{"id":3825,"date":"2026-04-07T09:05:41","date_gmt":"2026-04-07T09:05:41","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/?p=3825"},"modified":"2026-04-16T09:08:36","modified_gmt":"2026-04-16T09:08:36","slug":"carta-pastoral-do-patriarca-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/carta-pastoral-do-patriarca-de-lisboa\/","title":{"rendered":"Carta Pastoral do Patriarca de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3826 size-medium\" src=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Rui-Valerio-500x342.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"342\" srcset=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Rui-Valerio-500x342.jpg 500w, https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Rui-Valerio-768x526.jpg 768w, https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Rui-Valerio.jpg 920w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/>\u00abLevanta-te, Igreja de Lisboa, e resplandece em Cristo\u00bb<br \/>\n<\/em><\/strong>Neste Domingo de P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor, dia 5 de abril, foi publicada a Carta Pastoral do Patriarca de Lisboa \u00abLevanta-te, Igreja de Lisboa, e resplandece em Cristo\u00bb sobre a miss\u00e3o da Igreja de Lisboa.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos diocesanos de Lisboa: \u00abA gra\u00e7a e a paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo\u00bb (<em>Fl<\/em> 1, 2), nosso redentor, estejam com todos v\u00f3s!<\/p>\n<p><strong>1<\/strong>. Ao celebrarmos o mist\u00e9rio pascal neste Domingo de P\u00e1scoa, inicia-se para n\u00f3s um itiner\u00e1rio que liga dois grandes eventos: o Jubileu da Encarna\u00e7\u00e3o de 2025 e os dois mil anos da Reden\u00e7\u00e3o, em 2033[1]. Na presente carta pastoral quero convidar a lan\u00e7ar um olhar renovado sobre a realidade e a encontrar as respostas que s\u00e3o necess\u00e1rias para sermos Igreja em miss\u00e3o, obediente \u00e0 voz de Deus e atenta \u00e0s necessidades da humanidade do nosso tempo. Estas respostas articulam-se em quatro aspetos, que s\u00e3o fundamentais: em primeiro lugar, contemplar Cristo como Salvador e aprofundar a salva\u00e7\u00e3o que nos quer oferecer. Em segundo lugar, neste olhar para Cristo, descobrimos a forma como Jesus opera a salva\u00e7\u00e3o, em que O conhecemos como sabedoria, justi\u00e7a, santifica\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o. O Senhor perpetua a dispensa\u00e7\u00e3o destes frutos de salva\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da Igreja, que se constitui precisamente na miss\u00e3o que recebe de Cristo: \u00e9 o terceiro aspeto que quero meditar convosco. Finalmente, em quarto lugar, convido \u2013 nesta renova\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o da Igreja de Lisboa \u2013 a focar a nossa aten\u00e7\u00e3o naqueles lugares em que hoje, de forma particular, somos convidados a encontrar Cristo vivo.<\/p>\n<p><strong>2<\/strong>.\u00a0 Este caminho \u00e9 marcado por um per\u00edodo de grande complexidade no mundo, na sociedade e na Igreja. O Patriarcado de Lisboa, em sintonia com a miss\u00e3o de responder e corresponder ao envio do Senhor, tem trilhado um caminho de presen\u00e7a e an\u00fancio no mundo cuja configura\u00e7\u00e3o foi o Congresso Internacional para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o (2005), a realiza\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo de Lisboa (2016), a organiza\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023, a viv\u00eancia do S\u00ednodo dos Bispos sobre a sinodalidade e, agora, a sua rece\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, de forma particular, importa relan\u00e7ar o olhar sobre o ser humano, a quem continuamos a ser enviados como Igreja em miss\u00e3o, portadora de Cristo. Desde logo, pode-se diagnosticar uma crise profunda no cora\u00e7\u00e3o humano resultante de um vazio interior e de um analfabetismo espiritual: deixou-se de articular a gram\u00e1tica da vida interior e, consequentemente, o ser humano tornou-se para si pr\u00f3prio um desconhecido. Ao mesmo tempo, vive-se uma crise das rela\u00e7\u00f5es, que, inevitavelmente, conduz o ser humano a fechar-se no seu egocentrismo e individualismo, resultando numa entropia acerca da identidade de cada um; ent\u00e3o, procura-se construir uma para si, mas desvinculada da hist\u00f3ria e da natureza, o que resulta na ideologia de g\u00e9nero e noutras propostas similares. Do ponto de vista macro, vive-se a situa\u00e7\u00e3o da guerra, que se alastra por muitas geografias, o que ativa um clima de inseguran\u00e7a e medo, deixando sempre um rasto de pobreza e crise social, porque o pre\u00e7o da guerra reflete-se no aumento do custo de vida.<\/p>\n<p>Em Portugal, o nosso olhar pastoral n\u00e3o pode deixar de se deter nos desafios sociais que interpelam a consci\u00eancia de todos. O trabalho, que deveria ser express\u00e3o da dignidade da pessoa humana e fundamento de uma vida familiar est\u00e1vel, continua muitas vezes desvalorizado, como o revelam os n\u00edveis salariais de tantos trabalhadores. Persistem, por isso, condi\u00e7\u00f5es de vida marcadas pela precariedade em numerosas fam\u00edlias, agravadas pelo aumento sens\u00edvel do custo da alimenta\u00e7\u00e3o e da energia, bem como pela persistente dificuldade de acesso a uma habita\u00e7\u00e3o digna. Ao mesmo tempo, assiste-se ao progressivo envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o e ao acentuar das assimetrias territoriais, que fragilizam a coes\u00e3o social. Cresce tamb\u00e9m, de modo silencioso, mas real, o fen\u00f3meno da solid\u00e3o: mais vis\u00edvel nos ambientes urbanos, mas j\u00e1 presente, de forma transversal, em toda a sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Finalmente, reconhecemos que se implantou um clima de polariza\u00e7\u00e3o, que distancia as pessoas e dificulta a aproxima\u00e7\u00e3o, o entendimento e a colabora\u00e7\u00e3o: constatamos que, a muitos n\u00edveis, falta disponibilidade para escutar o outro. Ali\u00e1s, em n\u00e3o poucas circunst\u00e2ncias, o \u00aboutro\u00bb, mais do que <em>partner<\/em>, passou a ser visto como advers\u00e1rio, resultando da\u00ed uma desconfort\u00e1vel dificuldade em acolher o dom que tem para oferecer. Um dos excessos t\u00edpicos da nossa sociedade \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o da sua conviv\u00eancia quase exclusivamente nas redes sociais, o que obriga, cada um, a uma desenfreada competi\u00e7\u00e3o, tornando-se dif\u00edcil reconhecer a validade contida na experi\u00eancia, nas opini\u00f5es, nos percursos dos outros. Por \u00faltimo, nota-se que a natural tend\u00eancia do ser humano para a verdade vem, hoje, atenuada pela crescente depend\u00eancia da intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>Todas estas situa\u00e7\u00f5es exigem dos disc\u00edpulos de Cristo um olhar crente e renova em todos o compromisso de serem construtores da civiliza\u00e7\u00e3o do amor, pois \u00abas alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, s\u00e3o tamb\u00e9m as alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos disc\u00edpulos de Cristo; e n\u00e3o h\u00e1 realidade alguma verdadeiramente humana que n\u00e3o encontre eco no seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb[2].<\/p>\n<p><strong>I. Jesus Cristo, Verbo encarnado e salvador da Humanidade<br \/>\n<\/strong><strong>3<\/strong>. Nos dois marcos que est\u00e3o diante de n\u00f3s \u2013 2025 e 2033 \u2013, contemplamos Jesus Cristo, o Verbo feito carne para a salva\u00e7\u00e3o da humanidade (cf. <em>Jo<\/em> 1, 14). Ser salvador \u00e9 a sua miss\u00e3o central. Mas, ao falar de salva\u00e7\u00e3o, devemos considerar dois aspetos complementares: em Cristo somos salvos <em>de<\/em> algo e salvos <em>para<\/em> algo. Reden\u00e7\u00e3o significa simultaneamente liberta\u00e7\u00e3o <em>do<\/em> mal e abertura <em>para<\/em> uma vida nova. Com efeito, a obra redentora de Cristo visa n\u00e3o somente resgatar-nos do pecado e da morte, mas tamb\u00e9m elevar-nos para a comunh\u00e3o com Deus e a plenitude da vida.<\/p>\n<p><strong>4<\/strong>. Mas importa ir um pouco mais longe: de que precisa o homem ser salvo, hoje? E, igualmente importante: para que horizonte positivo somos salvos? Olhando para a condi\u00e7\u00e3o humana, reconhecemos que o cora\u00e7\u00e3o humano anseia por liberta\u00e7\u00e3o, por algo superior a ele. Somos confrontados com diversas formas de escravid\u00e3o e mis\u00e9ria: o ego\u00edsmo e a injusti\u00e7a que ferem as rela\u00e7\u00f5es, a viol\u00eancia e a guerra que semeiam a morte, os v\u00edcios e o alheamento que aprisionam o esp\u00edrito, o vazio de sentido e a solid\u00e3o que angustiam tantas vidas. De tudo isto Cristo nos vem salvar. Ele \u00e9 \u00abo Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo\u00bb (<em>Jo<\/em> 1, 29), libertando-nos do poder do pecado e da morte que entrou no mundo pela desobedi\u00eancia de Ad\u00e3o (cf. <em>Rm<\/em> 5, 12). Em Cristo, Deus \u00ablibertou-nos do poder das trevas e transferiu-nos para o Reino do seu amado Filho\u00bb (<em>Cl<\/em> 1, 13). Somente Ele d\u00e1 resposta \u00e0 sede de salva\u00e7\u00e3o inscrita na condi\u00e7\u00e3o humana. Somos seres sedentos de vida eterna: est\u00e1 a manifestar-se nos nossos contempor\u00e2neos uma sede que as coisas materiais e os afetos mundanos n\u00e3o conseguem saciar. A sede de infinito, articulada de diversas formas na nossa sociedade, est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da humanidade e exige da Igreja uma resposta \u00e0 altura. Com efeito, as dificuldades e desafios que se colocam ao ser humano t\u00eam como contrapartida um aumento da necessidade de plenitude, que nenhuma coisa ou pessoa humana \u00e9 capaz de oferecer. Como ensina o Conc\u00edlio Vaticano II, \u00abo mist\u00e9rio do homem s\u00f3 no mist\u00e9rio do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente\u00bb[3]. Ou seja, Cristo revela o homem a si mesmo \u2013 revela-nos de que males precisamos de ser curados e a dignidade do nosso destino. Sem Cristo, o homem permanece um enigma insond\u00e1vel. Em Cristo, ele encontra a luz para compreender quem \u00e9 e para que foi criado.<\/p>\n<p><strong>5<\/strong>. Na verdade, Jesus veio \u00absalvar o que estava perdido\u00bb (<em>Lc<\/em> 19, 10). Como Ele mesmo declarou: \u00abEu vim para que tenham vida e a tenham em abund\u00e2ncia\u00bb (<em>Jo<\/em> 10, 10). A reden\u00e7\u00e3o da humanidade foi realizada por Cristo como verdadeira passagem: do distanciamento de Deus para a comunh\u00e3o com Ele, da instabilidade do homem abandonado a si mesmo para a firmeza da filia\u00e7\u00e3o no Pai. Somos salvos de tudo o que nos desumaniza: salvos do pecado, que nos afasta de Deus; salvos do dom\u00ednio da morte, que \u00e9 viver longe d\u2019Ele; salvos do ego\u00edsmo, que gera aridez e infelicidade. Esta obra n\u00e3o foi fortuita nem apenas simb\u00f3lica: implicou a d\u00e1diva total de Jesus Cristo. Ao entregar a sua vida por n\u00f3s, oferecendo o que era necess\u00e1rio pela nossa liberta\u00e7\u00e3o, Ele resgatou-nos da pris\u00e3o do pecado e fez-nos passar das trevas para a luz. Ao mesmo tempo, Cristo salva-nos para algo maravilhoso: para a liberdade dos filhos de Deus (cf. <em>Gl<\/em> 5, 1), para a comunh\u00e3o com a Sant\u00edssima Trindade, para a vida eterna e a santidade. Pelo batismo, morremos para o pecado e renascemos para uma vida nova (cf. <em>Rm<\/em> 6, 4); \u00abse algu\u00e9m est\u00e1 em Cristo, \u00e9 uma nova criatura\u00bb (<em>2 Cor<\/em> 5, 17). O des\u00edgnio salvador de Deus \u00e9 transformador: n\u00e3o apenas nos retira do dom\u00ednio da morte, mas introduz-nos na estabilidade do amor do Pai. Fomos salvos do mundo velho do pecado para participar da novidade de vida do Reino de Deus. Reino que come\u00e7a hoje, no quotidiano das nossas vidas, na aspira\u00e7\u00e3o ao Alto.<\/p>\n<p><strong>6<\/strong>. Esta dupla dimens\u00e3o \u2013 salvos <em>de<\/em> e salvos <em>para<\/em> \u2013 \u00e9 claramente evidenciada na pr\u00f3pria P\u00e1scoa de Cristo. Pela sua paix\u00e3o e morte, Jesus libertou-nos do dom\u00ednio do mal; pela sua ressurrei\u00e7\u00e3o gloriosa, abriu-nos as portas de uma vida nova. Ele morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justifica\u00e7\u00e3o (cf. <em>Rm<\/em> 4, 25). Redimido por Cristo, o homem \u00e9 tamb\u00e9m por Ele santificado mediante a comunica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria santidade de Deus. A salva\u00e7\u00e3o tem, assim, um contorno antropol\u00f3gico pleno: ao mesmo tempo que nos afasta do mal e nos liberta do pecado, aproxima-nos de Deus e conforma-nos \u00e0 Sua gl\u00f3ria. No Filho muito amado, Deus desce at\u00e9 n\u00f3s para Se comunicar; e o que nos comunica \u00e9 a sua vida santa. Abre-se, desse modo, o caminho da gra\u00e7a que consagra o homem a Jesus Cristo, marcando-o com a perten\u00e7a exclusiva \u00c0quele que o resgatou. Em Cristo, o homem recebe de volta a sua humanidade, restaurada e elevada, pois Ele revela plenamente o homem ao pr\u00f3prio homem e, assim, descobre-lhe a sua alt\u00edssima voca\u00e7\u00e3o: tornar-se filho no Filho, part\u00edcipe da natureza divina (cf. <em>2 Pe<\/em> 1, 4), chamado \u00e0 santidade e \u00e0 eternidade bem-aventurada em Deus.<\/p>\n<p><strong>7<\/strong>. Temos aqui, portanto, uma vis\u00e3o esperan\u00e7osa da condi\u00e7\u00e3o humana \u00e0 luz do mist\u00e9rio de Cristo. Se, por um lado, reconhecemos de que abismos o Redentor nos resgatou \u2013 do pecado, do absurdo, do desespero \u2013, por outro, exultamos ao descobrir a que altura fomos elevados em Cristo. A salva\u00e7\u00e3o <em>de<\/em> e <em>para<\/em> s\u00e3o insepar\u00e1veis: somos salvos do ego\u00edsmo para amar, salvos da condena\u00e7\u00e3o para a vida da gra\u00e7a, salvos da morte para a ressurrei\u00e7\u00e3o em Cristo. Na Encarna\u00e7\u00e3o e na P\u00e1scoa de Jesus resplandece o mist\u00e9rio do homem renovado: a nossa humanidade ferida \u00e9 assumida e restaurada n\u2019Ele e a nossa exist\u00eancia ganha um sentido novo \u00abporque Ele nos amou e Se entregou por n\u00f3s\u00bb (cf. <em>Gl<\/em> 2, 20). N\u00e3o h\u00e1, pois, verdadeira antropologia sem Cristo. Ele \u00e9 o novo Ad\u00e3o (cf. <em>1 Cor<\/em> 15, 45) que inaugura uma humanidade redimida. N\u2019Ele encontramos resposta \u00e0s perguntas mais profundas sobre o ser humano, pois Ele \u00e9 o Deus connosco. Nesta certeza, avan\u00e7amos a partir da celebra\u00e7\u00e3o do Jubileu da Encarna\u00e7\u00e3o, certos de que contemplar o Verbo feito carne nos ajudou a compreender quem somos e com que objetivo estamos neste mundo. \u00abReconhece, \u00f3 crist\u00e3o, a tua dignidade\u00bb \u2013 exclama S\u00e3o Le\u00e3o Magno[4] \u2013 pois Deus Se fez homem para te salvar e elevar.<\/p>\n<p><strong>8<\/strong>. Jesus Cristo \u00e9 o nosso Salvador integral. Ele salva-nos <em>de<\/em> tudo aquilo que desfigura a humanidade e salva-nos <em>para<\/em> a plenitude da vida em Deus. A hist\u00f3ria da reden\u00e7\u00e3o desdobra-se em etapas salv\u00edficas, tendo na justifica\u00e7\u00e3o em Cristo um momento central: n\u2019Ele realiza-se plenamente o des\u00edgnio origin\u00e1rio de Deus para o homem. Cristo \u00e9 ao mesmo tempo o prot\u00f3tipo e a consuma\u00e7\u00e3o da humanidade segundo o cora\u00e7\u00e3o do Pai. Somente n\u2019Ele a humanidade encontra luz e reden\u00e7\u00e3o, pois n\u2019Ele se harmonizam a forma primeira do homem pensado por Deus e a sua realiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Podemos dizer, por isso, que o homem justificado \u00e9 uma verdadeira realiza\u00e7\u00e3o de Cristo: n\u2019Ele e por Ele, a vida humana reencontra a sua identidade mais profunda. \u00abJ\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim\u00bb (<em>Gl<\/em> 2, 20) \u2013 esta \u00e9 a express\u00e3o daquele cuja exist\u00eancia tem em Cristo a sua for\u00e7a motriz e a sua sabedoria. Deste modo, num tempo de falsas promessas de salva\u00e7\u00e3o, de palavras que ferem a dignidade humana, proclamamos com convic\u00e7\u00e3o: s\u00f3 Cristo salva o homem, configurando-o \u00e0 sua pr\u00f3pria vida e abrindo-o \u00e0 alegria do Evangelho, \u00e0 Boa Not\u00edcia de que Jesus Cristo \u00e9 Filho de Deus.<\/p>\n<p><strong>II. \u00abSabedoria, justi\u00e7a, santifica\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o\u00bb<br \/>\n<\/strong><strong>9<\/strong>. S\u00e3o Paulo, escrevendo aos cor\u00edntios, oferece-nos uma s\u00edntese poderosa da obra de Cristo: \u00ab\u00c9 por Ele [Deus Pai] que v\u00f3s estais em Cristo Jesus, o qual Se tornou para n\u00f3s sabedoria de Deus, justi\u00e7a, santifica\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o, para que \u2013 como est\u00e1 escrito \u2013 \u201cquem se gloria, glorie-se no Senhor\u201d\u00bb (<em>1 Cor<\/em> 1, 30-31). O Ap\u00f3stolo elenca quatro termos \u2013 sabedoria, justi\u00e7a, santifica\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o \u2013 que iluminam as etapas da nossa salva\u00e7\u00e3o em Cristo. N\u00e3o s\u00e3o palavras lan\u00e7adas ao acaso. H\u00e1 nelas uma l\u00f3gica de caminho espiritual. Afirmar que Cristo \u00abSe tornou para n\u00f3s reden\u00e7\u00e3o, santifica\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e sabedoria\u00bb equivale a reconhecer um itiner\u00e1rio de gra\u00e7a que tem in\u00edcio na reden\u00e7\u00e3o e culmina na uni\u00e3o com a sabedoria divina.<\/p>\n<p><strong>10<\/strong>. Em primeiro lugar, Cristo \u00e9 a nossa <em>reden\u00e7\u00e3o<\/em>. Conforme medit\u00e1mos, Ele resgatou-nos pagando com Seu sangue o pre\u00e7o da nossa liberta\u00e7\u00e3o (cf. <em>1 Pe<\/em> 1, 18-19). A reden\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro passo e fundamento de todo o caminho de salva\u00e7\u00e3o: Jesus libertou-nos do pecado original e de todos os pecados, reconciliando-nos com o Pai. \u00abEm Cristo, temos a reden\u00e7\u00e3o pelo seu sangue, a remiss\u00e3o dos pecados\u00bb (<em>Ef<\/em> 1, 7). Este passo decisivo \u2013 sermos redimidos \u2013 \u00e9 obra exclusiva da gra\u00e7a de Cristo, n\u00e3o resultado de m\u00e9ritos humanos (cf. <em>Ef<\/em> 2, 8-9). \u00c9 iniciativa gratuita de Deus amoroso, que veio ao nosso encontro quando ainda est\u00e1vamos perdidos (cf. <em>Rm<\/em> 5, 8). A reden\u00e7\u00e3o, portanto, inaugura o percurso: ela tira-nos da escravid\u00e3o e coloca-nos em estado de gra\u00e7a, devolvendo-nos a possibilidade de viver como filhos de Deus. A reden\u00e7\u00e3o \u00e9 o ponto de partida para algo maior.<\/p>\n<p><strong>11<\/strong>. Em segundo lugar, S\u00e3o Paulo diz que Cristo \u00e9 nossa <em>santifica\u00e7\u00e3o<\/em>. Com a reden\u00e7\u00e3o n\u00e3o permanecemos num \u00abvazio neutro\u00bb. Pelo contr\u00e1rio, Ele infunde em n\u00f3s a vida nova do Esp\u00edrito Santo, consagrando-nos a Deus. Santificar quer dizer \u00abtornar santo\u00bb, separar do pecado para dedicar ao uso divino. Pois bem, Jesus, ap\u00f3s redimir-nos, comunica-nos o Esp\u00edrito Santificador, aquele que purifica os nossos cora\u00e7\u00f5es e nos d\u00e1 a capacidade de amar a Deus e ao pr\u00f3ximo. \u00c9 o Esp\u00edrito que clama em n\u00f3s \u00ab<em>Abb\u00e1<\/em>, Pai\u00bb (<em>Gl<\/em> 4, 6) e nos vai transformando \u00e0 imagem de Cristo. A santifica\u00e7\u00e3o designa esse caminho de configura\u00e7\u00e3o a Cristo, que \u00e9 progressivo e din\u00e2mico. Inicia-se no batismo \u2013 quando nos tornamos templos do Esp\u00edrito Santo \u2013 e continua ao longo de toda a vida crist\u00e3, atrav\u00e9s dos sacramentos, da ora\u00e7\u00e3o e da pr\u00e1tica da caridade, sempre inseridos numa comunidade que escuta e anuncia. Ser santo \u00e9 o destino para o qual a reden\u00e7\u00e3o nos encaminha. Como afirma a Escritura, \u00abesta \u00e9, na verdade, a vontade de Deus: a vossa santifica\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>1 Ts<\/em> 4, 3). Assim, Cristo n\u00e3o apenas nos resgata do mal, mas comunica-nos a for\u00e7a de viver no bem, de combater o pecado quotidiano e crescer nas virtudes. A santidade n\u00e3o \u00e9 algo reservado a poucos, mas a meta normal de quem foi salvo[5]. A gra\u00e7a redentora gera necessariamente um processo de santifica\u00e7\u00e3o nos remidos.<\/p>\n<p><strong>12<\/strong>. Em terceiro lugar, Cristo tornou-Se nossa justi\u00e7a. \u00abJusti\u00e7a\u00bb, aqui, n\u00e3o significa apenas retid\u00e3o moral, mas est\u00e1 ligada \u00e0 ideia b\u00edblica de justifica\u00e7\u00e3o. Ser justificado \u00e9 ser tornado justo por Deus, isto \u00e9, ter restaurada a retid\u00e3o de nossa rela\u00e7\u00e3o com Ele. Cristo justificou-nos, obtendo-nos o perd\u00e3o e restabelecendo-nos na amizade divina (cf. Rm 5, 1). Desta forma, agora podemos viver numa alian\u00e7a nova, observando a lei de Deus n\u00e3o mais como imposi\u00e7\u00e3o externa, mas como lei interior de liberdade, escrita pelo Esp\u00edrito nos cora\u00e7\u00f5es (cf. Jr 31, 33). Al\u00e9m disso, \u00abjusti\u00e7a\u00bb em S\u00e3o Paulo evoca tamb\u00e9m a ordem de retid\u00e3o que Cristo veio inaugurar no mundo (cf. Rm 3, 21-22). Ele trouxe o Reino de Deus e a Sua justi\u00e7a (cf. Mt 6, 33), uma ordem nova onde os pobres s\u00e3o bem-aventurados e os humildes, exaltados. A justi\u00e7a de Cristo n\u00e3o \u00e9 mera justi\u00e7a humana retributiva; \u00e9 a justi\u00e7a salv\u00edfica de Deus, que resgata o que vivia no erro. Inclui, sim, termos uma f\u00e9 operante pelas obras de amor \u2013 pois \u00aba f\u00e9 sem obras est\u00e1 morta\u00bb (Tg 2, 17) \u2013 e lutarmos por um mundo mais justo, mas tudo isso se apoia na gra\u00e7a da justifica\u00e7\u00e3o: fomos feitos justos em Cristo (cf. 2 Cor 5, 21) para praticarmos obras justas. Em suma, Ele devolveu-nos a retid\u00e3o original e convoca-nos a manifest\u00e1-la em rela\u00e7\u00f5es justas com o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p><strong>13<\/strong>. Por fim, o Ap\u00f3stolo conclui dizendo que Cristo \u00e9 sabedoria de Deus para n\u00f3s. Aqui atingimos o \u00e1pice do itiner\u00e1rio espiritual: participar da sabedoria divina, ou seja, conhecer e experimentar a verdade de Deus de modo pleno. A sabedoria, em sentido b\u00edblico, n\u00e3o \u00e9 erudi\u00e7\u00e3o intelectual, mas intimidade com Deus, compreens\u00e3o penetrante de Seus des\u00edgnios e comunh\u00e3o de vida com Ele. Cristo, Verbo eterno do Pai, encarnou a sabedoria divina na nossa carne. Ele transmite-nos essa sabedoria pela Sua Palavra e pelo Seu Esp\u00edrito, abrindo as nossas mentes para a verdade que liberta (cf. Jo 8, 32). Assim, \u00e0 medida que caminhamos na gra\u00e7a \u2013 redimidos, santificados e justificados \u2013, somos tamb\u00e9m conduzidos a uma vis\u00e3o sapiente da realidade, vendo o mundo e a n\u00f3s mesmos com os olhos de Deus. \u00abJ\u00e1 n\u00e3o vos chamo servos [\u2026], mas [\u2026] amigos, porque vos dei a conhecer tudo quanto ouvi ao meu Pai\u00bb, diz Jesus (Jo 15, 15). Participar da sabedoria de Cristo significa conhec\u00ea-l\u2019O profundamente e, por Ele, conhecer o Pai (cf. Jo 14, 7-9), bem como discernir os caminhos da vida com retid\u00e3o. \u00c9 o ponto de chegada: a uni\u00e3o com Deus, na mente e no cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 prel\u00fadio daquela vis\u00e3o face a face prometida no C\u00e9u, quando Deus ser\u00e1 \u00abtudo em todos\u00bb (1 Cor 15, 28).<\/p>\n<p><strong>14<\/strong>. Vemos, pois, que reden\u00e7\u00e3o, santifica\u00e7\u00e3o, justifica\u00e7\u00e3o e sabedoria descrevem uma esp\u00e9cie de escada espiritual: Cristo toma-nos pela m\u00e3o e faz-nos subir degrau a degrau. No primeiro degrau, Ele resgata-nos do abismo (reden\u00e7\u00e3o); no segundo, fortalece-nos interiormente na gra\u00e7a (santifica\u00e7\u00e3o); no terceiro, reordena-nos na justi\u00e7a e verdade (justifica\u00e7\u00e3o); no quarto degrau, introduz-nos nos segredos do cora\u00e7\u00e3o de Deus (sabedoria). Todo este itiner\u00e1rio se d\u00e1 \u00abpor Ele\u00bb, \u00abn\u2019Ele\u00bb e \u00abcom Ele\u00bb, como diz S\u00e3o Paulo: \u00ab\u00c9 por Ele que v\u00f3s estais em Cristo Jesus\u00bb (1 Cor 1, 30). A iniciativa \u00e9 divina, e a gl\u00f3ria \u00e9 toda do Senhor. Por isso, Paulo conclui: \u00abAquele que se gloria, glorie-se no Senhor\u00bb (1 Cor 1,31; cf. Jr 9, 23-24). Nenhum de n\u00f3s pode gloriar-se de si mesmo, como se tivesse alcan\u00e7ado a salva\u00e7\u00e3o por m\u00e9rito pr\u00f3prio: tudo \u00e9 dom. A reden\u00e7\u00e3o gratuita de Cristo \u00e9 que nos coloca no caminho; a santidade \u00e9 obra do Seu Esp\u00edrito em n\u00f3s; a justi\u00e7a vem-nos da gra\u00e7a e miseric\u00f3rdia divinas; a sabedoria \u00e9-nos infundida do Alto. Temos de nos gloriar, sim, mas no Senhor, fonte de todo bem.<\/p>\n<p><strong>15<\/strong>. Estas palavras de S\u00e3o Paulo lan\u00e7am tamb\u00e9m uma forte exorta\u00e7\u00e3o pastoral para a nossa caminhada mission\u00e1ria. Se, no primeiro momento, refletimos sobre uma vis\u00e3o antropol\u00f3gica da salva\u00e7\u00e3o (salvos de e para algo), agora contemplamos um itiner\u00e1rio de comunh\u00e3o com Deus que nos desafia a avan\u00e7ar. N\u00e3o basta ser \u00abredimido\u00bb e cruzar os bra\u00e7os. \u00c9 preciso caminhar rumo \u00e0 santidade. N\u00e3o basta uma santidade intimista; ela deve transbordar em justi\u00e7a e testemunho coerente. Toda a a\u00e7\u00e3o da Igreja \u2013 catequese, liturgia, caridade \u2013 deve conduzir os fi\u00e9is a uma maturidade na f\u00e9, a uma f\u00e9 esclarecida, sapiente. Por outras palavras: somos todos chamados a crescer \u00ab\u00e0 medida completa da plenitude de Cristo\u00bb (Ef 4, 13), at\u00e9 termos \u00abos mesmos sentimentos que est\u00e3o em Cristo Jesus\u00bb (Fl 2, 5). O Jubileu da Encarna\u00e7\u00e3o e a prepara\u00e7\u00e3o dos 2000 anos da Reden\u00e7\u00e3o convidam-nos a este aprofundamento espiritual. Que ningu\u00e9m se contente com uma f\u00e9 superficial ou com uma vida crist\u00e3 morna. Cristo quer conduzir-nos mais longe: das \u00e1guas rasas \u00e0s \u00e1guas profundas (cf. Lc 5, 4). Cada comunidade \u00e9 chamada a propor aos fi\u00e9is um caminho que leve do primeiro an\u00fancio (reden\u00e7\u00e3o acolhida) at\u00e9 \u00e0 mistagogia (a penetra\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio de Deus, a sabedoria vivida). Uma f\u00e9 robusta exige este progresso: crer, celebrar, viver e contemplar.<\/p>\n<p><strong>16<\/strong>. Portanto, deixemo-nos conduzir por Cristo neste itiner\u00e1rio de salva\u00e7\u00e3o! N\u00e3o interrompamos em n\u00f3s a obra da gra\u00e7a. Pelo contr\u00e1rio, cooperemos: se Ele nos redimiu, vivamos em a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, evitando reca\u00eddas no pecado; se Ele nos santifica, busquemos corresponder com vida de ora\u00e7\u00e3o e virtude; se Ele nos justifica, sejamos construtores de justi\u00e7a e paz ao nosso redor; se Ele nos quer comunicar a Sua sabedoria, aprofundemos com amor a Palavra de Deus e os ensinamentos da Igreja, e procuremos discernir os sinais dos tempos com f\u00e9. O caminho para o qual somos salvos \u00e9 precisamente este: entrar em comunh\u00e3o cada vez mais profunda com Deus e irradiar a Sua luz no mundo. N\u00e3o h\u00e1 maior dignidade para o homem do que tornar-se amigo de Deus e cooperador de Seu Reino. A sabedoria crist\u00e3 plena \u2013 meta da salva\u00e7\u00e3o \u2013 coincide com a caridade perfeita e a vis\u00e3o de Deus. Enquanto peregrinamos, animemo-nos uns aos outros a prosseguir decididamente, pois Cristo caminha connosco e oferece-Se a n\u00f3s como caminho, verdade e vida (cf. Jo 14, 6).<\/p>\n<p><strong>17<\/strong>. \u00abSabedoria, justi\u00e7a, santifica\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o\u00bb. Gravemos estas palavras nos nossos cora\u00e7\u00f5es durante este percurso. Que elas iluminem a pastoral da nossa diocese de Lisboa nestes anos. Cada par\u00f3quia, movimento e fam\u00edlia deveria perguntar-se: estamos a ajudar os fi\u00e9is a percorrer estas etapas? Anunciamos com clareza a reden\u00e7\u00e3o em Cristo? Acompanhamos as pessoas no caminho da santifica\u00e7\u00e3o e convers\u00e3o cont\u00ednua? Promovemos a justi\u00e7a do Reino de Deus nas nossas obras e estruturas? Conduzimos os fi\u00e9is a uma f\u00e9 adulta e esclarecida, saboreando as raz\u00f5es de crer? Que este tempo reacenda em n\u00f3s o ardor e a profundidade da vida crist\u00e3, para que ningu\u00e9m permane\u00e7a estagnado, perdido ou exclu\u00eddo. Lembremos a exorta\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo: \u00abEsta \u00e9, na verdade, a vontade de Deus: a vossa santifica\u00e7\u00e3o\u00bb (1 Ts 4, 3). E ainda: \u00abN\u00e3o vos conformeis com este mundo; pelo contr\u00e1rio, transformai-vos pela renova\u00e7\u00e3o da vossa mente, para poderdes discernir qual \u00e9 a vontade de Deus, o que \u00e9 bom, o que Lhe \u00e9 agrad\u00e1vel, o que \u00e9 perfeito\u00bb (Rm 12, 2). Deus quer-nos santos e s\u00e1bios no Esp\u00edrito Santo. Disponhamo-nos, pois, a cooperar com esta gra\u00e7a abundante, para gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p><strong>III. A Igreja, continuadora da miss\u00e3o de Cristo redentor<br \/>\n<\/strong><strong>18<\/strong>. Do cora\u00e7\u00e3o aberto de Cristo na cruz nasceu a Igreja, chamada a prolongar no tempo a sua miss\u00e3o salv\u00edfica. O Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o narra que, ap\u00f3s a morte de Jesus, \u00abum soldado perfurou o seu lado com uma lan\u00e7a, e imediatamente saiu sangue e \u00e1gua\u00bb (Jo 19, 34). Os Padres da Igreja viram no sangue e na \u00e1gua \u2013 s\u00edmbolos dos sacramentos da Eucaristia e do Batismo \u2013 o nascimento da Igreja, esposa de Cristo, tal como Eva foi formada do lado de Ad\u00e3o adormecido. Como poeticamente afirmou Santo Agostinho, \u00abfoi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admir\u00e1vel de toda a Igreja\u00bb[6]. Na cruz, do lado aberto de Cristo, jorram sangue e \u00e1gua, sinal do dom total da sua vida e fonte perene dos sacramentos da Igreja. \u00c9 deste lado trespassado que a Igreja nasce, como esposa amada, formada do cora\u00e7\u00e3o do seu Senhor. Pela sua paix\u00e3o e morte, Cristo constitui a Igreja como extens\u00e3o do seu amor redentor, como presen\u00e7a sua no mundo. A Igreja torna-se, assim, sacramento vivo e eficaz da salva\u00e7\u00e3o: sinal vis\u00edvel da gra\u00e7a invis\u00edvel, lugar onde o encontro entre Deus e a humanidade se torna poss\u00edvel e real. Na sua identidade mais profunda, a Igreja \u00e9, em Cristo, sacramento da uni\u00e3o com Deus e da unidade do g\u00e9nero humano[7].<\/p>\n<p><strong>19<\/strong>. \u00c9 importante renovar esta consci\u00eancia: a Igreja n\u00e3o existe para si mesma, mas para continuar a obra de Cristo na Terra. Ela \u00e9 o Corpo de Cristo que vive e age na hist\u00f3ria. Como ensina o Conc\u00edlio Vaticano II, \u00aba Igreja em Cristo \u00e9 como que o sacramento, ou sinal e instrumento, da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano\u00bb[8]. A sua miss\u00e3o \u00e9 iluminar as na\u00e7\u00f5es refletindo a luz de Cristo, assim como a Lua reflete a luz do Sol. Os Padres da Igreja usavam esta imagem da Igreja-lua: ela n\u00e3o tem luz pr\u00f3pria, mas brilha no mundo com a luz que recebe de Cristo, \u00abSol de Justi\u00e7a\u00bb. Santo Ambr\u00f3sio expressou-o de forma bela: \u00abVerdadeiramente como a Lua \u00e9 a Igreja: [&#8230;] brilha, n\u00e3o com luz pr\u00f3pria, mas com a de Cristo. Recebe o seu pr\u00f3prio esplendor do Sol de Justi\u00e7a, podendo assim dizer: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, mas \u00e9 Cristo vive em mim\u201d\u00bb[9]. Portanto, quando a Igreja realiza a sua miss\u00e3o \u2013 evangelizando, celebrando os sacramentos, servindo os pobres \u2013, \u00e9 Cristo quem atua nela e por meio dela. A miss\u00e3o da Igreja nada mais \u00e9 do que a fidelidade \u00e0 miss\u00e3o do seu Senhor. Ser sal da Terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13-16).<\/p>\n<p><strong>20<\/strong>. Contudo, devemos reconhecer com humildade e dor que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, muitos se foram afastando da pr\u00e1tica regular da f\u00e9, fen\u00f3meno que a pandemia da covid-19 parece ter tornado ainda mais vis\u00edvel. Muitas comunidades notaram uma diminui\u00e7\u00e3o significativa na participa\u00e7\u00e3o e um certo arrefecimento da vida de f\u00e9 ap\u00f3s os confinamentos pand\u00e9micos. Perguntamo-nos: o que afastou tantas pessoas da Igreja? Certamente, a pandemia quebrou h\u00e1bitos e revelou fragilidades na nossa pr\u00e1tica pastoral. Mas h\u00e1 fatores mais profundos: um crescente secularismo na cultura, esc\u00e2ndalos que feriram a credibilidade eclesial, ritmos de vida que deixam pouco espa\u00e7o para Deus e, talvez, uma experi\u00eancia de f\u00e9 morna ou pouco significativa, que n\u00e3o convenceu muitas almas. \u00c9 hora de fazermos uma reflex\u00e3o profunda e sincera. Precisamos, como comunidade diocesana, de humildade para escutar aqueles que se afastaram, compreender as suas feridas, d\u00favidas e cr\u00edticas leg\u00edtimas, e purificar aquilo que em n\u00f3s, \u2013 ministros e fi\u00e9is \u2013, n\u00e3o foi fiel ao Evangelho e acabou por desanim\u00e1-los.<\/p>\n<p><strong>21<\/strong>. Mas n\u00e3o basta compreender as causas. Urge ainda discernir como faz\u00ea-los regressar, como voltar a fazer sentir que pertencem a uma Igreja viva. Aqui, ecoa o apelo insistente do papa Francisco: \u00e9 necess\u00e1ria uma Igreja em sa\u00edda mission\u00e1ria, com ardor renovado. N\u00e3o podemos ficar de bra\u00e7os cruzados, esperando que os afastados voltem por si mesmos. A Igreja deve ir ao encontro deles. O papa Francisco advertia vigorosamente contra a autocomplac\u00eancia e o fechamento: \u00abPrefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter sa\u00eddo pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar \u00e0s pr\u00f3prias seguran\u00e7as\u00bb[10]. Estas palavras fortes devem ressoar em Lisboa: \u00e9 melhor arriscar-se e sair ao encontro das pessoas, do que permanecer numa bolha de autopreserva\u00e7\u00e3o enquanto tantos est\u00e3o longe de Cristo. Quantos irm\u00e3os nossos vivem \u00absem a for\u00e7a, a luz e a consola\u00e7\u00e3o da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de f\u00e9 que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida\u00bb \u2013 recordava-nos ainda o papa Francisco[11]. Esta realidade deve \u00absantamente inquietar-nos\u00bb. Mais do que temer falhar nas iniciativas, dever\u00edamos temer ficarmos fechados em estruturas c\u00f3modas, enquanto \u00abl\u00e1 fora h\u00e1 uma multid\u00e3o faminta\u00bb e Jesus nos repete: \u00abDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u00bb (Mc 6, 37).<\/p>\n<p><strong>22<\/strong>. Portanto, convoco toda a Igreja de Lisboa para um grande movimento mission\u00e1rio de retorno \u00e0s fontes e de sa\u00edda ao encontro de todos. \u00c9 hora de acender de novo, no cora\u00e7\u00e3o dos batizados, a paix\u00e3o por evangelizar. N\u00e3o se trata de proselitismo for\u00e7ado, mas de amor genu\u00edno que n\u00e3o se conforma em ver irm\u00e3os afastados da f\u00e9 e privados da alegria de Cristo. Cada par\u00f3quia deve tornar-se uma \u00abcomunidade em miss\u00e3o\u00bb, criativa em buscar os distantes: visitas familiares, escuta dos que se sentem magoados ou indiferentes, uma presen\u00e7a mais pr\u00f3xima no mundo digital e nos ambientes da cultura. Precisamos de ir \u00e0s \u00abperiferias existenciais\u00bb, onde h\u00e1 sede de Deus, mesmo quando n\u00e3o \u00e9 consciente. Pensemos nos jovens desiludidos, nos lares feridos, nos pobres materiais e espirituais, nos migrantes, nos doentes e nos que est\u00e3o s\u00f3s. A todos devemos levar a \u00abvoz da esperan\u00e7a que Jesus vivo nos d\u00e1\u00bb, chegando \u00aba todos os lugares onde houver um cora\u00e7\u00e3o que espera, um cora\u00e7\u00e3o que procura, um cora\u00e7\u00e3o que sente necessidade. Sim, at\u00e9 aos confins da Terra, at\u00e9 \u00e0s fronteiras existenciais onde n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a\u00bb, como exortou o papa Le\u00e3o XIV[12]. De facto, disse, ainda no mesmo discurso, o Santo Padre aos jovens: \u00abHoje, talvez mais do que nunca, temos necessidade de disc\u00edpulos mission\u00e1rios que levem ao mundo o dom do Ressuscitado\u00bb. Tomemos essas palavras para n\u00f3s, Igreja de Lisboa!<\/p>\n<p><strong>23<\/strong>. Para realizarmos esta \u00abconvers\u00e3o pastoral e mission\u00e1ria\u00bb, \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m revisitar o que na Igreja possa ter afastado as pessoas e corajosamente mudar o que for preciso. O papa Francisco alertava contra certas posturas eclesiais que, em vez de atrair, repelem: a tenta\u00e7\u00e3o de ser \u00abmera administradora\u00bb, em vez de m\u00e3e acolhedora, o clericalismo que sufoca os carismas laicais, uma liturgia mal preparada ou sem vida, homilias pouco ligadas \u00e0 vida, uma catequese est\u00e9ril, ou a falta de calor comunit\u00e1rio. Temos de superar a rigidez e o formalismo que, por vezes, transformam as comunidades crist\u00e3s num espa\u00e7o frio. A Igreja deve ser casa, fam\u00edlia, onde se experimenta acolhimento e sentido de perten\u00e7a. \u00abLugar de acolhimento e justi\u00e7a\u00bb, escrevia Le\u00e3o XIV, que a Igreja deve ser, como m\u00e3e dos pobres[13]. Isso vale para todos: m\u00e3e que acolhe pecadores, feridos, buscadores inquietos. Uma Igreja de portas abertas e cora\u00e7\u00f5es abertos.<\/p>\n<p><strong>24<\/strong>. Tamb\u00e9m vos exorto, car\u00edssimos diocesanos, a que cada um se sinta respons\u00e1vel pela miss\u00e3o evangelizadora. A obra de reconduzir os afastados n\u00e3o compete s\u00f3 aos sacerdotes ou agentes pastorais oficialmente designados. Cada batizado \u00e9 um disc\u00edpulo mission\u00e1rio[14]! Nos vossos ambientes \u2013 fam\u00edlia, trabalho, escola, c\u00edrculo de amigos \u2013 sede ponte de liga\u00e7\u00e3o entre essas pessoas e a comunidade eclesial. Como? Antes de tudo, com o testemunho: uma vida coerente e luminosa, marcada pela alegria, paci\u00eancia, generosidade, fala por si. Depois, com a proximidade e o di\u00e1logo: escutar sem julgar, compartilhar a pr\u00f3pria experi\u00eancia de f\u00e9 com humildade, convidar para momentos simples (uma conversa, um grupo, uma celebra\u00e7\u00e3o especial). Muitas vezes, algu\u00e9m pode reaproximar-se porque encontrou um rosto amigo e acolhedor que lhe mostrou o rosto de Cristo misericordioso. N\u00e3o subestimemos o poder de uma amizade evangelizadora. Lembremo-nos: \u00abA miss\u00e3o \u00e9 a nossa voca\u00e7\u00e3o: fazer resplandecer a luz de Cristo \u00e9 o nosso servi\u00e7o\u00bb, dizia o papa Francisco[15]. Quantas pessoas esperam de n\u00f3s este servi\u00e7o mission\u00e1rio! Deixemos de lado todo o medo ou acanhamento. O Esp\u00edrito Santo impele-nos com santa ousadia.<\/p>\n<p><strong>25<\/strong>. Por fim, nesta reflex\u00e3o sobre a miss\u00e3o da Igreja, detenhamo-nos num ponto crucial: a Eucaristia e a miss\u00e3o est\u00e3o intimamente ligadas. No final de cada Missa, somos enviados com o \u00abIde em paz\u00bb, que n\u00e3o \u00e9 um simples encerramento, mas um envio mission\u00e1rio para levar Cristo ao mundo. A Igreja vive da Eucaristia, e a Eucaristia faz a Igreja[16]. Mas uma aut\u00eantica viv\u00eancia eucar\u00edstica deve transbordar em caridade e an\u00fancio. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II escreveu que \u00abuma f\u00e9 que n\u00e3o se torna cultura \u00e9 uma f\u00e9 n\u00e3o de modo pleno acolhida, n\u00e3o inteiramente pensada e nem com fidelidade vivida\u00bb[17], e podemos dizer analogamente: uma Missa que n\u00e3o se prolonga na vida em miss\u00e3o \u00e9 uma Missa n\u00e3o plenamente vivida. Se nos alimentamos do Corpo de Cristo, tornamo-nos Corpo de Cristo no mundo, prolongando a sua presen\u00e7a junto dos outros. Como nos recorda S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, n\u00e3o serve de nada adornar o altar com ouro, enquanto l\u00e1 fora Cristo, presente nos pobres, passa fome e frio[18]. Ou seja, o culto aut\u00eantico compromete-nos com o amor concreto ao pr\u00f3ximo e com o testemunho corajoso do Evangelho.<\/p>\n<p><strong>26<\/strong>. Voltemos o olhar para a Virgem Maria, modelo da Igreja mission\u00e1ria. Ap\u00f3s receber em si o Verbo encarnado, Maria n\u00e3o ficou fechada: partiu apressadamente para servir Isabel, levando em si Jesus e fazendo saltar de alegria Jo\u00e3o Batista no seio da sua prima (cf. Lc 1, 39-45). Ela foi a primeira \u00abcust\u00f3dia\u00bb viva, levando Cristo aos outros. No Cen\u00e1culo, ap\u00f3s a Ascens\u00e3o, l\u00e1 estava Maria orante, no meio dos disc\u00edpulos aquando do derramamento do Esp\u00edrito (cf. At 1, 14; 2, 1-4), tornando-se M\u00e3e da Igreja nascente, impulsionada para a miss\u00e3o. Devemos pedir a intercess\u00e3o de Nossa Senhora para que nos alcance um novo Pentecostes em Lisboa: que o Esp\u00edrito Santo reavive a f\u00e9 dos que arrefeceram no ardor, fortale\u00e7a os vacilantes e nos guie para al\u00e9m das nossas comodidades, at\u00e9 todas as periferias do cora\u00e7\u00e3o humano. Sob a sua prote\u00e7\u00e3o maternal, n\u00e3o tenhamos medo de inovar na pastoral, de \u2013 como dizia o papa Francisco \u2013 \u00abfazer barulho\u00bb[19] santo nas ruas, de dar testemunho p\u00fablico da f\u00e9 em todas as circunst\u00e2ncias da vida. Maria Sant\u00edssima, Estrela da Evangeliza\u00e7\u00e3o, ensina-nos a amar a Igreja e cada pessoa como filhos queridos que precisam de se reencontrar com o Pai, que espera de bra\u00e7os abertos e misericordiosos os filhos pr\u00f3digos (cf. Lc 15, 11-32).<\/p>\n<p><strong>27<\/strong>. A Igreja de Lisboa quer ser, pela gra\u00e7a de Deus, uma Igreja em convers\u00e3o mission\u00e1ria permanente[20]. Humildemente, reconhecemos as nossas faltas e limites, mas, confiantes, lancemo-nos \u00e0 miss\u00e3o, pois Cristo assegura-nos: \u00abEu estarei sempre convosco at\u00e9 ao fim dos tempos\u00bb (Mt 28, 20). N\u00e3o estamos s\u00f3s neste empreendimento, \u00e9 Ele quem age em n\u00f3s. Renovemos, pois, o nosso zelo: reavivemos a pastoral com criatividade; reaproximemo-nos das fam\u00edlias, especialmente das que se distanciaram da viv\u00eancia da f\u00e9 crist\u00e3; intensifiquemos a escuta e o di\u00e1logo com os jovens, que anseiam por autenticidade; reforcemos a op\u00e7\u00e3o pelos pobres e pelos que mais sofrem, onde Cristo nos espera de modo especial. Se assim o fizermos, creio firmemente que veremos muitos regressos, muitos cora\u00e7\u00f5es iluminados, n\u00e3o por estrat\u00e9gias humanas, mas pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que recompensa a aud\u00e1cia da caridade. Como nos garante o papa Le\u00e3o XIV, \u00abCristo, nossa paz [\u2026], continua no mundo [a obra de Deus], tornando-se ainda mais percet\u00edvel e luminosa na escurid\u00e3o dos tempos\u00bb[21]. Que n\u00f3s sejamos essas testemunhas vivas aqui e agora.<\/p>\n<p><strong>IV. Renovar a centralidade de Cristo vivo<br \/>\n<\/strong><strong>28<\/strong>. O per\u00edodo que vivemos \u00e9 providencial: no ano 2025, celebr\u00e1mos o Jubileu da Encarna\u00e7\u00e3o do Senhor, memorial dos 2025 anos do nascimento de Jesus em Bel\u00e9m; e, oito anos depois, em 2033, celebraremos os 2000 anos da Reden\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, da paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Estes marcos temporais s\u00e3o muito mais do que datas simb\u00f3licas; s\u00e3o uma oportunidade de gra\u00e7a para reunirmos novamente toda a vida da Igreja na pessoa viva de Jesus Cristo. Estes momentos fortes devem servir para renovar e aprofundar a centralidade em Cristo vivo \u2013 voltarmos ao primeiro amor (cf. Ap 2, 4-5), recentrarmo-nos naquele que \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da nossa f\u00e9. De facto, \u00e9 f\u00e1cil, com o passar do tempo, deixarmo-nos dispersar por tantas atividades e problemas e, sem perceber, perder de vista o essencial. Cristo, \u00e0s vezes, fica \u00abeclipsado\u00bb no quotidiano da Igreja \u2013 fazemos muito por Ele, mas corremos o risco de nos esquecer d\u2019Ele. O Jubileu e outros momentos altos da vida da Igreja v\u00eam como que gritar aos nossos ouvidos: \u00abTende os olhos em Jesus, autor e consumador da f\u00e9!\u00bb (cf. Heb 12, 2).<\/p>\n<p><strong>29<\/strong>. Uma das prioridades que se imp\u00f5e \u00e9 realizar uma catequese s\u00e9ria e profunda sobre os \u00ablugares\u00bb onde Cristo est\u00e1 vivo entre n\u00f3s. Ou seja, ajudar cada fiel a redescobrir que Jesus n\u00e3o \u00e9 uma figura do passado, nem uma ideia distante, mas uma pessoa viva que nos encontra, hoje, pelos diversos instrumentos da gra\u00e7a, na comunidade dos disc\u00edpulos de Cristo. Gostaria de sublinhar cinco formas de presen\u00e7a privilegiada de Cristo e que encontramos na tradi\u00e7\u00e3o da Igreja: na Eucaristia[22], na Palavra[23], nos sacramentos (em especial na Reconcilia\u00e7\u00e3o[24]), atrav\u00e9s da Virgem Maria[25] e nos pobres[26]. Precisamos de fazer sentir \u00e0s pessoas esta realidade consoladora e exigente: participar da vida eclesial \u00e9 encontrar-se, real e verdadeiramente, com Cristo vivo, pois, como o pr\u00f3prio Senhor garantiu, \u00abonde estiverem dois ou tr\u00eas reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles\u00bb (Mt 18, 20).<\/p>\n<p><strong>30<\/strong>. Em primeiro lugar, urge renovar a f\u00e9 eucar\u00edstica nas nossas comunidades. Muitos cat\u00f3licos participam da Missa dominical talvez de modo habitual, como quem cumpre um rito de tradi\u00e7\u00e3o, sem se darem plenamente conta de que ali acontece um encontro vivo com Jesus ressuscitado. \u00c9 preciso redescobrir, com o espanto dos disc\u00edpulos, aquilo que S\u00e3o Jo\u00e3o proclamou: \u00ab\u00c9 o Senhor!\u00bb (cf. Jo 21, 7). Na Santa Missa, n\u00e3o assistimos a uma simples cerim\u00f3nia humana: somos conduzidos ao mist\u00e9rio do Calv\u00e1rio e do Cen\u00e1culo, onde se torna presente o sacrif\u00edcio redentor de Cristo e o Ressuscitado se oferece a n\u00f3s como alimento de vida eterna. Como salientou o papa Francisco, \u00aba Missa n\u00e3o \u00e9 um espet\u00e1culo: significa ir encontrar a paix\u00e3o e a ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor\u00bb[27]. Pela mesma raz\u00e3o, a todos aqueles que, por diversos motivos, se afastaram da celebra\u00e7\u00e3o dominical, queremos dirigir tamb\u00e9m um convite fraterno: aproximem-se, venham ver e descobrir de novo o que \u00e9 a Missa, porque nela o Senhor continua a encontrar-Se com o seu povo e a oferecer a sua vida para o mundo. De facto, \u00aba Eucaristia \u00e9 um acontecimento maravilhoso no qual Jesus Cristo, nossa vida, se faz presente. Participar na Missa \u201c\u00e9 viver outra vez a paix\u00e3o e a morte redentora do Senhor. \u00c9 uma teofania: o Senhor torna-se presente no altar da comunh\u00e3o para ser oferecido ao Pai pela salva\u00e7\u00e3o do mundo\u201d\u00bb[28]. Por isso, deve-se participar com f\u00e9 viva, aten\u00e7\u00e3o, escuta e devo\u00e7\u00e3o. Precisamos testemunhar isto \u00e0s crian\u00e7as, aos jovens, a todos: que na Missa \u00abo Senhor est\u00e1 ali connosco, presente\u00bb, que n\u00e3o vamos \u00e0 igreja para um ato social ou por h\u00e1bito, mas para nos encontrarmos com Ele, ouvi-l\u2019O, receb\u00ea-l\u2019O, ador\u00e1-l\u2019O. Se essa convic\u00e7\u00e3o se aprofunda, a Eucaristia deixar\u00e1 de ser \u00abentediante\u00bb \u2013 como alguns alegam \u2013 para se revelar em toda a sua maravilha. Os santos mostram-nos isso: viviam da Missa, porque nela se encontravam e amavam a Jesus. As par\u00f3quias devem empenhar-se na inicia\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica: melhorar a catequese sobre a Missa, cuidar da beleza das celebra\u00e7\u00f5es, favorecer momentos de adora\u00e7\u00e3o que levem a um encontro de cora\u00e7\u00e3o a cora\u00e7\u00e3o com Cristo. \u00abReconhece, \u00f3 crist\u00e3o, a tua dignidade\u00bb \u2013 poder\u00edamos parafrasear: \u00abReconhece, \u00f3 crist\u00e3o, Quem vem a ti na Missa!\u00bb Se cada fiel redescobrir que a Missa \u00e9 o encontro por excel\u00eancia com Cristo, ent\u00e3o a comunidade renovar-se-\u00e1 na f\u00e9, na caridade e na unidade.<\/p>\n<p><strong>31<\/strong>. Em segundo lugar, Cristo est\u00e1 vivo na Sua Palavra. Ele mesmo \u00e9 o Verbo eterno que se fez carne e as Escrituras Sagradas s\u00e3o Palavra de Deus viva e eficaz (cf. Heb 4, 12). Quando o Evangelho \u00e9 proclamado na assembleia, \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo que nos fala. Recordemos o encontro do Ressuscitado com os disc\u00edpulos de Ema\u00fas: Jesus caminha com eles e explica-lhes as Escrituras, e os seus cora\u00e7\u00f5es ardem (cf. Lc 24, 27.32). Depois reconhecem-n\u2019O ao partir o p\u00e3o \u2013 uma clara alus\u00e3o \u00e0 Eucaristia. Palavra e P\u00e3o, Escritura e Eucaristia, Cristo presente de duas formas complementares. \u00c9 preciso reacender o amor \u00e0 Palavra de Deus: ler, meditar, estudar, partilhar. Que em cada casa haja uma B\u00edblia, lida em fam\u00edlia. Que a Lectio Divina seja pr\u00e1tica difundida. Que se criem c\u00edrculos b\u00edblicos, grupos de reflex\u00e3o, homilias mais b\u00edblicas. S\u00e3o Jer\u00f3nimo dizia que \u00aba ignor\u00e2ncia das Escrituras \u00e9 ignor\u00e2ncia de Cristo\u00bb[29]. Inversamente, conhecer as Escrituras \u00e9 encontrar Cristo, pois nelas n\u00e3o temos apenas letras mortas de um livro antigo; temos o pr\u00f3prio Senhor comunicando-nos o seu Cora\u00e7\u00e3o. Quanta consola\u00e7\u00e3o, quanta orienta\u00e7\u00e3o e sabedoria encontramos, quando abrimos o Evangelho com f\u00e9! N\u00e3o h\u00e1 situa\u00e7\u00e3o humana que a Palavra de Deus n\u00e3o ilumine. Uma Igreja alimentada diariamente pela Palavra ser\u00e1 uma Igreja mais forte e viva em Cristo.<\/p>\n<p><strong>32<\/strong>. Em terceiro lugar, n\u00e3o podemos esquecer que Cristo est\u00e1 vivo e atuante no sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o. Na Confiss\u00e3o, encontramos Jesus como miseric\u00f3rdia que cura e perdoa. Cada absolvi\u00e7\u00e3o sacramental \u00e9 um encontro direto com Cristo que nos diz, como outrora \u00e0 pecadora: \u00abOs teus pecados est\u00e3o perdoados. [\u2026] Vai em paz\u00bb (Lc 7, 48-50). Infelizmente, muitos cat\u00f3licos abandonaram este sacramento, seja por uma vis\u00e3o deturpada a seu respeito, seja por vergonha, seja por o acharem desnecess\u00e1rio. Precisamos de mudar esta mentalidade. O papa Francisco lembra-nos: \u00abO confession\u00e1rio n\u00e3o deve ser uma c\u00e2mara de tortura, mas o lugar da miseric\u00f3rdia do Senhor\u00bb[30]. Isto \u00e9 fundamental: na Confiss\u00e3o n\u00e3o encontramos um juiz severo, mas o pr\u00f3prio Cristo, o Bom Pastor, que nos carrega aos ombros. O sacerdote age in persona Christi, portanto, \u00e9 Jesus quem escuta, perdoa e aconselha atrav\u00e9s dele. Que grande gra\u00e7a ter acesso a esse abra\u00e7o do Pai misericordioso! Ser\u00e1 importante recordar o lugar da confiss\u00e3o na vida pastoral das par\u00f3quias e comunidades. Importa que sejam oferecidos hor\u00e1rios generosos para o sacramento da Confiss\u00e3o, que n\u00e3o se devem confundir com os hor\u00e1rios de gen\u00e9rico atendimento pastoral. Neste sentido, o confession\u00e1rio tem um lugar importante na vida da Igreja: sentado nele, o padre recorda que est\u00e1 dispon\u00edvel para a confiss\u00e3o e n\u00e3o est\u00e1 ocupado com mais nada sen\u00e3o com isso. Como a vida e o exemplo de v\u00e1rios santos recordam: um sacerdote dispon\u00edvel para confessar atrai os penitentes. Al\u00e9m desta disponibilidade de hor\u00e1rios de confiss\u00e3o, n\u00e3o deixem de se organizar momentos p\u00fablicos e lit\u00fargicos de penit\u00eancia, como vig\u00edlias e outras celebra\u00e7\u00f5es, que, depois, conduzem \u00e0 confiss\u00e3o sacramental individual. Quando experimentamos o perd\u00e3o de Cristo, renasce a alma, reacende-se a alegria da salva\u00e7\u00e3o (cf. Sl 51, 14). Quantos afastados poderiam retornar a Jesus se redescobrissem na Igreja o lugar onde podem recome\u00e7ar sem julgamentos, purificados pela gra\u00e7a! Enfim, a confiss\u00e3o regular \u00e9 fonte de santifica\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 encontro com Cristo: Ele \u00e9 nossa santifica\u00e7\u00e3o (cf. 1 Cor 1, 30) e quer santificar-nos tamb\u00e9m atrav\u00e9s desse rem\u00e9dio generoso para os fracos. N\u00e3o tenhamos medo do sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o: Jesus espera-nos ali para sarar as nossas feridas.<\/p>\n<p><strong>33<\/strong>. Em quarto lugar, importa reconhecer a presen\u00e7a e miss\u00e3o da Virgem Maria na Igreja. Maria \u00e9 nossa M\u00e3e na f\u00e9 e disc\u00edpula de seu Filho, Jesus Cristo. Nela, pela escuta dispon\u00edvel da Palavra do Pai (cf. Lc 8, 21), o Verbo fez-se carne, e, no seu \u00absim\u00bb incondicional, a humanidade aproximou-se salvificamente de Deus, acolhendo-O para construir nova vida e transformar o mundo. Ela \u00e9, por isso, a terna m\u00e3o que conduz a Jesus Cristo. Cooperadora na obra da reden\u00e7\u00e3o, no seu seio virginal foi gerada a Cabe\u00e7a da Igreja, e n\u2019Ela s\u00e3o gerados os membros do Seu Corpo, que somos n\u00f3s. De forma particular, em Portugal, sabemos como a M\u00e3e de Jesus ocupa um lugar important\u00edssimo na pastoral, quer seja pela longa tradi\u00e7\u00e3o de espiritualidade mariana \u2013 que remonta ao in\u00edcio da nacionalidade \u2013, quer seja pela configura\u00e7\u00e3o da devo\u00e7\u00e3o do nosso povo. Maria \u00abcooperou de modo singular, com a sua f\u00e9, esperan\u00e7a e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural\u00bb[31]. Deste modo, tamb\u00e9m na miss\u00e3o que se abre diante de n\u00f3s, e que devemos assumir em cada instante da vida da Igreja, a Virgem Maria exerce a sua maternidade espiritual. \u00c9 necess\u00e1rio que a espiritualidade mariana n\u00e3o seja apenas um ap\u00eandice da vida pastoral, mas lhe ofere\u00e7a o ritmo e o estilo pr\u00f3prios do que significa ser disc\u00edpulo de Cristo. Assim, procure-se conhecer melhor a doutrina sobre a Virgem Maria; promovam-se momentos s\u00e9rios e profundos de ora\u00e7\u00e3o \u00e0 M\u00e3e de Jesus; e como a Senhora da Visita\u00e7\u00e3o, recebamos a sua visita e sejamos, cada um de n\u00f3s, como ela, portadores da presen\u00e7a de Deus indo ao encontro dos outros, de forma especial de todos aqueles que vivem alguma forma de pobreza.<\/p>\n<p><strong>34<\/strong>. Em quinto lugar, Cristo est\u00e1 presente nos pobres, nos pequeninos, nos sofredores. Esta \u00e9 uma verdade central do Evangelho: \u00abTive fome e destes-me de comer, [\u2026] estava nu e destes-me que vestir [\u2026]. Em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irm\u00e3os mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes\u00bb (Mt 25, 35-40). Aqui n\u00e3o se trata de uma met\u00e1fora. Jesus identifica-Se realmente com os pobres. Encontrar-se com o pobre \u00e9 encontrar-se com Cristo de forma m\u00edstica e desafiante. O papa Le\u00e3o XIV, na sua primeira exorta\u00e7\u00e3o Dilexi Te sobre o amor aos pobres, frisou que \u00abn\u00e3o estamos no horizonte da benefic\u00eancia, mas no da Revela\u00e7\u00e3o: o contacto com quem n\u00e3o tem poder nem grandeza \u00e9 um modo fundamental de encontro com o Senhor da Hist\u00f3ria\u00bb[32]. Ou seja, servir o pobre n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 filantropia opcional, solidariedade social, mas parte integrante do encontro com Deus revelado em Cristo. Para este encontro com os pobres, seguindo o ensinamento do papa Le\u00e3o XIV, \u00e9 necess\u00e1rio atender a todas as formas de pobreza, sem exce\u00e7\u00e3o: \u00abExistem muitas formas de pobreza: a daqueles que n\u00e3o t\u00eam meios de subsist\u00eancia material; a pobreza de quem \u00e9 marginalizado socialmente e n\u00e3o possui instrumentos para dar voz \u00e0 sua dignidade e capacidades; a pobreza moral e espiritual; a pobreza cultural; aquela de quem se encontra em condi\u00e7\u00f5es de fraqueza ou fragilidade seja pessoal seja social; a pobreza de quem n\u00e3o tem direitos, nem lugar, nem liberdade\u00bb[33]. Deve ser claro para todos n\u00f3s que n\u00e3o podemos amar a Deus sem amar aqueles que Ele ama de modo especial: os pequenos, os exclu\u00eddos e os sofredores. Como ensina S\u00e3o Jo\u00e3o, \u00abaquele que n\u00e3o ama o seu irm\u00e3o, a quem v\u00ea, n\u00e3o pode amar a Deus, a quem n\u00e3o v\u00ea\u00bb (1 Jo 4, 20).<\/p>\n<p><strong>35<\/strong>. Em resumo, quero convidar todos a redescobrir Cristo vivo entre n\u00f3s: no altar, nas Escrituras, no confession\u00e1rio, atrav\u00e9s da Virgem Maria e no irm\u00e3o necessitado. Renovar a centralidade de Cristo implica reviver estas dimens\u00f5es: celebra\u00e7\u00e3o, escuta, reconcilia\u00e7\u00e3o, ora\u00e7\u00e3o, servi\u00e7o. Se cuidarmos delas, experimentaremos um profundo renovamento espiritual pessoal e comunit\u00e1rio. Esta renovada centralidade de Cristo dar-nos-\u00e1 novo fervor vocacional, mission\u00e1rio e caritativo. Foi sempre assim na hist\u00f3ria: cada renova\u00e7\u00e3o aut\u00eantica da Igreja passou por retomar seriamente o Evangelho, procurando mesmo viv\u00ea-lo \u00e0 letra \u2013 pensemos, por exemplo, em S\u00e3o Francisco de Assis e no seu testemunho de pobreza, fraternidade e evangeliza\u00e7\u00e3o. \u00c9, pois, sempre necess\u00e1rio colocar Cristo de novo no centro. O papa Bento XVI certa vez escrevia: \u00abAo in\u00edcio do ser crist\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma decis\u00e3o \u00e9tica ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que d\u00e1 \u00e0 vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo\u00bb[34]. Retornemos \u00e0 Pessoa de Jesus em tudo. Ele \u00e9 nosso programa vivo!<\/p>\n<p><strong>36<\/strong>. Neste caminho, seria bom que se procurassem promover, a n\u00edvel comunit\u00e1rio, paroquial e vicarial, iniciativas de evangeliza\u00e7\u00e3o. A organiza\u00e7\u00e3o das visitas pastorais \u00e0s vigararias tem procurado priorizar essas a\u00e7\u00f5es como grandes momentos de renova\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Seria importante que se promovessem momentos fortes de a\u00e7\u00e3o evangelizadora, como as miss\u00f5es populares \u2013 seja por altura das visitas pastorais, seja noutras ocasi\u00f5es, como visitas da imagem peregrina de Nossa Senhora de F\u00e1tima, nos c\u00edrios tradicionais, ou nas festas e solenidades dos padroeiros locais. Tamb\u00e9m momentos de peregrina\u00e7\u00e3o a algum santu\u00e1rio s\u00e3o oportunidades de fazer ressoar o chamamento \u00e0 vida divina. Tudo isto dever\u00e1 ser pensado com o foco de se renovar o encontro com Jesus. N\u00e3o esque\u00e7amos, tamb\u00e9m, a dimens\u00e3o ecum\u00e9nica deste caminho: em 2033 celebraremos 2000 anos da reden\u00e7\u00e3o de todos os crist\u00e3os. Seria bom promover celebra\u00e7\u00f5es e gestos de caridade ativa em conjunto com irm\u00e3os de outras Igreja e comunidades eclesiais, testemunhando a unidade essencial em Cristo redentor. Tamb\u00e9m o di\u00e1logo com crentes de outras religi\u00f5es deve ser promovido. Mostremos a todos o tesouro que levamos em vasos de barro (cf. 2 Cor 4, 7), que \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo. Com criatividade e coragem, deixemos o Esp\u00edrito inspirar-nos.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<br \/>\n<\/strong><strong>37<\/strong>. Chegando ao termo desta carta pastoral, o meu cora\u00e7\u00e3o enche-se de esperan\u00e7a ao imaginar os frutos que o Senhor deseja realizar na nossa Igreja de Lisboa. No centro de tudo est\u00e1 a Eucaristia, onde encontramos Cristo e Cristo encontra a nossa vida. Nunca percamos esta conex\u00e3o fundamental: a nossa uni\u00e3o com o Senhor na mesa eucar\u00edstica deve desaguar no testemunho mission\u00e1rio no dia a dia. \u00abA Missa termina, mas a miss\u00e3o come\u00e7a\u00bb \u2013 costuma-se dizer. De facto, ao ouvirmos \u00abIde em paz e o Senhor vos acompanhe\u00bb, recebemos um envio: \u00abIte, missa est\u00bb \u2013 \u00abIde, sois enviados\u00bb. A Eucaristia impulsiona-nos a ir ao mundo levar a paz e a caridade de Cristo. Se meditarmos bem, todo o dinamismo da vida crist\u00e3 est\u00e1 contido na Missa: nela recebemos o amor que devemos depois partilhar. Celebrar sem evangelizar n\u00e3o cumpre o mandato do Senhor. Evangelizar sem voltar \u00e0 fonte eucar\u00edstica far-nos-ia secar espiritualmente.<\/p>\n<p><strong>38<\/strong>. Ao longo destes par\u00e1grafos, refletimos sobre Jesus Salvador e a salva\u00e7\u00e3o do homem; sobre o caminho espiritual em Cristo; sobre a miss\u00e3o da Igreja, especialmente num contexto p\u00f3s-pandemia; e sobre a centralidade de Cristo vivo nos lugares onde Ele se deixa encontrar. Tudo converge para uma ideia-chave: precisamos de ser uma Igreja vocacionada para a santidade e para a miss\u00e3o. Cada batizado tem uma voca\u00e7\u00e3o \u00fanica no des\u00edgnio de Deus \u2013 seja no sacerd\u00f3cio ministerial, na vida consagrada, no matrim\u00f3nio ou no laicado celibat\u00e1rio \u2013, mas toda a voca\u00e7\u00e3o aut\u00eantica \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, chamamento \u00e0 santidade e ao servi\u00e7o. \u00abEm virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se disc\u00edpulo mission\u00e1rio\u00bb[35]. Gostaria de sublinhar a dimens\u00e3o vocacional da vida: ningu\u00e9m est\u00e1 neste mundo por acaso; cada vida \u00e9 chamada por Deus a refletir um aspeto do Seu amor e a cumprir uma miss\u00e3o insubstitu\u00edvel. <em>Jovem<\/em>: Deus tem um sonho para ti! <em>Fam\u00edlia<\/em>: Deus conta contigo como \u00abIgreja dom\u00e9stica\u00bb! <em>Padre<\/em>: s\u00ea sinal de Cristo Bom Pastor! <em>Di\u00e1cono<\/em>: testemunha o amor de Jesus no servi\u00e7o aos \u00faltimos! <em>Consagrado ou consagrada<\/em>: lembra a todos o destino transcendente! <em>Trabalhador<\/em>: faz do teu of\u00edcio um apostolado! <em>Idoso ou doente<\/em>: a tua ora\u00e7\u00e3o e oferta escondida sustentam a Igreja! Enfim, todos t\u00eam um lugar. Que neste itiner\u00e1rio muitos redescubram ou confirmem a sua voca\u00e7\u00e3o. Rezemos por novas voca\u00e7\u00f5es sacerdotais e consagradas, frutos de uma Igreja viva. Valorizemos, igualmente, a voca\u00e7\u00e3o laical: os fi\u00e9is leigos s\u00e3o chamados a animar crist\u00e3mente as realidades temporais, levando Cristo \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 economia, \u00e0 cultura, \u00e0 pol\u00edtica, como fermento no mundo. Sois parte essencial da miss\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p><strong>39<\/strong>. Confio todos estes prop\u00f3sitos \u00e0 intercess\u00e3o amorosa de Nossa Senhora, Estrela da Evangeliza\u00e7\u00e3o, Padroeira de Portugal sob o t\u00edtulo de Imaculada Concei\u00e7\u00e3o. Que ela, que gerou o Salvador no seu seio e o ofereceu ao mundo, nos ajude a gerar Jesus no cora\u00e7\u00e3o de muitos e a oferec\u00ea-l\u2019O de novo a esta terra que tantas vezes j\u00e1 experimentou a gra\u00e7a de Deus. Olhamos tamb\u00e9m para os santos e beatos da nossa diocese, e para tantos mission\u00e1rios e m\u00e1rtires que partiram daqui, ao longo dos s\u00e9culos: que o seu exemplo nos estimule a sair do nosso comodismo e gastar a vida pelo Evangelho.<\/p>\n<p><strong>40<\/strong>. A todos v\u00f3s, queridos diocesanos \u2013 fi\u00e9is leigos, consagrados, di\u00e1conos, padres \u2013 e a todas as pessoas de boa vontade que vivem neste Patriarcado de Lisboa, endere\u00e7o o meu apelo final: abri de par em par as portas do vosso cora\u00e7\u00e3o a Cristo. N\u00e3o temais! Ele n\u00e3o tira nada, Ele d\u00e1 tudo. Renovai hoje o vosso sim ao Senhor. Recebei o fogo do Seu amor e levai-o aos outros. Fazei da vossa vida uma Eucaristia viva, um louvor cont\u00ednuo a Deus e um dom generoso aos irm\u00e3os. Que possamos, no Domingo de P\u00e1scoa e em cada domingo, sair das nossas igrejas, dizendo intimamente, como os disc\u00edpulos de Ema\u00fas: \u00abN\u00e3o ardia o nosso cora\u00e7\u00e3o quando Ele nos falava pelo caminho?\u00bb (<em>Lc<\/em> 24, 32). Sim, que os nossos cora\u00e7\u00f5es ardentes fa\u00e7am arder de amor as nossas cidades, vilas e aldeias e este tempo presente! Cristo vive, Cristo reina, Cristo impera \u2013 e n\u00f3s somos suas testemunhas. Continuemos a caminhar juntos, em comunh\u00e3o com Cristo e uns com os outros, para participarmos na miss\u00e3o evangelizadora da Igreja. Que continuemos a ser uma Igreja sinodal mission\u00e1ria, nesta amada diocese de Lisboa.<\/p>\n<p><strong>41<\/strong>. Depois de conclu\u00eddo o Jubileu de 2025 e, desde j\u00e1, antegozando as alegrias de 2033, convoco-vos a todos para este grande recome\u00e7o espiritual e pastoral. N\u00e3o importa qu\u00e3o desafiador seja o contexto secularizado: com Cristo no centro, a alegria do Senhor ser\u00e1 a vossa for\u00e7a (cf. <em>Ne<\/em> 8, 10). Ele prometeu estar connosco todos os dias. Confiemos nessa promessa. Como vosso pastor, asseguro a minha ora\u00e7\u00e3o por cada um, especialmente pelos que est\u00e3o mais afastados ou mais feridos \u2013 esta carta tamb\u00e9m \u00e9 para v\u00f3s. Levanta-te, Igreja de Lisboa, e resplandece, porque chegou a tua luz (cf. <em>Is<\/em> 60, 1)! Cristo \u00e9 a nossa luz!<\/p>\n<p><em>Lisboa, 5 de abril de 2026, P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor<br \/>\n<\/em>\u2020 Rui, Patriarca de Lisboa<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">[1] \u00abEste Ano Santo [de 2025] orientar\u00e1 o caminho rumo a outra data fundamental para todos os crist\u00e3os: de facto, em 2033, celebrar-se-\u00e3o os dois mil anos da Reden\u00e7\u00e3o, realizada por meio da paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor Jesus. Abre-se, assim, diante de n\u00f3s um percurso marcado por grandes etapas, nas quais a gra\u00e7a de Deus precede e acompanha o povo que caminha zeloso na f\u00e9, diligente na caridade e perseverante na esperan\u00e7a (cf. <em>1 Ts<\/em> 1, 3)\u00bb (Francisco, Bula <em>Spes non confundit<\/em>, n. 6).<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[2] Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, Constitui\u00e7\u00e3o pastoral <em>Gaudium et spes<\/em>, n. 1.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[3] Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, Constitui\u00e7\u00e3o pastoral <em>Gaudium et spes<\/em>, n. 22.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[4] Le\u00e3o Magno, <em>Sermo 1 in Nativitate Domini<\/em>, 3.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[5] Cf. Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica <em>Lumen gentium<\/em>, n. 41.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[6] Cf. Santo Agostinho, <em>Enarr. in Ps.<\/em> CXXXVIII, 2<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[7] Cf. Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica <em>Lumen gentium<\/em>, n. 1.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[8] Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica <em>Lumen gentium<\/em>, n. 1.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[9] Santo Ambr\u00f3sio, <em>Exameron<\/em>, IV, 8, 32.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[10] Francisco, Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Evangelii gaudium<\/em>, n. 49.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[11] Francisco, Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Evangelii gaudium<\/em>, n. 49.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[12] Le\u00e3o XIV, <em>Sauda\u00e7\u00e3o aos influenciadores cat\u00f3licos e mission\u00e1rios digitais<\/em>, 29 de julho de 2025.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[13] Le\u00e3o XIV, Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Dilexi te<\/em>, n. 39.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[14] Cf. Francisco, Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Evangelii gaudium<\/em>, n. 120.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[15] Francisco, <em>Homilia na Santa Missa da Solenidade da Epifania do Senhor<\/em>, 6 de janeiro de 2016.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[16] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Enc\u00edclica <em>Ecclesia de Eucharistia<\/em>, n. 1.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[17] Jo\u00e3o Paulo II, <em>Discurso<\/em>, 16 de janeiro de 1982, n. 2.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[18] Cf. Le\u00e3o XIV, Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Dilexi te<\/em>, n. 41.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[19] Francisco, <em>Encontro com os jovens argentinos por ocasi\u00e3o da XXVIII Jornada Mundial da Juventude<\/em>, 25 de julho de 2013.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[20] Cf. <em>Constitui\u00e7\u00e3o Sinodal de Lisboa<\/em>, n. 1.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[21] Le\u00e3o XIV, <em>Mensagem para o LIX Dia Mundial da Paz<\/em>, 1 de janeiro de 2026.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[22] Cf. <em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, n. 1373.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[23] Sobre a Eucaristia e a Palavra, o Conc\u00edlio Vaticano II recordou que, na sagrada Liturgia, Cristo est\u00e1 presente \u00absobretudo sob as esp\u00e9cies eucar\u00edsticas, mas tamb\u00e9m na sua palavra, pois \u00e9 Ele que fala quando se leem as Escrituras na Igreja; est\u00e1 presente na pessoa do sacerdote e est\u00e1 presente na assembleia reunida em seu nome\u00bb (cf. Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, Constitui\u00e7\u00e3o conciliar <em>Sacrosanctum Concilium<\/em>, n. 7).<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[24] Na confiss\u00e3o, \u00abo sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus leva a uma verdadeira \u201cressurrei\u00e7\u00e3o espiritual\u201d, \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o da dignidade e dos bens pr\u00f3prios da vida dos filhos de Deus, o mais precioso dos quais \u00e9 a amizade do mesmo Deus\u00bb (<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, n. 1468).<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[25] A Virgem Maria, \u00aba M\u00e3e de Jesus, assim como, glorificada j\u00e1 em corpo e alma, \u00e9 imagem e in\u00edcio da Igreja que se h\u00e1 de consumar no s\u00e9culo futuro, assim tamb\u00e9m, na terra, brilha como sinal de esperan\u00e7a segura e de consola\u00e7\u00e3o, para o Povo de Deus ainda peregrinante\u00bb (Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica <em>Lumen gentium<\/em>, n. 68).<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[26] Cristo est\u00e1 presente de modo m\u00edstico em cada pessoa necessitada (cf. <em>Mt<\/em> 25, 40). Como lembrava o Papa Le\u00e3o XIV: \u00abo pobre n\u00e3o \u00e9 apenas algu\u00e9m a quem se presta aux\u00edlio, mas \u00e9 presen\u00e7a sacramental do Senhor\u00bb (Le\u00e3o XIV, Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Dilexi Te<\/em>, n. 44).<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[27] Francisco, <em>Audi\u00eancia geral<\/em>, 8 de novembro de 2017.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[28] Francisco, <em>Audi\u00eancia geral<\/em>, 8 de novembro de 2017.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[29] S\u00e3o Jer\u00f3nimo, <em>Comm. in Is<\/em>, Prol.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[30] Francisco, Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Evangelii gaudium<\/em>, n. 44.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[31] Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica <em>Lumen gentium<\/em>, n. 61.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[32] Le\u00e3o XIV, Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Dilexi Te<\/em>, n. 5.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[33] Le\u00e3o XIV, Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Dilexi Te<\/em>, n. 9.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[34] Bento XVI, Enc\u00edclica <em>Deus Caritas Est<\/em>, n. 1.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 10pt;\">[35] Francisco, Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Evangelii gaudium<\/em>, n. 120.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abLevanta-te, Igreja de Lisboa, e resplandece em Cristo\u00bb Neste Domingo de P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor, dia 5 de abril, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3826,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[67,3],"tags":[],"class_list":["post-3825","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-d-rui-valerio","category-noticias"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - 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