{"id":330,"date":"2025-03-26T15:25:57","date_gmt":"2025-03-26T15:25:57","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/site\/?p=330"},"modified":"2026-04-27T18:46:32","modified_gmt":"2026-04-27T18:46:32","slug":"nossa-senhora-da-rocha-historia-e-devocao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/nossa-senhora-da-rocha-historia-e-devocao\/","title":{"rendered":"Nossa Senhora da Rocha &#8211; hist\u00f3ria e devo\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 40px;\"><a href=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/Rocha22.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-329\" src=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/Rocha22.jpg\" alt=\"Rocha22\" width=\"500\" height=\"688\" srcset=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/Rocha22.jpg 436w, https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/Rocha22-218x300.jpg 218w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><em>\u00abO pai beijou-o, todo em l\u00e1grimas, acedeu a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercess\u00e3o de Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo frei Jer\u00f3nimo da Concei\u00e7\u00e3o, seu confessor, declarou este milagre \u2013 n\u00e3o inferior ao de Carnaxide.\u00bb<\/em><br \/>\n(<span style=\"font-size: 10pt;\">E\u00e7a de Queiroz, <em>Os Maias<\/em>, Livros do Brasil, Lisboa, s\/d, p.14)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Pe. Alexandre Santos<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 18pt;\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora est\u00e1 no mais \u00edntimo da nossa cultura e alma portuguesa, sente\u2011se quase instintivamente, quer para quem aqui vive quer para quem nos visita. N\u00e3o \u00e9 apenas um tra\u00e7o religioso, \u00e9 um pilar estruturante da pr\u00f3pria paisagem cultural portuguesa, um fio cont\u00ednuo que tece s\u00e9culos de hist\u00f3ria, arte e linguagem, festas populares e romarias, e at\u00e9 a forma como o pa\u00eds se compreende a si mesmo.<\/p>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos, os nossos antepassados manifestaram um fervoroso culto mariano, erguendo templos, santu\u00e1rios e monumentos que hoje se afirmam como refer\u00eancias culturais de ineg\u00e1vel valor e import\u00e2ncia. Desde o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, que a consagrou Padroeira do Reino, at\u00e9 D. Jo\u00e3o IV, que a coroou em 1646 Rainha de Portugal<sup>1<\/sup>, a Virgem Maria ocupou sempre um lugar singular no cora\u00e7\u00e3o dos portugueses. N\u00e3o \u00e9, pois, por acaso que, desde os prim\u00f3rdios, Portugal \u00e9 conhecido como <em>\u201cTerra de Santa Maria\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Do clero, aos reis e senhores, propagou-se a todo o povo esta devo\u00e7\u00e3o que a honrou de m\u00faltiplas formas. Os artistas, por sua vez, perpetuaram a sua presen\u00e7a atrav\u00e9s da literatura, pintura, escultura, arquitetura e de tantas outras express\u00f5es art\u00edsticas que enriquecem o nosso patrim\u00f3nio cultural. Cada obra, cada imagem, cada canto mariano \u00e9 um testemunho vivo dessa liga\u00e7\u00e3o t\u00e3o profunda.<\/p>\n<p>Os in\u00fameros t\u00edtulos atribu\u00eddos \u00e0 Virgem Maria reflectem o profundo amor, a venera\u00e7\u00e3o e a rica imagina\u00e7\u00e3o que a alma portuguesa lhe dedica. Cada invoca\u00e7\u00e3o encerra uma hist\u00f3ria, uma tradi\u00e7\u00e3o, uma refer\u00eancia cultural transmitida ao longo de gera\u00e7\u00f5es \u2013 por vezes entrela\u00e7adas com elementos m\u00edticos, lend\u00e1rios ou sobrenaturais \u2013 que revelam a forma como o povo portugu\u00eas a sente como M\u00e3e, protectora e presen\u00e7a constante ao longo da sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em tudo isto se revela a profundidade com que a figura de Nossa Senhora se incorpora de forma indel\u00e9vel com a alma portuguesa. N\u00e3o \u00e9 apenas mem\u00f3ria do passado, mas presen\u00e7a viva que atravessa gera\u00e7\u00f5es, inspira gestos, molda tradi\u00e7\u00f5es e d\u00e1 sentido a tantos lugares que habitamos. Ao contemplarmos esta heran\u00e7a \u2013 mosaico de f\u00e9, arte, hist\u00f3ria e devo\u00e7\u00e3o \u2013 reconhecemos que a liga\u00e7\u00e3o de Portugal a Maria n\u00e3o \u00e9 meramente circunstancial, mas constitutiva. \u00c9 parte essencial do que fomos, do que somos e, de algum modo, do que continuaremos a ser enquanto povo que nela encontra protec\u00e7\u00e3o, inspira\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao abordarmos, neste trabalho, a descoberta de uma pequenina imagem da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o numa gruta funer\u00e1ria do vale do rio Jamor \u2013 imagem que viria a ser venerada como Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha \u2013 procuramos tamb\u00e9m oferecer um pequeno contributo para um melhor conhecimento da hist\u00f3ria e da cultura portuguesas. \u00c9 verdadeiramente surpreendente que um achado t\u00e3o modesto tenha despertado tamanha devo\u00e7\u00e3o, abrangendo desde as pessoas mais simples ao clero, \u00e0 nobreza, \u00e0 Casa Real e at\u00e9 a poetas e escritores de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Valeu a pena investigar. Valeu a pena seguir alguns fios narrativos que, \u00e0 partida, pareciam insignificantes, mas que nos conduziram a um conhecimento mais apurado sobre a descoberta desta pequena imagem de terracota da nossa padroeira, Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa primeira parte, procur\u00e1mos aproximar-nos das fontes relativas a esta descoberta e analisar de perto o impacto que este achado teve na popula\u00e7\u00e3o local, bem como nas gentes de Lisboa e seu termo. Recorremos, para isso, ao cronista do reino, Frei Cl\u00e1udio da Concei\u00e7\u00e3o, testemunha ocular do intenso movimento de peregrinos ao vale do Jamor. Outra fonte que consider\u00e1mos digna de destaque foi o testemunho de Tom\u00e1s Ribeiro \u2013 apelidado de <em>Tom\u00e1s da Aparecida<\/em> \u2013 devido aos seus cont\u00ednuos e insistentes esfor\u00e7os junto dos nossos monarcas para que o Santu\u00e1rio fosse conclu\u00eddo e que a imagem de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o regressasse ao seu primitivo local.<\/p>\n<p>Na segunda parte, ap\u00f3s apresentarmos o perfil biogr\u00e1fico e liter\u00e1rio de Francisco Ventura, procur\u00e1mos analisar a obra dram\u00e1tica \u201c<em>Auto da Senhora da Rocha\u201d<\/em>, que o autor nos legou. O texto, inteiramente composto em verso heptassil\u00e1bico, respeita as nossas tradi\u00e7\u00f5es mais populares e evoca, em v\u00e1rios momentos, a vivacidade e a frescura do teatro vicentino \u2013 tanto pelos apartes e subtis cr\u00edticas ao poder pol\u00edtico e religioso, como pela den\u00fancia de certas atitudes cobardes de homens que se calam quando deveriam afirmar publicamente a sua posi\u00e7\u00e3o. Em contraste, o autor sublinha a coragem e a determina\u00e7\u00e3o de algumas mulheres \u2013 Galharda e Isidora \u2013 que enfrentam at\u00e9 o pr\u00f3prio poder r\u00e9gio, representado pelo Juiz de Fora ou pelo General Sep\u00falveda.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2008\/08\/Rocha160a.jpg\" alt=\"Rocha160a\" width=\"290\" height=\"424\" \/>\u00c9 ainda curioso que, justamente quando proced\u00edamos ao levantamento de todos os elementos necess\u00e1rios \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o deste trabalho, tenhamos feito uma descoberta inesperada: o manuscrito e a primeira reda\u00e7\u00e3o dactilografada da obra, acompanhados de uma breve introdu\u00e7\u00e3o do autor, na qual este explica as raz\u00f5es que o levaram a conservar este \u201cborr\u00e3o\u201d<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Inclu\u00edmos, em seguida, um ap\u00eandice com v\u00e1rias fotografias do Santu\u00e1rio actual, do seu interior, da imagem da Senhora da Rocha e da gruta onde foi encontrada. A descoberta de algumas estampas antigas, referentes tanto \u00e0 gruta como \u00e0 imagem, levou\u2011nos igualmente a integr\u00e1\u2011las nesse ap\u00eandice. A grande variedade de publica\u00e7\u00f5es de novenas atesta a profunda devo\u00e7\u00e3o popular que o achado desta imagem suscitou, pelo que anexamos alguns frontisp\u00edcios dessas edi\u00e7\u00f5es. Por \u00faltimo, inclu\u00edmos o alvar\u00e1 que elevou o santu\u00e1rio a Capela Real e que concedeu \u00e0 Irmandade um novo t\u00edtulo, atribu\u00eddo por Sua Alteza Real, El\u2011Rei D. Carlos, passando esta a denominar\u2011se <em>Real Irmandade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha<\/em>.<\/p>\n<p>Acreditamos que valeu a pena esta aventura, na qual procur\u00e1mos articular a vertente hist\u00f3rica e a liter\u00e1ria. Ambas atravessam a nossa mundivid\u00eancia e, no contexto do mestrado que estamos a realizar, coexistem como c\u00edrculos culturais complementares contribuindo para uma vis\u00e3o mais abrangente da cultura portuguesa.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 18pt;\"><strong>PRE\u00c2MBULO<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abEncarregado de escrever, e transmittir \u00e1 mais remota posteridade os acontecimentos not\u00e1veis de Portugal, pela obriga\u00e7\u00e3o de Chronista deste Reino, eu n\u00e3o posso deixar de preferir a todos, aquelle que mais tem tocado os nossos cora\u00e7\u00f5es, aquelle que foi vis\u00edvel aos nossos olhos no meio das mais fataes circumstancias. As misericordias, com que o Ceo acudio a Portugal, pela protec\u00e7\u00e3o de Maria, invocada no T\u00edtulo Augusto de Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, descoberta na crise mais arriscada, na crise, em que parecia quasi imposs\u00edvel o rem\u00e9dio a tantos males, e desgra\u00e7as tantas, deve ser o primeiro facto escripto para perpetuo agradecimento dos Portuguezes, para instru\u00e7\u00e3o da posteridade, e para admira\u00e7\u00e3o de todos os S\u00e9culos, celebrando o dia grande, o dia bemfazejo 31 de Maio com a maior pompa e solemnidade. [&#8230;] O dia, em que o mesmo Senhor fez raiar a aurora feliz da protec\u00e7\u00e3o de Maria para com hum Reino sepultado na profunda escura noite de tantas calamidades, deve ser eterno na memoria dos Portuguezes, e celebrado com os mais pomposos cultos.\u00bb<sup>3<\/sup><\/p>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">1. A Hist\u00f3ria da Senhora da Rocha<\/h4>\n<p>Tudo come\u00e7ou naquela manh\u00e3 de Domingo, dia 28 de Maio de 1822, quando um pequeno grupo de adolescentes do vale do Jamor se deparou com um coelho que lhes surgiu no caminho. Tentando alcan\u00e7\u00e1-lo rapidamente perceberam que os seus esfor\u00e7os eram in\u00fateis. A agilidade do animal, que procurava ref\u00fagio, levou-os a descobrir uma gruta muito pr\u00f3xima, bem escondida entre silvados e um emaranhado de salgueiros. Ao entrarem, depararam\u2011se, espantados, com uma vasta lapa funer\u00e1ria. O achado deixou-os tomados de surpresa \u2013 e o mais extraordin\u00e1rio ainda estava por acontecer.<\/p>\n<p>O boato sobre a exist\u00eancia de uma gruta desconhecida contendo ossos humanos espalhou\u2011se rapidamente por toda a regi\u00e3o de Linda\u2011a\u2011Pastora e Carnaxide. Mas s\u00f3 ao terceiro dia surgiu a grande novidade. Enchendo-se de coragem, os jovens decidiram averiguar a verdade. Uma vez dentro da gruta, acenderam tochas e vislumbraram n\u00e3o apenas algumas ossadas humanas, mas tamb\u00e9m uma pequenina imagem da Virgem, \u00e0 qual deram o nome de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha. Tom\u00e1s Ribeiro, o grande impulsionador e defensor da continuidade da constru\u00e7\u00e3o do Santu\u00e1rio para esta imagem, descreve assim o acontecimento:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abNo dia 28 de maio de 1822, perseguindo um coelho que alli se escondera, entraram na gruta do Jamor percorrendo de rastos a furna por onde elle entr\u00e1ra, sete rapazes que andavam brincando e chapinhando nas margens e nas ilhotas de Jamor. Os seus nomes s\u00e3o: Nicol\u00e1o Francisco, Joaquim Nunes, Joaquim Antonio da Silva, Antonio de Carvalho, Diogo, Jos\u00e9 da Costa e Sim\u00e3o Rodrigues. Os mais novos tinham 11 annos, 15 os mais velhos. Entrando e recuando apavorados, no que levaram longo tempo, conseguiram emfim chegar onde puderam erguer se e respirar. Sondando e apalpando acharam e tomaram nas m\u00e3os ossos humanos como poderam verificar quando voltaram ao rio. As familias que ha muito os esperavam em suas cazas n\u00e3o receberam bem os retardatarios e n\u00e3o cr\u00earam mesmo na historia phantastica do descobrimento.<br \/>\nNo dia seguinte por\u00e9m come\u00e7ou de levantar-se e avolumar-se nos differentes logares donde eram naturaes os pastoritos, o boato da existencia d\u2019uma gruta desconhecida, e a apresenta\u00e7\u00e3o dos ossos e a insistencia dos exploradores foi firmando, se n\u00e3o certezas, desejos de apurar a verdade. No dia 30 bastantes pessoas acompanhando os retardatarios da ante-vespera ao rio, abrindo as fran\u00e7as dos salgueiros acharam uma lura na grande rocha que se afundava no Jamor.<br \/>\nN\u00e3o ousaram por\u00e9m aventurar-se, os mais prudentes; mandaram entrar os rapazes com ordem de trazerem outros ossos. Era a prova evidente de que elles disseram a verdade. E desde que a conheceram destinaram para o dia 31 procurar com luz que dentro accenderiam, o que podesse achar-se na gruta onde era certo haver estado gente. No dia 31 foram pois, com tochas, para dentro serem accendidas. Entraram na frente os sete mo\u00e7os, l\u00e1 d&#8217;outros acompanhados, e accesa uma tocha, encontraram a pequenina imagem da Virgem.\u00bb<sup>4<\/sup><\/p>\n<p>Frei Cl\u00e1udio da Concei\u00e7\u00e3o, cronista do reino<sup>5 <\/sup>e fervoroso apologista da Senhora da Rocha, deslocou\u2011se tamb\u00e9m ao local para testemunhar o sucedido. Relata que, na tarde do dia seguinte, a imagem da Senhora desapareceu misteriosamente. O facto gerou grande tumulto e inquieta\u00e7\u00e3o entre o povo, at\u00e9 que, a 4 de junho, a pequena escultura foi encontrada sobre uma oliveira nas proximidades. Por ordem das autoridades, a imagem foi ent\u00e3o recolocada na gruta, iluminada e guardada pelas for\u00e7as da ordem, seguindo a determina\u00e7\u00e3o do Juiz de Fora de Oeiras.<\/p>\n<p>A descoberta desta pequena imagem de barro da Virgem Maria<sup>6<\/sup> espalhou-se rapidamente por todo o vale do Jamor e regi\u00f5es vizinhas, chegando mesmo aos ouvidos do rei D. Jo\u00e3o VI. O entusiasmo popular transformou o local, em pouco tempo, num espa\u00e7o de peregrina\u00e7\u00e3o e intensa devo\u00e7\u00e3o mariana. Romagens de fi\u00e9is \u2013 vindos de v\u00e1rias partes da regi\u00e3o de Lisboa, da Estremadura e de outras zonas do pa\u00eds \u2013 sucederam\u2011se de forma surpreendentemente r\u00e1pida. Entre eles contavam\u2011se bispos, religiosos, nobres da corte, al\u00e9m de gente humilde e abastada.<sup>7<\/sup> Eis como nos relata o referido cronista do reino:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abEste descobrimento he o brilhante Sol da protec\u00e7\u00e3o de Maria que vem inundar todo o Reino de Portugal com suas benignas influencias.\u00bb<sup>8<\/sup><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abApenas appareceo a Imagem da Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, todos correm a tributar-lhe os seus cultos; a sua vista lhes infunde a maior compun\u00e7\u00e3o, olhando para si vendo que nada merecem, olhando para o Reino vendo os males que sofre, os insultos que se fazem \u00e1 Religi\u00e3o, olhando para Maria, e vendo que ella p\u00f3de desfazer tantos males, todos se compungem e derram\u00e3o l\u00e1grimas na sua presen\u00e7a.<br \/>\n[&#8230;] No interior do seu Templo se offerece \u00e1 vista o mais formoso, e o mais agrad\u00e1vel objecto, vendo innumeravel multid\u00e3o de fi\u00e9is arrebatados de huma intensa, e fervorosa devo\u00e7\u00e3o, humildemente prostrados ante o respeitavel, e sagrado Altar, onde se acha collocada a veneranda, e milagrosa Imagem da Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, agradecendo a torrente de gra\u00e7as, e benef\u00edcios que liberal, e benignamente lhes dispensa pelas suas preciosas m\u00e3os esta sua incomparavel Protectora.\u00bb<sup>9<\/sup><\/p>\n<p>A ribeira do Jamor tornou\u2011se ent\u00e3o o centro das aten\u00e7\u00f5es, a ponto de o mesmo cronista registar que \u201ca devo\u00e7\u00e3o crescia de hora a hora, e o concurso de povo era t\u00e3o extraordin\u00e1rio que mal se podia transitar pelos caminhos que conduziam \u00e0 gruta\u201d. T\u00e3o intensa foi a aflu\u00eancia a este lugar que at\u00e9 a pobre oliveira onde a imagem da Virgem fora encontrada, ap\u00f3s o seu misterioso desaparecimento, acabou reduzida a pequenas rel\u00edquias de devo\u00e7\u00e3o. Assim relata o cronista:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abO povo foi levando ramos desta oliveira por devo\u00e7\u00e3o; acabados estes, entraram pelos troncos, e depois at\u00e9 as mesmas ra\u00edzes lhe tiraram, de sorte que s\u00f3 por tradi\u00e7\u00e3o se pode dizer aqui \u00e9 que estava, a oliveira, onde se achou a Senhora depois de roubada.\u00bb<sup>10<\/sup><\/p>\n<p>A autoridade civil, surpreendida pela dimens\u00e3o do movimento devocional, procurou organizar o espa\u00e7o e garantir a ordem p\u00fablica, enquanto o clero local se empenhava em orientar espiritualmente os fi\u00e9is. Em pouco tempo, a humilde gruta transformou\u2011se num centro de fervor religioso, onde se cruzavam camponeses e fidalgos, homens de letras e gente simples, todos atra\u00eddos pelo mesmo impulso de f\u00e9.<\/p>\n<p>A not\u00edcia do prod\u00edgio, alimentada pelos relatos populares e pela presen\u00e7a constante de peregrinos, consolidou rapidamente a fama do lugar. Multiplicaram\u2011se as gra\u00e7as atribu\u00eddas \u00e0 intercess\u00e3o da Senhora, registadas em ex\u2011votos, promessas cumpridas e testemunhos que chegavam de v\u00e1rias partes do reino. Relata o cronista:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abPublicada a noticia do descobrimento da Imagem da Senhora Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, todos correm a ver, e admirar esta maravilha, e todos volt\u00e3o alegres, e satisfeitos, louvando e glorificando a Maria Sant\u00edssima; huma e muitas vezes v\u00e3o \u00e1 sua Rocha, levando generosas dadivas, bem como os Pastores tinh\u00e3o feito no Pres\u00e9pio.\u00bb<sup>11<\/sup><\/p>\n<p>O fervor crescente fez nascer, quase como consequ\u00eancia natural, a necessidade de erguer ali um pequeno santu\u00e1rio que pudesse albergar e proteger dignamente a imagem venerada. De imediato se lan\u00e7aram m\u00e3os \u00e0 obra, transformando aquele recanto num espa\u00e7o mais acolhedor. Foi constru\u00edda uma porta com grades de ferro e um portal de pedra de lioz para a entrada da gruta. Levantou\u2011se, ainda, uma muralha destinada a impedir que as \u00e1guas do rio Jamor invadissem o local sagrado. Trabalharam nesse projecto trinta e oito oper\u00e1rios, empenhados em dar forma ao novo espa\u00e7o de devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, a 27 de Julho de 1822, o rei determinou, por portaria, que a veneranda imagem fosse retirada da lapa junto ao rio Jamor e trasladada para a S\u00e9 Patriarcal, local considerado mais digno para a celebra\u00e7\u00e3o de um culto p\u00fablico mais solene:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abManda El-Rei, pelo Secret\u00e1rio de Estado dos Neg\u00f3cios da Justi\u00e7a, participar ao Col\u00e9gio Patriarcal da Santa Igreja de Lisboa, que sendo-lhe presente a sua Carta, datada em 16 do corrente m\u00eas, e que acompanhava a informa\u00e7\u00e3o a que mandou proceder pelo Desembargador que serve de Provisor, e Vig\u00e1rio Geral do Patriarcado, ac\u00earca de uma Imagem de Nossa Senhora em uma lapa junto ao rio Jamor, nos limites de S. Rom\u00e3o de Carnaxide: E, atendendo Sua Majestade a que o lugar onde foi achada a dita Imagem n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio para ela continuar a existir e muito menos para se lhe dar culto p\u00fablico, e t\u00e3o solene: H\u00e1 por bem, conformando-se com o parecer do referido Vig\u00e1rio Geral ordenar que o Col\u00e9gio Patriarcal logo, e sem perda alguma de tempo fa\u00e7a recolher aquela Imagem \u00e0 Bas\u00edlica de Santa Maria Maior, onde depois de benta poder\u00e1 ser venerada, nomeando o mesmo Col\u00e9gio uma administra\u00e7\u00e3o para tratar das obla\u00e7\u00f5es, e esmolas, se as houver, as quais ser\u00e3o empregadas em objectos pios, e pondo em pr\u00e1tica as mais provid\u00eancias que tamb\u00e9m o mencionado Desembargador e o Col\u00e9gio julgar conveniente: Manda outrossim Sua Majestade declarar-lhe que na data desta se expede ordem ao Intendente Geral da Pol\u00edcia, e ao Juiz de Fora, da Vila de Oeiras, para que prestem todo o aux\u00edlio que lhe for requerido, afim que a sobredita Imagem seja transportada com aquela dec\u00eancia, e respeito que lhe s\u00e3o devidos, e a que de nenhum modo se deve faltar.<br \/>\nPal\u00e1cio de Queluz, 27 de Julho de 1822.<br \/>\nJos\u00e9 da Silva Carvalho\u00bb<sup>12<\/sup><\/p>\n<p>A decis\u00e3o r\u00e9gia provocou grande como\u00e7\u00e3o entre os devotos, que viam na gruta do Jamor o lugar natural da Senhora. Ainda assim, a ordem foi cumprida. E ao amanhecer do dia 5 de Agosto de 1822, festa de Nossa Senhora das Neves, a imagem da Senhora seguiu, sem tumulto, em cortejo solene para a Catedral de Lisboa, acompanhada por clero, autoridades e numerosos fi\u00e9is que, entre c\u00e2nticos e l\u00e1grimas, testemunhavam a for\u00e7a da devo\u00e7\u00e3o que ali nascera. Diz-nos, a este prop\u00f3sito, o cronista Frei Cl\u00e1udio da Concei\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abDepois do descobrimento da Imagem da Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, querendo a impiedade diminuir-lhe, ou, para melhor dizer, extinguir-lhe o seu culto, se persuadir\u00e3o que, mudando de aposento, cessaria a devo\u00e7\u00e3o. He trazida por tanto esta Imagem para a Igreja da S\u00e9 de Lisboa. [&#8230;] Ao entrar na Capital, no meio do triunfo mais glorioso, he recebida com a maior solemnidade por todas as Corpora\u00e7\u00f5es Religiosas, e mais Clero da Capital.\u00bb<sup>13<\/sup><\/p>\n<p>E mais \u00e0 frente refere, ainda, a este prop\u00f3sito:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abN\u00e3o foi menor o benef\u00edcio, que fez \u00e1quelle povo no dia em que foi tirada da sua Rocha, e conduzida para a Igreja da S\u00e9 de Lisboa, permittindo n\u00e3o haver o tumulto, e desordem que se esperava: e tanto se esperava, que foi preciso usar de precau\u00e7\u00e3o de mandar no silencio da noite de 5 de Agosto tropa armada tanto de Cavallaria, como de Infantaria, a que n\u00e3o faltou o pr\u00f3prio General Commandante em Chefe da for\u00e7a armada. Tudo se fez sem as desordens esperadas, e este novo beneficio comprova a protec\u00e7\u00e3o da Senhora da Rocha para com o lugar de Carnaxide, que j\u00e1 n\u00e3o he de menor considera\u00e7\u00e3o, entre as principaes terras de Portugal, porque alli appareceo a milagrosa Imagem da Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, que veio livrar este Reino do captiveiro dos \u00edmpios, bem como a terra de Bel\u00e9m de Jud\u00e1 o n\u00e3o foi entre as principaes Cidades, por ter sahido della o conductor que havia de commandar o povo de Israel.\u00bb<sup>14<\/sup><\/p>\n<p>A imagem da Senhora chega ao Terreiro do Pa\u00e7o pelas nove horas da manh\u00e3. Aguardavam-na todas as comunidades das ordens religiosas, as colegiadas, as cruzes de todas as freguesias com os seus p\u00e1rocos e c\u00f3negos da S\u00e9. Mas d\u00eamos a palavra a algu\u00e9m que esteve presente neste momento t\u00e3o solene:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00ab\u00c0s nove horas da manh\u00e3 chegou a Senhora ao cais das Colunas. Na grande Pra\u00e7a, do Terreiro do Pa\u00e7o se achavam todas as Comunidades das Ordens Religiosas, e at\u00e9 aquelas mesmas, que n\u00e3o costumam ir na Prociss\u00e3o do Corpo de Deus da Cidade, e Colegiadas, e as Cruzes de todas as Freguesias com os seus respectivos p\u00e1rocos. Na mesma Pra\u00e7a se tinha armado uma grande barraca, forrada toda de s\u00eada, para se paramentarem os C\u00f3negos da Bas\u00edlica de Santa Maria. Imediatamente se formou a mais vistosa prociss\u00e3o; e apenas a Bas\u00edlica de Santa Maria chegou ao cais, o C\u00f3nego Jos\u00e9 Bernardo de Azevedo, revestido de Pluvial, acompanhado doutros dois C\u00f3negos paramentados de Dalm\u00e1tica e Tunicela, recebeu a Senhora metida em um Relic\u00e1rio (que para isso se tinha mandado fazer), das m\u00e3os do Cura de Oeiras, assistindo a esta entrega o sobredito Vig\u00e1rio Geral, o Corregedor do Crime de Alfama, e as mais Justi\u00e7as, que todos tinham acompanhado a Senhora, e continuaram a acompanhar at\u00e9 o fim de toda a fun\u00e7\u00e3o. Pegaram nas varas do P\u00e1lio oito Beneficiados da Bas\u00edlica de Santa Maria, e nas lanternas os Cantores. \u00c9 inexplicavel o concurso do povo, a alegria, e a devo\u00e7\u00e3o que se divisava em todos os Portugueses. Foi \u00easte um grande triunfo de Maria em Portugal. [&#8230;].<br \/>\nChegando a Senhora \u00e0 S\u00e9, se colocou no Altar-mor, a ponto que o rel\u00f3jio dava dez horas e meia. Depois de incensada a santa Imagem pelo mesmo Ministro que a levava, se cantou a Ladainha por m\u00fasica. Seguiu-se a Missa, que foi de Nossa Senhora, pr\u00f3pria daquele dia, em que pregou o Prior de Alhos Vedros, barcos Pinto Soares Vaz Preto. Acabada a Missa, se cantou o Te Deum laudamus por m\u00fasica, e no fim deu o C\u00f3nego celebrante a Senhora a beijar aos C\u00f3negos, e mais Ministros da Bas\u00edlica, e muitos Sacerdotes, tanto Seculares, como Regulares, que ali se achavam e aos Irm\u00e3os do Sant\u00edssimo, que tinham assistido, e haviam recebido a Senhora \u00e0 porta da Igreja com tochas. Finalizada esta religiosa cerim\u00f3nia veio o mesmo celebrante com os Ministros, e todo o Corpo da Bas\u00edlica com tochas, e colocaram a Imagem no Altar da Senhora a Grande que lhe estava ricamente preparado. Logo todo o povo concorreu a beijar a Senhora nas m\u00e3os dos Sacerdotes, e a oferecer-lhe generosos donativos.\u00bb<sup>15<\/sup><\/p>\n<p>\u00c9 admir\u00e1vel o j\u00fabilo e a devo\u00e7\u00e3o com que os fi\u00e9is da diocese receberam, na Catedral de Lisboa, a imagem da Senhora da Rocha, acolhendo\u2011a com todas as honras e destinando\u2011lhe um espa\u00e7o pr\u00f3prio para culto, onde pudesse ser venerada com a dignidade que o rei considerava adequada.<\/p>\n<p>Mesmo longe da gruta, que primeiro a acolhera, a Senhora da Rocha continuou a unir o Jamor e Lisboa num mesmo fio de devo\u00e7\u00e3o, deixando marcas que perdurariam muito para al\u00e9m do seu tempo.<\/p>\n<p>O cronista r\u00e9gio n\u00e3o deixa de sublinhar que a traslada\u00e7\u00e3o da imagem para a S\u00e9 de Lisboa, embora tenha perturbado profundamente as gentes locais, n\u00e3o diminuiu o apego popular ao lugar da sua descoberta. A gruta, a muralha e o pequeno arranjo arquitet\u00f3nico constru\u00eddo com tanto esfor\u00e7o continuaram a ser visitados por peregrinos que ali acorriam em busca de recolhimento, mem\u00f3ria e gratid\u00e3o. A hist\u00f3ria da Senhora da Rocha permanecia viva no Jamor, sustentada pela tradi\u00e7\u00e3o oral, pelos relatos do cronista e pela f\u00e9 persistente das popula\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o. Por fim, as autoridades acabaram por entulhar o local e tapar a entrada com pedra e cal.<\/p>\n<p>Nem assim esta popula\u00e7\u00e3o se rendeu. Desejando reaver a imagem e preservar a devo\u00e7\u00e3o, procurou erguer um santu\u00e1rio a ela consagrado, cujo arquitecto escolhido foi Jos\u00e9 da Costa Sequeira, sobrinho do pintor Domingos Ant\u00f3nio de Sequeira. Por\u00e9m, em 1833, por ordem do governo liberal, as obras foram suspensas, e muitas das pedras j\u00e1 talhadas e lavradas para constru\u00e7\u00e3o do Santu\u00e1rio foram removidas e enviadas para o acabamento do Arco da Rua Augusta.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, o local nunca deixou de ser visitado e venerado. N\u00e3o eram apenas as gentes simples da regi\u00e3o que ali se deslocavam. H\u00e1 testemunhos das \u201cvisitas amiudadas\u201d de D. Pedro V, de D. Lu\u00eds I, de v\u00e1rios nobres da Casa Real e at\u00e9 de D. Miguel \u2013 rei particularmente estimado pela popula\u00e7\u00e3o local \u2013 que tamb\u00e9m ali vinha com frequ\u00eancia e que, antes de partir para o ex\u00edlio, n\u00e3o deixou de se despedir da gruta da Senhora. \u00c9 curioso o texto de Tom\u00e1s Ribeiro que a seguir transcrevemos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abVinha muita vez \u00e1 Rocha o Senhor D. Pedro V v\u00ear o sitio onde apparecera a Imagem tanto da devo\u00e7\u00e3o da Familia Real. Elle era um triste; procurava certamente aquelle sitio, que n\u2019esse tempo era um cerro inhospito, para esconder as suas magoas. Em baixo visitava a gruta e em cima, o come\u00e7o do templo onde eram recolhidas cabras e ovelhas. O bom rei pesaroso da irreverencia mandava tapar o recinto com grades ou cancellas de macieira, sempre que vinha fazer a sua visita, pois que o pastor inutilisava logo os regios cuidados. Os seus desejos de fazer que se restituisse a imagem da Senhora n\u00e3o os relatou s\u00f3 a tia Ignez. Uma memoria anonyma que anda impressa diz a flas 13: \u201cEI-Rei D. Pedro V&#8230; gostando mais de passear n\u2019aquelles sitios&#8230; ainda tentou fazer o acabamento do templo, por\u00e9m como a trai\u00e7oeira morte lhe tirou a vida&#8230; tornou a ficar tudo como estava.\u201d<br \/>\nN\u2019aquellas povoa\u00e7\u00f5es t\u00e3o lembradas e t\u00e3o saudosas n\u00e3o havia j\u00e1 esperan\u00e7a de que o templo tra\u00e7ado pelo nosso pintor Sequeira se continuasse, pois que de Lisboa at\u00e9 as pedras j\u00e1 talhadas e lavradas foram mandadas remover sendo aproveitadas algumas no acabamento do Arco da Rua Augusta.\u00bb<sup>16<\/sup><\/p>\n<p>E mais \u00e0 frente o mesmo autor sublinha a presen\u00e7a de outros monarcas:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abDe facto toda a velha gente de Carnaxide e suas visinhan\u00e7as era devotada ao senhor D. Miguel. A proximidade de Queluz, onde as mo\u00e7as mais galantes iam dan\u00e7ar amiudadas vezes na presen\u00e7a do Sr. Infante, a formosura insinuante do Principe, e, naturalmente, a seducc\u00e3o que exercia sobre aquella mocidade, tinham creado um verdadeiro culto pela sua pessoa.<br \/>\nUm dia que o Senhor D. Luiz I passou pela Rocha, deserta ainda, e se dirigiu por Carnaxide para a Ajuda encontrou, perto da gruta da Senhora, uma velha que o conheceu ou o adivinhou pelos gal\u00f5es dos seus creados. El-Rei, apeiando-se, dirigiu-se a ella e perguntou-lhe se era alli perto a gruta do Jamor.<br \/>\n\u2013 \u201cN\u00e3o vades l\u00e1, Senhor Rei, lhe disse a velha, olhos que a v\u00eaem tem vontade de chorar; depois que sahiu de Portugal o Senhor D. Miguel perdemos toda a esperan\u00e7a de justi\u00e7a. Sabemos que V. Magestade \u00e9 bom; mas elle podia mais e queria-nos muito.\u201d<br \/>\nConv\u00e9m accrescentar que as obras do templo cessaram de todo em 1833 j\u00e1 por ordem do governo liberal. O Senhor D. Luiz falava muita vez na sinceridade d&#8217;esta velha.\u00bb<sup>17<\/sup><\/p>\n<p>L\u00e1 diz o poeta, que \u201co sonho comanda a vida\u201d. E \u00e9 verdade!<\/p>\n<p>A 24 de Agosto de 1883, por decreto r\u00e9gio assinado pelo Ministro da Justi\u00e7a, J\u00falio de Vilhena, foi autorizada a traslada\u00e7\u00e3o da imagem da Senhora para a Igreja Paroquial de Carnaxide. Ainda hoje causa admira\u00e7\u00e3o o modo como tal decis\u00e3o se concretizou, pois, ap\u00f3s sessenta e um anos na Igreja\u2011m\u00e3e de Lisboa, a imagem era tida como um \u00edcone central para milhares de peregrinos que ali acorriam assiduamente \u2013 desde o povo simples aos nobres e \u00e0 pr\u00f3pria fam\u00edlia real. Na S\u00e9, chegara mesmo a constituir\u2011se uma irmandade em seu nome. Da\u00ed concluirmos que os intensos la\u00e7os de amizade entre Tom\u00e1s Ribeiro<sup>18<\/sup>\u00a0\u2013 Conselheiro e Ministro de Estado \u2013 e o rei D. Lu\u00eds I, fundador e juiz dessa primeira irmandade, foram decisivos. Gra\u00e7as aos seus esfor\u00e7os persistentes, a imagem da Senhora p\u00f4de finalmente regressar ao seu lugar de origem.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abA traslada\u00e7\u00e3o fez-se com pomposa cerimonia no dia 30 de Setembro de 1883. Desembarcou a imagem na Cruz Quebrada, e encaminhou-se processionalmente para Carnaxide. As festas foram espl\u00eandidas. Ao lado da egreja armou-se a tribuna onde assistiu a familia real; levantaram-se columnas; arcos; suavisou-se o caminho que vae ter \u00e1 gruta que estava forrada de verdura. O arraial durou tres dias e tres noites, durante as quaes brilharam em torno da egreja os focos da luz electrica. A concorr\u00eancia foi enorme.\u00bb<sup>19<\/sup><\/p>\n<p>As obras de constru\u00e7\u00e3o do Santu\u00e1rio destinado a acolher a Virgem ganharam, assim, novo impulso. E, a 1 de Setembro de 1892, em solene prociss\u00e3o, a imagem da Senhora desceu da Igreja Paroquial de Carnaxide para o seu nobre espa\u00e7o, agora erguido em Santu\u00e1rio. A festa foi apote\u00f3tica, marcada por grande pompa e solenidade.<\/p>\n<p>Contudo, seria apenas a 28 de Maio do ano seguinte, e a convite de Tom\u00e1s Ribeiro e da Irmandade<sup>20,<\/sup> que a Fam\u00edlia Real visitaria o novo Santu\u00e1rio, inaugurando oficialmente o templo que, desde ent\u00e3o, se tornaria centro vivo da devo\u00e7\u00e3o mariana da regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abA egreja ficou concluida a 28 de maio de 1893, effectuando-se n\u2019este dia uma grande festa como de inaugura\u00e7\u00e3o, a que assistiu Sua Magestade a Rainha D. Amelia com seus filhos, camaristas e o presidente do conselho de ministros.\u00bb<sup>21<\/sup><\/p>\n<p>A partir desse momento, o Santu\u00e1rio da Senhora da Rocha tornou\u2011se um dos polos espirituais mais marcantes da regi\u00e3o. A sua inaugura\u00e7\u00e3o oficial, com a presen\u00e7a da Fam\u00edlia Real, n\u00e3o apenas legitimou o espa\u00e7o como centro de devo\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m refor\u00e7ou o prest\u00edgio que a imagem j\u00e1 possu\u00eda desde o s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>O templo, erguido com tanto esfor\u00e7o, f\u00e9 e persist\u00eancia, passou a acolher in\u00fameras peregrina\u00e7\u00f5es. As romarias sucediam-se de forma cont\u00ednua; chegavam C\u00edrios de toda a regi\u00e3o de Lisboa e seu termo; multiplicavam\u2011se as celebra\u00e7\u00f5es solenes, muitas delas presididas pelo N\u00fancio Apost\u00f3lico ou por bispos que aqui se deslocavam expressamente. O Santu\u00e1rio transformou\u2011se, assim, num verdadeiro centro de devo\u00e7\u00e3o religiosa, capaz de fazer vibrar os crentes de todo o Patriarcado de Lisboa durante quase um s\u00e9culo. \u00c9 surpreendente o impacto que esta pequena localidade exerceu, durante tanto tempo, na devo\u00e7\u00e3o popular das gentes de Lisboa. Ricos e pobres, gente simples e fidalgos, todos aqui vinham para rezar, louvar e suplicar \u00e0 Senhora, encontrando neste lugar um ref\u00fagio espiritual que marcou t\u00e3o profundamente a religiosidade da regi\u00e3o, transformando este lugar num marco espiritual que ultrapassou largamente os limites de Carnaxide ou do vale do Jamor.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abA dois de maio costumam as senhoras de Lisboa pertencentes, a maior parte, \u00e1 associa\u00e7\u00e3o de \u2013 Filhas de Maria fazer \u00e1 Rocha uma peregrina\u00e7\u00e3o. A dois de maio tem sido, o que n\u00e3o quer dizer que haja dia prefixo para a romaria.<br \/>\nNada mais attrahente, mais inspirador de solemne devo\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs Filhas de Maria s\u00e3o senhoras principaes de Lisboa que assim continuaram as tradi\u00e7\u00f5es do culto \u00e1 Senhora da Rocha.<br \/>\nEsta devo\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em 1894. Vinha \u00e1 sua frente uma filha gentilissima dos Senhores Marquezes de Sabugoza, \u2013 a sr.\u00aa D. Anna Mafalda Jos\u00e9 de Mello.<br \/>\nEm 1896 veiu acompanhar o prestito o Nuncio de Sua Sanctidade, \u2013 Monsegnor Domenico Jacobini, Arcebispo de Tyro, elevado, pouco depois, ao cardinalato.\u00bb <sup>22<\/sup><\/p>\n<p>Um outro dado digno de registo foi a cria\u00e7\u00e3o da Irmandade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha a 23 de Setembro de 1883, aquando da traslada\u00e7\u00e3o da imagem para Carnaxide. Mas, para completa coroa\u00e7\u00e3o, a 4 de Outubro de 1899, o Santu\u00e1rio \u00e9 declarado \u201cCapella Real\u201d \u201cisento\u201d e \u201cespecial dos R\u00e9gios Pa\u00e7os\u201d ficando o rei como Juiz Perp\u00e9tuo desta irmandade, passando esta a denominar-se \u201cReal Irmandade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha\u201d. <sup>23<\/sup><\/p>\n<p>Com o avan\u00e7ar dos anos, o Santu\u00e1rio foi-se consolidando como lugar de encontro entre a mem\u00f3ria e a f\u00e9. A imagem da Senhora, agora entronizada no seu novo espa\u00e7o, continuou a atrair peregrinos que ali procuravam consolo, protec\u00e7\u00e3o e gratid\u00e3o. A devo\u00e7\u00e3o, que nascera de forma humilde junto ao Jamor, transformara-se num movimento espiritual de grande amplitude, capaz de atravessar gera\u00e7\u00f5es e resistir \u00e0s mudan\u00e7as pol\u00edticas, sociais e culturais do pa\u00eds, tornando este Santu\u00e1rio como um dos mais expressivos centros de devo\u00e7\u00e3o mariana do Patriarcado de Lisboa.<\/p>\n<p>Ao longo do s\u00e9culo XX, o Santu\u00e1rio conheceu per\u00edodos de maior e menor aflu\u00eancia, acompanhando o ritmo da vida religiosa nacional. Contudo, nunca perdeu o seu car\u00e1ter singular: um espa\u00e7o onde a hist\u00f3ria se entrela\u00e7a com a tradi\u00e7\u00e3o, onde o prod\u00edgio inicial permanece vivo na mem\u00f3ria coletiva e onde a presen\u00e7a da Senhora continua a ser sentida como um elo entre passado e presente.<\/p>\n<p>Hoje, o Santu\u00e1rio da Senhora da Rocha permanece como testemunho de uma devo\u00e7\u00e3o que nasceu de um acontecimento simples, mas profundamente marcante. A sua hist\u00f3ria \u2013 feita de f\u00e9, resist\u00eancia, perdas, reconstru\u00e7\u00f5es e reencontros \u2013 continua a inspirar quem o visita, lembrando que, por vezes, os lugares mais discretos guardam as narrativas mais extraordin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Com o passar dos anos, este lugar foi ganhando novos significados. A devo\u00e7\u00e3o transformou\u2011se em identidade, e a mem\u00f3ria dos acontecimentos de 1822 passou a integrar o patrim\u00f3nio espiritual e cultural da comunidade. O rio Jamor, outrora simples curso de \u00e1gua entre campos e olivais, tornara\u2011se cen\u00e1rio de um dos epis\u00f3dios mais singulares da religiosidade popular da diocese.<\/p>\n<p>Ao concluir este cap\u00edtulo, desejamos prestar uma justa homenagem ao grande mentor e devoto do Santu\u00e1rio da Senhora da Rocha: Tom\u00e1s Ribeiro. Ao ler o seu <em>Poemeto\u2011pr\u00f3logo ao Mensageiro de Fez<\/em>, percebe\u2011se com clareza a for\u00e7a interior, a sensibilidade espiritual e o segredo \u00edntimo que o moveram na luta persistente para devolver \u00e0 Senhora o seu poiso original.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, pois, de estranhar que, j\u00e1 no final da sua vida, ele tenha sentido a necessidade de compor um poema dedicado e consagrado \u00e0 Senhora da Rocha \u2013 um gesto que revela n\u00e3o apenas devo\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m gratid\u00e3o e ternura. Ele pr\u00f3prio a reconhece como um dos seus \u201cgrandes amores\u201d, express\u00e3o que sintetiza a profundidade da sua liga\u00e7\u00e3o a este lugar e a esta hist\u00f3ria: <em>\u201cE \u00e0 Virgem da Rocha, que me ouviu tantas vezes, deixo o canto que posso, e o amor que me ficou.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Estas linhas \u2013 simples, sinceras e luminosas \u2013 s\u00e3o o testemunho final de um homem que, mais do que pol\u00edtico, escritor ou estadista, foi peregrino. Um peregrino que soube transformar a sua devo\u00e7\u00e3o em obra, e a sua obra em legado. Fiquemos, pois, com o eco das suas palavras, onde se pressente a emo\u00e7\u00e3o de quem olha para tr\u00e1s e reconhece, na Senhora, a luz que acompanhou o seu caminho:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abA Rocha vive entre os meus grandes amores. Esta devo\u00e7\u00e3o que se esconde aqui no fundo d\u2019esta concha florida e esmaltada, na sua ermida singella e cariciosa, com a sua fonte crystalina, a sua gruta mysteriosa, o seu rio murmuro e transparente, o seu jardim que ajudei a cultivar, onde tantas vezes passee, longe do bul\u00edcio das multid\u00f5es, conversando com o jardineiro e com as flores, sondando os segredos d\u2019aquelle morto guardado pela imagem da Virgem M\u00e3e, longe d\u2019olhos que me n\u00e3o espreitassem rindo, levo eu no cora\u00e7\u00e3o. Quero-lhe consagrar este trecho do livro onde porei as minhas ultimas tintas e praza a Deus possa terminal\u2019o.<br \/>\n\u00c1 Senhora da Rocha consagro estes versos.<br \/>\n\u00c9 pouquissimo o que lhe offerto, mas \u00e9 grande a devo\u00e7\u00e3o com que deponho sobre o seu altar a minha offerenda.<br \/>\nEsta devo\u00e7\u00e3o \u00e9 por demais conhecida. At\u00e9 j\u00e1 me chamaram\u2026 por divertimento o Thomaz da Apparecida.<br \/>\nAproveito o ensejo para agradecer a gra\u00e7a, que n\u00e3o podia acceitar. Em primeiro logar por indigno d\u2019ella; dpois, por n\u00e3o reconhecer, \u2013 que m\u2019o perdoem! \u2013 auctoridade, nos outhorgantes ou conferentes do titulo. E d\u2019alguns d\u2019elles sou e quero ser amigo.<br \/>\n[&#8230;] Sob a presidencia de Fontes Pereira de Melo, o meu saudosissimo amigo, e na companhia de Julio Marques de Vilhena, Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro, Jo\u00e3o d\u2019Andrade Corvo, Jos\u00e9 Vicente Barboza de Bocage (ministros) ajudei a cumprir a palavra de Rei dada pelo Senhor D. Pedro V pouco antes de morrer. E foi com devoto ardor que trabalhei no pagamento d\u2019essa d\u00edvida sagrada. D\u2019isto fa\u00e7o confiss\u00e3o publica.<br \/>\n[&#8230;] Aceite-me a irmandade da Rocha esta oblata. D\u2019um poema que trago entre m\u00e3os destaco este excerpto para d\u2019elle dar uma edi\u00e7\u00e3o especial \u00e1 Senhora que ajudei a transportar da casa onde se hospedara, \u2013 a S\u00e9 de Lisboa, \u2013 para a sua ermida de Carnaxide.<br \/>\n[&#8230;] H\u00e1 outro nome que n\u00e3o devo aqui deixar esquecido: o do Senhor D. Luiz I. A Elle em grande parte foi devida a restitui\u00e7\u00e3o da veneranda Imagem, por isso a Irmandade manda celebrar missa por sua alma no dia 19 de Outubro de cada anno, anniversario da sua morte.\u00bb<sup>24<\/sup><\/p>\n<p style=\"margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt; text-align: justify; text-indent: 35.45pt; line-height: 150%;\">Este cap\u00edtulo termina, mas a hist\u00f3ria da Senhora da Rocha continua. Vive na f\u00e9 dos que a invocam, na mem\u00f3ria dos que a amam e na beleza silenciosa do Santu\u00e1rio que guarda, para sempre, o eco de um povo que acreditou.<\/p>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\">2. \u201cAuto da Senhora da Rocha\u201d de Francisco Ventura<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>2.1. Perfil biogr\u00e1fico e liter\u00e1rio do Autor<sup>25<\/sup><\/h5>\n<p>Francisco Manuel Ventura nasceu no Gavi\u00e3o, a 16 de Fevereiro de 1910, no seio de uma fam\u00edlia de pequenos comerciantes, filho de Francisco Manuel Ventura e de Virg\u00ednia Costa Ventura. A inf\u00e2ncia decorreu entre os estudos da instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e o labor quotidiano no estabelecimento paterno, espa\u00e7o onde cedo aprendeu o valor do trabalho e da disciplina.<\/p>\n<p>Desde muito jovem revelou uma forte paix\u00e3o pela literatura, nutrindo particular fasc\u00ednio pelos grandes autores portugueses do s\u00e9culo XIX. Aos treze anos comp\u00f4s a sua primeira pe\u00e7a teatral, gesto precoce que anunciava j\u00e1 a voca\u00e7\u00e3o que o acompanharia por toda a vida. Aos dezassete, a poesia era-lhe j\u00e1 territ\u00f3rio familiar, cultivado com rigor e entusiasmo.<\/p>\n<p>Aos vinte e tr\u00eas anos partiu para Lisboa, levando consigo o sonho de conciliar trabalho e forma\u00e7\u00e3o. Durante o dia exercia fun\u00e7\u00f5es num balc\u00e3o comercial; \u00e0 noite, prosseguia estudos no Curso Complementar do Com\u00e9rcio, no Ateneu Comercial de Lisboa. Esta dupla exig\u00eancia n\u00e3o o afastou da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em 1936 concorreu aos primeiros Jogos Florais da Emissora Nacional, sendo distinguido com uma men\u00e7\u00e3o honrosa em soneto \u2013 reconhecimento que o incentivou a participar em diversos concursos liter\u00e1rios, onde viria a obter v\u00e1rios pr\u00e9mios<\/p>\n<p>Colaborou assiduamente com a imprensa, escrevendo para jornais como <em>O S\u00e9culo<\/em>, <em>Di\u00e1rio Popular<\/em> e <em>Voz do Mar<\/em>, bem como para revistas como <em>Sulco<\/em> e <em>Panorama<\/em>. Contudo, foi no teatro que encontrou o seu espa\u00e7o de elei\u00e7\u00e3o. Entre as suas obras dram\u00e1ticas mais representativas destacam\u2011se <em>Filho Sozinho<\/em> (1939), <em>Casa de Pais<\/em> (1945), <em>Auto de Marv\u00e3o<\/em> (1950), <em>Auto de S. Torcato<\/em> (1952), <em>Auto da Justi\u00e7a<\/em> (1961), <em>Honra de Todos<\/em>, <em>M\u00fasica F\u00e1cil<\/em>, <em>Um Bom Casamento<\/em>, <em>Auto das Boas Almas<\/em>, <em>Prova Real<\/em>, <em>Presente de Anivers\u00e1rio<\/em> e <em>Auto da Senhora da Rocha<\/em> (1978).<\/p>\n<p>As suas pe\u00e7as foram representadas em muitas salas do pa\u00eds, com especial destaque para o Teatro Nacional D. Maria II e o Teatro da Trindade. A RTP, reconhecendo o impacto da sua dramaturgia, transmitiu por diversas ocasi\u00f5es <em>Casa de Pais<\/em>, levando a sua obra a um p\u00fablico ainda mais vasto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do teatro, publicou dois volumes de poesia \u2013 <em>Jornada de S\u00edsifo<\/em> e <em>O Livro dos C\u00e2nticos<\/em> \u2013 e o ensaio <em>Gil Vicente, Poeta de Portugal<\/em>.<\/p>\n<p>Francisco Manuel Ventura faleceu a 26 de agosto de 1994, v\u00edtima de doen\u00e7a prolongada. Deixou uma obra vasta e significativa, que permanece como contributo relevante para a literatura portuguesa do s\u00e9culo XX, parte dela ainda in\u00e9dita e \u00e0 espera de novas leituras.<\/p>\n<h5>2.2. An\u00e1lise da Obra<\/h5>\n<p>O autor deste auto inicia a sua obra com um pre\u00e2mbulo que, antes de introduzir a ac\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, procura situar o leitor\/espectador no tempo e no imagin\u00e1rio que a sustenta. Evoca, assim, o epis\u00f3dio da descoberta de uma imagem de Nossa Senhora, junto \u00e0 Ribeira do Jamor, em 28 de maio de 1822 \u2013 acontecimento que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, marcou profundamente Lisboa e o seu termo ao longo de quase um s\u00e9culo. \u00c9 a partir desta mem\u00f3ria colectiva, transmitida sobretudo pela oralidade, que o dramaturgo encontra a mat\u00e9ria viva que o inspira e impele \u00e0 escrita.<\/p>\n<p>Embora o autor n\u00e3o mencione qualquer fonte documental, optando antes por narrar o que a tradi\u00e7\u00e3o preservou, essa escolha n\u00e3o diminui a for\u00e7a evocativa do relato. Pelo contr\u00e1rio, ao assumir a mem\u00f3ria popular como fundamento, aproxima\u2011se do universo que pretende representar e refor\u00e7a a autenticidade da sua cria\u00e7\u00e3o. A veracidade da obra, neste sentido, n\u00e3o reside na erudi\u00e7\u00e3o das fontes, mas na fidelidade ao esp\u00edrito comunit\u00e1rio que as gerou.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o existir refer\u00eancia expl\u00edcita \u00e0 data de publica\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel determinar com relativa seguran\u00e7a o per\u00edodo da sua composi\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio autor indica, na p\u00e1gina final do auto,<sup>26<\/sup> que o texto foi escrito entre os dias 29 de maio e 18 de novembro de 1976<strong>.<\/strong> Sabe\u2011se ainda que, a pedido da Radiodifus\u00e3o Portuguesa, a pe\u00e7a foi transmitida na P\u00e1scoa de 1978, numa vers\u00e3o condensada.<sup>27<\/sup>\u00a0 A data\u00e7\u00e3o do <em>P\u00f3rtico<\/em> (maio de 1978) e a do <em>Pr\u00f3logo<\/em> (mar\u00e7o de 1978) constituem ind\u00edcios suficientes para situar a publica\u00e7\u00e3o nesse mesmo ano.<\/p>\n<p>A estrutura da obra organiza\u2011se em quatro actos. No <strong>primeiro<\/strong>, o autor introduz um <em>Pr\u00f3logo<\/em> personificado, figura que assume a fun\u00e7\u00e3o de mediador entre o p\u00fablico e a ac\u00e7\u00e3o que se seguir\u00e1. Esta personagem surge com certa timidez e embara\u00e7o, num registo quase meta-teatral, como quem hesita antes de abrir as portas do drama. Progressivamente, por\u00e9m, cumpre o seu papel: anuncia a iminente chegada do C\u00edrio de Vila Nova do Mar ao Santu\u00e1rio da Senhora da Rocha e apresenta as personagens que ir\u00e3o ocupar o palco \u2013 Isidora, Manuel Antunes, Jo\u00e3o Pardal, Anselmo, Rosa, Jo\u00e3o, Guilhermina, Galharda, o Juiz de Fora, o General Sep\u00falveda, o Marqu\u00eas de Fronteira e o Cego \u2013 caracterizando\u2011as de forma breve mas expressiva.<\/p>\n<p>Conclu\u00edda esta apresenta\u00e7\u00e3o, o Pr\u00f3logo anuncia a entrada do extraordin\u00e1rio C\u00edrio e abandona a cena com uma nota de humor, rematando: <em>\u00abdesta j\u00e1 eu me escapei!\u00bb<\/em> \u2013 gesto que refor\u00e7a o tom simultaneamente popular e teatral que atravessa toda a obra.<\/p>\n<p>Comp\u00f5em este C\u00edrio um coro de rapazes, raparigas e anjinhos, bem como o juiz e a ju\u00edza, que transportam a bandeira, entoando c\u00e2nticos \u00e0 Virgem. Colocado o estandarte junto \u00e0 gruta, todos para a\u00ed se dirigem, prosseguindo o louvor \u00e0 Senhora. As vozes elevam-se em s\u00faplica, pedindo-lhe \u201cju\u00edzo s\u00e3o\u201d, \u201cbondade\u201d, \u201cperd\u00e3o\u201d, \u201camor\u201d e \u201cpaz\u201d.<\/p>\n<p>Neste momento, surgem em cena duas novas personagens, um homem e uma mulher, que assistem \u00e0 chegada do C\u00edrio. O homem, assumidamente incr\u00e9dulo, considera tais manifesta\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis com o s\u00e9culo XX, classificando-as como \u201catraso de gente ignara\u201d e sugerindo que a f\u00e9 pertence ao dom\u00ednio do passado. Chega mesmo a exclamar: \u00abo vinte e cinco de Abril \/ e ainda h\u00e1 disto em Portugal!\u00bb (p. 29). \u00c9 ent\u00e3o que a mulher interv\u00e9m e se inicia a narra\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da Senhora da Rocha. Come\u00e7a por sugerir, de forma subtil, que ali n\u00e3o ocorreram fen\u00f3menos semelhantes aos de F\u00e1tima. A \u00fanica \u201cmaravilha\u201d teria sido a descoberta de uma imagem da Virgem naquela mesma gruta, em data incerta: \u00abCem\u2026 Duzentos\u2026 N\u00e3o sei bem\u2026 \/ Inda eu n\u00e3o era nascida \/ nem o era a minha m\u00e3e\u2026\u00bb (p. 32).<\/p>\n<p>O Coro regressa \u00e0 cena e precisa o momento da descoberta da Senhora: \u00abFoi em Maio (\u2026) \/ M\u00eas das flores, m\u00eas de Maria\u00bb (p. 32). A mulher retoma ent\u00e3o a condu\u00e7\u00e3o da narrativa, relatando os acontecimentos, enquanto o homem, na qualidade de figura ant\u00edpoda, a interrompe sucessivamente, instaurando um movimento pendular que dinamiza o di\u00e1logo. Evocam-se os sete rapazes que brincavam junto ao Jamor; a persegui\u00e7\u00e3o a um melro e a um coelho; a descoberta de uma gruta; as duas caveiras e as ossadas humanas a\u00ed encontradas; e, por fim, o achado da imagem.<\/p>\n<p>Ao longo deste di\u00e1logo, \u00e9 particularmente interessante a forma como o autor recria o acontecimento, trazendo para o palco n\u00e3o apenas as duas figuras narradoras, mas tamb\u00e9m as personagens evocadas pela pr\u00f3pria narrativa. Para tal, recorre a um segundo tipo de didasc\u00e1lias, com grande cuidado e precis\u00e3o, conferindo \u00e0 cena uma dimens\u00e3o simultaneamente evocativa e visualmente concreta:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">(Os rapazes abandonam a gruta e saem apressadamente) (p. 39);<br \/>\n(Vai aparecendo muita gente do povo, que entra e sai da gruta, com manifesta\u00e7\u00f5es de grande espanto) (p. 40);<br \/>\n(Continua o movimento de gente, num grande alvoro\u00e7o) (p. 41);\u2026<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o do autor por narrar a hist\u00f3ria <em>in media res<\/em>, recorrendo de forma cont\u00ednua \u00e0 analepse, n\u00e3o constitui, em si mesma, um procedimento inovador. Contudo, a maneira como articula essa t\u00e9cnica em pleno palco, fazendo coexistir o di\u00e1logo entre duas personagens com a materializa\u00e7\u00e3o visual dos acontecimentos narrados, revela uma not\u00e1vel sofistica\u00e7\u00e3o dramat\u00fargica. A cena adquire, assim, uma dimens\u00e3o quase cinematogr\u00e1fica, evocando \u2013 inevitavelmente \u2013 o modo como Ingmar Bergman, em <em>Morangos Silvestres<\/em>, faz coexistir mem\u00f3ria e presente num mesmo espa\u00e7o de representa\u00e7\u00e3o. O efeito \u00e9, de facto, magn\u00edfico.<\/p>\n<p>Ainda no movimento anal\u00e9ptico, surge em cena uma nova personagem, Isidora, apresentada como \u00aba primeira, nesta terra, \/ a prestar culto \u00e0 Senhora\u00bb (p. 24). O autor faz recuar o tempo at\u00e9 ao momento da descoberta da imagem e recria-o teatralmente. Isidora exorta os presentes, proclamando que se encontram diante da \u00abM\u00e3e de Jesus Cristo! \/ \u00c9 a M\u00e3e de todos n\u00f3s! \/ Mesmo longe, sempre perto, \/ Mesmo muda, sempre v\u00f3s\u00bb (p. 41).<\/p>\n<p>O primeiro acto encerra com uma ora\u00e7\u00e3o cantada por Isidora, pelo coro e por toda a assembleia, invocando a Senhora como \u201cvirgem sagrada\u201d, \u201crainha\u201d, \u201cbendita\u201d, \u201cluz\u201d, \u201cestrela\u201d, \u201cescudo\u201d, \u201camparo\u201d (pp. 41-42).<\/p>\n<p>No <strong>segundo acto<\/strong>, o autor retoma a mesma estrat\u00e9gia estrutural. O homem e a mulher \u2013 que no acto anterior conduziram a narrativa \u2013 surgem agora sentados, assistindo aos factos dramatizados. Entra em cena Isidora, acompanhada por dois guardas que vigiam a gruta. Entram em di\u00e1logo e rapidamente se d\u00e3o conta do desaparecimento da imagem:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00ab\u00d3 desgra\u00e7a das desgra\u00e7as! \/ Como \u00e9 triste a nossa vida! \/ Ter a ventura na m\u00e3o \/ E, depois, v\u00ea-la perdida! \/ Roubaram Nossa Senhora!\u00bb (p. 48).<\/p>\n<p>Segue-se um retorno ao tempo presente, com o homem e a mulher a comentarem o desaparecimento e posterior achado da imagem. O tempo da hist\u00f3ria volta ent\u00e3o a ocupar o centro da cena: surgem Manuel, Jo\u00e3o Pardal e os dois guardas, interrogando-se sobre o sucedido. At\u00e9 que, finalmente, se d\u00e1 o reencontro jubiloso: \u00abDeus do c\u00e9u!\u00bb \u00abA Nossa Senhora estava \/ Num buraco da oliveira\u00bb (p. 58). A alegria do achado contagia todos os presentes. A imagem regressa ao seu lugar na gruta e D. Isidora, trazendo uma lanterna e uma almotolia, ilumina a Senhora com devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Retoma-se novamente o presente, e os dois narradores comentam o fluxo crescente de peregrinos que acorrem \u00e0 gruta, pedindo gra\u00e7as e oferecendo presentes \u00e0 M\u00e3e do C\u00e9u:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abPor isso, h\u00e1 sempre quem v\u00e1, \/ n\u00e3o dar para receber, \/ Mas para mostrar todo o amor \/ Nas almas a florescer.\u00bb (p. \u00a066).<\/p>\n<p>Os dois guardas continuam a dialogar, agora interagindo com os visitantes da Senhora. Muitos s\u00e3o os que a visitam. A sua fama j\u00e1 chegou \u00aba toda a parte. \/ Por Ericeira, Cascais, \/ Torres Vedras, Lourinh\u00e3, \/ Santar\u00e9m\u2026\u00bb (p. 80). Fala-se da f\u00e9 e do lugar que Deus deveria ocupar na vida dos homens. E surgem os primeiros milagres: Anselmo \u00e9 curado da paralisia dos membros inferiores, inaugurando a dimens\u00e3o prodigiosa que passar\u00e1 a marcar o culto da Senhora.<\/p>\n<p>O <strong>terceiro acto<\/strong> inicia com a presen\u00e7a dos dois guardas que vigiam a gruta e com o di\u00e1logo que estabelecem com um viajante exausto, \u201ccomo se viesse de longa jornada\u201d, rec\u00e9m-chegado ao local. Este confirma que a devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Senhora cresce incessantemente \u2013 \u00abvem gente de todo o mundo. \/ Um nunca mais acabar.\u00bb (p. 88) \u2013 e anuncia a not\u00edcia que abala todos os presentes: \u00abV\u00e3o tirar-vos a Senhora.\u00bb (p. 89). Explica que soube do sucedido na S\u00e9 de Lisboa, onde testemunhou grande alvoro\u00e7o e alegria, como se se tratasse de uma heran\u00e7a inesperada ou de um pr\u00e9mio de lotaria. Narra ent\u00e3o o essencial:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abEu tinha ido a Lisboa \/ Tratar de coisas da vida \/ E fui ouvir missa \u00e0 S\u00e9. \/ H\u00e1 l\u00e1 gente conhecida. \/ Vi tudo em grande alvoro\u00e7o, \/ Tudo cheio de alegria, \/ Como quem tem uma heran\u00e7a \/ Ou lhe sai a lotaria. \/ Perguntei e soube ent\u00e3o \/ Que o Cabido l\u00e1 da S\u00e9 \/ Tanto fez, tanto pediu \/ e tanto bateu o p\u00e9, \/ Que o Rei, para os n\u00e3o ouvir, \/ Mandou fazer alvar\u00e1 \/ Para que a Nossa Senhora \/ Passe daqui para l\u00e1\u00bb (p. 92).<\/p>\n<p>A reac\u00e7\u00e3o dos peregrinos \u00e9 imediata: interrogam-se sobre a injusti\u00e7a da decis\u00e3o e come\u00e7am a delinear formas de resist\u00eancia. \u00c9 ent\u00e3o que se destaca Maria Cintr\u00f4a, conhecida como Galharda, descrita como verdadeira \u201cmulher de armas\u201d (p. 25). \u00c9 ela quem assume a lideran\u00e7a da defesa da Senhora, afirmando com veem\u00eancia:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00ab[&#8230;] \/ Que a nossa Senhora \/ N\u00e3o sai daqui para fora. \/ Nem que venha a tropa em peso! \/ Nem que venha o mundo inteiro! \/ Para A levarem daqui, \/ H\u00e3o-de matar-me primeiro. Quem quiser fique comigo \/ Nesta luta que \u00e9 dever. Se os homens tiverem medo, \/ Fico eu, que sou mulher.\u00bb (p. 94)<\/p>\n<p>Mais adiante, refor\u00e7a a primazia da lei natural sobre a lei positiva, afirmando: \u00abQuando a ordem \u00e9 injusta \/ N\u00e3o \u00e9 para se cumprir. \/ (\u2026) \/ Toda a for\u00e7a por mais for\u00e7a, \/ Nunca destr\u00f3i a raz\u00e3o.\u00bb O di\u00e1logo entre Galharda e o Viajante \u00e9 particularmente expressivo: ela encarna a coragem, a f\u00e9 e a firmeza moral; ele, pelo contr\u00e1rio, revela medo e submiss\u00e3o perante o poder institu\u00eddo. \u00c9 o pr\u00f3prio Viajante quem anuncia a chegada iminente do Juiz de Fora e do Prior.<\/p>\n<p>As personagens entram em cena com o prop\u00f3sito de levar a imagem da Senhora, mas s\u00e3o recebidas com forte oposi\u00e7\u00e3o pelos peregrinos. Incapazes de cumprir a ordem real, o Juiz de Fora e o Prior acabam por fugir sob uma chuva de pedras lan\u00e7adas pelo povo.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o, mobilizada pela voz imperiosa de Galharda, empunha as poucas alfaias agr\u00edcolas de que disp\u00f5e \u2013 foices, ro\u00e7adouras, gadanhas e varapaus \u2013 e proclama:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abCom as armas que tivermos \/ Mostremos nossa raz\u00e3o, \/ Gritemos bem aos senhores, \/ Do fundo do cora\u00e7\u00e3o, \/ Que o povo tamb\u00e9m tem querer, \/ que o querer \u00e9 nosso agora, Que a nossa Senhora \/ N\u00e3o vai daqui para fora!\u00bb (p. 103)<\/p>\n<p>O Juiz de Fora e o Prior regressam, agora acompanhados pelo Intendente, mas a determina\u00e7\u00e3o popular obriga-os novamente a recuar. Ao longe, ouvem-se tambores e clarins: chega a tropa. Entram em palco o General Sep\u00falveda, o Marqu\u00eas da Fronteira, o Intendente, o Juiz de Fora e o Prior. Mais uma vez, \u00e9 Galharda quem enfrenta as autoridades, declarando:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abPara levar a Senhora \/ H\u00e1-de matar-me primeiro!\u00bb (p. 110).<\/p>\n<p>A didasc\u00e1lia sublinha o cl\u00edmax dram\u00e1tico: \u00abo general, j\u00e1 saturado, avan\u00e7a mais. Galharda, r\u00e1pida, avan\u00e7a tamb\u00e9m e d\u00e1-lhe duas bofetadas\u00bb<sup>28<\/sup> (p. 110).<\/p>\n<p>O General Sep\u00falveda perdoa a afronta, mas insiste que \u00abNossa Senhora da Rocha \/ tem de ir comigo daqui\u00bb. O Marqu\u00eas da Fronteira tenta apaziguar o conflito, prometendo que a imagem ser\u00e1 colocada na S\u00e9, num local digno, e que ser\u00e1 erguida uma igreja sobre a gruta, para perpetuar a mem\u00f3ria do lugar:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00ab[&#8230;] Vai-se fazer uma igreja, \/ Que seja gl\u00f3ria de Deus \/ E pasmo de quem a veja. \/ Igreja sobre esta gruta \/ Que a gruta recordar\u00e1 \/ E logo que esteja pronta \/ A Virgem volta para c\u00e1. At\u00e9 l\u00e1, fica na S\u00e9 \/ E n\u00e3o neste s\u00edtio imundo, \/ Que \u00e9 vergonha de todos \/ E pasmo de todo o mundo.\u00bb (p. 114)<\/p>\n<p>O acto encerra com um triste c\u00e2ntico de adeus, entoado pelo coro e pelo povo, mas com a promessa de que ela voltar\u00e1 um dia \u00e0quele lugar:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abAdeus, Senhora, adeus! \/ Adeus nossa alegria! \/ Aqui s\u00f3 fica a esperan\u00e7a \/ que h\u00e1s-de voltar um dia\u00bb. (p. 116)<\/p>\n<p>O <strong>quarto<\/strong> e \u00faltimo <strong>acto<\/strong>\u00a0abre com um di\u00e1logo entre Isidora, Jo\u00e3o e Manuel. Apesar de j\u00e1 n\u00e3o usufru\u00edrem da imagem da Senhora, permanece-lhes o lugar da apari\u00e7\u00e3o, que continua a ser, para eles, o verdadeiro centro espiritual da devo\u00e7\u00e3o. Por isso, D. Isidora dedica-se a embelezar o espa\u00e7o sagrado: prepara um altar, coloca casti\u00e7ais com velas, um crucifixo, uma esteira, uma jarra de flores e um registo da Senhora. A sua convic\u00e7\u00e3o \u00e9 clara.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00ab[&#8230;] Se v\u00f3s sois homens de f\u00e9, \/ A grande verdade ouvi: \/ A imagem est\u00e1 na S\u00e9, \/ Mas, a alma, est\u00e1 aqui. \/ Quis aqui ser encontrada \/ Para ter culto de novo, \/ O povo s\u00f3 a Ela adora\u2026 \/ Quem mata a alma do povo?\u00bb (p. 118)<\/p>\n<p>O di\u00e1logo entre as tr\u00eas personagens deriva ent\u00e3o para a dif\u00edcil condi\u00e7\u00e3o em que vive o povo: \u00abO povinho come e cala. \/ E se n\u00e3o se faz assim, \/ (\u2026) \/ Pode ir parar \u00e0 cadeia\u00bb (p. 119). \u00c9 neste momento que surge o Juiz de Fora, portador de um mandato que ordena o entulhamento e o encerramento da gruta, com o objetivo de impedir qualquer forma de culto naquele local.<\/p>\n<p>D. Isidora reage com firmeza e esperan\u00e7a, afirmando:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abMas o povo n\u00e3o desiste \/ por maior que a luta seja, \/ Com o dinheiro que temos \/ Vamos fazer a igreja. \/ E depois de estar erguida \/ Com a nossa devo\u00e7\u00e3o, \/ Veremos se a Virgem Santa \/ Volta para aqui ou n\u00e3o.\u00bb (p. 128)<\/p>\n<p>Iniciam-se as obras, e as promessas de ajuda multiplicam-se. Contudo, a constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o avan\u00e7a: falta dinheiro, falta apoio efectivo. \u00c9 ent\u00e3o que o autor introduz um inciso de grande pertin\u00eancia pol\u00edtica, estabelecendo um paralelo entre a instabilidade da revolu\u00e7\u00e3o liberal e o contexto da revolu\u00e7\u00e3o de Abril, \u00e9poca em que o auto foi escrito. O retrato \u00e9 mordaz e surpreendente:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abEste quer mandar em tudo, \/ Os outros querem mandar, \/ O povo, que est\u00e1 c\u00e1 longe, \/ O que tem \u00e9 de amochar. \/ Tudo s\u00e3o lindos discursos, \/ Quem mais grita, \u00e9 que \u00e9 porreiro, \/ E, no final disto tudo, \/ O que querem \u00e9 poleiro. \/ Tudo s\u00e3o grandes promessas, \/ Quando s\u00e3o as elei\u00e7\u00f5es, \/ Vai a gente dar o voto, \/ Adeus, prima, at\u00e9 aos ver\u00f5es.\u00bb (p. 129)<\/p>\n<p>Segue-se um momento de desalento. O tempo passa, e as paredes inacabadas da igreja servem apenas de abrigo para o gado. Por\u00e9m, uma didasc\u00e1lia faz avan\u00e7ar a ac\u00e7\u00e3o e anuncia a entrada de Isidora, agora j\u00e1 idosa, mas surpreendentemente luminosa. Traz consigo uma not\u00edcia extraordin\u00e1ria:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abHoje, estou muito contente, \/ Nossa Senhora da Rocha \/ Vai voltar pr\u00f3 p\u00e9 da gente! \/ Acreditai, que \u00e9 verdade, Isto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 falar \/ Nosso Rei, D. Pedro V \/ Tem vindo aqui passear \/ E ficou cheio de pena \/ Do que viu neste lugar. \/ Quase que chorou, o santo! \/ E prometeu, sem demora, Mandar acabar a igreja \/ E trazer Nossa Senhora!\u00bb (p. )<\/p>\n<p>A alegria, por\u00e9m, dura pouco. Chega a not\u00edcia da morte de D. Pedro V. Isidora desfalece, vencida pela tristeza, e as amigas ajudam-na a sentar-se. Num tom abatido, partilha ent\u00e3o um sonho que tivera nessa noite \u2013 um sonho que interpreta como profecia:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abNossa Senhora da Rocha \/ Vai voltar ao seu lugar. \/ Volta, sim. Tenho a certeza! \/ N\u00e3o \u00e9 nenhuma ilus\u00e3o! \/ Assim t\u00e3o certa eu pudesse \/ Ter a minha salva\u00e7\u00e3o. \/ Eu tive um sonho esta noite \/ Que julgo ser profecia. \/ N\u00e3o h\u00e1 quem sonhe de noite \/ O que acontece de dia? [\u2026]\u00bb. (p. 138)<\/p>\n<p>O autor utiliza, assim, a dimens\u00e3o on\u00edrica como pren\u00fancio dos acontecimentos que se aproximam. Isidora adormece, e entram em cena um rapaz e uma rapariga anunciando que o sonho se cumpriu: \u00abNossa Senhora da Rocha \/ volta hoje ao seu lugar.\u00bb E identificam o grande respons\u00e1vel por este desfecho feliz, Tom\u00e1s Ribeiro<strong>:<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00abFoi o Senhor Tom\u00e1s Ribeiro, \/ Portugu\u00eas livre e honrado, \/ Poeta dos mais famosos, \/ Nunca por demais louvado. \/ Defensor de quanto \u00e9 justo \/ Sem esperar galard\u00e3o, \/ Sempre aliado do povo \/ Quando o povo tem raz\u00e3o; \/ Que fez impor o direito \/ Onde injusti\u00e7a havia \/ E fez afastar a dor \/ Para romper a alegria.\u00bb (pp. 141-142)<\/p>\n<p>A tristeza converte-se em j\u00fabilo. Ouvem-se foguetes, aproxima-se a filarm\u00f3nica, multiplicam-se as luzes e as decora\u00e7\u00f5es. O povo celebra com entusiasmo a chegada da Senhora, conduzida num cortejo triunfal. A comunidade, que durante tanto tempo esperou este momento, exulta finalmente com a realiza\u00e7\u00e3o da promessa.<\/p>\n<p>Assim encerra o autor o seu auto: com a vit\u00f3ria da f\u00e9 popular, a restitui\u00e7\u00e3o da Senhora ao seu lugar de origem e a celebra\u00e7\u00e3o jubilosa de um povo que nunca desistiu.<\/p>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">CONCLUS\u00c3O<\/h3>\n<p>Eis-nos chegados ao <em>terminus<\/em> do nosso trabalho. Torna\u2011se evidente que a hist\u00f3ria da Senhora da Rocha n\u00e3o \u00e9 apenas a narrativa de um achado prodigioso ou de uma devo\u00e7\u00e3o antiga. \u00c9, sobretudo, a hist\u00f3ria de uma fidelidade que atravessou gera\u00e7\u00f5es, de um povo que nunca desistiu daquilo que sentia ser seu, e de um lugar que, apesar de discreto na paisagem, se tornou imenso na alma de tantos. Esta aventura revelou-se verdadeiramente entusiasmante.<\/p>\n<p>Desde a humilde gruta junto ao Jamor at\u00e9 ao Santu\u00e1rio erguido com esfor\u00e7o e esperan\u00e7a, cada etapa desta hist\u00f3ria revela a for\u00e7a de uma devo\u00e7\u00e3o que resistiu ao tempo, \u00e0s mudan\u00e7as pol\u00edticas, \u00e0s dist\u00e2ncias impostas e at\u00e9 ao sil\u00eancio das autoridades. A imagem foi trasladada, venerada, disputada, celebrada; o povo, por\u00e9m, permaneceu firme, guardando no cora\u00e7\u00e3o a certeza de que a Senhora da Rocha tinha um lugar pr\u00f3prio \u2013 e que esse lugar era ali.<\/p>\n<p>A persist\u00eancia de homens como Tom\u00e1s Ribeiro, a f\u00e9 das popula\u00e7\u00f5es locais, o entusiasmo das romarias, a presen\u00e7a de reis e prelados, tudo isto comp\u00f5e um mosaico vivo que ultrapassa o simples registo hist\u00f3rico. \u00c9 um patrim\u00f3nio espiritual que se construiu com l\u00e1grimas e alegrias, com promessas e agradecimentos, com passos de peregrinos que, ao longo de quase dois s\u00e9culos, mantiveram acesa a chama de uma devo\u00e7\u00e3o que nunca se extinguiu.<\/p>\n<p>Hoje, ao contemplarmos o Santu\u00e1rio e a hist\u00f3ria que o sustenta, percebemos que a Senhora da Rocha continua a ser mais do que uma mem\u00f3ria: \u00e9 um elo entre tempos, um sinal de esperan\u00e7a, um testemunho de que a f\u00e9, quando \u00e9 verdadeira, encontra sempre o seu caminho. E assim, entre o murm\u00fario antigo do Jamor e a luz que ainda brilha no Santu\u00e1rio, permanece viva a certeza de que este lugar \u2013 discreto na paisagem, grandioso na alma \u2013 continuar\u00e1 a inspirar aqueles que o procuram.<\/p>\n<p>Nunca imagin\u00e1vamos que esta investiga\u00e7\u00e3o e o contacto com a obra dram\u00e1tica de Francisco Ventura \u2013 <em>Auto da<\/em><em> Senhora da Rocha<\/em> \u2013 nos conduziria a tantas descobertas em torno da simples imagem de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha.<\/p>\n<p>O nosso primeiro encontro com esta devo\u00e7\u00e3o remonta a outubro de 1980, quando visit\u00e1mos o Santu\u00e1rio pela primeira vez. Recordamos ainda as palavras de um venerando anci\u00e3o que, ao abrir\u2011nos as portas, nos descreveu um desfilar de encantos e mist\u00e9rios em torno da imagem, das suas festas e das grandiosas romarias.<\/p>\n<p>O Santu\u00e1rio, os jardins e o parque eram ent\u00e3o um lugar apraz\u00edvel, prop\u00edcio \u00e0 paz, ao sossego e \u00e0 harmonia. As \u00e1guas do Jamor, povoadas de trutas e patos selvagens, completavam esse cen\u00e1rio buc\u00f3lico e conferiam ao espa\u00e7o uma frescura que parecia suspender o tempo. Hoje, por\u00e9m, o panorama j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo\u2026 E perguntamo\u2011nos: como se sentiria Tom\u00e1s Ribeiro ao revisitar este seu <em>\u201cEl Dourado do sil\u00eancio\u201d?<\/em><\/p>\n<p>Ao longo desta investiga\u00e7\u00e3o, procur\u00e1mos p\u00f4r a descoberto, recorrendo \u00e0s fontes mais antigas, a import\u00e2ncia que a descoberta da pequena imagem teve para a popula\u00e7\u00e3o de Linda\u2011a\u2011Pastora e Carnaxide, para o Patriarcado de Lisboa, para as gentes humildes, para a burguesia, para o clero, para a nobreza e at\u00e9 para a pr\u00f3pria Casa Real. Impressiona verificar como, em torno dela, se gerou uma revitaliza\u00e7\u00e3o fecunda da f\u00e9 \u2013 fen\u00f3meno que n\u00e3o passou despercebido \u00e0s cr\u00f3nicas da \u00e9poca e que mereceu a aten\u00e7\u00e3o de homens de Letras como Tom\u00e1s Ribeiro, Pinheiro Chagas, Camilo Castelo Branco e E\u00e7a de Queir\u00f3s.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo que chegamos ao fim, percebemos que o nosso trabalho n\u00e3o se encerra aqui. As descobertas realizadas despertaram novas quest\u00f5es e refor\u00e7aram a necessidade de aprofundar a investiga\u00e7\u00e3o, na esperan\u00e7a de encontrar respostas mais s\u00f3lidas para as interroga\u00e7\u00f5es que permanecem em aberto.<\/p>\n<p>Por que motivo autorizou o rei D. Lu\u00eds I que a imagem, ap\u00f3s sessenta e um anos na S\u00e9 Patriarcal, regressasse ao vale do Jamor, sendo ele pr\u00f3prio fundador da Real Irmandade e seu Primeiro Juiz? Ser\u00e1 aut\u00eantica a imagem que hoje se venera no Santu\u00e1rio da Rocha? Ou ter\u00e1 a original desaparecido durante as sucessivas desloca\u00e7\u00f5es aos Pal\u00e1cios de Queluz, da Ajuda e de Bemposta, a pedido da rainha D. Maria II, quando se encontrava doente?<\/p>\n<p>Estas e outras quest\u00f5es foram emergiram no decurso desta monografia. Esperamos que, na continuidade deste trabalho, possamos encontrar respostas mais consistentes e esclarecedoras.<\/p>\n<p>O que permanece certo \u00e9 que a Senhora da Rocha continua a ser, para muitos, um elo entre tempos, um sinal de esperan\u00e7a e um testemunho de que a f\u00e9, quando \u00e9 verdadeira, encontra sempre o seu caminho. E assim, entre o murm\u00fario antigo do Jamor e a luz que ainda brilha no Santu\u00e1rio, permanece viva a certeza de que este lugar \u2013 discreto na paisagem, grandioso na alma \u2013 continuar\u00e1 a inspirar aqueles que o procuram.<\/p>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">AP\u00caNDICE<\/h3>\n<p>Alvar\u00e1 R\u00e9gio da eleva\u00e7\u00e3o do santu\u00e1rio a Capela Real <sup>29<\/sup><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Secretaria da Mordomia M\u00f3r da Casa Real<br \/>\nEu El Rei fa\u00e7o saber a v\u00f3s Francisco de Mello, Conde de Ficalho, Par do Reino, Conselheiro d\u2019Estado effectivo, Gram Cruz da ordem de Nosso Senhor Jesus Christo e de outras estrangeiras, Gentil Homem da Minha Real Camara e Meu Mordomo m\u00f3r: que tendo em considera\u00e7\u00e3o que Me representou a Irmandade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, erecta na m\u00f3r Capella, em Carnaxide, districto de Lisboa, sou servido e Me Praz fazer a gra\u00e7a de Elevar a referida Capella, \u00e1 cathegoria e dignidade da Capella Real, tomando a veneranda Imagem debaixo da Minha Real e emmediata protec\u00e7\u00e3o, e Attendendo aos servi\u00e7os, que a mesma Irmandade tem prestado, mantendo com o mais acrisolado zelo e devo\u00e7\u00e3o o culto religioso; Hei por bem fazer-lhe merc\u00ea do titulo de Real Irmandade, concedendo portanto \u00e1 dita Capella e Irmandade, todas as honras prerogativas e isen\u00e7\u00f5es, que, directamente pertencerem. Em firmeza de tudo, Mandei passar este Alvar\u00e1, que ser\u00e1 cumprido como nelle se cont\u00e9m. Pa\u00e7o em, dezoito d\u2019outubro de mil oitocentos noventa e nove.<br \/>\n<em>El Rei D. Carlos<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Alvar\u00e1 pelo qual Vossa Magestade Ha por bem Elevar a Capella de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, \u00e1 cathegoria e dignidade de Capella Real concedendo tambem \u00e1 respectiva Irmandade o titulo de Real Irmandade.<br \/>\n<em>Para Vossa Magestade Ver<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 18pt;\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(1) \u00abNas c\u00f4rtes celebradas em Lisboa no anno de 1646 declarou el rei D. Jo\u00e3o IV que tomava a Virgem Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o por padroeira do Reino de Portugal, promettendo-lhe em seu nome, e dos seus successores, o tributo annual de 50 cruzados de ouro. Ordenou o mesmo soberano que os estudantes na Universidade de Coimbra, antes de tomarem algum grau, jurassem defender a Immaculada Concei\u00e7\u00e3o da M\u00e3e de Deus. N\u00e3o foi D. Jo\u00e3o IV o primeiro monarca portuguez que collocou o reino sob protec\u00e7\u00e3o da Virgem, apenas tornou permanente uma devo\u00e7\u00e3o, a que os nossos reis se acolheram algumas vezes em momentos criticos para a patria.\u00bb (Esteves Pereira, Guilherme Rodrigues, \u201cNossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, padroeira do Reino\u201d, in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.V, Jo\u00e3o Romano Torres, Lisboa, 1911, p. 122).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(2) \u00abQuando estava a fazer a c\u00f3pia dactilogr\u00e1fica lembrei-me, certa vez: e se oferecesse o manuscrito para ficar arquivado no Santu\u00e1rio? N\u00e3o repeti o pensamento pois logo resolvi proceder dessa maneira, embora o fizesse a acompanhar de uma c\u00f3pia \u00e0 m\u00e1quina.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Um problema surgiu, por\u00e9m: o papel \u00e9 de m\u00e1 qualidade e a minha letra \u2013 merc\u00ea de v\u00e1rios factores, entre os quais se salientam o sistema nervoso h\u00e1 muito em p\u00e9ssima forma e a pressa que tenho sempre em acompanhar o pensamento \u2013 est\u00e1 cada vez horr\u00edvel e at\u00e9 indecifr\u00e1vel para quem n\u00e3o a conhe\u00e7a bem.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Que fazer? Pensei copiar o manuscrito, utilizando melhor papel e procurando fazer a letra mais leg\u00edvel e de melhor talhe. Pelo menos ficaria obra asseada e decente quanto poss\u00edvel [&#8230;]. Mas logo uma d\u00favida: Isso n\u00e3o seria tirar todo o sabor original que o manuscrito possa conter? Por tal motivo, deixei-o ficar tal como saiu na primeira redac\u00e7\u00e3o, com palavras riscadas, os poss\u00edveis deslizes e at\u00e9 as diferen\u00e7as que h\u00e1 entre ele e a redac\u00e7\u00e3o definitiva.\u00bb (Francisco Ventura, Auto da Senhora da Rocha, manuscrito, Lisboa, 18-03-1977, pp. I-II).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(3) Frei Claudio da Concei\u00e7\u00e3o, \u201cAdvert\u00eancia\u201d, in Novena da milagrosa imagem da Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, Impress\u00e3o R\u00e9gia, 1825, pp. VII-IX.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">No centro do frontisp\u00edcio desta obra atesta-se que Frei Claudio da Concei\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cEx-Difinidor, Examinador Synodal do Patriarchado de Lisboa, Pregador R\u00e9gio, Chronista, e Padre da Prov\u00edncia de Santa Maria d\u2019Arrabida, e Chronista do Reino.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">O Padre Francisco Santos Costa, ao referir-se a ele, diz-nos que ele nasceu em 1772 e que faleceu em 1840. Temos tamb\u00e9m conhecimento que este frade foi nomeado por D. Jo\u00e3o VI Cronista-mor do Reino a 3 de Julho de 1823. Dez anos mais tarde, com o advento do regime constitucional, \u00e9 demitido deste seu alto cargo. A 28 de Maio de 1834, Joaquim Ant\u00f3nio de Aguiar assina o decreto de extin\u00e7\u00e3o das ordens religiosas masculinas, e Frei Cl\u00e1udio v\u00ea-se reduzido \u00e0 triste situa\u00e7\u00e3o de frade egresso. (Cf. Padre Francisco Santos Costa, O Santu\u00e1rio da Rocha, cora\u00e7\u00e3o de Carnaxide, C\u00e2mara Municipal de Oeiras, Lisboa 1972, p. 117). (Cf. Secretaria de Estado dos Neg\u00f3cios Eclesi\u00e1sticos e de Justi\u00e7a, \u201cExtin\u00e7\u00e3o das ordens religiosas\u201d, in Chronica Constitucional de Lisboa, n\u00ba 127, Lisboa, 1934, (citado em Jo\u00e3o Medina (Dir), Hist\u00f3ria de Portugal, dos tempos pr\u00e9-hist\u00f3ricos aos nossos dias, vol. VIII, Clube internacional do livro, Amadora, s\/d, pp. 161-166).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Foi autor de imensas obras de cariz religioso e hist\u00f3rico. Entre os muitos trabalhos que nos legou, destaca-se o Gabinete Hist\u00f3rico, obra de 17 volumes publicados desde 1818 a 1831. A\u00ed se registam os factos hist\u00f3ricos mais importantes desde os in\u00edcios da nossa monarquia at\u00e9 1775. Ao referir-se \u00e0 grande import\u00e2ncia da Virgem Maria para os nossos reis e para o nosso povo, sublinha a maternal protec\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora para com a p\u00e1tria lusa, afirmando que a nossa padroeira sempre nos protegeu, mas foi, sobretudo, nos grandes momentos de risco que ela mais se fez notar. \u00c9, ent\u00e3o, aqui que ele insere, com um grande destaque, a apari\u00e7\u00e3o da imagem da Senhora da Rocha. (Cf. Frei Cl\u00e1udio da Concei\u00e7\u00e3o, Gabinete Hist\u00f3rico que a Sua Majestade Fidel\u00edssima o Senhor Rei D. Jo\u00e3o VI, em o dia dos seus felic\u00edssimos anos, 13 de Maio de 1818, oferece, T\u00f4mo IX, Imprensa Nacional, 1918, 2.\u00aa ed. [1.\u00aa ed. em 1823], pp. 169-185).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(4) Thomaz Ribeiro, A Rocha, poemeto-prologo do poema in\u00e9dito O Mensageiro de Fez, Typographia e Stereotypia Moderna, Lisboa, 1898, pp. 51-52.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">Tom\u00e1s Ribeiro \u00e9 um escritor <a href=\"http:\/\/www.universal.pt\/scripts\/hlp\/hlp.exe\/artigo?cod=6_17\">da nossa terceira fase rom\u00e2ntica<\/a>. Natural de Tondela, estudou Direito em Coimbra, vindo a integrar no grupo rom\u00e2ntico de <a href=\"http:\/\/www.universal.pt\/scripts\/hlp\/hlp.exe\/artigo?cod=2_31\">Feliciano de Castilho<\/a>. Ap\u00f3s algum tempo de actividade como advogado, ingressou na carreira pol\u00edtica. Foi deputado, par do reino, ministro da Marinha e das Obras P\u00fablicas, embaixador plenipotenci\u00e1rio de Portugal no Brasil e Secret\u00e1rio Geral do governo da \u00cdndia.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Admirado por <a href=\"http:\/\/www.universal.pt\/scripts\/hlp\/hlp.exe\/artigo?cod=2_142\">Camilo <\/a>e por Castilho, recebeu deste grandes elogios a prop\u00f3sito do seu D. Jaime (1862). O louvor de Castilho, num pref\u00e1cio longo em que exalta a autenticidade nacionalista e a simplicidade natural da obra de Tom\u00e1s Ribeiro, foram mais um pretexto para o despoletar da c\u00e9lebre <a href=\"http:\/\/www.universal.pt\/scripts\/hlp\/hlp.exe\/artigo?cod=6_4\">Quest\u00e3o Coimbr\u00e3<\/a>, que viria a concretizar o choque latente entre os poetas do Romantismo e a nova gera\u00e7\u00e3o coimbr\u00e3. Escreveu, para al\u00e9m do D. Jaime, as obras A Delfina do Mal, Sons que Passam, V\u00e9speras, Disson\u00e2ncias, Mensageiro de Fez, Entre Palmeiras e as cr\u00f3nicas reunidas em Jornadas. (Cf. Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Saraiva, \u00d3scar Lopes, Hist\u00f3ria da Literatura Portuguesa, 17\u00aa ed., Porto Editora, Porto, 1996, pp. 759-761).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(5) Cf. Fr. Cl\u00e1udio da Concei\u00e7\u00e3o, Gabinete Hist\u00f3rico\u2026, p. 173.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(6) \u201cA imagem \u00e9 da Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, muito bonita; tem cinco polegadas e meia com as m\u00e3os erguidas ante o peito, o manto que tem na encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 azul forrado de encarnado, vestido branco com a lua debaixo dos p\u00e9s, a serpente enrolada no globo, [&#8230;] o v\u00e9u da cabe\u00e7a branco, a encarna\u00e7\u00e3o do rosto assim como as mais tintas, est\u00e3o algum tanto desmerecidas: a sua mat\u00e9ria \u00e9 de um excelente barro; e n\u00e3o achei cheiro algum nesta imagem, por mais dilig\u00eancias que fizesse; por\u00eam a lapa cheirava algum tanto a alm\u00edscar.\u201d (Fr. Cl\u00e1udio da Concei\u00e7\u00e3o, Gabinete Hist\u00f3rico\u2026, p. 175.)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(7) Cf. Fr. Cl\u00e1udio da Concei\u00e7\u00e3o, Gabinete Hist\u00f3rico\u2026, p. 175.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(8) IDEM, Novena da milagrosa imagem\u2026, p. 7<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(9) Cl\u00e1udio da Concei\u00e7\u00e3o, Novena da milagrosa imagem\u2026, pp. 30-31.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(10) IDEM, Gabinete Hist\u00f3rico\u2026, p. 175; Cf. Esteves Pereira, Guilherme Rodrigues, \u201cCarnaxide\u201d in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numis-matico e artistico, vol.II, Jo\u00e3o Romano Torres, Lisboa, 1906, p. 768.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(11) IDEM, Novena da milagrosa imagem\u2026, p. 70.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(12) Cl\u00e1udio da Concei\u00e7\u00e3o, Gabinete Hist\u00f3rico&#8230;, pp. 177-178.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(13) IDEM, Novena da milagrosa imagem&#8230;, p. 34.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(14) Ibidem, pp. 85-86.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(15) Cl\u00e1udio da Concei\u00e7\u00e3o, Gabinete Hist\u00f3rico&#8230;, pp. 181-183.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(16) Thomaz Ribeiro, A Rocha, poemeto-prologo do poema in\u00e9dito O Mensageiro de Fez\u2026, p. 53.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(17) Ibidem, p. 55.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(18) \u201cEm 1882, sendo Thomaz Ribeiro ministro do Reino, foi por sua influ\u00eancia que o governo accedeu \u00e1s representa\u00e7\u00f5es que por vezes fizera o povo de Carnaxide para que a imagem da Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, que existia na egreja da S\u00e9, voltasse para aquella povoa\u00e7\u00e3o onde f\u00f4ra encontrada em 1822. A traslada\u00e7\u00e3o effeituou-se a 30 de setembro de 1893. Tamb\u00e9m por influ\u00eancia do referido ministro se construiu a actual egreja\u201d. (Esteves Pereira, Guilherme Rodrigues, \u201cFerreira, Thomaz Antonio Ribeiro\u201d, in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.III, Jo\u00e3o Romano Torres, Lisboa, 1907, p. 415).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(19) IDEM, \u201cCarnaxide\u201d in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.II, Jo\u00e3o Romano Torres, Lisboa, 1906, p. 768.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(20) Na sess\u00e3o extraordin\u00e1ria de 28 de Maio, \u00e0s 10:00 da manh\u00e3, momentos antes da chegada da Fam\u00edlia Real ao Santu\u00e1rio da Rocha, Tom\u00e1s Ribeiro tomou a palavra e informou a Irmandade \u00abque tendo Sua Magestade a Rainha Senhora D. Amelia accedido ao pedido que a meza da Irmandade lhe fez para honrar a nossa festa d\u2019hoje com a sua presen\u00e7a, convidava a Meza e os Corpos Gerentes da Irmandade para comparecerem n\u2019esta secretaria pelas 4 \u00bd horas da tarde (hora marcada para essa visita), afim de irmos esperar Sua Magestade e seus Augustos Filhos junto \u00e1 Nova Ponte da Rocha. Em seguida apresentou o trabalho art\u00edstico incumbido ao Ex.mo Sr. Rafael Bordalo Pinheiro, representando as Armas nacionais e as de Orleans, encimadas pelas flores de liz pintadas em pergaminho, tendo pendente com fita azul e branco um ramo de bonitas e variadas flores artificiaes.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Na folha de pergaminho junto a essa agoarella foi lan\u00e7ada uma men\u00e7\u00e3o comemorativa e referente \u00e1 visita de Sua Magestade e Altezas a este Templo, e depois de assignada por todos os membros dos Corpos Gerentes da Irmandade ficou com poder da meza para pessoalmente a entregar a Sua Magestade a Rainha juntamente com um Diploma de Irm\u00e3 Benemerita da Irmandade.\u00bb<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">(Livro de Actas da Real Irmandade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, Livro I, Acta 65,Sess\u00e3o de 28 de Maio de 1893, p. 52v).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(21) Esteves Pereira, Guilherme Rodrigues, \u201cCarnaxide\u201d in Portugal, diccionario hist\u00f3rico\u2026, p. 768.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(22) Thomaz Ribeiro, A Rocha, poemeto-prologo do poema in\u00e9dito O Mensageiro de Fez\u2026, p. 51.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(23) \u00abMe Praz fazer a gra\u00e7a de Elevar a referida Capella, \u00e1 cathegoria e dignidade de Capella Real, tomando a veneranda Imagem debaixo da Minha Real e emmediata protec\u00e7\u00e3o.\u00bb E, referindo-se \u00e0 Irmandade da Senhora da Rocha, atesta: \u00abHei por bem fazer-lhe merc\u00ea do titulo de Real Irmandade, todas as honras por prerogativas e isen\u00e7\u00f5es, que, directamente pertencerem\u00bb. Ver Ap\u00eandice, pp. 42-43.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(24) Thomaz Ribeiro, A Rocha, poemeto-prologo do poema in\u00e9dito O Mensageiro de Fez\u2026, pp. 16-18.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(25) Cf. Jo\u00e3o Florindo, brochura dedicada \u00e0 reinaugura\u00e7\u00e3o do Cine-Teatro Francisco Ventura, em Gavi\u00e3o, no ano de 1997; Cf. Francisco Ventura, Auto da Senhora da Rocha, Irmandade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, Lisboa, s\/d [1978], badana esquerda e p. 4.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(26) Cf. Francisco Ventura, Auto da Senhora da Rocha, Irmandade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, Lisboa, s\/d [1978], p. 143.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(27) Cf. Ibidem, badana esquerda do livro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(28) \u201cE poz-lhe as m\u00e3os na cara. Sepulveda, ao tempo, general da 1\u00aa divis\u00e3o militar, foi em pessoa commandar a for\u00e7a que havia de escoltar a Imagem, for\u00e7a que era quasi toda a divis\u00e3o; tal era o receio do governo pela indigna\u00e7\u00e3o dos povos do Jamor, que protestavam em altas vozes contra o mandato iniquo. Inda existem do facto testemunhas testemunhas presenciaes. Esta velha de Linda-a-Pastora chamava-se Maria Saloia. D\u2019ella n\u00e3o ha descendentes. Tambem era conhecida pelo nome de Maria Galharda; talvez pelo denodo com que desfeiteou o general, que prohibiu aos soldados qualquer arreme\u00e7o contra a galharda velha. Cremos que j\u00e1 n\u00e3o vive.\u201d (Thomaz Ribeiro, A Rocha, poemeto-prologo\u2026, p. 55)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(29) Ver arquivo fotogr\u00e1fico: fotos R095 e R096<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/span><\/p>\n<p>CHAGAS, Pinheiro, \u201cAs festas da Senhora da Rocha\u201d, in Occidente, 11-10-1883, n.\u00ba 173, Vol. VI, pp. 226-229.<\/p>\n<p>CONCEI\u00c7\u00c3O, Fr. Cl\u00e1udio da, Gabinete hist\u00f3rico que a Sua Majestade Fidel\u00edssima o Senhor Rei D. Jo\u00e3o VI, em o dia dos seus felic\u00edssimos anos, 13 de Maio de 1818, oferece, T\u00f4mo IX, Imprensa Nacional, Lisboa, 1918, 2.\u00aa ed. [1.\u00aa ed. 1823].<\/p>\n<p>CONCEI\u00c7\u00c3O, Fr. Cl\u00e1udio da, Novena da milagrosa imagem da Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, Impress\u00e3o R\u00e9gia, 1825.<\/p>\n<p>COSTA, Francisco Santos, O Santu\u00e1rio da Rocha, cora\u00e7\u00e3o de Carnaxide, C\u00e2mara Municipal de Oeiras, Lisboa 1972.<\/p>\n<p>FLORINDO, Jo\u00e3o, Brochura dedicada \u00e0 reinaugura\u00e7\u00e3o do Cine-Teatro Francisco Ventura, Gavi\u00e3o, 1997.<\/p>\n<p>Livro de Actas da Real Irmandade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, Livro I, Acta 65, Sess\u00e3o de 28 de Maio de 1893.<\/p>\n<p>RIBEIRO, Thomaz, A Rocha, poemeto-prologo do poema in\u00e9dito O Mensageiro de Fez, Typographia e Stereotypia Moderna, Lisboa, 1898.<\/p>\n<p>PEREIRA, Esteves, Guilherme Rodrigues, \u201cCarnaxide\u201d, in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.II, Jo\u00e3o Romano Torres, Lisboa, 1906, pp. 767-768<\/p>\n<p>PEREIRA, Esteves, Guilherme Rodrigues, \u201cFerreira, Thomaz Antonio Ribeiro\u201d, in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.III, Jo\u00e3o Romano Torres, Lisboa, 1907, pp. 415-416<\/p>\n<p>PEREIRA, Esteves, Guilherme Rodrigues, \u201cNossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, padroeira do Reino\u201d, in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.V, Jo\u00e3o Romano Torres, Lisboa, 1911, p. 122)<\/p>\n<p>S.A., Descri\u00e7\u00e3o de hum prod\u00edgio raro, Officina das filhas de Lino da Silva, Lisboa, 1922.<\/p>\n<p>Secretaria de Estado dos Neg\u00f3cios Eclesi\u00e1sticos e de Justi\u00e7a, \u201cExtin\u00e7\u00e3o das ordens religiosas\u201d, in Chronica Constitucional de Lisboa, n\u00ba 127, Lisboa, 1934 [citado em Jo\u00e3o Medina (Dir), Hist\u00f3ria de Portugal, dos tempos pr\u00e9-hist\u00f3ricos aos nossos dias, vol VIII, Clube internacional do livro, Amadora, s\/d, pp. 161-166].<\/p>\n<p>VENTURA, Francisco, Auto da Senhora da Rocha, (manuscrito), Lisboa, 1977<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\">VENTURA, Francisco, <em>Auto da Senhora da Rocha<\/em>, Irmandade de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o da Rocha, Lisboa, [1978].<\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Queijas, 15 de Mar\u00e7o de 2005<\/span><br \/>\nPe. Alexandre Francisco Ferreira dos Santos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abO pai beijou-o, todo em l\u00e1grimas, acedeu a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercess\u00e3o de Nossa Senhora [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":329,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-330","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-santuario-da-rocha"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - 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