{"id":784,"date":"2012-01-03T11:55:42","date_gmt":"2012-01-03T11:55:42","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/site\/?p=784"},"modified":"2026-03-21T15:41:40","modified_gmt":"2026-03-21T15:41:40","slug":"carta-apostolica-porta-da-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/carta-apostolica-porta-da-fe\/","title":{"rendered":"Carta Apost\u00f3lica Porta da F\u00e9"},"content":{"rendered":"<p><strong>Carta Apost\u00f3lica Porta Fidei<\/span>, <img decoding=\"async\" class=\" alignright size-full wp-image-605\" style=\"margin: 0px 0px 0px 8px; float: right;\" alt=\"Bento16_22\" src=\"https:\/\/paroquiaqueijas.net\/portal\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Bento16_22.jpg\" height=\"154\" width=\"180\" \/><br \/>com a qual se proclama o ANO DA F\u00c9<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>1<\/strong>. A PORTA DA F\u00c9 (cf. Act 14, 27), que introduz na vida de comunh\u00e3o com Deus e permite a entrada na sua Igreja, est\u00e1 sempre aberta para n\u00f3s. \u00c9 poss\u00edvel cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus \u00e9 anunciada e o cora\u00e7\u00e3o se deixa plasmar pela gra\u00e7a que transforma. Atravessar esta porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira. Este caminho tem in\u00edcio no Baptismo (cf. Rm 6, 4), pelo qual podemos dirigir-nos a Deus com o nome de Pai, e est\u00e1 conclu\u00eddo com a passagem atrav\u00e9s da morte para a vida eterna, fruto da ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor Jesus, que, com o dom do Esp\u00edrito Santo, quis fazer participantes da sua pr\u00f3pria gl\u00f3ria quantos cr\u00eaem n&#8217;Ele (cf. Jo 17, 22). Professar a f\u00e9 na Trindade \u2013 Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo \u2013 equivale a crer num s\u00f3 Deus que \u00e9 Amor (cf. 1 Jo 4, 8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salva\u00e7\u00e3o; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mist\u00e9rio da sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o; o Esp\u00edrito Santo, que guia a Igreja atrav\u00e9s dos s\u00e9culos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor.<\/span><\/p>\n<p><strong>2<\/strong>. Desde o princ\u00edpio do meu minist\u00e9rio como Sucessor de Pedro, lembrei a necessidade de redescobrir o caminho da f\u00e9 para fazer brilhar, com evid\u00eancia sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Durante a homilia da Santa Missa no in\u00edcio do pontificado, disse: \u00abA Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo devem p\u00f4r-se a caminho para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que d\u00e1 a vida, a vida em plenitude\u00bb1. Sucede n\u00e3o poucas vezes que os crist\u00e3os sintam maior preocupa\u00e7\u00e3o com as consequ\u00eancias sociais, culturais e pol\u00edticas da f\u00e9 do que com a pr\u00f3pria f\u00e9, considerando esta como um pressuposto \u00f3bvio da sua vida di\u00e1ria. Ora um tal pressuposto n\u00e3o s\u00f3 deixou de existir, mas frequentemente acaba at\u00e9 negado2. Enquanto, no passado, era poss\u00edvel reconhecer um tecido cultural unit\u00e1rio, amplamente compartilhado no seu apelo aos conte\u00fados da f\u00e9 e aos valores por ela inspirados, hoje parece que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de f\u00e9 que atingiu muitas pessoas.<\/span><\/p>\n<p><strong>3<\/strong>. N\u00e3o podemos aceitar que o sal se torne ins\u00edpido e a luz fique escondida (cf. Mt 5, 13-16). Tamb\u00e9m o homem contempor\u00e2neo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao po\u00e7o, para ouvir Jesus que convida a crer n&#8217;Ele e a beber na sua fonte, donde jorra \u00e1gua viva (cf. Jo 4, 14). Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do P\u00e3o da vida, oferecidos como sustento de quantos s\u00e3o seus disc\u00edpulos (cf. Jo 6, 51). De facto, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma for\u00e7a, este ensinamento de Jesus: \u00abTrabalhai, n\u00e3o pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e d\u00e1 a vida eterna\u00bb (Jo 6, 27). E a quest\u00e3o, ent\u00e3o posta por aqueles que O escutavam, \u00e9 a mesma que colocamos n\u00f3s tamb\u00e9m hoje: \u00abQue havemos n\u00f3s de fazer para realizar as obras de Deus?\u00bb (Jo 6, 28). Conhecemos a resposta de Jesus: \u00abA obra de Deus \u00e9 esta: crer n&#8217;Aquele que Ele enviou\u00bb (Jo 6, 29). Por isso, crer em Jesus Cristo \u00e9 o caminho para se poder chegar definitivamente \u00e0 salva\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><strong>4<\/strong>. \u00c0 luz de tudo isto, decidi proclamar um Ano da F\u00e9. Este ter\u00e1 in\u00edcio a 11 de Outubro de 2012, no cinquenten\u00e1rio da abertura do Conc\u00edlio Vaticano II, e terminar\u00e1 na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, a 24 de Novembro de 2013. Na referida data de 11 de Outubro de 2012, completar-se-\u00e3o tamb\u00e9m vinte anos da publica\u00e7\u00e3o do Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, texto promulgado pelo meu Predecessor, o Beato Papa Jo\u00e3o Paulo II,3 com o objectivo de ilustrar a todos os fi\u00e9is a for\u00e7a e a beleza da f\u00e9. Esta obra, verdadeiro fruto do Conc\u00edlio Vaticano II, foi desejada pelo S\u00ednodo Extraordin\u00e1rio dos Bispos de 1985 como instrumento ao servi\u00e7o da catequese4 e foi realizado com a colabora\u00e7\u00e3o de todo o episcopado da Igreja Cat\u00f3lica. E uma Assembleia Geral do S\u00ednodo dos Bispos foi convocada por mim, precisamente para o m\u00eas de Outubro de 2012, tendo por tema A nova evangeliza\u00e7\u00e3o para a transmiss\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3. Ser\u00e1 uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia para introduzir o complexo eclesial inteiro num tempo de particular reflex\u00e3o e redescoberta da f\u00e9. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que a Igreja \u00e9 chamada a celebrar um Ano da F\u00e9. O meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, proclamou um ano semelhante, em 1967, para comemorar o mart\u00edrio dos ap\u00f3stolos Pedro e Paulo no d\u00e9cimo nono centen\u00e1rio do seu supremo testemunho. Idealizou-o como um momento solene, para que houvesse, em toda a Igreja, \u00abuma aut\u00eantica e sincera profiss\u00e3o da mesma f\u00e9\u00bb; quis ainda que esta fosse confirmada de maneira \u00abindividual e colectiva, livre e consciente, interior e exterior, humilde e franca\u00bb.5 Pensava que a Igreja poderia assim retomar \u00abexacta consci\u00eancia da sua f\u00e9 para a reavivar, purificar, confirmar, confessar\u00bb.6 As grandes convuls\u00f5es, que se verificaram naquele Ano, tornaram ainda mais evidente a necessidade duma tal celebra\u00e7\u00e3o. Esta terminou com a Profiss\u00e3o de F\u00e9 do Povo de Deus, 7 para atestar como os conte\u00fados essenciais, que h\u00e1 s\u00e9culos constituem o patrim\u00f3nio de todos os crentes, necessitam de ser confirmados, compreendidos e aprofundados de maneira sempre nova para se dar testemunho coerente deles em condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas diversas das do passado.<\/span><\/p>\n<p><strong>5<\/strong>. Sob alguns aspectos, o meu venerado Predecessor viu este Ano como uma \u00abconsequ\u00eancia e exig\u00eancia p\u00f3s-conciliar\u00bb8, bem ciente das graves dificuldades daquele tempo sobretudo no que se referia \u00e0 profiss\u00e3o da verdadeira f\u00e9 e da sua recta interpreta\u00e7\u00e3o. Pareceu-me que fazer coincidir o in\u00edcio do Ano da F\u00e9 com o cinquenten\u00e1rio da abertura do Conc\u00edlio Vaticano II poderia ser uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia para compreender que os textos deixados em heran\u00e7a pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato Jo\u00e3o Paulo II, \u00abn\u00e3o perdem o seu valor nem a sua beleza. \u00c9 necess\u00e1rio faz\u00ea-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magist\u00e9rio, no \u00e2mbito da Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Conc\u00edlio como a grande gra\u00e7a de que beneficiou a Igreja no s\u00e9culo XX: nele se encontra uma b\u00fassola segura para nos orientar no caminho do s\u00e9culo que come\u00e7a\u00bb.9 Quero aqui repetir com veem\u00eancia as palavras que disse a prop\u00f3sito do Conc\u00edlio poucos meses depois da minha elei\u00e7\u00e3o para Sucessor de Pedro: \u00abSe o lermos e recebermos guiados por uma justa hermen\u00eautica, o Conc\u00edlio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande for\u00e7a para a renova\u00e7\u00e3o sempre necess\u00e1ria da Igreja\u00bb.10<\/span><\/p>\n<p><strong>6<\/strong>. A renova\u00e7\u00e3o da Igreja realiza-se tamb\u00e9m atrav\u00e9s do testemunho prestado pela vida dos crentes: de facto, os crist\u00e3os s\u00e3o chamados a fazer brilhar, com a sua pr\u00f3pria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou. O pr\u00f3prio Conc\u00edlio, na Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica Lumen gentium, afirma: \u00abEnquanto Cristo &#8220;santo, inocente, imaculado&#8221; (Heb 7, 26), n\u00e3o conheceu o pecado (cf. 2 Cor 5, 21), mas veio apenas expiar os pecados do povo (cf. Heb 2, 17), a Igreja, contendo pecadores no seu pr\u00f3prio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purifica\u00e7\u00e3o, exercita continuamente a penit\u00eancia e a renova\u00e7\u00e3o. A Igreja &#8220;prossegue a sua peregrina\u00e7\u00e3o no meio das persegui\u00e7\u00f5es do mundo e das consola\u00e7\u00f5es de Deus&#8221;, anunciando a cruz e a morte do Senhor at\u00e9 que Ele venha (cf. 1 Cor 11, 26). Mas \u00e9 robustecida pela for\u00e7a do Senhor ressuscitado, de modo a vencer, pela paci\u00eancia e pela caridade, as suas afli\u00e7\u00f5es e dificuldades tanto internas como externas, e a revelar, velada mas fielmente, o seu mist\u00e9rio, at\u00e9 que por fim se manifeste em plena luz\u00bb.11<\/span><\/p>\n<p>Nesta perspectiva, o Ano da F\u00e9 \u00e9 convite para uma aut\u00eantica e renovada convers\u00e3o ao Senhor, \u00fanico Salvador do mundo. No mist\u00e9rio da sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, Deus revelou plenamente o Amor que salva e chama os homens \u00e0 convers\u00e3o de vida por meio da remiss\u00e3o dos pecados (cf. Act 5, 31). Para o ap\u00f3stolo Paulo, este amor introduz o homem numa vida nova: \u00abPelo Baptismo fomos sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela gl\u00f3ria do Pai, tamb\u00e9m n\u00f3s caminhemos numa vida nova\u00bb (Rm 6, 4). Em virtude da f\u00e9, esta vida nova plasma toda a exist\u00eancia humana segundo a novidade radical da ressurrei\u00e7\u00e3o. Na medida da sua livre disponibilidade, os pensamentos e os afectos, a mentalidade e o comportamento do homem v\u00e3o sendo pouco a pouco purificados e transformados, ao longo de um itiner\u00e1rio jamais completamente terminado nesta vida. A \u00abf\u00e9, que actua pelo amor\u00bb (Gl 5, 6), torna-se um novo crit\u00e9rio de entendimento e de ac\u00e7\u00e3o, que muda toda a vida do homem (cf. Rm 12, 2; Cl 3, 9-10; Ef 4, 20-29; 2 Cor 5, 17).<\/span><\/p>\n<p><strong>7<\/strong>. \u00abCaritas Christi urget nos \u2013 o amor de Cristo nos impele\u00bb (2 Cor 5, 14): \u00e9 o amor de Cristo que enche os nossos cora\u00e7\u00f5es e nos impele a evangelizar. Hoje, como outrora, Ele envia-nos pelas estradas do mundo para proclamar o seu Evangelho a todos os povos da terra (cf. Mt 28, 19). Com o seu amor, Jesus Cristo atrai a Si os homens de cada gera\u00e7\u00e3o: em todo o tempo, Ele convoca a Igreja confiando-lhe o an\u00fancio do Evangelho, com um mandato que \u00e9 sempre novo. Por isso, tamb\u00e9m hoje \u00e9 necess\u00e1rio um empenho eclesial mais convicto a favor duma nova evangeliza\u00e7\u00e3o, para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a f\u00e9. Na descoberta di\u00e1ria do seu amor, ganha for\u00e7a e vigor o compromisso mission\u00e1rio dos crentes, que jamais pode faltar. Com efeito, a f\u00e9 cresce quando \u00e9 vivida como experi\u00eancia de um amor recebido e \u00e9 comunicada como experi\u00eancia de gra\u00e7a e de alegria. A f\u00e9 torna-nos fecundos, porque alarga o cora\u00e7\u00e3o com a esperan\u00e7a e permite oferecer um testemunho que \u00e9 capaz de gerar: de facto, abre o cora\u00e7\u00e3o e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor a aderir \u00e0 sua Palavra a fim de se tornarem seus disc\u00edpulos. Os crentes \u2013 atesta Santo Agostinho \u2013 \u00abfortificam-se acreditando\u00bb.12 O Santo Bispo de Hipona tinha boas raz\u00f5es para falar assim. Como sabemos, a sua vida foi uma busca cont\u00ednua da beleza da f\u00e9 enquanto o seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o encontrou descanso em Deus.13 Os seus numerosos escritos, onde se explica a import\u00e2ncia de crer e a verdade da f\u00e9, permaneceram at\u00e9 aos nossos dias como um patrim\u00f3nio de riqueza incompar\u00e1vel e consentem ainda que tantas pessoas \u00e0 procura de Deus encontrem o justo percurso para chegar \u00e0 \u00abporta da f\u00e9\u00bb.<\/span><\/p>\n<p>Por conseguinte, s\u00f3 acreditando \u00e9 que a f\u00e9 cresce e se revigora; n\u00e3o h\u00e1 outra possibilidade de adquirir certeza sobre a pr\u00f3pria vida, sen\u00e3o abandonar-se progressivamente nas m\u00e3os de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus.<\/span><\/p>\n<p><strong>8<\/strong>. Nesta feliz ocorr\u00eancia, pretendo convidar os Irm\u00e3os Bispos de todo o mundo para que se unam ao Sucessor de Pedro, no tempo de gra\u00e7a espiritual que o Senhor nos oferece, a fim de comemorar o dom precioso da f\u00e9. Queremos celebrar este Ano de forma digna e fecunda. Dever\u00e1 intensificar-se a reflex\u00e3o sobre a f\u00e9, para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais consciente e revigorarem a sua ades\u00e3o ao Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudan\u00e7a como este que a humanidade est\u00e1 a viver. Teremos oportunidade de confessar a f\u00e9 no Senhor Ressuscitado nas nossas catedrais e nas igrejas do mundo inteiro, nas nossas casas e no meio das nossas fam\u00edlias, para que cada um sinta fortemente a exig\u00eancia de conhecer melhor e de transmitir \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras a f\u00e9 de sempre. Neste Ano, tanto as comunidades religiosas como as comunidades paroquiais e todas as realidades eclesiais, antigas e novas, encontrar\u00e3o forma de fazer publicamente profiss\u00e3o do Credo.<\/span><\/p>\n<p><strong>9<\/strong>. Desejamos que este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a f\u00e9 plenamente e com renovada convic\u00e7\u00e3o, com confian\u00e7a e esperan\u00e7a. Ser\u00e1 uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia tamb\u00e9m para intensificar a celebra\u00e7\u00e3o da f\u00e9 na liturgia, particularmente na Eucaristia, que \u00e9 \u00aba meta para a qual se encaminha a ac\u00e7\u00e3o da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua for\u00e7a\u00bb.14 Simultaneamente esperamos que o testemunho de vida dos crentes cres\u00e7a na sua credibilidade. Descobrir novamente os conte\u00fados da f\u00e9 professada, celebrada, vivida e rezada15 e reflectir sobre o pr\u00f3prio acto com que se cr\u00ea, \u00e9 um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano.<\/span><\/p>\n<p>N\u00e3o foi sem raz\u00e3o que, nos primeiros s\u00e9culos, os crist\u00e3os eram obrigados a aprender de mem\u00f3ria o Credo. \u00c9 que este servia-lhes de ora\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, para n\u00e3o esquecerem o compromisso assumido com o Baptismo. Recorda-o, com palavras densas de significado, Santo Agostinho quando afirma numa homilia sobre a redditio symboli (a entrega do Credo): \u00abO s\u00edmbolo do santo mist\u00e9rio, que recebestes todos juntos e que hoje proferistes um a um, re\u00fane as palavras sobre as quais est\u00e1 edificada com solidez a f\u00e9 da Igreja, nossa M\u00e3e, apoiada no alicerce seguro que \u00e9 Cristo Senhor. E v\u00f3s recebeste-lo e proferiste-lo, mas deveis t\u00ea-lo sempre presente na mente e no cora\u00e7\u00e3o, deveis repeti-lo nos vossos leitos, pensar nele nas pra\u00e7as e n\u00e3o o esquecer durante as refei\u00e7\u00f5es; e, mesmo quando o corpo dorme, o vosso cora\u00e7\u00e3o continue de vig\u00edlia por ele\u00bb.16<\/span><\/p>\n<p><strong>10<\/strong>. Queria agora delinear um percurso que ajude a compreender de maneira mais profunda os conte\u00fados da f\u00e9 e, juntamente com eles, tamb\u00e9m o acto pelo qual decidimos, com plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus. De facto, existe uma unidade profunda entre o acto com que se cr\u00ea e os conte\u00fados a que damos o nosso assentimento. O ap\u00f3stolo Paulo permite entrar dentro desta realidade quando escreve: \u00abAcredita-se com o cora\u00e7\u00e3o e, com a boca, faz-se a profiss\u00e3o de f\u00e9\u00bb (Rm 10, 10). O cora\u00e7\u00e3o indica que o primeiro acto, pelo qual se chega \u00e0 f\u00e9, \u00e9 dom de Deus e ac\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a que age e transforma a pessoa at\u00e9 ao mais \u00edntimo dela mesma.<\/span><\/p>\n<p>A este respeito \u00e9 muito eloquente o exemplo de L\u00eddia. Narra S\u00e3o Lucas que o ap\u00f3stolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num s\u00e1bado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava L\u00eddia. \u00abO Senhor abriu-lhe o cora\u00e7\u00e3o para aderir ao que Paulo dizia\u00bb (Act 16, 14). O sentido contido na express\u00e3o \u00e9 importante. S\u00e3o Lucas ensina que o conhecimento dos conte\u00fados que se deve acreditar n\u00e3o \u00e9 suficiente, se depois o cora\u00e7\u00e3o \u2013 aut\u00eantico sacr\u00e1rio da pessoa \u2013 n\u00e3o for aberto pela gra\u00e7a, que consente ter olhos para ver em profundidade e compreender que o que foi anunciado \u00e9 a Palavra de Deus.<\/span><\/p>\n<p>Por sua vez, o professar com a boca indica que a f\u00e9 implica um testemunho e um compromisso p\u00fablicos. O crist\u00e3o n\u00e3o pode jamais pensar que o crer seja um facto privado. A f\u00e9 \u00e9 decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este \u00abestar com Ele\u00bb introduz na compreens\u00e3o das raz\u00f5es pelas quais se acredita. A f\u00e9, precisamente porque \u00e9 um acto da liberdade, exige tamb\u00e9m assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita. No dia de Pentecostes, a Igreja manifesta, com toda a clareza, esta dimens\u00e3o p\u00fablica do crer e do anunciar sem temor a pr\u00f3pria f\u00e9 a toda a gente. \u00c9 o dom do Esp\u00edrito Santo que prepara para a miss\u00e3o e fortalece o nosso testemunho, tornando-o franco e corajoso.<\/span><\/p>\n<p>A pr\u00f3pria profiss\u00e3o da f\u00e9 \u00e9 um acto simultaneamente pessoal e comunit\u00e1rio. De facto, o primeiro sujeito da f\u00e9 \u00e9 a Igreja. \u00c9 na f\u00e9 da comunidade crist\u00e3 que cada um recebe o Baptismo, sinal eficaz da entrada no povo dos crentes para obter a salva\u00e7\u00e3o. Como atesta o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, \u00ab&#8221;Eu creio&#8221;: \u00e9 a f\u00e9 da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, principalmente por ocasi\u00e3o do Baptismo. &#8220;N\u00f3s cremos&#8221;: \u00e9 a f\u00e9 da Igreja, confessada pelos bispos reunidos em Conc\u00edlio ou, de modo mais geral, pela assembleia lit\u00fargica dos crentes. &#8220;Eu creio&#8221;: \u00e9 tamb\u00e9m a Igreja, nossa M\u00e3e, que responde a Deus pela sua f\u00e9 e nos ensina a dizer: &#8220;Eu creio&#8221;, &#8220;N\u00f3s cremos&#8221;\u00bb.17<\/span><\/p>\n<p>Como se pode notar, o conhecimento dos conte\u00fados de f\u00e9 \u00e9 essencial para se dar o pr\u00f3prio assentimento, isto \u00e9, para aderir plenamente com a intelig\u00eancia e a vontade a quanto \u00e9 proposto pela Igreja. O conhecimento da f\u00e9 introduz na totalidade do mist\u00e9rio salv\u00edfico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mist\u00e9rio da f\u00e9, porque o garante da sua verdade \u00e9 o pr\u00f3prio Deus, que Se revela e permite conhecer o seu mist\u00e9rio de amor.18<\/span><\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o podemos esquecer que, no nosso contexto cultural, h\u00e1 muitas pessoas que, embora n\u00e3o reconhecendo em si mesmas o dom da f\u00e9, todavia vivem uma busca sincera do sentido \u00faltimo e da verdade definitiva acerca da sua exist\u00eancia e do mundo. Esta busca \u00e9 um verdadeiro \u00abpre\u00e2mbulo\u00bb da f\u00e9, porque move as pessoas pela estrada que conduz ao mist\u00e9rio de Deus. De facto, a pr\u00f3pria raz\u00e3o do homem traz inscrita em si mesma a exig\u00eancia \u00abdaquilo que vale e permanece sempre\u00bb.19 Esta exig\u00eancia constitui um convite permanente, inscrito indelevelmente no cora\u00e7\u00e3o humano, para caminhar ao encontro d&#8217;Aquele que n\u00e3o ter\u00edamos procurado se Ele mesmo n\u00e3o tivesse j\u00e1 vindo ao nosso encontro.20 \u00c9 precisamente a este encontro que nos convida e abre plenamente a f\u00e9.<\/span><\/p>\n<p><strong>11<\/strong>. Para chegar a um conhecimento sistem\u00e1tico da f\u00e9, todos podem encontrar um subs\u00eddio precioso e indispens\u00e1vel no Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica. Este constitui um dos frutos mais importantes do Conc\u00edlio Vaticano II. Na Constitui\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Fidei depositum \u2013 n\u00e3o sem raz\u00e3o assinada na passagem do trig\u00e9simo anivers\u00e1rio da abertura do Conc\u00edlio Vaticano II \u2013 o Beato Jo\u00e3o Paulo II escrevia: \u00abEste catecismo dar\u00e1 um contributo muito importante \u00e0 obra de renova\u00e7\u00e3o de toda a vida eclesial [&#8230;]. Declaro-o norma segura para o ensino da f\u00e9 e, por isso, instrumento v\u00e1lido e leg\u00edtimo ao servi\u00e7o da comunh\u00e3o eclesial\u00bb.21<\/span><\/p>\n<p>\u00c9 precisamente nesta linha que o Ano da F\u00e9 dever\u00e1 exprimir um esfor\u00e7o generalizado em prol da redescoberta e do estudo dos conte\u00fados fundamentais da f\u00e9, que t\u00eam no Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica a sua s\u00edntese sistem\u00e1tica e org\u00e2nica. Nele, de facto, sobressai a riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os seus dois mil anos de hist\u00f3ria. Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja, desde os Mestres de teologia aos Santos que atravessaram os s\u00e9culos, o Catecismo oferece uma mem\u00f3ria permanente dos in\u00fameros modos em que a Igreja meditou sobre a f\u00e9 e progrediu na doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de f\u00e9.<\/span><\/p>\n<p>Na sua pr\u00f3pria estrutura, o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica apresenta o desenvolvimento da f\u00e9 at\u00e9 chegar aos grandes temas da vida di\u00e1ria. Repassando as p\u00e1ginas, descobre-se que o que ali se apresenta n\u00e3o \u00e9 uma teoria, mas o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja. Na verdade, a seguir \u00e0 profiss\u00e3o de f\u00e9, vem a explica\u00e7\u00e3o da vida sacramental, na qual Cristo est\u00e1 presente e operante, continuando a construir a sua Igreja. Sem a liturgia e os sacramentos, a profiss\u00e3o de f\u00e9 n\u00e3o seria eficaz, porque faltaria a gra\u00e7a que sustenta o testemunho dos crist\u00e3os. Na mesma linha, a doutrina do Catecismo sobre a vida moral adquire todo o seu significado, se for colocada em rela\u00e7\u00e3o com a f\u00e9, a liturgia e a ora\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><strong>12<\/strong>. Assim, no Ano em quest\u00e3o, o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica poder\u00e1 ser um verdadeiro instrumento de apoio da f\u00e9, sobretudo para quantos t\u00eam a peito a forma\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os, t\u00e3o determinante no nosso contexto cultural. Com tal finalidade, convidei a Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 a redigir, de comum acordo com os competentes Organismos da Santa S\u00e9, uma Nota, atrav\u00e9s da qual se ofere\u00e7am \u00e0 Igreja e aos crentes algumas indica\u00e7\u00f5es para viver, nos moldes mais eficazes e apropriados, este Ano da F\u00e9 ao servi\u00e7o do crer e do evangelizar.<\/span><\/p>\n<p>De facto, em nossos dias mais do que no passado, a f\u00e9 v\u00ea-se sujeita a uma s\u00e9rie de interrogativos, que prov\u00eam duma diversa mentalidade que, hoje de uma forma particular, reduz o \u00e2mbito das certezas racionais ao das conquistas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas. Mas, a Igreja nunca teve medo de mostrar que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver qualquer conflito entre f\u00e9 e ci\u00eancia aut\u00eantica, porque ambas, embora por caminhos diferentes, tendem para a verdade.22<\/span><\/p>\n<p><strong>13<\/strong>. Ser\u00e1 decisivo repassar, durante este Ano, a hist\u00f3ria da nossa f\u00e9, que faz ver o mist\u00e9rio insond\u00e1vel da santidade entrela\u00e7ada com o pecado. Enquanto a primeira p\u00f5e em evid\u00eancia a grande contribui\u00e7\u00e3o que homens e mulheres prestaram para o crescimento e o progresso da comunidade com o testemunho da sua vida, o segundo deve provocar em todos uma sincera e cont\u00ednua obra de convers\u00e3o para experimentar a miseric\u00f3rdia do Pai, que vem ao encontro de todos.<\/span><\/p>\n<p>Ao longo deste tempo, manteremos o olhar fixo sobre Jesus Cristo, \u00abautor e consumador da f\u00e9\u00bb (Heb 12, 2): n&#8217;Ele encontra plena realiza\u00e7\u00e3o toda a \u00e2nsia e an\u00e9lito do cora\u00e7\u00e3o humano. A alegria do amor, a resposta ao drama da tribula\u00e7\u00e3o e do sofrimento, a for\u00e7a do perd\u00e3o face \u00e0 ofensa recebida e a vit\u00f3ria da vida sobre o vazio da morte, tudo isto encontra plena realiza\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio da sua Encarna\u00e7\u00e3o, do seu fazer-Se homem, do partilhar connosco a fragilidade humana para a transformar com a for\u00e7a da sua ressurrei\u00e7\u00e3o. N&#8217;Ele, morto e ressuscitado para a nossa salva\u00e7\u00e3o, encontram plena luz os exemplos de f\u00e9 que marcaram estes dois mil anos da nossa hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>Pela f\u00e9, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no an\u00fancio de que seria M\u00e3e de Deus na obedi\u00eancia da sua dedica\u00e7\u00e3o (cf. Lc 1, 38). Ao visitar Isabel, elevou o seu c\u00e2ntico de louvor ao Alt\u00edssimo pelas maravilhas que realizava em quantos a Ele se confiavam (cf. Lc 1, 46-55). Com alegria e trepida\u00e7\u00e3o, deu \u00e0 luz o seu Filho unig\u00e9nito, mantendo intacta a sua virgindade (cf. Lc 2, 6-7). Confiando em Jos\u00e9, seu Esposo, levou Jesus para o Egipto a fim de O salvar da persegui\u00e7\u00e3o de Herodes (cf. Mt 2, 13-15). Com a mesma f\u00e9, seguiu o Senhor na sua prega\u00e7\u00e3o e permaneceu a seu lado mesmo no G\u00f3lgota (cf. Jo 19, 25-27). Com f\u00e9, Maria saboreou os frutos da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus e, conservando no cora\u00e7\u00e3o a mem\u00f3ria de tudo (cf. Lc 2, 19.51), transmitiu-a aos Doze reunidos com Ela no Cen\u00e1culo para receberem o Esp\u00edrito Santo (cf. Act 1, 14; 2, 1-4).<\/span><\/p>\n<p>Pela f\u00e9, os Ap\u00f3stolos deixaram tudo para seguir o Mestre (cf. Mc 10, 28). Acreditaram nas palavras com que Ele anunciava o Reino de Deus presente e realizado na sua Pessoa (cf. Lc 11, 20). Viveram em comunh\u00e3o de vida com Jesus, que os instru\u00eda com a sua doutrina, deixando-lhes uma nova regra de vida pela qual haveriam de ser reconhecidos como seus disc\u00edpulos depois da morte d&#8217;Ele (cf. Jo 13, 34-35). Pela f\u00e9, foram pelo mundo inteiro, obedecendo ao mandato de levar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16, 15) e, sem temor algum, anunciaram a todos a alegria da ressurrei\u00e7\u00e3o, de que foram fi\u00e9is testemunhas.<\/span><\/p>\n<p>Pela f\u00e9, os disc\u00edpulos formaram a primeira comunidade reunida \u00e0 volta do ensino dos Ap\u00f3stolos, na ora\u00e7\u00e3o, na celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia, pondo em comum aquilo que possu\u00edam para acudir \u00e0s necessidades dos irm\u00e3os (cf. Act 2, 42-47).<\/span><\/p>\n<p>Pela f\u00e9, os m\u00e1rtires deram a sua vida para testemunhar a verdade do Evangelho que os transformara, tornando-os capazes de chegar at\u00e9 ao dom maior do amor com o perd\u00e3o dos seus pr\u00f3prios perseguidores.<\/span><\/p>\n<p>Pela f\u00e9, homens e mulheres consagraram a sua vida a Cristo, deixando tudo para viver em simplicidade evang\u00e9lica a obedi\u00eancia, a pobreza e a castidade, sinais concretos de quem aguarda o Senhor, que n\u00e3o tarda a vir. Pela f\u00e9, muitos crist\u00e3os se fizeram promotores de uma ac\u00e7\u00e3o em prol da justi\u00e7a, para tornar palp\u00e1vel a palavra do Senhor, que veio anunciar a liberta\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o e um ano de gra\u00e7a para todos (cf. Lc 4, 18-19).<\/span><\/p>\n<p>Pela f\u00e9, no decurso dos s\u00e9culos, homens e mulheres de todas as idades, cujo nome est\u00e1 escrito no Livro da vida (cf. Ap 7, 9; 13, 8), confessaram a beleza de seguir o Senhor Jesus nos lugares onde eram chamados a dar testemunho do seu ser crist\u00e3o: na fam\u00edlia, na profiss\u00e3o, na vida p\u00fablica, no exerc\u00edcio dos carismas e minist\u00e9rios a que foram chamados.<\/span><\/p>\n<p>Pela f\u00e9, vivemos tamb\u00e9m n\u00f3s, reconhecendo o Senhor Jesus vivo e presente na nossa vida e na hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><strong>14<\/strong>. O Ano da F\u00e9 ser\u00e1 uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia tamb\u00e9m para intensificar o testemunho da caridade. Recorda S\u00e3o Paulo: \u00abAgora permanecem estas tr\u00eas coisas: a f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade; mas a maior de todas \u00e9 a caridade\u00bb (1 Cor 13, 13). Com palavras ainda mais incisivas \u2013 que n\u00e3o cessam de empenhar os crist\u00e3os \u2013, afirmava o ap\u00f3stolo Tiago: \u00abDe que aproveita, irm\u00e3os, que algu\u00e9m diga que tem f\u00e9, se n\u00e3o tiver obras de f\u00e9? Acaso essa f\u00e9 poder\u00e1 salv\u00e1-lo? Se um irm\u00e3o ou uma irm\u00e3 estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de v\u00f3s lhes disser: &#8220;Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome&#8221;, mas n\u00e3o lhes dais o que \u00e9 necess\u00e1rio ao corpo, de que lhes aproveitar\u00e1? Assim tamb\u00e9m a f\u00e9: se ela n\u00e3o tiver obras, est\u00e1 completamente morta. Mais ainda! Poder\u00e1 algu\u00e9m alegar sensatamente: &#8220;Tu tens a f\u00e9, e eu tenho as obras; mostra-me ent\u00e3o a tua f\u00e9 sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha f\u00e9&#8221;\u00bb (Tg 2, 14-18).<\/span><\/p>\n<p>A f\u00e9 sem a caridade n\u00e3o d\u00e1 fruto, e a caridade sem a f\u00e9 seria um sentimento constantemente \u00e0 merc\u00ea da d\u00favida. F\u00e9 e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente \u00e0 outra realizar o seu caminho. De facto, n\u00e3o poucos crist\u00e3os dedicam amorosamente a sua vida a quem vive sozinho, marginalizado ou exclu\u00eddo, considerando-o como o primeiro a quem atender e o mais importante a socorrer, porque \u00e9 precisamente nele que se espelha o pr\u00f3prio rosto de Cristo. Em virtude da f\u00e9, podemos reconhecer naqueles que pedem o nosso amor o rosto do Senhor ressuscitado. \u00abSempre que fizestes isto a um dos meus irm\u00e3os mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes\u00bb (Mt 25, 40): estas palavras de Jesus s\u00e3o uma advert\u00eancia que n\u00e3o se deve esquecer e um convite perene a devolvermos aquele amor com que Ele cuida de n\u00f3s. \u00c9 a f\u00e9 que permite reconhecer Cristo, e \u00e9 o seu pr\u00f3prio amor que impele a socorr\u00ea-Lo sempre que Se faz pr\u00f3ximo nosso no caminho da vida. Sustentados pela f\u00e9, olhamos com esperan\u00e7a o nosso servi\u00e7o no mundo, aguardando \u00abnovos c\u00e9us e uma nova terra, onde habite a justi\u00e7a\u00bb (2 Ped 3, 13; cf. Ap 21, 1).<\/span><\/p>\n<p><strong>15<\/strong>. J\u00e1 no termo da sua vida, o ap\u00f3stolo Paulo pede ao disc\u00edpulo Tim\u00f3teo que \u00abprocure a f\u00e9\u00bb (cf. 2 Tm 2, 22) com a mesma const\u00e2ncia de quando era novo (cf. 2 Tm 3, 15). Sintamos este convite dirigido a cada um de n\u00f3s, para que ningu\u00e9m se torne indolente na f\u00e9. Esta \u00e9 companheira de vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por n\u00f3s. Sol\u00edcita a identificar os sinais dos tempos no hoje da hist\u00f3ria, a f\u00e9 obriga cada um de n\u00f3s a tornar-se sinal vivo da presen\u00e7a do Ressuscitado no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade \u00e9 o testemunho cred\u00edvel de quantos, iluminados na mente e no cora\u00e7\u00e3o pela Palavra do Senhor, s\u00e3o capazes de abrir o cora\u00e7\u00e3o e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que n\u00e3o tem fim.<\/span><\/p>\n<p>Que \u00aba Palavra do Senhor avance e seja glorificada\u00bb (2 Ts 3, 1)! Possa este Ano da F\u00e9 tornar cada vez mais firme a rela\u00e7\u00e3o com Cristo Senhor, dado que s\u00f3 n&#8217;Ele temos a certeza para olhar o futuro e a garantia dum amor aut\u00eantico e duradouro. As seguintes palavras do ap\u00f3stolo Pedro lan\u00e7am um \u00faltimo jorro de luz sobre a f\u00e9: \u00ab\u00c9 por isso que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas prova\u00e7\u00f5es; deste modo, a qualidade genu\u00edna da vossa f\u00e9 \u2013 muito mais preciosa do que o ouro perec\u00edvel, por certo tamb\u00e9m provado pelo fogo \u2013 ser\u00e1 achada digna de louvor, de gl\u00f3ria e de honra, na altura da manifesta\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo. Sem O terdes visto, v\u00f3s O amais; sem O ver ainda, credes n&#8217;Ele e vos alegrais com uma alegria indescrit\u00edvel e irradiante, alcan\u00e7ando assim a meta da vossa f\u00e9: a salva\u00e7\u00e3o das almas\u00bb (1 Ped 1, 6-9). A vida dos crist\u00e3os conhece a experi\u00eancia da alegria e a do sofrimento. Quantos Santos viveram na solid\u00e3o! Quantos crentes, mesmo em nossos dias, provados pelo sil\u00eancio de Deus, cuja voz consoladora queriam ouvir! As provas da vida, ao mesmo tempo que permitem compreender o mist\u00e9rio da Cruz e participar nos sofrimentos de Cristo (cf. Cl 1, 24) , s\u00e3o prel\u00fadio da alegria e da esperan\u00e7a a que a f\u00e9 conduz: \u00abQuando sou fraco, ent\u00e3o \u00e9 que sou forte\u00bb (2 Cor 12, 10). Com firme certeza, acreditamos que o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte. Com esta confian\u00e7a segura, confiamo-nos a Ele: Ele, presente no meio de n\u00f3s, vence o poder do maligno (cf. Lc 11, 20); e a Igreja, comunidade vis\u00edvel da sua miseric\u00f3rdia, permanece n&#8217;Ele como sinal da reconcilia\u00e7\u00e3o definitiva com o Pai.<\/span><\/p>\n<p>\u00c0 M\u00e3e de Deus, proclamada \u00abfeliz porque acreditou\u00bb (cf. Lc 1, 45), confiamos este tempo de gra\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p>Dado em Roma, junto de S\u00e3o Pedro, no dia 11 de Outubro do ano 2011, s\u00e9timo de Pontificado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">BENEDICTUS PP. XVI<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<p>[1] Homilia no in\u00edcio do minist\u00e9rio petrino do Bispo de Roma (24 de Abril de 2005): AAS 97 (2005), 710.<\/p>\n<p>[2] Cf. Bento XVI, Homilia da Santa Missa no Terreiro do Pa\u00e7o (Lisboa \u2013 11 de Maio de 2010): L&#8217;Osservatore Romano (ed. port. de 15\/V\/2010), 3.<\/p>\n<p>[3] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 113-118.<\/p>\n<p>[4] Cf. Rela\u00e7\u00e3o final do S\u00ednodo Extraordin\u00e1rio dos Bispos (7 de Dezembro de 1985), II, B, a, 4: L&#8217;Osservatore Romano (ed. port. de 22\/XII\/1985), 650.<\/p>\n<p>[5] Paulo VI, Exort. ap. Petrum et Paulum Apostolos, no XIX centen\u00e1rio do mart\u00edrio dos Ap\u00f3stolos S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo (22 de Fevereiro de 1967): AAS 59 (1967), 196.<\/p>\n<p>[6] Ibid.: o.c., 198.<\/p>\n<p>[7] Paulo VI, Profiss\u00e3o Solene de F\u00e9, Homilia durante a Concelebra\u00e7\u00e3o por ocasi\u00e3o do XIX centen\u00e1rio do mart\u00edrio dos Ap\u00f3stolos S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, no encerramento do \u00abAno da F\u00e9\u00bb (30 de Junho de 1968): AAS 60 (1968), 433-445.<\/p>\n<p>[8] Paulo VI, Audi\u00eancia Geral (14 de Junho de 1967): Insegnamenti, V (1967), 801.<\/p>\n<p>[9] Jo\u00e3o Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 57: AAS 93 (2001), 308.<\/p>\n<p>[10] Discurso \u00e0 C\u00faria Romana (22 de Dezembro de 2005): AAS 98 (2006), 52.<\/p>\n<p>[11] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 8.<\/p>\n<p>[12] De utilitate credendi, 1, 2.<\/p>\n<p>[13] Cf. Confiss\u00f5es, 1, 1.<\/p>\n<p>[14] Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 10.<\/p>\n<p>[15] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 116.<\/p>\n<p>[16] Santo Agostinho, Sermo 215, 1.<\/p>\n<p>[17] Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 167.<\/p>\n<p>[18] Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a f\u00e9 cat\u00f3lica Dei Filius, cap. III: DS 3008-3009; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revela\u00e7\u00e3o divina Dei Verbum, 5.<\/p>\n<p>[19] Bento XVI, Discurso no \u00abColl\u00e8ge des Bernardins\u00bb (Paris, 12 de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 722.<\/p>\n<p>[20] Cf. Santo Agostinho, Confiss\u00f5es, 13, 1.<\/p>\n<p>[21] Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 115 e 117.<\/p>\n<p>[22] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 34.106: AAS 91 (1999), 31-32.86-87.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta Apost\u00f3lica Porta Fidei, com a qual se proclama o ANO DA F\u00c9 1. A PORTA DA F\u00c9 (cf. 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