudentes.<\/p>\n<p>170. Algumas das estrat\u00e9gias para a baixa emiss\u00e3o de gases poluentes apostam na internacionaliza\u00e7\u00e3o dos custos ambientais, com o perigo de impor aos pa\u00edses de menores recursos pesados compromissos de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es compar\u00e1veis aos dos pa\u00edses mais industrializados. A imposi\u00e7\u00e3o destas medidas penaliza os pa\u00edses mais necessitados de desenvolvimento. Assim, acrescenta-se uma nova injusti\u00e7a sob a capa do cuidado do meio ambiente. Como sempre, a corda quebra pelo ponto mais fraco. Uma vez que os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se far\u00e3o sentir durante muito tempo, mesmo que agora sejam tomadas medidas rigorosas, alguns pa\u00edses com escassos recursos precisar\u00e3o de ajuda para se adaptar a efeitos que j\u00e1 est\u00e3o a produzir-se e afectam as suas economias. \u00c9 verdade que h\u00e1 responsabilidades comuns, mas diferenciadas, pelo simples motivo \u2013 como disseram os bispos da Bol\u00edvia \u2013 que \u00abos pa\u00edses que foram beneficiados por um alto grau de industrializa\u00e7\u00e3o, \u00e0 custa duma enorme emiss\u00e3o de gases com efeito de estufa, t\u00eam maior responsabilidade em contribuir para a solu\u00e7\u00e3o dos problemas que causaram\u00bb.[127]<\/p>\n<p>171. A estrat\u00e9gia de compra-venda de \u00abcr\u00e9ditos de emiss\u00e3o\u00bb pode levar a uma nova forma de especula\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o ajudaria a reduzir a emiss\u00e3o global de gases poluentes. Este sistema parece ser uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e f\u00e1cil, com a apar\u00eancia dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que n\u00e3o implica de forma alguma uma mudan\u00e7a radical \u00e0 altura das circunst\u00e2ncias. Pelo contr\u00e1rio, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns pa\u00edses e sectores.<\/p>\n<p>172. Para os pa\u00edses pobres, as prioridades devem ser a erradica\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e o desenvolvimento social dos seus habitantes; ao mesmo tempo devem examinar o n\u00edvel escandaloso de consumo de alguns sectores privilegiados da sua popula\u00e7\u00e3o e contrastar melhor a corrup\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida, devem tamb\u00e9m desenvolver formas menos poluentes de produ\u00e7\u00e3o de energia, mas para isso precisam de contar com a ajuda dos pa\u00edses que cresceram muito \u00e0 custa da actual polui\u00e7\u00e3o do planeta. O aproveitamento directo da energia solar, t\u00e3o abundante, exige que se estabele\u00e7am mecanismos e subs\u00eddios tais, que os pa\u00edses em vias de desenvolvimento possam ter acesso \u00e0 transfer\u00eancia de tecnologias, assist\u00eancia t\u00e9cnica e recursos financeiros, mas sempre prestando aten\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es concretas, pois \u00abnem sempre se avalia adequadamente a compatibilidade dos sistemas com o contexto para o qual s\u00e3o projectados\u00bb.[128] Os custos seriam baixos se comparados com os riscos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Em todo o caso, trata-se primariamente duma decis\u00e3o \u00e9tica, fundada na solidariedade de todos os povos.<\/p>\n<p>173. Urgem acordos internacionais que se cumpram, dada a escassa capacidade das inst\u00e2ncias locais para intervirem de maneira eficaz. As rela\u00e7\u00f5es entre os Estados devem salvaguardar a soberania de cada um, mas tamb\u00e9m estabelecer caminhos consensuais para evitar cat\u00e1strofes locais que acabariam por danificar a todos. S\u00e3o necess\u00e1rios padr\u00f5es reguladores globais que imponham obriga\u00e7\u00f5es e impe\u00e7am ac\u00e7\u00f5es inaceit\u00e1veis, como o facto de pa\u00edses poderosos descarregarem, sobre outros pa\u00edses, res\u00edduos e ind\u00fastrias altamente poluentes.<\/p>\n<p>174. Mencionemos tamb\u00e9m o sistema de governan\u00e7a dos oceanos. Com efeito, embora tenha havido v\u00e1rias conven\u00e7\u00f5es internacionais e regionais, a fragmenta\u00e7\u00e3o e a falta de severos mecanismos de regulamenta\u00e7\u00e3o, controle e san\u00e7\u00e3o acabam por minar todos os esfor\u00e7os. O problema crescente dos res\u00edduos marinhos e da protec\u00e7\u00e3o das \u00e1reas marinhas para al\u00e9m das fronteiras nacionais continua a representar um desafio especial. Em definitivo, precisamos de um acordo sobre os regimes de governan\u00e7a para toda a gama dos chamados bens comuns globais.<\/p>\n<p>175. A l\u00f3gica que dificulta a tomada de decis\u00f5es dr\u00e1sticas para inverter a tend\u00eancia ao aquecimento global \u00e9 a mesma que n\u00e3o permite cumprir o objectivo de erradicar a pobreza. Precisamos duma reac\u00e7\u00e3o global mais respons\u00e1vel, que implique enfrentar, contemporaneamente, a redu\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento dos pa\u00edses e regi\u00f5es pobres. O s\u00e9culo XXI, mantendo um sistema de governan\u00e7a pr\u00f3prio de \u00e9pocas passadas, assiste a uma perda de poder dos Estados nacionais, sobretudo porque a dimens\u00e3o econ\u00f3mico-financeira, de car\u00e1cter transnacional, tende a prevalecer sobre a pol\u00edtica. Neste contexto, torna-se indispens\u00e1vel a matura\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es internacionais mais fortes e eficazmente organizadas, com autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre os governos nacionais e dotadas de poder de sancionar. Com afirmou Bento XVI, na linha desenvolvida at\u00e9 agora pela doutrina social da Igreja, \u00abpara o governo da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e consequentes maiores desequil\u00edbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a seguran\u00e7a alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migrat\u00f3rios urge a presen\u00e7a de uma verdadeira Autoridade pol\u00edtica mundial, delineada j\u00e1 pelo meu predecessor, [S\u00e3o]Jo\u00e3o XXIII\u00bb.[129] Nesta perspectiva, a diplomacia adquire uma import\u00e2ncia in\u00e9dita, chamada a promover estrat\u00e9gias internacionais para prevenir os problemas mais graves que acabam por afectar a todos.<\/p>\n<p><strong>2. O di\u00e1logo para novas pol\u00edticas nacionais e locais<\/strong><br \/>176. H\u00e1 vencedores e vencidos n\u00e3o s\u00f3 entre os pa\u00edses, mas tamb\u00e9m dentro dos pa\u00edses pobres, onde se devem identificar as diferentes responsabilidades. Por isso, as quest\u00f5es relacionadas com o meio ambiente e com o desenvolvimento econ\u00f3mico j\u00e1 n\u00e3o se podem olhar apenas a partir das diferen\u00e7as entre os pa\u00edses, mas exigem que se preste aten\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas nacionais e locais.<\/p>\n<p>177. Perante a possibilidade duma utiliza\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel das capacidades humanas, s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es inadi\u00e1veis de cada Estado planificar, coordenar, vigiar e sancionar dentro do respectivo territ\u00f3rio. Como pode a sociedade organizar e salvaguardar o seu futuro num contexto de constantes inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas? Um factor que actua como moderador efectivo \u00e9 o direito, que estabelece as regras para as condutas permitidas \u00e0 luz do bem comum. Os limites que uma sociedade s\u00e3, madura e soberana deve impor t\u00eam a ver com previs\u00e3o e precau\u00e7\u00e3o, regulamenta\u00e7\u00f5es adequadas, vigil\u00e2ncia sobre a aplica\u00e7\u00e3o das normas, contraste da corrup\u00e7\u00e3o, ac\u00e7\u00f5es de controle operacional sobre o aparecimento de efeitos n\u00e3o desejados dos processos de produ\u00e7\u00e3o, e oportuna interven\u00e7\u00e3o perante riscos incertos ou potenciais. Existe uma crescente jurisprud\u00eancia que visa reduzir os efeitos poluentes dos empreendimentos. Mas a estrutura pol\u00edtica e institucional n\u00e3o existe apenas para evitar malversa\u00e7\u00f5es, mas para incentivar as boas pr\u00e1ticas, estimular a criatividade que busca novos caminhos, facilitar as iniciativas pessoais e colectivas.<\/p>\n<p>178. O drama duma pol\u00edtica focalizada nos resultados imediatos, apoiada tamb\u00e9m por popula\u00e7\u00f5es consumistas, torna necess\u00e1rio produzir crescimento a curto prazo. Respondendo a interesses eleitorais, os governos n\u00e3o se aventuram facilmente a irritar a popula\u00e7\u00e3o com medidas que possam afectar o n\u00edvel de consumo ou p\u00f4r em risco investimentos estrangeiros. A constru\u00e7\u00e3o m\u00edope do poder frena a inser\u00e7\u00e3o duma agenda ambiental com vis\u00e3o ampla na agenda p\u00fablica dos governos. Esquece-se, assim, que \u00abo tempo \u00e9 superior ao espa\u00e7o\u00bb[130] e que sempre somos mais fecundos quando temos maior preocupa\u00e7\u00e3o por gerar processos do que por dominar espa\u00e7os de poder. A grandeza pol\u00edtica mostra-se quando, em momentos dif\u00edceis, se trabalha com base em grandes princ\u00edpios e pensando no bem comum a longo prazo. O poder pol\u00edtico tem muita dificuldade em assumir este dever num projecto de na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>179. Nalguns lugares, est\u00e3o a desenvolver-se cooperativas para a explora\u00e7\u00e3o de energias renov\u00e1veis, que consentem o auto-abastecimento local e at\u00e9 mesmo a venda da produ\u00e7\u00e3o em excesso. Este exemplo simples indica que, enquanto a ordem mundial existente se revela impotente para assumir responsabilidades, a inst\u00e2ncia local pode fazer a diferen\u00e7a. Com efeito, aqui \u00e9 poss\u00edvel gerar uma maior responsabilidade, um forte sentido de comunidade, uma especial capacidade de solicitude e uma criatividade mais generosa, um amor apaixonado pela pr\u00f3pria terra, tal como se pensa naquilo que se deixa aos filhos e netos. Estes valores t\u00eam um enraizamento muito profundo nas popula\u00e7\u00f5es abor\u00edgenes. Dado que o direito por vezes se mostra insuficiente devido \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, requer-se uma decis\u00e3o pol\u00edtica sob press\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. A sociedade, atrav\u00e9s de organismos n\u00e3o-governamentais e associa\u00e7\u00f5es interm\u00e9dias, deve for\u00e7ar os governos a desenvolver normativas, procedimentos e controles mais rigorosos. Se os cidad\u00e3os n\u00e3o controlam o poder pol\u00edtico \u2013 nacional, regional e municipal \u2013, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel combater os danos ambientais. Al\u00e9m disso, as legisla\u00e7\u00f5es municipais podem ser mais eficazes, se houver acordos entre popula\u00e7\u00f5es vizinhas para sustentarem as mesmas pol\u00edticas ambientais.<\/p>\n<p>180. N\u00e3o se pode pensar em receitas uniformes, porque h\u00e1 problemas e limites espec\u00edficos de cada pa\u00eds ou regi\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o realismo pol\u00edtico pode exigir medidas e tecnologias de transi\u00e7\u00e3o, desde que estejam acompanhadas pelo projecto e a aceita\u00e7\u00e3o de compromissos graduais vinculativos. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, a n\u00edvel nacional e local, h\u00e1 sempre muito que fazer, como, por exemplo, promover formas de poupan\u00e7a energ\u00e9tica. Isto implica favorecer modalidades de produ\u00e7\u00e3o industrial com a m\u00e1xima efici\u00eancia energ\u00e9tica e menor utiliza\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas, retirando do mercado os produtos pouco eficazes do ponto de vista energ\u00e9tico ou mais poluentes. Podemos mencionar tamb\u00e9m uma boa gest\u00e3o dos transportes ou t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o e restrutura\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios que reduzam o seu consumo energ\u00e9tico e o seu n\u00edvel de polui\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica local pode orientar-se para a altera\u00e7\u00e3o do consumo, o desenvolvimento duma economia de res\u00edduos e reciclagem, a protec\u00e7\u00e3o de determinadas esp\u00e9cies e a programa\u00e7\u00e3o duma agricultura diversificada com a rota\u00e7\u00e3o de culturas. \u00c9 poss\u00edvel favorecer a melhoria agr\u00edcola de regi\u00f5es pobres, atrav\u00e9s de investimentos em infra-estruturas rurais, na organiza\u00e7\u00e3o do mercado local ou nacional, em sistemas de irriga\u00e7\u00e3o, no desenvolvimento de t\u00e9cnicas agr\u00edcolas sustent\u00e1veis. Podem-se facilitar formas de coopera\u00e7\u00e3o ou de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria que defendam os interesses dos pequenos produtores e salvaguardem da preda\u00e7\u00e3o os ecossistemas locais. \u00c9 tanto o que se pode fazer!<\/p>\n<p>181. Indispens\u00e1vel \u00e9 a continuidade, porque n\u00e3o se podem modificar as pol\u00edticas relativas \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e \u00e0 protec\u00e7\u00e3o ambiental todas as vezes que muda um governo. Os resultados requerem muito tempo e comportam custos imediatos com efeitos que n\u00e3o poder\u00e3o ser exibidos no per\u00edodo de vida dum governo. Por isso, sem a press\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e das institui\u00e7\u00f5es, haver\u00e1 sempre relut\u00e2ncia a intervir, e mais ainda quando houver urg\u00eancias a resolver. Para um pol\u00edtico, assumir estas responsabilidades com os custos que implicam n\u00e3o corresponde \u00e0 l\u00f3gica eficientista e imediatista actual da economia e da pol\u00edtica, mas, se ele tiver a coragem de o fazer, poder\u00e1 novamente reconhecer a dignidade que Deus lhe deu como pessoa e deixar\u00e1, depois da sua passagem por esta hist\u00f3ria, um testemunho de generosa responsabilidade. Importa dar um lugar preponderante a uma pol\u00edtica salutar, capaz de reformar as institui\u00e7\u00f5es, coorden\u00e1-las e dot\u00e1-las de bons procedimentos, que permitam superar press\u00f5es e in\u00e9rcias viciosas. Todavia \u00e9 preciso acrescentar que os melhores dispositivos acabam por sucumbir, quando faltam as grandes metas, os valores, uma compreens\u00e3o humanista e rica de significado, capazes de conferir a cada sociedade uma orienta\u00e7\u00e3o nobre e generosa.<\/p>\n<p><strong>3. Di\u00e1logo e transpar\u00eancia nos processos decis\u00f3rios<\/strong><br \/>182. A previs\u00e3o do impacto ambiental dos empreendimentos e projectos requer processos pol\u00edticos transparentes e sujeitos a di\u00e1logo, enquanto a corrup\u00e7\u00e3o, que esconde o verdadeiro impacto ambiental dum projecto em troca de favores, frequentemente leva a acordos amb\u00edguos que fogem ao dever de informar e a um debate profundo.<\/p>\n<p>183. Um estudo de impacto ambiental n\u00e3o deveria ser posterior \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o dum projecto produtivo ou de qualquer pol\u00edtica, plano ou programa. H\u00e1-de inserir-se desde o princ\u00edpio e elaborar-se de forma interdisciplinar, transparente e independente de qualquer press\u00e3o econ\u00f3mica ou pol\u00edtica. Deve aparecer unido \u00e0 an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e dos poss\u00edveis efeitos na sa\u00fade f\u00edsica e mental das pessoas, na economia local, na seguran\u00e7a. Assim os resultados econ\u00f3micos poder-se-\u00e3o prever de forma mais realista, tendo em conta os cen\u00e1rios poss\u00edveis e, eventualmente, antecipando a necessidade dum investimento maior para resolver efeitos indesej\u00e1veis que possam ser corrigidos. \u00c9 sempre necess\u00e1rio alcan\u00e7ar consenso entre os v\u00e1rios actores sociais, que podem trazer diferentes perspectivas, solu\u00e7\u00f5es e alternativas. Mas, no debate, devem ter um lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em considera\u00e7\u00e3o as finalidades que transcendem o interesse econ\u00f3mico imediato. \u00c9 preciso abandonar a ideia de \u00abinterven\u00e7\u00f5es\u00bb sobre o meio ambiente, para dar lugar a pol\u00edticas pensadas e debatidas por todas as partes interessadas. A participa\u00e7\u00e3o requer que todos sejam adequadamente informados sobre os v\u00e1rios aspectos e os diferentes riscos e possibilidades, e n\u00e3o se reduza \u00e0 decis\u00e3o inicial sobre um projecto, mas implique tamb\u00e9m ac\u00e7\u00f5es de controle ou monitoramento constante. \u00c9 necess\u00e1rio haver sinceridade e verdade nas discuss\u00f5es cient\u00edficas e pol\u00edticas, sem se limitar a considerar o que \u00e9 permitido ou n\u00e3o pela legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>184. Quando surgem eventuais riscos para o meio ambiente que afectam o bem comum presente e futuro, esta situa\u00e7\u00e3o exige \u00abque as decis\u00f5es sejam baseadas num confronto entre riscos e benef\u00edcios previs\u00edveis para cada op\u00e7\u00e3o alternativa poss\u00edvel\u00bb.[131]Isto vale sobretudo quando um projecto pode causar um incremento na explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, nas emiss\u00f5es ou descargas, na produ\u00e7\u00e3o de res\u00edduos, ou ent\u00e3o uma mudan\u00e7a significativa na paisagem, no habitat de esp\u00e9cies protegidas ou num espa\u00e7o p\u00fablico. Alguns projectos, n\u00e3o apoiados por uma an\u00e1lise bem cuidada, podem afectar profundamente a qualidade de vida dum lugar, devido a quest\u00f5es muito diferentes entre si, como, por exemplo, uma polui\u00e7\u00e3o ac\u00fastica n\u00e3o prevista, a redu\u00e7\u00e3o do horizonte visual, a perda de valores culturais, os efeitos do uso da energia nuclear. A cultura consumista, que d\u00e1 prioridade ao curto prazo e aos interesses privados, pode favorecer an\u00e1lises demasiado r\u00e1pidas ou consentir a oculta\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>185. Em qualquer discuss\u00e3o sobre um empreendimento, dever-se-ia p\u00f4r uma s\u00e9rie de perguntas, para poder discernir se o mesmo levar\u00e1 a um desenvolvimento verdadeiramente integral: Para que fim? Por qual motivo? Onde? Quando? De que maneira? A quem ajuda? Quais s\u00e3o os riscos? A que pre\u00e7o? Quem paga as despesas e como o far\u00e1? Neste exame, h\u00e1 quest\u00f5es que devem ter prioridade. Por exemplo, sabemos que a \u00e1gua \u00e9 um recurso escasso e indispens\u00e1vel, sendo um direito fundamental que condiciona o exerc\u00edcio doutros direitos humanos. Isto est\u00e1, sem d\u00favida, acima de toda a an\u00e1lise de impacto ambiental duma regi\u00e3o.<\/p>\n<p>186. Na Declara\u00e7\u00e3o do Rio, de 1992, afirma-se que, \u00abquando existem amea\u00e7as de danos graves ou irrevers\u00edveis, a falta de certezas cient\u00edficas absolutas n\u00e3o poder\u00e1 constituir um motivo para adiar a adop\u00e7\u00e3o de medidas eficazes\u00bb[132] que impe\u00e7am a degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Este princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o permite a protec\u00e7\u00e3o dos mais fracos, que disp\u00f5em de poucos meios para se defender e fornecer provas irrefut\u00e1veis. Se a informa\u00e7\u00e3o objectiva leva a prever um dano grave e irrevers\u00edvel, mesmo que n\u00e3o haja uma comprova\u00e7\u00e3o indiscut\u00edvel, seja o projecto que for dever\u00e1 suspender-se ou modificar-se. Assim, inverte-se o \u00f3nus da prova, j\u00e1 que, nestes casos, \u00e9 preciso fornecer uma demonstra\u00e7\u00e3o objectiva e contundente de que a actividade proposta n\u00e3o vai gerar danos graves ao meio ambiente ou \u00e0s pessoas que nele habitam.<\/p>\n<p>187. Isto n\u00e3o implica opor-se a toda e qualquer inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que permita melhorar a qualidade de vida duma popula\u00e7\u00e3o. Mas, em todo o caso, deve permanecer de p\u00e9 que a rentabilidade n\u00e3o pode ser o \u00fanico crit\u00e9rio a ter em conta e, na hora em que aparecessem novos elementos de ju\u00edzo a partir de ulteriores dados informativos, deveria haver uma nova avalia\u00e7\u00e3o com a participa\u00e7\u00e3o de todas as partes interessadas. O resultado do debate pode ser a decis\u00e3o de n\u00e3o avan\u00e7ar num projecto, mas poderia ser tamb\u00e9m a sua modifica\u00e7\u00e3o ou a elabora\u00e7\u00e3o de propostas alternativas.<\/p>\n<p>188. H\u00e1 discuss\u00f5es sobre problemas relativos ao meio ambiente, onde \u00e9 dif\u00edcil chegar a um consenso. Repito uma vez mais que a Igreja n\u00e3o pretende definir as quest\u00f5es cient\u00edficas nem substituir-se \u00e0 pol\u00edtica, mas convido a um debate honesto e transparente, para que as necessidades particulares ou as ideologias n\u00e3o lesem o bem comum.<\/p>\n<p><strong>4. Pol\u00edtica e economia em di\u00e1logo para a plenitude humana<\/strong><br \/>189. A pol\u00edtica n\u00e3o deve submeter-se \u00e0 economia, e esta n\u00e3o deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a pol\u00edtica e a economia, em di\u00e1logo, se coloquem decididamente ao servi\u00e7o da vida, especialmente da vida humana. A salva\u00e7\u00e3o dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o pre\u00e7o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, sem a firme decis\u00e3o de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um dom\u00ednio absoluto da finan\u00e7a que n\u00e3o tem futuro e s\u00f3 poder\u00e1 gerar novas crises depois duma longa, custosa e aparente cura. A crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasi\u00e3o para o desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princ\u00edpios \u00e9ticos e para uma nova regulamenta\u00e7\u00e3o da actividade financeira especulativa e da riqueza virtual. Mas n\u00e3o houve uma reac\u00e7\u00e3o que fizesse repensar os crit\u00e9rios obsoletos que continuam a governar o mundo. A produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sempre racional, e muitas vezes est\u00e1 ligada a vari\u00e1veis econ\u00f3micas que atribuem aos produtos um valor que n\u00e3o corresponde ao seu valor real. Isto leva frequentemente a uma superprodu\u00e7\u00e3o dalgumas mercadorias, com um impacto ambiental desnecess\u00e1rio, que simultaneamente danifica muitas economias regionais.[133]Habitualmente, a bolha financeira \u00e9 tamb\u00e9m uma bolha produtiva. Em suma, o que n\u00e3o se enfrenta com energia \u00e9 o problema da economia real, aquela que torna poss\u00edvel, por exemplo, que se diversifique e melhore a produ\u00e7\u00e3o, que as empresas funcionem adequadamente, que as pequenas e m\u00e9dias empresas se desenvolvam e criem postos de trabalho.<\/p>\n<p>190. Neste contexto, sempre se deve recordar que \u00aba protec\u00e7\u00e3o ambiental n\u00e3o pode ser assegurada somente com base no c\u00e1lculo financeiro de custos e benef\u00edcios. O ambiente \u00e9 um dos bens que os mecanismos de mercado n\u00e3o est\u00e3o aptos a defender ou a promover adequadamente\u00bb.[134] Mais uma vez repito que conv\u00e9m evitar uma concep\u00e7\u00e3o m\u00e1gica do mercado, que tende a pensar que os problemas se resolvem apenas com o crescimento dos lucros das empresas ou dos indiv\u00edduos. Ser\u00e1 realista esperar que quem est\u00e1 obcecado com a maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros se detenha a considerar os efeitos ambientais que deixar\u00e1 \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es? Dentro do esquema do ganho n\u00e3o h\u00e1 lugar para pensar nos ritmos da natureza, nos seus tempos de degrada\u00e7\u00e3o e regenera\u00e7\u00e3o, e na complexidade dos ecossistemas que podem ser gravemente alterados pela interven\u00e7\u00e3o humana. Al\u00e9m disso, quando se fala de biodiversidade, no m\u00e1ximo pensa-se nela como um reservat\u00f3rio de recursos econ\u00f3micos que poderia ser explorado, mas n\u00e3o se considera seriamente o valor real das coisas, o seu significado para as pessoas e as culturas, os interesses e as necessidades dos pobres.<\/p>\n<p>191. Quando se colocam estas quest\u00f5es, alguns reagem acusando os outros de pretender parar, irracionalmente, o progresso e o desenvolvimento humano. Mas temos de nos convencer que, reduzir um determinado ritmo de produ\u00e7\u00e3o e consumo, pode dar lugar a outra modalidade de progresso e desenvolvimento. Os esfor\u00e7os para um uso sustent\u00e1vel dos recursos naturais n\u00e3o s\u00e3o gasto in\u00fatil, mas um investimento que poder\u00e1 proporcionar outros benef\u00edcios econ\u00f3micos a m\u00e9dio prazo. Se n\u00e3o temos vista curta, podemos descobrir que pode ser muito rent\u00e1vel a diversifica\u00e7\u00e3o duma produ\u00e7\u00e3o mais inovadora e com menor impacto ambiental. Trata-se de abrir caminho a oportunidades diferentes, que n\u00e3o implicam frenar a criatividade humana nem o seu sonho de progresso, mas orientar esta energia por novos canais.<\/p>\n<p>192. Por exemplo, um percurso de desenvolvimento produtivo mais criativo e melhor orientado poderia corrigir a disparidade entre o excessivo investimento tecnol\u00f3gico no consumo e o escasso investimento para resolver os problemas urgentes da humanidade; poderia gerar formas inteligentes e rent\u00e1veis de reutiliza\u00e7\u00e3o, recupera\u00e7\u00e3o funcional e reciclagem; poderia melhorar a efici\u00eancia energ\u00e9tica das cidades&#8230; A diversifica\u00e7\u00e3o produtiva oferece \u00e0 intelig\u00eancia humana possibilidades muito amplas de criar e inovar, ao mesmo tempo que protege o meio ambiente e cria mais oportunidades de trabalho. Esta seria uma criatividade capaz de fazer reflorescer a nobreza do ser humano, porque \u00e9 mais dignificante usar a intelig\u00eancia, com aud\u00e1cia e responsabilidade, para encontrar formas de desenvolvimento sustent\u00e1vel e equitativo, no quadro duma concep\u00e7\u00e3o mais ampla da qualidade de vida. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 menos dignificante e criativo e mais superficial insistir na cria\u00e7\u00e3o de formas de espolia\u00e7\u00e3o da natureza s\u00f3 para oferecer novas possibilidades de consumo e de ganho imediato.<\/p>\n<p>193. Assim, se nalguns casos o desenvolvimento sustent\u00e1vel implicar\u00e1 novas modalidades para crescer, noutros casos \u2013 face ao crescimento ganancioso e irrespons\u00e1vel, que se verificou ao longo de muitas d\u00e9cadas \u2013 devemos pensar tamb\u00e9m em abrandar um pouco a marcha, p\u00f4r alguns limites razo\u00e1veis e at\u00e9 mesmo retroceder antes que seja tarde. Sabemos que \u00e9 insustent\u00e1vel o comportamento daqueles que consomem e destroem cada vez mais, enquanto outros ainda n\u00e3o podem viver de acordo com a sua dignidade humana. Por isso, chegou a hora de aceitar um certo decr\u00e9scimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saud\u00e1vel noutras partes. Bento XVI dizia que \u00ab\u00e9 preciso que as sociedades tecnologicamente avan\u00e7adas estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as pr\u00f3prias necessidades de energia e melhorando as condi\u00e7\u00f5es da sua utiliza\u00e7\u00e3o\u00bb.[135]<\/p>\n<p>194. Para que apare\u00e7am novos modelos de progresso, precisamos de \u00abconverter o modelo de desenvolvimento global\u00bb[136], e isto implica reflectir responsavelmente \u00absobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corrigir as suas disfun\u00e7\u00f5es e deturpa\u00e7\u00f5es\u00bb.[137] N\u00e3o \u00e9 suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meios-termos s\u00e3o apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnol\u00f3gico e econ\u00f3mico, que n\u00e3o deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, n\u00e3o se pode considerar progresso. Al\u00e9m disso, muitas vezes a qualidade real de vida das pessoas diminui \u2013 pela deteriora\u00e7\u00e3o do ambiente, a baixa qualidade dos produtos alimentares ou o esgotamento de alguns recursos \u2013 no contexto dum crescimento da economia. Ent\u00e3o, muitas vezes, o discurso do crescimento sustent\u00e1vel torna-se um diversivo e um meio de justifica\u00e7\u00e3o que absorve valores do discurso ecologista dentro da l\u00f3gica da finan\u00e7a e da tecnocracia, e a responsabilidade social e ambiental das empresas reduz-se, na maior parte dos casos, a uma s\u00e9rie de ac\u00e7\u00f5es de publicidade e imagem.<\/p>\n<p>195. O princ\u00edpio da maximiza\u00e7\u00e3o do lucro, que tende a isolar-se de todas as outras considera\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma distor\u00e7\u00e3o conceptual da economia: desde que aumente a produ\u00e7\u00e3o, pouco interessa que isso se consiga \u00e0 custa dos recursos futuros ou da sa\u00fade do meio ambiente; se o derrube duma floresta aumenta a produ\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m insere no respectivo c\u00e1lculo a perda que implica desertificar um territ\u00f3rio, destruir a biodiversidade ou aumentar a polui\u00e7\u00e3o. Por outras palavras, as empresas obt\u00eam lucros calculando e pagando uma parte \u00ednfima dos custos. Poder-se-ia considerar \u00e9tico somente um comportamento em que \u00abos custos econ\u00f3micos e sociais derivados do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui e n\u00e3o por outras popula\u00e7\u00f5es nem pelas gera\u00e7\u00f5es futuras\u00bb.[138] A mentalidade utilit\u00e1ria, que fornece apenas uma an\u00e1lise est\u00e1tica da realidade em fun\u00e7\u00e3o de necessidades actuais, est\u00e1 presente tanto quando \u00e9 o mercado que atribui os recursos como quando o faz um Estado planificador.<\/p>\n<p>196. Qual \u00e9 o lugar da pol\u00edtica? Recordemos o princ\u00edpio da subsidiariedade, que d\u00e1 liberdade para o desenvolvimento das capacidades presentes a todos os n\u00edveis, mas simultaneamente exige mais responsabilidade pelo bem comum a quem tem mais poder. \u00c9 verdade que, hoje, alguns sectores econ\u00f3micos exercem mais poder do que os pr\u00f3prios Estados. Mas n\u00e3o se pode justificar uma economia sem pol\u00edtica, porque seria incapaz de promover outra l\u00f3gica para governar os v\u00e1rios aspectos da crise actual. A l\u00f3gica que n\u00e3o deixa espa\u00e7o para uma sincera preocupa\u00e7\u00e3o pelo meio ambiente \u00e9 a mesma em que n\u00e3o encontra espa\u00e7o a preocupa\u00e7\u00e3o por integrar os mais fr\u00e1geis, porque, \u00abno modelo &#8220;do \u00eaxito&#8221; e &#8220;individualista&#8221; em vigor, parece que n\u00e3o faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam tamb\u00e9m singrar na vida\u00bb.[139]<\/p>\n<p>197. Precisamos duma pol\u00edtica que pense com vis\u00e3o ampla e leve por diante uma reformula\u00e7\u00e3o integral, abrangendo num di\u00e1logo interdisciplinar os v\u00e1rios aspectos da crise. Muitas vezes, a pr\u00f3pria pol\u00edtica \u00e9 respons\u00e1vel pelo seu descr\u00e9dito, devido \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e \u00e0 falta de boas pol\u00edticas p\u00fablicas. Se o Estado n\u00e3o cumpre o seu papel numa regi\u00e3o, alguns grupos econ\u00f3micos podem-se apresentar como benfeitores e apropriar-se do poder real, sentindo-se autorizados a n\u00e3o observar certas normas at\u00e9 se chegar \u00e0s diferentes formas de criminalidade organizada, tr\u00e1fico de pessoas, narcotr\u00e1fico e viol\u00eancia muito dif\u00edcil de erradicar. Se a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 capaz de romper uma l\u00f3gica perversa e perde-se tamb\u00e9m em discursos inconsistentes, continuaremos sem enfrentar os grandes problemas da humanidade. Uma estrat\u00e9gia de mudan\u00e7a real exige repensar a totalidade dos processos, pois n\u00e3o basta incluir considera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas superficiais enquanto n\u00e3o se puser em discuss\u00e3o a l\u00f3gica subjacente \u00e0 cultura actual. Uma pol\u00edtica s\u00e3 deveria ser capaz de assumir este desafio.<\/p>\n<p>198. A pol\u00edtica e a economia tendem a culpar-se reciprocamente a respeito da pobreza e da degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Mas o que se espera \u00e9 que reconhe\u00e7am os seus pr\u00f3prios erros e encontrem formas de interac\u00e7\u00e3o orientadas para o bem comum. Enquanto uns se afanam apenas com o ganho econ\u00f3mico e os outros est\u00e3o obcecados apenas por conservar ou aumentar o poder, o que nos resta s\u00e3o guerras ou acordos esp\u00farios, onde o que menos interessa \u00e0s duas partes \u00e9 preservar o meio ambiente e cuidar dos mais fracos. Vale aqui tamb\u00e9m o princ\u00edpio de que \u00aba unidade \u00e9 superior ao conflito\u00bb.[140]<\/p>\n<p><strong>5. As religi\u00f5es no di\u00e1logo com as ci\u00eancias<\/strong><br \/>199. N\u00e3o se pode sustentar que as ci\u00eancias emp\u00edricas expliquem completamente a vida, a ess\u00eancia \u00edntima de todas as criaturas e o conjunto da realidade. Isto seria ultrapassar indevidamente os seus confins metodol\u00f3gicos limitados. Se se reflecte dentro deste quadro restrito, desaparecem a sensibilidade est\u00e9tica, a poesia e ainda a capacidade da raz\u00e3o perceber o sentido e a finalidade das coisas.[141] Quero lembrar que \u00abos textos religiosos cl\u00e1ssicos podem oferecer um significado para todas as \u00e9pocas, possuem uma for\u00e7a motivadora que abre sempre novos horizontes (&#8230;). Ser\u00e1 razo\u00e1vel e inteligente releg\u00e1-los para a obscuridade, s\u00f3 porque nasceram no contexto duma cren\u00e7a religiosa?\u00bb[142] Realmente, \u00e9 ing\u00e9nuo pensar que os princ\u00edpios \u00e9ticos possam ser apresentados de modo puramente abstracto, desligados de todo o contexto, e o facto de aparecerem com uma linguagem religiosa n\u00e3o lhes tira valor algum no debate p\u00fablico. Os princ\u00edpios \u00e9ticos que a raz\u00e3o \u00e9 capaz de perceber, sempre podem reaparecer sob distintas roupagens e expressos com linguagens diferentes, incluindo a religiosa.<\/p>\n<p>200. Al\u00e9m disso, qualquer solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que as ci\u00eancias pretendam oferecer ser\u00e1 impotente para resolver os graves problemas do mundo, se a humanidade perde o seu rumo, se esquece as grandes motiva\u00e7\u00f5es que tornam poss\u00edvel a conviv\u00eancia social, o sacrif\u00edcio, a bondade. Em todo o caso, ser\u00e1 preciso fazer apelo aos crentes para que sejam coerentes com a sua pr\u00f3pria f\u00e9 e n\u00e3o a contradigam com as suas ac\u00e7\u00f5es; ser\u00e1 necess\u00e1rio insistir para que se abram novamente \u00e0 gra\u00e7a de Deus e se nutram profundamente das pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es sobre o amor, a justi\u00e7a e a paz. Se \u00e0s vezes uma m\u00e1 compreens\u00e3o dos nossos princ\u00edpios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o dom\u00ednio desp\u00f3tico do ser humano sobre a cria\u00e7\u00e3o, ou as guerras, a injusti\u00e7a e a viol\u00eancia, n\u00f3s, crentes, podemos reconhecer que ent\u00e3o fomos infi\u00e9is ao tesouro de sabedoria que dev\u00edamos guardar. Muitas vezes os limites culturais de distintas \u00e9pocas condicionaram esta consci\u00eancia do pr\u00f3prio patrim\u00f3nio \u00e9tico e espiritual, mas \u00e9 precisamente o regresso \u00e0s respectivas fontes que permite \u00e0s religi\u00f5es responder melhor \u00e0s necessidades actuais.<\/p>\n<p>201. A maior parte dos habitantes do planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religi\u00f5es a estabelecerem di\u00e1logo entre si, visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a constru\u00e7\u00e3o duma trama de respeito e de fraternidade. De igual modo \u00e9 indispens\u00e1vel um di\u00e1logo entre as pr\u00f3prias ci\u00eancias, porque cada uma costuma fechar-se nos limites da sua pr\u00f3pria linguagem, e a especializa\u00e7\u00e3o tende a converter-se em isolamento e absolutiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio saber. Isto impede de enfrentar adequadamente os problemas do meio ambiente. Torna-se necess\u00e1rio tamb\u00e9m um di\u00e1logo aberto e respeitador dos diferentes movimentos ecologistas, entre os quais n\u00e3o faltam as lutas ideol\u00f3gicas. A gravidade da crise ecol\u00f3gica obriga-nos, a todos, a pensar no bem comum e a prosseguir pelo caminho do di\u00e1logo que requer paci\u00eancia, ascese e generosidade, lembrando-nos sempre que \u00aba realidade \u00e9 superior \u00e0 ideia\u00bb.[143]<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CAP\u00cdTULO VI<\/strong><br \/><strong>EDUCA\u00c7\u00c3O E ESPIRITUALIDADE ECOL\u00d3GICAS<\/strong><\/p>\n<p>202. Muitas coisas devem reajustar o pr\u00f3prio rumo, mas antes de tudo \u00e9 a humanidade que precisa de mudar. Falta a consci\u00eancia duma origem comum, duma rec\u00edproca perten\u00e7a e dum futuro partilhado por todos. Esta consci\u00eancia basilar permitiria o desenvolvimento de novas convic\u00e7\u00f5es, atitudes e estilos de vida. Surge, assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicar\u00e1 longos processos de regenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>1. Apontar para outro estilo de vida<\/strong><br \/>203. Dado que o mercado tende a criar um mecanismo consumista compulsivo para vender os seus produtos, as pessoas acabam por ser arrastadas pelo turbilh\u00e3o das compras e gastos sup\u00e9rfluos. O consumismo obsessivo \u00e9 o reflexo subjectivo do paradigma tecno-econ\u00f3mico. Est\u00e1 a acontecer aquilo que j\u00e1 assinalava Romano Guardini: o ser humano \u00abaceita os objectos comuns e as formas habituais da vida como lhe s\u00e3o impostos pelos planos nacionais e pelos produtos fabricados em s\u00e9rie e, em geral, age assim com a impress\u00e3o de que tudo isto seja razo\u00e1vel e justo\u00bb.[144] O referido paradigma faz crer a todos que s\u00e3o livres pois conservam uma suposta liberdade de consumir, quando na realidade apenas possui a liberdade a minoria que det\u00e9m o poder econ\u00f3mico e financeiro. Nesta confus\u00e3o, a humanidade p\u00f3s-moderna n\u00e3o encontrou uma nova compreens\u00e3o de si mesma que a possa orientar, e esta falta de identidade \u00e9 vivida com ang\u00fastia. Temos demasiados meios para escassos e raqu\u00edticos fins.<\/p>\n<p>204. A situa\u00e7\u00e3o actual do mundo \u00abgera um sentido de precariedade e inseguran\u00e7a, que, por sua vez, favorece formas de ego\u00edsmo colectivo\u00bb.[145] Quando as pessoas se tornam auto-referenciais e se isolam na pr\u00f3pria consci\u00eancia, aumentam a sua voracidade: quanto mais vazio est\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o da pessoa, tanto mais necessita de objectos para comprar, possuir e consumir. Em tal contexto, parece n\u00e3o ser poss\u00edvel, para uma pessoa, aceitar que a realidade lhe assinale limites; neste horizonte, n\u00e3o existe sequer um verdadeiro bem comum. Se este \u00e9 o tipo de sujeito que tende a predominar numa sociedade, as normas ser\u00e3o respeitadas apenas na medida em que n\u00e3o contradigam as necessidades pr\u00f3prias. Por isso, n\u00e3o pensemos s\u00f3 na possibilidade de terr\u00edveis fen\u00f3menos clim\u00e1ticos ou de grandes desastres naturais, mas tamb\u00e9m nas cat\u00e1strofes resultantes de crises sociais, porque a obsess\u00e3o por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos t\u00eam possibilidades de o manter, s\u00f3 poder\u00e1 provocar viol\u00eancia e destrui\u00e7\u00e3o rec\u00edproca.<\/p>\n<p>205. Mas nem tudo est\u00e1 perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degrada\u00e7\u00e3o, podem tamb\u00e9m superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para al\u00e9m de qualquer condicionalismo psicol\u00f3gico e social que lhes seja imposto. S\u00e3o capazes de se olhar a si mesmos com honestidade, externar o pr\u00f3prio pesar e encetar caminhos novos rumo \u00e0 verdadeira liberdade. N\u00e3o h\u00e1 sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, \u00e0 verdade e \u00e0 beleza, nem a capacidade de reagir que Deus continua a animar no mais fundo dos nossos cora\u00e7\u00f5es. A cada pessoa deste mundo, pe\u00e7o para n\u00e3o esquecer esta sua dignidade que ningu\u00e9m tem o direito de lhe tirar.<\/p>\n<p>206. Uma mudan\u00e7a nos estilos de vida poderia chegar a exercer uma press\u00e3o salutar sobre quantos det\u00eam o poder pol\u00edtico, econ\u00f3mico e social. Verifica-se isto quando os movimentos de consumidores conseguem que se deixe de adquirir determinados produtos e assim se tornam eficazes na mudan\u00e7a do comportamento das empresas, for\u00e7ando-as a reconsiderar o impacto ambiental e os modelos de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 um facto que, quando os h\u00e1bitos da sociedade afectam os ganhos das empresas, estas v\u00eaem-se pressionadas a mudar a produ\u00e7\u00e3o. Isto lembra-nos a responsabilidade social dos consumidores. \u00abComprar \u00e9 sempre um acto moral, para al\u00e9m de econ\u00f3mico\u00bb.[146] Por isso, hoje, \u00abo tema da degrada\u00e7\u00e3o ambiental p\u00f5e em quest\u00e3o os comportamentos de cada um de n\u00f3s\u00bb.[147]<\/p>\n<p>207. A Carta da Terra convidava-nos, a todos, a come\u00e7ar de novo deixando para tr\u00e1s uma etapa de autodestrui\u00e7\u00e3o, mas ainda n\u00e3o desenvolvemos uma consci\u00eancia universal que o torne poss\u00edvel. Por isso, atrevo-me a propor de novo aquele consider\u00e1vel desafio: \u00abComo nunca antes na hist\u00f3ria, o destino comum obriga-nos a procurar um novo in\u00edcio (&#8230;). Que o nosso seja um tempo que se recorde pelo despertar duma nova rever\u00eancia face \u00e0 vida, pela firme resolu\u00e7\u00e3o de alcan\u00e7ar a sustentabilidade, pela intensifica\u00e7\u00e3o da luta em prol da justi\u00e7a e da paz e pela jubilosa celebra\u00e7\u00e3o da vida\u00bb.[148]<\/p>\n<p>208. Sempre \u00e9 poss\u00edvel desenvolver uma nova capacidade de sair de si mesmo rumo ao outro. Sem tal capacidade, n\u00e3o se reconhece \u00e0s outras criaturas o seu valor, n\u00e3o se sente interesse em cuidar de algo para os outros, n\u00e3o se consegue impor limites para evitar o sofrimento ou a degrada\u00e7\u00e3o do que nos rodeia. A atitude basilar de se auto-transcender, rompendo com a consci\u00eancia isolada e a auto-referencialidade, \u00e9 a raiz que possibilita todo o cuidado dos outros e do meio ambiente; e faz brotar a reac\u00e7\u00e3o moral de ter em conta o impacto que possa provocar cada ac\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o pessoal fora de si mesmo. Quando somos capazes de superar o individualismo, pode-se realmente desenvolver um estilo de vida alternativo e torna-se poss\u00edvel uma mudan\u00e7a relevante na sociedade.<\/p>\n<p><strong>2. Educar para a alian\u00e7a entre a humanidade e o ambiente<\/strong><br \/>209. A consci\u00eancia da gravidade da crise cultural e ecol\u00f3gica precisa de traduzir-se em novos h\u00e1bitos. Muitos est\u00e3o cientes de que n\u00e3o basta o progresso actual e a mera acumula\u00e7\u00e3o de objectos ou prazeres para dar sentido e alegria ao cora\u00e7\u00e3o humano, mas n\u00e3o se sentem capazes de renunciar \u00e0quilo que o mercado lhes oferece. Nos pa\u00edses que deveriam realizar as maiores mudan\u00e7as nos h\u00e1bitos de consumo, os jovens t\u00eam uma nova sensibilidade ecol\u00f3gica e um esp\u00edrito generoso, e alguns deles lutam admiravelmente pela defesa do meio ambiente, mas cresceram num contexto de alt\u00edssimo consumo e bem-estar que torna dif\u00edcil a matura\u00e7\u00e3o doutros h\u00e1bitos. Por isso, estamos perante um desafio educativo.<\/p>\n<p>210. A educa\u00e7\u00e3o ambiental tem vindo a ampliar os seus objectivos. Se, no come\u00e7o, estava muito centrada na informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e na consciencializa\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o dos riscos ambientais, agora tende a incluir uma cr\u00edtica dos \u00abmitos\u00bb da modernidade baseados na raz\u00e3o instrumental (individualismo, progresso ilimitado, concorr\u00eancia, consumismo, mercado sem regras) e tende tamb\u00e9m a recuperar os distintos n\u00edveis de equil\u00edbrio ecol\u00f3gico: o interior consigo mesmo, o solid\u00e1rio com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus. A educa\u00e7\u00e3o ambiental deveria predispor-nos para dar este salto para o Mist\u00e9rio, do qual uma \u00e9tica ecol\u00f3gica recebe o seu sentido mais profundo. Al\u00e9m disso, h\u00e1 educadores capazes de reordenar os itiner\u00e1rios pedag\u00f3gicos duma \u00e9tica ecol\u00f3gica, de modo que ajudem efectivamente a crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>211. \u00c0s vezes, por\u00e9m, esta educa\u00e7\u00e3o, chamada a criar uma \u00abcidadania ecol\u00f3gica\u00bb, limita-se a informar e n\u00e3o consegue fazer maturar h\u00e1bitos. A exist\u00eancia de leis e normas n\u00e3o \u00e9 suficiente, a longo prazo, para limitar os maus comportamentos, mesmo que haja um v\u00e1lido controle. Para a norma jur\u00eddica produzir efeitos importantes e duradouros, \u00e9 preciso que a maior parte dos membros da sociedade a tenha acolhido, com base em motiva\u00e7\u00f5es adequadas, e reaja com uma transforma\u00e7\u00e3o pessoal. A doa\u00e7\u00e3o de si mesmo num compromisso ecol\u00f3gico s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel a partir do cultivo de virtudes s\u00f3lidas. Se uma pessoa habitualmente se resguarda um pouco mais em vez de ligar o aquecimento, embora as suas economias lhe permitam consumir e gastar mais, isso sup\u00f5e que adquiriu convic\u00e7\u00f5es e modos de sentir favor\u00e1veis ao cuidado do ambiente. \u00c9 muito nobre assumir o dever de cuidar da cria\u00e7\u00e3o com pequenas ac\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, e \u00e9 maravilhoso que a educa\u00e7\u00e3o seja capaz de motivar para elas at\u00e9 dar forma a um estilo de vida. A educa\u00e7\u00e3o na responsabilidade ambiental pode incentivar v\u00e1rios comportamentos que t\u00eam incid\u00eancia directa e importante no cuidado do meio ambiente, tais como evitar o uso de pl\u00e1stico e papel, reduzir o consumo de \u00e1gua, diferenciar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poder\u00e1 comer, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes p\u00fablicos ou partilhar o mesmo ve\u00edculo com v\u00e1rias pessoas, plantar \u00e1rvores, apagar as luzes desnecess\u00e1rias&#8230; Tudo isto faz parte duma criatividade generosa e dignificante, que p\u00f5e a descoberto o melhor do ser humano. Voltar \u2013 com base em motiva\u00e7\u00f5es profundas \u2013 a utilizar algo em vez de o desperdi\u00e7ar rapidamente pode ser um acto de amor que exprime a nossa dignidade.<\/p>\n<p>212. E n\u00e3o se pense que estes esfor\u00e7os s\u00e3o incapazes de mudar o mundo. Estas ac\u00e7\u00f5es espalham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para al\u00e9m do que \u00e9 poss\u00edvel constatar; provocam, no seio desta terra, um bem que sempre tende a difundir-se, por vezes invisivelmente. Al\u00e9m disso, o exerc\u00edcio destes comportamentos restitui-nos o sentimento da nossa dignidade, leva-nos a uma maior profundidade existencial, permite-nos experimentar que vale a pena a nossa passagem por este mundo.<\/p>\n<p>213. V\u00e1rios s\u00e3o os \u00e2mbitos educativos: a escola, a fam\u00edlia, os meios de comunica\u00e7\u00e3o, a catequese, e outros. Uma boa educa\u00e7\u00e3o escolar em tenra idade coloca sementes que podem produzir efeitos durante toda a vida. Mas, quero salientar a import\u00e2ncia central da fam\u00edlia, porque \u00ab\u00e9 o lugar onde a vida, dom de Deus, pode ser convenientemente acolhida e protegida contra os m\u00faltiplos ataques a que est\u00e1 exposta, e pode desenvolver-se segundo as exig\u00eancias de um crescimento humano aut\u00eantico. Contra a denominada cultura da morte, a fam\u00edlia constitui a sede da cultura da vida\u00bb.[149] Na fam\u00edlia, cultivam-se os primeiros h\u00e1bitos de amor e cuidado da vida, como, por exemplo, o uso correcto das coisas, a ordem e a limpeza, o respeito pelo ecossistema local e a protec\u00e7\u00e3o de todas as criaturas. A fam\u00edlia \u00e9 o lugar da forma\u00e7\u00e3o integral, onde se desenvolvem os distintos aspectos, intimamente relacionados entre si, do amadurecimento pessoal. Na fam\u00edlia, aprende-se a pedir licen\u00e7a sem servilismo, a dizer \u00abobrigado\u00bb como express\u00e3o duma sentida avalia\u00e7\u00e3o das coisas que recebemos, a dominar a agressividade ou a gan\u00e2ncia, e a pedir desculpa quando fazemos algo de mal. Estes pequenos gestos de sincera cortesia ajudam a construir uma cultura da vida compartilhada e do respeito pelo que nos rodeia.<\/p>\n<p>214. Compete \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0s v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es um esfor\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias da popula\u00e7\u00e3o. Naturalmente compete tamb\u00e9m \u00e0 Igreja. Todas as comunidades crist\u00e3s t\u00eam um papel importante a desempenhar nesta educa\u00e7\u00e3o. Espero tamb\u00e9m que, nos nossos Semin\u00e1rios e Casas Religiosas de Forma\u00e7\u00e3o, se eduque para uma austeridade respons\u00e1vel, a grata contempla\u00e7\u00e3o do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente. Tendo em conta o muito que est\u00e1 em jogo, do mesmo modo que s\u00e3o necess\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es dotadas de poder para punir os danos ambientais, tamb\u00e9m n\u00f3s precisamos de nos controlar e educar uns aos outros.<\/p>\n<p>215. Neste contexto, \u00abn\u00e3o se deve descurar nunca a rela\u00e7\u00e3o que existe entre uma educa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica apropriada e a preserva\u00e7\u00e3o de um ambiente sadio\u00bb.[150] Prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 beleza e am\u00e1-la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista. Quando n\u00e3o se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que \u00e9 belo, n\u00e3o surpreende que tudo se transforme em objecto de uso e abuso sem escr\u00fapulos. Ao mesmo tempo, se se quer conseguir mudan\u00e7as profundas, \u00e9 preciso ter presente que os modelos de pensamento influem realmente nos comportamentos. A educa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 ineficaz e os seus esfor\u00e7os est\u00e9reis, se n\u00e3o se preocupar tamb\u00e9m por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, \u00e0 vida, \u00e0 sociedade e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com a natureza. Caso contr\u00e1rio, continuar\u00e1 a perdurar o modelo consumista, transmitido pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social e atrav\u00e9s dos mecanismos eficazes do mercado.<\/p>\n<p><strong>3. A convers\u00e3o ecol\u00f3gica<\/strong><br \/>216. A grande riqueza da espiritualidade crist\u00e3, proveniente de vinte s\u00e9culos de experi\u00eancias pessoais e comunit\u00e1rias, constitui uma magn\u00edfica contribui\u00e7\u00e3o para o esfor\u00e7o de renovar a humanidade. Desejo propor aos crist\u00e3os algumas linhas de espiritualidade ecol\u00f3gica que nascem das convic\u00e7\u00f5es da nossa f\u00e9, pois aquilo que o Evangelho nos ensina tem consequ\u00eancias no nosso modo de pensar, sentir e viver. N\u00e3o se trata tanto de propor ideias, como sobretudo falar das motiva\u00e7\u00f5es que derivam da espiritualidade para alimentar uma paix\u00e3o pelo cuidado do mundo. Com efeito, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma m\u00edstica que nos anima, sem \u00abuma mo\u00e7\u00e3o interior que impele, motiva, encoraja e d\u00e1 sentido \u00e0 ac\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria\u00bb.[151] Temos de reconhecer que n\u00f3s, crist\u00e3os, nem sempre recolhemos e fizemos frutificar as riquezas dadas por Deus \u00e0 Igreja, nas quais a espiritualidade n\u00e3o est\u00e1 desligada do pr\u00f3prio corpo nem da natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas e nelas, em comunh\u00e3o com tudo o que nos rodeia.<\/p>\n<p>217. Se \u00abos desertos exteriores se multiplicam no mundo, porque os desertos interiores se tornaram t\u00e3o amplos\u00bb,[152] a crise ecol\u00f3gica \u00e9 um apelo a uma profunda convers\u00e3o interior. Entretanto temos de reconhecer tamb\u00e9m que alguns crist\u00e3os, at\u00e9 comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragm\u00e1tico frequentemente se burlam das preocupa\u00e7\u00f5es pelo meio ambiente. Outros s\u00e3o passivos, n\u00e3o se decidem a mudar os seus h\u00e1bitos e tornam-se incoerentes. Falta-lhes, pois, umaconvers\u00e3o ecol\u00f3gica, que comporta deixar emergir, nas rela\u00e7\u00f5es com o mundo que os rodeia, todas as consequ\u00eancias do encontro com Jesus. Viver a voca\u00e7\u00e3o de guardi\u00f5es da obra de Deus n\u00e3o \u00e9 algo de opcional nem um aspecto secund\u00e1rio da experi\u00eancia crist\u00e3, mas parte essencial duma exist\u00eancia virtuosa.<\/p>\n<p>218. Recordemos o modelo de S\u00e3o Francisco de Assis, para propor uma s\u00e3 rela\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o como dimens\u00e3o da convers\u00e3o integral da pessoa. Isto exige tamb\u00e9m reconhecer os pr\u00f3prios erros, pecados, v\u00edcios ou neglig\u00eancias, e arrepender-se de cora\u00e7\u00e3o, mudar a partir de dentro. A Igreja na Austr\u00e1lia soube expressar a convers\u00e3o em termos de reconcilia\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o: \u00abPara realizar esta reconcilia\u00e7\u00e3o, devemos examinar as nossas vidas e reconhecer de que modo ofendemos a cria\u00e7\u00e3o de Deus com as nossas ac\u00e7\u00f5es e com a nossa incapacidade de agir. Devemos fazer a experi\u00eancia duma convers\u00e3o, duma mudan\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o\u00bb.[153]<\/p>\n<p>219. Todavia, para se resolver uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o complexa como esta que enfrenta o mundo actual, n\u00e3o basta que cada um seja melhor. Os indiv\u00edduos isolados podem perder a capacidade e a liberdade de vencer a l\u00f3gica da raz\u00e3o instrumental e acabam por sucumbir a um consumismo sem \u00e9tica nem sentido social e ambiental. Aos problemas sociais responde-se, n\u00e3o com a mera soma de bens individuais, mas com redes comunit\u00e1rias: \u00abAs exig\u00eancias desta obra ser\u00e3o t\u00e3o grandes, que as possibilidades das iniciativas individuais e a coopera\u00e7\u00e3o dos particulares, formados de maneira individualista, n\u00e3o ser\u00e3o capazes de lhes dar resposta. Ser\u00e1 necess\u00e1ria uma uni\u00e3o de for\u00e7as e uma unidade de contribui\u00e7\u00f5es\u00bb.[154] A convers\u00e3o ecol\u00f3gica, que se requer para criar um dinamismo de mudan\u00e7a duradoura, \u00e9 tamb\u00e9m uma convers\u00e3o comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>220. Esta convers\u00e3o comporta v\u00e1rias atitudes que se conjugam para activar um cuidado generoso e cheio de ternura. Em primeiro lugar, implica gratid\u00e3o e gratuidade, ou seja, um reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai, que consequentemente provoca disposi\u00e7\u00f5es gratuitas de ren\u00fancia e gestos generosos, mesmo que ningu\u00e9m os veja nem agrade\u00e7a. \u00abQue a tua m\u00e3o esquerda n\u00e3o saiba o que faz a tua direita (&#8230;); e teu Pai, que v\u00ea o oculto, h\u00e1-de premiar-te\u00bb (Mt 6, 3-4). Implica ainda a consci\u00eancia amorosa de n\u00e3o estar separado das outras criaturas, mas de formar com os outros seres do universo uma estupenda comunh\u00e3o universal. O crente contempla o mundo, n\u00e3o como algu\u00e9m que est\u00e1 fora dele, mas dentro, reconhecendo os la\u00e7os com que o Pai nos uniu a todos os seres. Al\u00e9m disso a convers\u00e3o ecol\u00f3gica, fazendo crescer as peculiares capacidades que Deus deu a cada crente, leva-o a desenvolver a sua criatividade e entusiasmo para resolver os dramas do mundo, oferecendo-se a Deus \u00abcomo sacrif\u00edcio vivo, santo e agrad\u00e1vel\u00bb (Rm12, 1). N\u00e3o v\u00ea a sua superioridade como motivo de gl\u00f3ria pessoal nem de dom\u00ednio irrespons\u00e1vel, mas como uma capacidade diferente que, por sua vez, lhe imp\u00f5e uma grave responsabilidade derivada da sua f\u00e9.<\/p>\n<p>221. Ajudam a enriquecer o sentido de tal convers\u00e3o v\u00e1rias convic\u00e7\u00f5es da nossa f\u00e9, desenvolvidas ao in\u00edcio desta enc\u00edclica, como, por exemplo, a consci\u00eancia de que cada criatura reflecte algo de Deus e tem uma mensagem para nos transmitir, ou a certeza de que Cristo assumiu em Si mesmo este mundo material e agora, ressuscitado, habita no \u00edntimo de cada ser, envolvendo-o com o seu carinho e penetrando-o com a sua luz; e ainda o reconhecimento de que Deus criou o mundo, inscrevendo nele uma ordem e um dinamismo que o ser humano n\u00e3o tem o direito de ignorar. Porventura uma pessoa, ouvindo no Evangelho Jesus dizer \u2013 a prop\u00f3sito dos p\u00e1ssaros \u2013 que \u00abnenhum deles passa despercebido diante de Deus\u00bb (Lc12, 6), ser\u00e1 capaz de os maltratar ou causar-lhes dano? Convido todos os crist\u00e3os a explicitar esta dimens\u00e3o da sua convers\u00e3o, permitindo que a for\u00e7a e a luz da gra\u00e7a recebida se estendam tamb\u00e9m \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com as outras criaturas e com o mundo que os rodeia, e suscite aquela sublime fraternidade com a cria\u00e7\u00e3o inteira que viveu, de maneira t\u00e3o elucidativa, S\u00e3o Francisco de Assis.<\/p>\n<p><strong>4. Alegria e paz<\/strong><br \/>222. A espiritualidade crist\u00e3 prop\u00f5e uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida prof\u00e9tico e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo. \u00c9 importante adoptar um antigo ensinamento, presente em distintas tradi\u00e7\u00f5es religiosas e tamb\u00e9m na B\u00edblia. Trata-se da convic\u00e7\u00e3o de que \u00abquanto menos, tanto mais\u00bb. Com efeito, a acumula\u00e7\u00e3o constante de possibilidades para consumir distrai o cora\u00e7\u00e3o e impede de dar o devido apre\u00e7o a cada coisa e a cada momento. Pelo contr\u00e1rio, tornar-se serenamente presente diante de cada realidade, por mais pequena que seja, abre-nos muitas mais possibilidades de compreens\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o pessoal. A espiritualidade crist\u00e3 prop\u00f5e um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. \u00c9 um regresso \u00e0 simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que n\u00e3o possu\u00edmos. Isto exige evitar a din\u00e2mica do dom\u00ednio e da mera acumula\u00e7\u00e3o de prazeres.<\/p>\n<p>223. A sobriedade, vivida livre e conscientemente, \u00e9 libertadora. N\u00e3o se trata de menos vida, nem vida de baixa intensidade; \u00e9 precisamente o contr\u00e1rio. Com efeito, as pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento s\u00e3o aquelas que deixam de debicar aqui e ali, sempre \u00e0 procura do que n\u00e3o t\u00eam, e experimentam o que significa dar apre\u00e7o a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas. Deste modo conseguem reduzir o n\u00famero das necessidades insatisfeitas e diminuem o cansa\u00e7o e a ansiedade. \u00c9 poss\u00edvel necessitar de pouco e viver muito, sobretudo quando se \u00e9 capaz de dar espa\u00e7o a outros prazeres, encontrando satisfa\u00e7\u00e3o nos encontros fraternos, no servi\u00e7o, na frutifica\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios carismas, na m\u00fasica e na arte, no contacto com a natureza, na ora\u00e7\u00e3o. A felicidade exige saber limitar algumas necessidades que nos entorpecem, permanecendo assim dispon\u00edveis para as m\u00faltiplas possibilidades que a vida oferece.<\/p>\n<p>224. A sobriedade e a humildade n\u00e3o gozaram de positiva considera\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo passado. Mas, quando se debilita de forma generalizada o exerc\u00edcio dalguma virtude na vida pessoal e social, isso acaba por provocar variados desequil\u00edbrios, mesmo ambientais. Por isso, n\u00e3o basta falar apenas da integridade dos ecossistemas; \u00e9 preciso ter a coragem de falar da integridade da vida humana, da necessidade de incentivar e conjugar todos os grandes valores. O desaparecimento da humildade, num ser humano excessivamente entusiasmado com a possibilidade de dominar tudo sem limite algum, s\u00f3 pode acabar por prejudicar a sociedade e o meio ambiente. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil desenvolver esta humildade sadia e uma sobriedade feliz, se nos tornamos aut\u00f3nomos, se exclu\u00edmos Deus da nossa vida fazendo o nosso eu ocupar o seu lugar, se pensamos ser a nossa subjectividade que determina o que \u00e9 bem e o que \u00e9 mal.<\/p>\n<p>225. Por outro lado, ningu\u00e9m pode amadurecer numa sobriedade feliz, se n\u00e3o estiver em paz consigo mesmo. E parte duma adequada compreens\u00e3o da espiritualidade consiste em alargar a nossa compreens\u00e3o da paz, que \u00e9 muito mais do que a aus\u00eancia de guerra. A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflecte-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admira\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 profundidade da vida. A natureza est\u00e1 cheia de palavras de amor; mas, como poderemos ouvi-las no meio do ru\u00eddo constante, da distrac\u00e7\u00e3o permanente e ansiosa, ou do culto da notoriedade? Muitas pessoas experimentam um desequil\u00edbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que t\u00eam ao seu redor. Isto tem incid\u00eancia no modo como se trata o ambiente. Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a cria\u00e7\u00e3o, reflectir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre n\u00f3s e naquilo que nos rodeia e cuja presen\u00e7a \u00abn\u00e3o precisa de ser criada, mas descoberta, desvendada\u00bb.[155]<\/p>\n<p>226. Falamos aqui duma atitude do cora\u00e7\u00e3o, que vive tudo com serena aten\u00e7\u00e3o, que sabe manter-se plenamente presente diante duma pessoa sem estar a pensar no que vir\u00e1 depois, que se entrega a cada momento como um dom divino que se deve viver em plenitude. Jesus ensinou-nos esta atitude, quando nos convidava a olhar os l\u00edrios do campo e as aves do c\u00e9u, ou quando, na presen\u00e7a dum homem inquieto, \u00abfitando nele o olhar, sentiu afei\u00e7\u00e3o por ele\u00bb (Mc 10, 21). De certeza que Ele estava plenamente presente diante de cada ser humano e de cada criatura, mostrando-nos assim um caminho para superar a ansiedade doentia que nos torna superficiais, agressivos e consumistas desenfreados.<\/p>\n<p>227. Uma express\u00e3o desta atitude \u00e9 parar a agradecer a Deus antes e depois das refei\u00e7\u00f5es. Proponho aos crentes que retomem este h\u00e1bito importante e o vivam profundamente. Este momento da b\u00ean\u00e7\u00e3o da mesa, embora muito breve, recorda-nos que a nossa vida depende de Deus, fortalece o nosso sentido de gratid\u00e3o pelos dons da cria\u00e7\u00e3o, d\u00e1 gra\u00e7as por aqueles que com o seu trabalho fornecem estes bens, e refor\u00e7a a solidariedade com os mais necessitados.<\/p>\n<p><strong>5. Amor civil e pol\u00edtico<\/strong><br \/>228. O cuidado da natureza faz parte dum estilo de vida que implica capacidade de viver juntos e de comunh\u00e3o. Jesus lembrou-nos que temos Deus como nosso Pai comum e que isto nos torna irm\u00e3os. O amor fraterno s\u00f3 pode ser gratuito, nunca pode ser uma paga a outrem pelo que realizou, nem um adiantamento pelo que esperamos venha a fazer. Por isso, \u00e9 poss\u00edvel amar os inimigos. Esta mesma gratuidade leva-nos a amar e aceitar o vento, o sol ou as nuvens, embora n\u00e3o se submetam ao nosso controle. Assim podemos falar duma fraternidade universal.<\/p>\n<p>229. \u00c9 necess\u00e1rio voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos. Vivemos j\u00e1 muito tempo na degrada\u00e7\u00e3o moral, baldando-nos \u00e0 \u00e9tica, \u00e0 bondade, \u00e0 f\u00e9, \u00e0 honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destrui\u00e7\u00e3o de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos pr\u00f3prios interesses, provoca o despertar de novas formas de viol\u00eancia e crueldade e impede o desenvolvimento duma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente.<\/p>\n<p>230. O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a p\u00f4r em pr\u00e1tica o pequeno caminho do amor, a n\u00e3o perder a oportunidade duma palavra gentil, dum sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral \u00e9 feita tamb\u00e9m de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a l\u00f3gica da viol\u00eancia, da explora\u00e7\u00e3o, do ego\u00edsmo. Pelo contr\u00e1rio, o mundo do consumo exacerbado \u00e9, simultaneamente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas formas.<\/p>\n<p>231. O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado m\u00fatuo, \u00e9 tamb\u00e9m civil e pol\u00edtico, manifestando-se em todas as ac\u00e7\u00f5es que procuram construir um mundo melhor. O amor \u00e0 sociedade e o compromisso pelo bem comum s\u00e3o uma forma eminente de caridade, que toca n\u00e3o s\u00f3 as rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos, mas tamb\u00e9m \u00abas macrorrela\u00e7\u00f5es como relacionamentos sociais, econ\u00f3micos, pol\u00edticos\u00bb.[156] Por isso, a Igreja prop\u00f4s ao mundo o ideal duma \u00abciviliza\u00e7\u00e3o do amor\u00bb.[157] O amor social \u00e9 a chave para um desenvolvimento aut\u00eantico: \u00abPara tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, \u00e9 necess\u00e1rio revalorizar o amor na vida social \u2013 nos planos pol\u00edtico, econ\u00f3mico, cultural \u2013 fazendo dele a norma constante e suprema do agir\u00bb.[158] Neste contexto, juntamente com a import\u00e2ncia dos pequenos gestos di\u00e1rios, o amor social impele-nos a pensar em grandes estrat\u00e9gias que detenham eficazmente a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade. Quando algu\u00e9m reconhece a voca\u00e7\u00e3o de Deus para intervir juntamente com os outros nestas din\u00e2micas sociais, deve lembrar-se que isto faz parte da sua espiritualidade, \u00e9 exerc\u00edcio da caridade e, deste modo, amadurece e se santifica.<\/p>\n<p>232. Nem todos s\u00e3o chamados a trabalhar de forma directa na pol\u00edtica, mas no seio da sociedade floresce uma variedade inumer\u00e1vel de associa\u00e7\u00f5es que interv\u00eam em prol do bem comum, defendendo o meio ambiente natural e urbano. Por exemplo, preocupam-se com um lugar p\u00fablico (um edif\u00edcio, uma fonte, um monumento abandonado, uma paisagem, uma pra\u00e7a) para proteger, sanar, melhorar ou embelezar algo que \u00e9 de todos. Ao seu redor, desenvolvem-se ou recuperam-se v\u00ednculos, fazendo surgir um novo tecido social local. Assim, uma comunidade liberta-se da indiferen\u00e7a consumista. Isto significa tamb\u00e9m cultivar uma identidade comum, uma hist\u00f3ria que se conserva e transmite. Desta forma cuida-se do mundo e da qualidade de vida dos mais pobres, com um sentido de solidariedade que \u00e9, ao mesmo tempo, consci\u00eancia de habitar numa casa comum que Deus nos confiou. Estas ac\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, quando exprimem um amor que se doa, podem transformar-se em experi\u00eancias espirituais intensas.<\/p>\n<p><strong>6. Os sinais sacramentais e o descanso celebrativo<\/strong><br \/>233. O universo desenvolve-se em Deus, que o preenche completamente. E, portanto, h\u00e1 um mist\u00e9rio a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre.[159] O ideal n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 passar da exterioridade \u00e0 interioridade para descobrir a ac\u00e7\u00e3o de Deus na alma, mas tamb\u00e9m chegar a encontr\u00e1-Lo em todas as coisas, como ensinava S\u00e3o Boaventura: \u00abA contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 tanto mais elevada quanto mais o homem sente em si mesmo o efeito da gra\u00e7a divina ou quanto mais sabe reconhecer Deus nas outras criaturas\u00bb.[160]<\/p>\n<p>234. S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz ensinava que tudo o que h\u00e1 de bom nas coisas e experi\u00eancias do mundo \u00abencontra-se eminentemente em Deus de maneira infinita ou, melhor, Ele \u00e9 cada uma destas grandezas que se pregam\u00bb.[161] E isto, n\u00e3o porque as coisas limitadas do mundo sejam realmente divinas, mas porque o m\u00edstico experimenta a liga\u00e7\u00e3o \u00edntima que h\u00e1 entre Deus e todos os seres vivos e, deste modo, \u00absente que Deus \u00e9 para ele todas as coisas\u00bb.[162] Quando admira a grandeza duma montanha, n\u00e3o pode separar isto de Deus, e percebe que tal admira\u00e7\u00e3o interior que ele vive, deve finalizar no Senhor: \u00abAs montanhas t\u00eam cumes, s\u00e3o altas, imponentes, belas, graciosas, floridas e perfumadas. Como estas montanhas, \u00e9 o meu Amado para mim. Os vales solit\u00e1rios s\u00e3o tranquilos, amenos, frescos, sombreados, ricos de doces \u00e1guas. Pela variedade das suas \u00e1rvores e pelo canto suave das aves, oferecem grande divertimento e encanto aos sentidos e, na sua solid\u00e3o e sil\u00eancio, d\u00e3o refrig\u00e9rio e repouso: como estes vales, \u00e9 o meu Amado para mim\u00bb.[163]<\/p>\n<p>235. Os sacramentos constituem um modo privilegiado em que a natureza \u00e9 assumida por Deus e transformada em media\u00e7\u00e3o da vida sobrenatural. Atrav\u00e9s do culto, somos convidados a abra\u00e7ar o mundo num plano diferente. A \u00e1gua, o azeite, o fogo e as cores s\u00e3o assumidas com toda a sua for\u00e7a simb\u00f3lica e incorporam-se no louvor. A m\u00e3o que aben\u00e7oa \u00e9 instrumento do amor de Deus e reflexo da proximidade de Cristo, que veio para Se fazer nosso companheiro no caminho da vida. A \u00e1gua derramada sobre o corpo da crian\u00e7a baptizada, \u00e9 sinal de vida nova. N\u00e3o fugimos do mundo, nem negamos a natureza, quando queremos encontrar-nos com Deus. Nota-se isto particularmente na espiritualidade do Oriente crist\u00e3o. \u00abA beleza, que no Oriente \u00e9 um dos nomes mais queridos para exprimir a harmonia divina e o modelo da humanidade transfigurada, mostra-se em toda a parte: nas formas do templo, nos sons, nas cores, nas luzes, nos perfumes\u00bb.[164] Segundo a experi\u00eancia crist\u00e3, todas as criaturas do universo material encontram o seu verdadeiro sentido no Verbo encarnado, porque o Filho de Deus incorporou na sua pessoa parte do universo material, onde introduziu um g\u00e9rmen de transforma\u00e7\u00e3o definitiva: \u00abO cristianismo n\u00e3o rejeita a mat\u00e9ria; pelo contr\u00e1rio, a corporeidade \u00e9 valorizada plenamente no acto lit\u00fargico, onde o corpo humano mostra sua \u00edntima natureza de templo do Esp\u00edrito Santo e chega a unir-se a Jesus Senhor, feito tamb\u00e9m Ele corpo para a salva\u00e7\u00e3o do mundo\u00bb.[165]<\/p>\n<p>236. A cria\u00e7\u00e3o encontra a sua maior eleva\u00e7\u00e3o na Eucaristia. A gra\u00e7a, que tende a manifestar-se de modo sens\u00edvel, atinge uma express\u00e3o maravilhosa quando o pr\u00f3prio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. No apogeu do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, o Senhor quer chegar ao nosso \u00edntimo atrav\u00e9s dum peda\u00e7o de mat\u00e9ria. N\u00e3o o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontr\u00e1-Lo a Ele no nosso pr\u00f3prio mundo. Na Eucaristia, j\u00e1 est\u00e1 realizada a plenitude, sendo o centro vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos d\u00e1 gra\u00e7as a Deus. Com efeito a Eucaristia \u00e9, por si mesma, um acto de amor c\u00f3smico. \u00abSim, c\u00f3smico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja da aldeia, a Eucaristia \u00e9 sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo\u00bb.[166] A Eucaristia une o c\u00e9u e a terra, abra\u00e7a e penetra toda a cria\u00e7\u00e3o. O mundo, sa\u00eddo das m\u00e3os de Deus, volta a Ele em feliz e plena adora\u00e7\u00e3o: no P\u00e3o Eucar\u00edstico, \u00aba cria\u00e7\u00e3o propende para a diviniza\u00e7\u00e3o, para as santas n\u00fapcias, para a unifica\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio Criador\u00bb.[167] Por isso, a Eucaristia \u00e9 tamb\u00e9m fonte de luz e motiva\u00e7\u00e3o para as nossas preocupa\u00e7\u00f5es pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardi\u00f5es da cria\u00e7\u00e3o inteira.<\/p>\n<p>237. A participa\u00e7\u00e3o na Eucaristia \u00e9 especialmente importante ao domingo. Este dia, \u00e0 semelhan\u00e7a do s\u00e1bado judaico, \u00e9-nos oferecido como dia de cura das rela\u00e7\u00f5es do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo. O domingo \u00e9 o dia da Ressurrei\u00e7\u00e3o, o \u00abprimeiro dia\u00bb da nova cria\u00e7\u00e3o, que tem as suas prim\u00edcias na humanidade ressuscitada do Senhor, garantia da transfigura\u00e7\u00e3o final de toda a realidade criada. Al\u00e9m disso, este dia anuncia \u00abo descanso eterno do homem, em Deus\u00bb.[168] Assim, a espiritualidade crist\u00e3 integra o valor do repouso e da festa. O ser humano tende a reduzir o descanso contemplativo ao \u00e2mbito do est\u00e9ril e do in\u00fatil, esquecendo que deste modo se tira \u00e0 obra realizada o mais importante: o seu significado. Na nossa actividade, somos chamados a incluir uma dimens\u00e3o receptiva e gratuita, o que \u00e9 diferente da simples inactividade. Trata-se doutra maneira de agir, que pertence \u00e0 nossa ess\u00eancia. Assim, a ac\u00e7\u00e3o humana \u00e9 preservada n\u00e3o s\u00f3 do activismo vazio, mas tamb\u00e9m da gan\u00e2ncia desenfreada e da consci\u00eancia que se isola buscando apenas o benef\u00edcio pessoal. A lei do repouso semanal impunha abster-se do trabalho no s\u00e9timo dia, \u00abpara que descansem o teu boi e o teu jumento e tomem f\u00f4lego o filho da tua serva e o estrangeiro residente\u00bb (Ex 23, 12). O repouso \u00e9 uma amplia\u00e7\u00e3o do olhar, que permite voltar a reconhecer os direitos dos outros. Assim o dia de descanso, cujo centro \u00e9 a Eucaristia, difunde a sua luz sobre a semana inteira e encoraja-nos a assumir o cuidado da natureza e dos pobres.<\/p>\n<p><strong>7. A Trindade e a rela\u00e7\u00e3o entre as criaturas<\/strong><br \/>238. O Pai \u00e9 a fonte \u00faltima de tudo, fundamento amoroso e comunicativo de tudo o que existe. O Filho, que O reflecte e por Quem tudo foi criado, uniu-Se a esta terra, quando foi formado no seio de Maria. O Esp\u00edrito, v\u00ednculo infinito de amor, est\u00e1 intimamente presente no cora\u00e7\u00e3o do universo, animando e suscitando novos caminhos. O mundo foi criado pelas tr\u00eas Pessoas como um \u00fanico princ\u00edpio divino, mas cada uma delas realiza esta obra comum segundo a pr\u00f3pria identidade pessoal. Por isso, \u00abquando, admirados, contemplamos o universo na sua grandeza e beleza, devemos louvar a inteira Trindade\u00bb.[169]<\/p>\n<p>239. Para os crist\u00e3os, acreditar num Deus \u00fanico que \u00e9 comunh\u00e3o trinit\u00e1ria, leva a pensar que toda a realidade cont\u00e9m em si mesma uma marca propriamente trinit\u00e1ria. S\u00e3o Boaventura chega a dizer que o ser humano, antes do pecado, conseguia descobrir como cada criatura \u00abtestemunha que Deus \u00e9 trino\u00bb. O reflexo da Trindade podia-se reconhecer na natureza, \u00abquando esse livro n\u00e3o era obscuro para o homem, nem a vista do homem se tinha turvado\u00bb.[170] Este santo franciscano ensina-nos quetoda a criatura traz em si uma estrutura propriamente trinit\u00e1ria, t\u00e3o real que poderia ser contemplada espontaneamente, se o olhar do ser humano n\u00e3o estivesse limitado, obscurecido e fragilizado. Indica-nos, assim, o desafio de tentar ler a realidade em chave trinit\u00e1ria.<\/p>\n<p>240. As Pessoas divinas s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es subsistentes; e o mundo, criado segundo o modelo divino, \u00e9 uma trama de rela\u00e7\u00f5es. As criaturas tendem para Deus; e \u00e9 pr\u00f3prio de cada ser vivo tender, por sua vez, para outra realidade, de modo que, no seio do universo, podemos encontrar uma s\u00e9rie inumer\u00e1vel de rela\u00e7\u00f5es constantes que secretamente se entrela\u00e7am.[171] Isto convida-nos n\u00e3o s\u00f3 a admirar os m\u00faltiplos v\u00ednculos que existem entre as criaturas, mas leva-nos tamb\u00e9m a descobrir uma chave da nossa pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o. Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunh\u00e3o com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na pr\u00f3pria exist\u00eancia aquele dinamismo trinit\u00e1rio que Deus imprimiu nela desde a sua cria\u00e7\u00e3o. Tudo est\u00e1 interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mist\u00e9rio da Trindade.<\/p>\n<p><strong>8. A Rainha de toda a cria\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>241. Maria, a m\u00e3e que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupa\u00e7\u00e3o materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o cora\u00e7\u00e3o trespassado a morte de Jesus, assim tamb\u00e9m agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano. Ela vive, com Jesus, completamente transfigurada, e todas as criaturas cantam a sua beleza. \u00c9 a Mulher \u00abvestida de sol, com a lua debaixo dos p\u00e9s e com uma coroa de doze estrelas na cabe\u00e7a\u00bb (Ap12, 1). Elevada ao c\u00e9u, \u00e9 M\u00e3e e Rainha de toda a cria\u00e7\u00e3o. No seu corpo glorificado, juntamente com Cristo ressuscitado, parte da cria\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ou toda a plenitude da sua beleza. Maria n\u00e3o s\u00f3 conserva no seu cora\u00e7\u00e3o toda a vida de Jesus, que \u00abguardava\u00bb cuidadosamente (cf.Lc2, 51), mas agora compreende tamb\u00e9m o sentido de todas as coisas. Por isso, podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente.<\/p>\n<p>242. E ao lado d&#8217;Ela, na sagrada fam\u00edlia de Nazar\u00e9, destaca-se a figura de S\u00e3o Jos\u00e9. Com o seu trabalho e presen\u00e7a generosa, cuidou e defendeu Maria e Jesus e livrou-os da viol\u00eancia dos injustos, levando-os para o Egipto. No Evangelho, aparece descrito como um homem justo, trabalhador, forte; mas, da sua figura, emana tamb\u00e9m uma grande ternura, pr\u00f3pria n\u00e3o de quem \u00e9 fraco mas de quem \u00e9 verdadeiramente forte, atento \u00e0 realidade para amar e servir humildemente. Por isso, foi declarado protector da Igreja universal. Tamb\u00e9m Ele nos pode ensinar a cuidar, pode motivar-nos a trabalhar com generosidade e ternura para proteger este mundo que Deus nos confiou.<\/p>\n<p><strong>9. Para al\u00e9m do sol<\/strong><br \/>243. No fim, encontrar-nos-emos face a face com a beleza infinita de Deus (cf.1 Cor13, 12) e poderemos ler, com jubilosa admira\u00e7\u00e3o, o mist\u00e9rio do universo, o qual ter\u00e1 parte connosco na plenitude sem fim. Estamos a caminhar para o s\u00e1bado da eternidade, para a nova Jerusal\u00e9m, para a casa comum do C\u00e9u. Diz-nos Jesus: \u00abEu renovo todas as coisas\u00bb (Ap 21, 5). A vida eterna ser\u00e1 uma maravilha compartilhada, onde cada criatura, esplendorosamente transformada, ocupar\u00e1 o seu lugar e ter\u00e1 algo para oferecer aos pobres definitivamente libertados.<\/p>\n<p>244. Na expectativa da vida eterna, unimo-nos para tomar a nosso cargo esta casa que nos foi confiada, sabendo que aquilo de bom que h\u00e1 nela ser\u00e1 assumido na festa do C\u00e9u. Juntamente com todas as criaturas, caminhamos nesta terra \u00e0 procura de Deus, porque, \u00abse o mundo tem um princ\u00edpio e foi criado, procura quem o criou, procura quem lhe deu in\u00edcio, aquele que \u00e9 o seu Criador\u00bb.[172] Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupa\u00e7\u00e3o por este planeta n\u00e3o nos tirem a alegria da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>245. Deus, que nos chama a uma generosa entrega e a oferecer-Lhe tudo, tamb\u00e9m nos d\u00e1 as for\u00e7as e a luz de que necessitamos para prosseguir. No cora\u00e7\u00e3o deste mundo, permanece presente o Senhor da vida que tanto nos ama. N\u00e3o nos abandona, n\u00e3o nos deixa sozinhos, porque Se uniu definitivamente \u00e0 nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!<br \/>* * *<\/p>\n<p>246. Depois desta longa reflex\u00e3o, jubilosa e ao mesmo tempo dram\u00e1tica, proponho duas ora\u00e7\u00f5es: uma que podemos partilhar todos quantos acreditam num Deus Criador Omnipotente, e outra pedindo que n\u00f3s, crist\u00e3os, saibamos assumir os compromissos para com a cria\u00e7\u00e3o que o Evangelho de Jesus nos prop\u00f5e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin-left: 30px;\"><strong>Ora\u00e7\u00e3o pela nossa terra<\/strong><br \/>Deus Omnipotente,<br \/>que estais presente em todo o universo<br \/>e na mais pequenina das vossas criaturas,<br \/>V\u00f3s que envolveis com a vossa ternura<br \/>tudo o que existe,<br \/>derramai em n\u00f3s a for\u00e7a do vosso amor<br \/>para cuidarmos da vida e da beleza.<br \/>Inundai-nos de paz,<br \/>para que vivamos como irm\u00e3os e irm\u00e3s<br \/>sem prejudicar ningu\u00e9m.<br \/>\u00d3 Deus dos pobres,<br \/>ajudai-nos a resgatar<br \/>os abandonados e esquecidos desta terra<br \/>que valem tanto aos vossos olhos.<br \/>Curai a nossa vida,<br \/>para que protejamos o mundo<br \/>e n\u00e3o o depredemos,<br \/>para que semeemos beleza<br \/>e n\u00e3o polui\u00e7\u00e3o nem destrui\u00e7\u00e3o.<br \/>Tocai os cora\u00e7\u00f5es<br \/>daqueles que buscam apenas benef\u00edcios<br \/>\u00e0 custa dos pobres e da terra.<br \/>Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa,<br \/>a contemplar com encanto,<br \/>a reconhecer que estamos profundamente unidos<br \/>com todas as criaturas<br \/>no nosso caminho para a vossa luz infinita.<br \/>Obrigado porque estais connosco todos os dias.<br \/>Sustentai-nos, por favor, na nossa luta<br \/>pela justi\u00e7a, o amor e a paz.<br \/>Ora\u00e7\u00e3o crist\u00e3 com a cria\u00e7\u00e3o<br \/>N\u00f3s Vos louvamos, Pai,<br \/>com todas as vossas criaturas,<br \/>que sa\u00edram da vossa m\u00e3o poderosa.<br \/>S\u00e3o vossas e est\u00e3o repletas da vossa presen\u00e7a<br \/>e da vossa ternura.<br \/>Louvado sejais!<br \/>Filho de Deus, Jesus,<br \/>por V\u00f3s foram criadas todas as coisas.<br \/>Fostes formado no seio materno de Maria,<br \/>fizestes-Vos parte desta terra,<br \/>e contemplastes este mundo<br \/>com olhos humanos.<br \/>Hoje estais vivo em cada criatura<br \/>com a vossa gl\u00f3ria de ressuscitado.<br \/>Louvado sejais!<br \/>Esp\u00edrito Santo, que, com a vossa luz,<br \/>guiais este mundo para o amor do Pai<br \/>e acompanhais o gemido da cria\u00e7\u00e3o,<br \/>V\u00f3s viveis tamb\u00e9m nos nossos cora\u00e7\u00f5es<br \/>a fim de nos impelir para o bem.<br \/>Louvado sejais!<br \/>Senhor Deus, Uno e Trino,<br \/>comunidade estupenda de amor infinito,<br \/>ensinai-nos a contemplar-Vos<br \/>na beleza do universo,<br \/>onde tudo nos fala de V\u00f3s.<br \/>Despertai o nosso louvor e a nossa gratid\u00e3o<br \/>por cada ser que criastes.<br \/>Dai-nos a gra\u00e7a de nos sentirmos<br \/>intimamente unidos<br \/>a tudo o que existe.<br \/>Deus de amor,<br \/>mostrai-nos o nosso lugar neste mundo<br \/>como instrumentos do vosso carinho<br \/>por todos os seres desta terra,<br \/>porque nem um deles sequer<br \/>\u00e9 esquecido por V\u00f3s.<br \/>Iluminai os donos do poder e do dinheiro<br \/>para que n\u00e3o caiam no pecado da indiferen\u00e7a,<br \/>amem o bem comum, promovam os fracos,<br \/>e cuidem deste mundo que habitamos.<br \/>Os pobres e a terra est\u00e3o bradando:<br \/>Senhor, tomai-nos<br \/>sob o vosso poder e a vossa luz,<br \/>para proteger cada vida,<br \/>para preparar um futuro melhor,<br \/>para que venha o vosso Reino<br \/>de justi\u00e7a, paz, amor e beleza.<br \/>Louvado sejais!<br \/>Amen.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Roma, dia 24 de Maio de 2015, terceiro ano do meu Pontificado.<br \/><strong>Papa Francisco<\/strong><\/span><\/p>\n<p>________________________________________<br \/>[1] Cantico delle creature: Fonti Francescane, 263.<br \/>[2] Carta ap. Octogesima adveniens (14 de Maio de 1971), 21: AAS 63 (1971), 416-417.<br \/>[3] Discurso \u00e0 FAO, no seu XXV anivers\u00e1rio (16 de Novembro de 1970), 4: AAS 62 (1970), 833; L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 22\/XI\/1970), 6.<br \/>[4] Carta enc. Redemptor hominis (4 de Mar\u00e7o de 1979),15: AAS 71 (1979), 287.<br \/>[5] Cf. Catequese (17 de Janeiro de 2001), 4: Insegnamenti24\/1 (2001), 179; L\u00b4Osservatore Romano (ed. portuguesa de 20\/I\/2001), 8.<br \/>[6] Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 38: AAS 83 (1991), 841.<br \/>[7] Ibid., 58: o. c.,863.<br \/>[8] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 34: AAS 80 (1988), 559.<br \/>[9] Cf. Idem, Carta enc. Centesimus annus(1 de Maio de 1991), 37: AAS 83 (1991), 840.<br \/>[10] Discurso ao Corpo Diplom\u00e1tico acreditado junto da Santa S\u00e9 (8 de Janeiro de 2007): AAS 99 (2007), 73.<br \/>[11] Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 51:AAS 101 (2009), 687.<br \/>[12] Discurso ao Bundestag, Berlim (22 de Setembro de 2011): AAS 103 (2011), 664; L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 24\/IX\/2011), 5.<br \/>[13] Bento XVI, Discurso ao clero da diocese de Bolzano-Bressanone (6 de Agosto de 2008): AAS 100 (2008), 634; L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 16\/VIII\/2008), 5.<br \/>[14] Mensagem para o Dia de Ora\u00e7\u00e3o pela salvaguarda da cria\u00e7\u00e3o (1 de Setembro de 2012).<br \/>[15] Discurso em Santa B\u00e1rbara, Calif\u00f3rnia (8 de Novembro de 1997); cf. John Chryssavgis, On Earth as in Heaven: Ecological Vision and Initiatives of Ecumenical Patriarch Bartholomew (Bronx\/Nova Iorque 2012).<br \/>[16] Ibidem.<br \/>[17] Confer\u00eancia no Mosteiro de Utstein, Noruega (23 de Junho de 2003).<br \/>[18] Bartolomeu, Discurso Global Responsibility and Ecological Sustainability: Closing Remarks, I Cimeira de Halki, Istambul (20 de Junho de 2012).<br \/>[19] Tom\u00e1s de Celano, Vita prima di San Francesco, XXIX, 81: Fonti Francescane, 460.<br \/>[20] Legenda Maior, VIII, 6: Fonti Francescane, 1145.<br \/>[21] Cf. Tom\u00e1s de Celano, Vita seconda di San Francesco, CXXIV, 165: Fonti Francescane, 750.<br \/>[22] Confer\u00eancia dos Bispos Cat\u00f3licos da \u00c1frica do Sul, Pastoral Statement on the Environmental Crisis (5 de Setembro de 1999).<br \/>[23] Cf. Francisco, Sauda\u00e7\u00e3o aos funcion\u00e1rios da FAO (20 de Novembro de 2014): AAS 106 (2014), 985; L&#8217;Osservatore Romano(ed. portuguesa de 27\/XI\/2014), 3.<br \/>[24] V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de Junho de 2007), 86.<br \/>[25] Confer\u00eancia dos Bispos Cat\u00f3licos das Filipinas, Carta pastoral What is Happening to our Beautiful Land? (29 de Janeiro de 1988).<br \/>[26] Confer\u00eancia Episcopal da Bol\u00edvia, Carta pastoral El universo, don de Dios para la vida (2012), 17.<br \/>[27] Cf. Confer\u00eancia Episcopal Alem\u00e3 \u2013 Comiss\u00e3o para a pastoral social, Der Klimawandel: Brennpunkt globaler, intergenerationeller und \u00f6kologischer Gerechtigkeit (Setembro de 2006), 28-30.<br \/>[28] Pontif\u00edcio Conselho \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 483.<br \/>[29] Francisco, Catequese (5 de Junho de 2013): Insegnamenti1\/1 (2013), 280; L\u00b4Osservatore Romano (ed. portuguesa de 9\/VI\/2013), 16.<br \/>[30] Bispos da regi\u00e3o da Patag\u00f3nia-Comahue (Argentina), Mensaje de Navidad (Dezembro de 2009), 2.<br \/>[31] Confer\u00eancia dos Bispos Cat\u00f3licos dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, Global Climate Change: A Plea for Dialogue, Prudence and the Common Good (15 de Junho de 2001).<br \/>[32] V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de Junho de 2007), 471.<br \/>[33] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 56: AAS 105 (2013), 1043.<br \/>[34] Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 12: AAS 82 (1990), 154.<br \/>[35] Idem, Catequese (17 de Janeiro de 2001), 3: Insegnamenti 24\/1 (2001), 178; L\u00b4Osservatore Romano (ed. portuguesa de 20\/I\/2001), 8.<br \/>[36] Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 15: AAS 82 (1990), 156.<br \/>[37] Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 357.<br \/>[38] Angelus com os inv\u00e1lidos, Osnabr\u00fck \/ Alemanha (16 de Novembro de 1980): Insegnamenti 3\/2 (1980), 1232; L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 23\/XI\/1980), 20.<br \/>[39] Bento XVI, Homilia no in\u00edcio solene do Minist\u00e9rio Petrino (24 de Abril de 2005): AAS 97 (2005), 711; L\u00b4Osservatore Romano(ed. portuguesa de 30\/IV\/2015), 5.<br \/>[40] Cf. Legenda Maior, VIII, 1: Fonti Francescane, 1134.<br \/>[41] Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 2416.<br \/>[42] Confer\u00eancia Episcopal Alem\u00e3, Zukunft der Sch\u00f6pfung \u2013 Zukunft der Menschheit. Erkl\u00e4rung der Deutschen Bischofskonferenz zu Fragen der Umwelt und der Energieversorgung (1980), II, 2.<br \/>[43] Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 339.<br \/>[44] Hom. in Hexaemeron, 1, 2, 10: PG 29, 9.<br \/>[45] Divina Commedia. Paradiso, Canto XXXIII, 145.<br \/>[46] Bento XVI, Catequese (9 de Novembro de 2005), 3: Insegnamenti1 (2005), 768; L\u00b4Osservatore Romano (ed. portuguesa de 12\/XI\/2005), 24.<br \/>[47] Idem, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 51:AAS101 (2009), 687.<br \/>[48] Jo\u00e3o Paulo II, Catequese (24 de Abril de 1991), 6: Insegnamenti14\/1 (1991), 856; L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 28\/IV\/1991), 12.<br \/>[49] O Catecismo ensina que Deus quis criar um mundo em caminho para a perfei\u00e7\u00e3o \u00faltima, o que implica a presen\u00e7a da imperfei\u00e7\u00e3o e do mal f\u00edsico: ver Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica,310.<br \/>[50] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 36.<br \/>[51] Tom\u00e1s de Aquino, Summa theologiaeI, q. 104, art. 1, ad 4.<br \/>[52] Idem, In octo libros Physicorum Aristotelis expositio, lib. II, lectio 14.<br \/>[53] Coloca-se, nesta perspectiva, a contribui\u00e7\u00e3o do P. Teilhard de Chardin; veja-se Paulo VI, Discurso numa f\u00e1brica qu\u00edmico-farmac\u00eautico (24 de Fevereiro de 1966): Insegnamenti 4 (1966), 992-993; Jo\u00e3o Paulo II, Carta ao reverendo P. George V. Coyne(1 de Junho de 1988): Insegnamenti 11\/2 (1988), 1715; Bento XVI, Homilia na Celebra\u00e7\u00e3o das V\u00e9speras, em Aosta (24 de Julho de 2009): Insegnamenti 5\/2 (2009), 60.<br \/>[54] Jo\u00e3o Paulo II, Catequese (30 de Janeiro de 2002), 6: Insegnamenti 25\/1 (2002), 140; L\u00b4Osservatore Romano (ed. portuguesa de 2\/II\/2002), 12.<br \/>[55] Confer\u00eancia Episcopal do Canad\u00e1 &#8211; Comiss\u00e3o para a Pastoral Social, You love all that exists&#8230; All things are yours, God, Lover of Life (4 de Outubro de 2003), 1.<br \/>[56] Confer\u00eancia dos Bispos Cat\u00f3licos do Jap\u00e3o, Reverence for Life. A Message for the Twenty-First Century (1 de Janeiro de 2001), 89.<br \/>[57] Jo\u00e3o Paulo II, Catequese (26 de Janeiro de 2000), 5: Insegnamenti23\/1 (2000), 123;L\u00b4Osservatore Romano (ed. portuguesa de 29\/I\/2000), 8.<br \/>[58] Idem, Catequese (2 de Agosto de 2000), 3: Insegnamenti 23\/2 (2000), 112; L\u00b4Osservatore Romano (ed. portuguesa de 5\/VIII\/2000), 8.<br \/>[59] Paul Ricoeur, Philosophie de la volont\u00e9. 2\u00aa parte:Finitude et culpabilit\u00e9 (Paris 2009), 216.<br \/>[60] Summa theologiae I, q. 47, art. 1.<br \/>[61] Ibidem.<br \/>[62] Cf.ibid., art. 2, ad. 1; art. 3.<br \/>[63] Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 340.<br \/>[64] Cantico delle creature: Fonti Francescane, 263.<br \/>[65] Cf. Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil, A Igreja e a quest\u00e3o ecol\u00f3gica (1992), 53-54.<br \/>[66] Ibid., 61.<br \/>[67] Francisco, Exort. ap.Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 215: AAS105 (2013), 1109.<br \/>[68] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate(29 de Junho de 2009), 14:AAS101 (2009), 650.<br \/>[69] Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 2418.<br \/>[70] Confer\u00eancia do Episcopado Dominicano, Carta pastoral Sobre la relaci\u00f3n del hombre con la naturaleza (21 de Janeiro de 1987).<br \/>[71] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981),19: AAS 73 (1981), 626.<br \/>[72] Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 31: AAS 83 (1991), 831.<br \/>[73] Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 33:AAS 80 (1988), 557.<br \/>[74] Discurso aos ind\u00edgenas e agricultores do M\u00e9xico, em Cuilap\u00e1n (29 de Janeiro de 1979), 6: AAS 71 (1979), 209; L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 11\/II\/1979), 4.<br \/>[75] Homilia na Missa celebrada para os agricultores, em Recife\/Brasil (7 de Julho de 1980), 4: AAS 72 (1980), 926;L\u00b4Osservatore Romano (ed. portuguesa de 20\/VII\/1980), 13.<br \/>[76] Cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 8: AAS 82 (1990), 152.<br \/>[77] Confer\u00eancia Episcopal do Paraguai, Carta pastoral El campesino paraguayo y la tierra (12 de Junho de 1983), 2, 4, d.<br \/>[78] Confer\u00eancia Episcopal da Nova Zel\u00e2ndia, Statement on Environmental Issues (1 de Setembro de 2006).<br \/>[79]Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 27: AAS 73 (1981), 645.<br \/>[80] Por isso, S\u00e3o Justino podia falar de \u00absementes do Verbo\u00bb no mundo. Cf. II Apologia 8, 1-2; 13, 3-6: PG 6, 457-458; 467.<br \/>[81] Jo\u00e3o Paulo II, Discurso aos representantes da ci\u00eancia, da cultura e dos estudos superiores na Universidade das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Hiroxima (25 de Fevereiro de 1981), 3: AAS 73 (1981), 422.<br \/>[82] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 69:AAS 101 (2009), 702.<br \/>[83] Romano Guardini, Das Ende der Neuzeit(W\u00fcrzburg9 1965), 87.<br \/>[84] Ibidem.<br \/>[85] Ibid., 87-88.<br \/>[86] Pontif\u00edcio Conselho \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 462.<br \/>[87] Romano Guardini, Das Ende der Neuzeit (W\u00fcrzburg9 1965), 63-64.<br \/>[88] Ibid., 64.<br \/>[89] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 35: AAS 101 (2009), 671.<br \/>[90] Ibid., 22: o. c., 657.<br \/>[91] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 231: AAS 105 (2013), 1114.<br \/>[92] Romano Guardini, Das Ende der Neuzeit (W\u00fcrzburg9 1965), 63.<br \/>[93] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 38: AAS83 (1991), 841.<br \/>[94] Cf. Declara\u00e7\u00e3o Love for Creation. An Asian Response to the Ecological Crisis: Col\u00f3quio promovido pela Federa\u00e7\u00e3o das Confer\u00eancias Episcopais da \u00c1sia, Tagaytay (31 de Janeiro a 5 de Fevereiro de 1993), 3.3.2.<br \/>[95] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991),37: AAS 83 (1991), 840.<br \/>[96] Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, 2: AAS 102 (2010), 41.<br \/>[97] Idem, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 28:AAS 101 (2009), 663.<br \/>[98] Cf. Vicente de Lerins, Commonitorium primum, cap. 23: PL 50, 668: \u00abUt annis scilicet consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate \u2013 Fortalece-se com o decorrer dos anos, desenvolve-se com o andar dos tempos, cresce atrav\u00e9s das idades\u00bb.<br \/>[99] N. 80: AAS 105 (2013), 1053.<br \/>[100] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 63.<br \/>[101] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 37: AAS 83 (1991), 840.<br \/>[102] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 34: AAS 59 (1967), 274.<br \/>[103] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 32: AAS 101 (2009), 666.<br \/>[104] Ibidem.<br \/>[105] Ibidem.<br \/>[106] Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 2417.<br \/>[107] Ibid., 2418.<br \/>[108] Ibid., 2415.<br \/>[109] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 6: AAS 82 (1990), 150.<br \/>[110] Discurso \u00e0 Pontif\u00edcia Academia das Ci\u00eancias (3 de Outubro de 1981), 3: Insegnamenti 4\/2 (1981), 333; L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 11\/X\/1981), 8.<br \/>[111] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 7: AAS 82 (1990), 151.<br \/>[112] Jo\u00e3o Paulo II, Discurso \u00e0 35\u00aa Assembleia Geral da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Mundial (29 de Outubro de 1983), 6: AAS 76 (1984), 394; L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 13\/XI\/1983), 7.<br \/>[113] Confer\u00eancia Episcopal da Argentina \u2013 Comiss\u00e3o de Pastoral Social, Una tierra para todos (Junho de 2005), 19.<br \/>[114] Declara\u00e7\u00e3o do Rio sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, Rio de Janeiro (14 de Junho de 1992), princ\u00edpio 4.<br \/>[115] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 237: AAS 105 (2013), 1116.<br \/>[116] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 51: AAS 101 (2009), 687.<br \/>[117] Alguns autores puseram em evid\u00eancia os valores que muitas vezes se vivem, por exemplo, nas \u00abvillas\u00bb, \u00abchabolas\u00bb ou favelas da Am\u00e9rica Latina: ver Juan Carlos Scannone S.I., \u00abLa irrupci\u00f3n del pobre y la l\u00f3gica de la gratuidad\u00bb, in Juan Carlos Scannone e Marcelo Perine (eds.), Irrupci\u00f3n del pobre y quehacer filos\u00f3fico. Hacia una nueva racionalidad (Buenos Aires 1993), 225-230.<br \/>[118] Pontif\u00edcio Conselho \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 482.<br \/>[119] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 210: AAS 105 (2013), 1107.<br \/>[120] Discurso ao Bundestag, Berlim (22 de Setembro de 2011): AAS 103 (2011), 668; L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 24\/IX\/2011), 5.<br \/>[121] Francisco, Catequese (15 de Abril de 2015): L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 16\/IV\/2015), 20.<br \/>[122] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 26.<br \/>[123] Cf. nn. 186-201:AAS 105 (2013), 1098-1105.<br \/>[124] Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, Carta pastoral Responsabilidade solid\u00e1ria pelo bem comum (15 de Setembro de 2003), 20.<br \/>[125] Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, 8: AAS 102 (2010), 45.<br \/>[126] Declara\u00e7\u00e3o do Rio sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, Rio de Janeiro (14 de Junho de 1992), princ\u00edpio 1.<br \/>[127] Confer\u00eancia Episcopal da Bol\u00edvia, Carta pastoral El universo, don de Dios para la vida (2012), 86.<br \/>[128] Pontif\u00edcio Conselho \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, Doc. Energia, Giustizia e Pace (Cidade do Vaticano 2013), 56.<br \/>[129] Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 67: AAS 101 (2009), 700.<br \/>[130] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 222: AAS 105 (2013), 1111.<br \/>[131] Pontif\u00edcio Conselho \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 469.<br \/>[132] Declara\u00e7\u00e3o do Rio sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (14 de Junho de 1992), princ\u00edpio 15.<br \/>[133] Cf. Confer\u00eancia Episcopal do M\u00e9xico \u2013 Comiss\u00e3o de Pastoral Social, Jesucristo, vida y esperanza de los ind\u00edgenas y campesinos (14 de Janeiro de 2008).<br \/>[134] Pontif\u00edcio Conselho \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb,Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 470.<br \/>[135] Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, 9: AAS 102 (2010), 46.<br \/>[136] Ibidem.<br \/>[137] Ibid., 5: o. c., 43.<br \/>[138] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 50: AAS 101 (2009), 686.<br \/>[139] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 209: AAS 105 (2013), 1107.<br \/>[140] Ibid., 228: o. c., 1113.<br \/>[141] Cf. Francisco, Carta enc. Lumen fidei (29 de Junho de 2013), 34 [AAS 105 (2013), 577]: \u00abEnquanto unida \u00e0 verdade do amor, a luz da f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da f\u00e9 \u00e9 luz encarnada, que dimana da vida luminosa de Jesus. A f\u00e9 ilumina tamb\u00e9m a mat\u00e9ria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreens\u00e3o. Deste modo, o olhar da ci\u00eancia tira benef\u00edcio da f\u00e9: esta convida o cientista a permanecer aberto \u00e0 realidade, em toda a sua riqueza inesgot\u00e1vel. A f\u00e9 desperta o sentido cr\u00edtico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas f\u00f3rmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o, a f\u00e9 alarga os horizontes da raz\u00e3o para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ci\u00eancia\u00bb.<br \/>[142] Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 256: AAS 105 (2013), 1123.<br \/>[143] Ibid., 231: o. c., 1114.<br \/>[144] Das Ende der Neuzeit (W\u00fcrzburg9 1965), 66-67.<br \/>[145] Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 1: AAS 82 (1990), 147.<br \/>[146] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 66:AAS101 (2009), 699.<br \/>[147] Idem, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, 11: AAS 102 (2010), 48.<br \/>[148] Carta da Terra, Haia (29 de Junho de 2000).<br \/>[149] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 39: AAS 83 (1991), 842.<br \/>[150] Idem, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, 14: AAS 82 (1990), 155.<br \/>[151] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 261: AAS105 (2013), 1124.<br \/>[152] Bento XVI, Homilia no in\u00edcio solene do Minist\u00e9rio Petrino (24 de Abril de 2005): AAS 97 (2005), 710; L\u00b4Osservatore Romano(ed. portuguesa de 30\/IV\/2005), 5.<br \/>[153] Confer\u00eancia dos Bispos Cat\u00f3licos da Austr\u00e1lia, A New Earth &#8211; The Environmental Challenge (2002).<br \/>[154] Romano Guardini, Das Ende der Neuzeit (W\u00fcrzburg9 1965), 72.<br \/>[155] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de Novembro de 2013), 71: AAS 105 (2013), 1050.<br \/>[156] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de Junho de 2009), 2:AAS 101 (2009), 642.<br \/>[157] Paulo VI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1977: AAS 68 (1976), 709.<br \/>[158] Pontif\u00edcio Conselho \u00abJusti\u00e7a e Paz\u00bb, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 582.<br \/>[159] Um mestre espiritual, Ali Al-Khawwas, partindo da sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, assinalava a necessidade de n\u00e3o separar demasiado as criaturas do mundo e a experi\u00eancia de Deus na interioridade. Dizia ele: \u00abN\u00e3o \u00e9 preciso criticar preconceituosamente aqueles que procuram o \u00eaxtase na m\u00fasica ou na poesia. H\u00e1 um &#8220;segredo&#8221; subtil em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. Os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as \u00e1rvores que se curvam, a \u00e1gua que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos p\u00e1ssaros, o dedilhar de cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfermos, o gemido dos aflitos&#8230;\u00bb [Eva De Vitray-Meyerovitch (ed.), Anthologie du soufisme (Paris 1978), 200].<br \/>[160] In II Sententiarum, 23, 2, 3.<br \/>[161] C\u00e1ntico Espiritual,XIV, 5.<br \/>[162] Ibidem.<br \/>[163] Ibid., XIV, 6-7.<br \/>[164] Jo\u00e3o Paulo II, Carta ap. Orientale lumen (2 de Maio de 1995),11: AAS 87 (1995), 757.<br \/>[165] Ibidem.<br \/>[166] Idem, Carta enc.Ecclesia de Eucharistia (17 de Abril de 2003), 8: AAS 95 (2003), 438.<br \/>[167] Bento XVI, Homilia na Missa de Corpus Christi (15 de Junho de 2006): AAS 98 (2006), 513; L\u00b4Osservatore Romano (ed. portuguesa de 24\/VI\/2006), 3.<br \/>[168] Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 2175.<br \/>[169] Jo\u00e3o Paulo II, Catequese (2 de Agosto de 2000), 4: Insegnamenti 23\/2 (2000), 112; L\u00b4Osservatore Romano (ed. portuguesa de 5\/VIII\/2000), 8.<br \/>[170] Quaestiones disputatae de Mysterio Trinitatis, 1, 2, concl.<br \/>[171] Cf. Tom\u00e1s de Aquino, Summa theologiae I, q. 11, art. 3; q. 21, art. 1, ad 3; q. 47, art. 3.<br \/>[172] Bas\u00edlio Magno, Hom. in Hexaemeron, 1, 2, 6: PG 29, 8.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LAUDATO SI &#8211; Carta Enc\u00edclica sobre o cuidado da casa comum &#8220;Alguns eixos atravessam toda a enc\u00edclica. Por exemplo: a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1383,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-1384","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-papa-francisco"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco - Paroquia de Queijas<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco - Paroquia de Queijas\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"LAUDATO SI &#8211; Carta Enc\u00edclica sobre o cuidado da casa comum &#8220;Alguns eixos atravessam toda a enc\u00edclica. Por exemplo: a [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Paroquia de Queijas\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/paroquiaqueijas\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2015-06-18T18:59:51+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-03-21T15:40:57+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/natureza.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"500\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"332\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Paroquia de Queijas\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Paroquia de Queijas\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Tempo estimado de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"219 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"Paroquia de Queijas\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/07bb4cce216326e06b6f742b719ebec7\"},\"headline\":\"LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco\",\"datePublished\":\"2015-06-18T18:59:51+00:00\",\"dateModified\":\"2026-03-21T15:40:57+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/\"},\"wordCount\":43815,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/#organization\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2015\\\/06\\\/natureza.jpg\",\"articleSection\":[\"Papa Francisco\"],\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/\",\"name\":\"LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco - Paroquia de Queijas\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2015\\\/06\\\/natureza.jpg\",\"datePublished\":\"2015-06-18T18:59:51+00:00\",\"dateModified\":\"2026-03-21T15:40:57+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/#primaryimage\",\"url\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2015\\\/06\\\/natureza.jpg\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2015\\\/06\\\/natureza.jpg\",\"width\":500,\"height\":332,\"caption\":\"natureza\"},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\\\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/\",\"name\":\"Paroquia de Queijas\",\"description\":\"\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/#organization\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-PT\"},{\"@type\":\"Organization\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/#organization\",\"name\":\"Paroquia de Queijas\",\"url\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/\",\"logo\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/#\\\/schema\\\/logo\\\/image\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2026\\\/03\\\/LogoQueijas_novo.png\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2026\\\/03\\\/LogoQueijas_novo.png\",\"width\":520,\"height\":519,\"caption\":\"Paroquia de Queijas\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/#\\\/schema\\\/logo\\\/image\\\/\"},\"sameAs\":[\"https:\\\/\\\/www.facebook.com\\\/paroquiaqueijas\\\/\"]},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/07bb4cce216326e06b6f742b719ebec7\",\"name\":\"Paroquia de Queijas\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/secure.gravatar.com\\\/avatar\\\/5054571ff5d2454cd50657fc4e61d0c32d7a5d0d3b36ef6c0f6e269276d13618?s=96&d=mm&r=g\",\"url\":\"https:\\\/\\\/secure.gravatar.com\\\/avatar\\\/5054571ff5d2454cd50657fc4e61d0c32d7a5d0d3b36ef6c0f6e269276d13618?s=96&d=mm&r=g\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/secure.gravatar.com\\\/avatar\\\/5054571ff5d2454cd50657fc4e61d0c32d7a5d0d3b36ef6c0f6e269276d13618?s=96&d=mm&r=g\",\"caption\":\"Paroquia de Queijas\"},\"sameAs\":[\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/site\"],\"url\":\"https:\\\/\\\/paroquiaqueijas.net\\\/portal\\\/author\\\/admin1\\\/\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco - Paroquia de Queijas","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/","og_locale":"pt_PT","og_type":"article","og_title":"LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco - Paroquia de Queijas","og_description":"LAUDATO SI &#8211; Carta Enc\u00edclica sobre o cuidado da casa comum &#8220;Alguns eixos atravessam toda a enc\u00edclica. Por exemplo: a [&hellip;]","og_url":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/","og_site_name":"Paroquia de Queijas","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/paroquiaqueijas\/","article_published_time":"2015-06-18T18:59:51+00:00","article_modified_time":"2026-03-21T15:40:57+00:00","og_image":[{"width":500,"height":332,"url":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/natureza.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"Paroquia de Queijas","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Paroquia de Queijas","Tempo estimado de leitura":"219 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/"},"author":{"name":"Paroquia de Queijas","@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/#\/schema\/person\/07bb4cce216326e06b6f742b719ebec7"},"headline":"LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco","datePublished":"2015-06-18T18:59:51+00:00","dateModified":"2026-03-21T15:40:57+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/"},"wordCount":43815,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/#organization"},"image":{"@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/natureza.jpg","articleSection":["Papa Francisco"],"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/","url":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/","name":"LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco - Paroquia de Queijas","isPartOf":{"@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/natureza.jpg","datePublished":"2015-06-18T18:59:51+00:00","dateModified":"2026-03-21T15:40:57+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-PT","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/#primaryimage","url":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/natureza.jpg","contentUrl":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/natureza.jpg","width":500,"height":332,"caption":"natureza"},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/laudato-si-carta-enciclica-do-papa-francisco\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"LAUDATO SI, Carta Enc\u00edclica do Papa Francisco"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/#website","url":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/","name":"Paroquia de Queijas","description":"","publisher":{"@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/#organization"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-PT"},{"@type":"Organization","@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/#organization","name":"Paroquia de Queijas","url":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/","logo":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/#\/schema\/logo\/image\/","url":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/LogoQueijas_novo.png","contentUrl":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/LogoQueijas_novo.png","width":520,"height":519,"caption":"Paroquia de Queijas"},"image":{"@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/#\/schema\/logo\/image\/"},"sameAs":["https:\/\/www.facebook.com\/paroquiaqueijas\/"]},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/#\/schema\/person\/07bb4cce216326e06b6f742b719ebec7","name":"Paroquia de Queijas","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-PT","@id":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/5054571ff5d2454cd50657fc4e61d0c32d7a5d0d3b36ef6c0f6e269276d13618?s=96&d=mm&r=g","url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/5054571ff5d2454cd50657fc4e61d0c32d7a5d0d3b36ef6c0f6e269276d13618?s=96&d=mm&r=g","contentUrl":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/5054571ff5d2454cd50657fc4e61d0c32d7a5d0d3b36ef6c0f6e269276d13618?s=96&d=mm&r=g","caption":"Paroquia de Queijas"},"sameAs":["https:\/\/paroquiaqueijas.net\/site"],"url":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/author\/admin1\/"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1384","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1384"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1384\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2407,"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1384\/revisions\/2407"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1383"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}