O Belo é promotor de vida

belezaO encontro com o Belo é sempre uma experiência singular e exemplar.

Singular porque vivida na primeira pessoa, numa relação pessoal, concreta, tangível mesmo. A atribuição da beleza não surge por decreto ou imposição exterior/anterior a essa relação. O Belo manifesta-se em liberdade relacional. Por isso, propunha Kant, só pode haver verdadeira experiência estética no desinteresse, ou seja, se não houver desejo de posse, instrumentalização ou utilitarismo a manchar esse encontro. O objecto deve ser deixado livre. O sujeito também só em liberdade o pode reconhecer. O tempo da beleza é o tempo liberto.

Acrescentarei, também, que esse encontro é uma experiência exemplar: quando diante de algo exclamamos “isto é belo!”, esse algo é sempre um exemplo da Beleza maior, “sempre antiga, e sempre nova”, como a invocou St. Agostinho, triste por não a ter amado mais cedo. Como reconhecemos ou produzimos algo belo? Qual a lei da Beleza? Da existência dessa lei desconhecida só tocamos os momentos singulares que assim apontamos. Descobrindo “em todas as pobres e pequenas coisas que vivem um dia,/ a eterna Beleza vagueando no seu caminho” (Yeats). A fragilidade do mundo, das obras, das pessoas, reenvia para a força da eterna Beleza. Mas sem a fragilidade, essa beleza não seria reconhecível. Essa frágil beleza é o “mínimo infinito”. Uma tensão essencial. Uma promessa.

Encontrar-se com a Beleza é, então, atravessar o espelho, é não vermos apenas a nossa imagem sempre devolvida no mundo, o nosso mundo, mas experienciar a abertura da novidade – aquela que é sempre antiga e sempre nova. Um corte que não deixa tudo na mesma, que altera a ordem, que obriga a atravessar o fogo. À imagem acomodada dos factos do mundo (sempre o nosso), o Belo vem propor uma inquietude. Não traz apenas a paz – a harmonia –, mas a espada. Interpela. Provoca. Dionísio Areopagita propunha que Kalos, belo em grego, derivava de Kalo: “invocar; chamar por…”. E, para George Steiner, o apelo que na beleza se escuta é: “Muda a tua vida!”. O belo é extático. E só assim se percebe como pode ser promotor e construtor de comunidade: na abertura radical ao Outro que inaugura.

No contexto destas conferências comemorativas dos 40 anos da “Populorum Progressio”, perguntamo-nos: o que traz a beleza à nossa vida e de que serve (palavra ingrata, aqui) para o progresso humano? Que beleza salvará, sustentará, o mundo? Poderemos ainda encontrar nela consolação? A beleza da harmonia ou a da provocação? Do despojamento ou do ornamento excessivo? A beleza da austeridade ou do luxo? Da perfeição ou do imperfeito? A dos rostos pintados por Fra Angélico ou nesses filmados por Pasolini? E que harmonia será ainda possível diante do mal ou da morte? Haverá, de facto, uma relação íntima entre a estética e a ética? Quem se exalta com o esplendor do mundo, tem que, por consequência e rigor, espantar-se com o sofrimento do mundo, como propunha Sophia de Mello Breyner? – e por isso para ela a poesia era uma moral.

Por entre as dúvidas a certeza de que o belo é promotor de vida. Experimentá-lo é sentir o alargamento da existência, do mundo, do horizonte de possibilidades. Como escreveu Joaquim Manuel Magalhães: “A beleza é-me uma oferta de vida à vida.” Por ser assim essencial, é necessário educar a atenção aos seus exemplos. Atender aos sinais.

Paulo Pires do Vale, In Vida Católica, n.º 26

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