Nossa Senhora da Rocha – história e devoção

Rocha22«O pai beijou-o, todo em lágrimas, acedeu a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercessão de Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo frei Jerónimo da Conceição, seu confessor, declarou este milagre – não inferior ao de Carnaxide.»
(Eça de Queiroz, Os Maias, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p.14)

 


Pe. Alexandre Santos


INTRODUÇÃO

A devoção a Nossa Senhora está no mais íntimo da nossa cultura e alma portuguesa, sente‑se quase instintivamente, quer para quem aqui vive quer para quem nos visita. Não é apenas um traço religioso, é um pilar estruturante da própria paisagem cultural portuguesa, um fio contínuo que tece séculos de história, arte e linguagem, festas populares e romarias, e até a forma como o país se compreende a si mesmo.

Ao longo dos séculos, os nossos antepassados manifestaram um fervoroso culto mariano, erguendo templos, santuários e monumentos que hoje se afirmam como referências culturais de inegável valor e importância. Desde o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, que a consagrou Padroeira do Reino, até D. João IV, que a coroou em 1646 Rainha de Portugal1, a Virgem Maria ocupou sempre um lugar singular no coração dos portugueses. Não é, pois, por acaso que, desde os primórdios, Portugal é conhecido como “Terra de Santa Maria”.

Do clero, aos reis e senhores, propagou-se a todo o povo esta devoção que a honrou de múltiplas formas. Os artistas, por sua vez, perpetuaram a sua presença através da literatura, pintura, escultura, arquitetura e de tantas outras expressões artísticas que enriquecem o nosso património cultural. Cada obra, cada imagem, cada canto mariano é um testemunho vivo dessa ligação tão profunda.

Os inúmeros títulos atribuídos à Virgem Maria reflectem o profundo amor, a veneração e a rica imaginação que a alma portuguesa lhe dedica. Cada invocação encerra uma história, uma tradição, uma referência cultural transmitida ao longo de gerações – por vezes entrelaçadas com elementos míticos, lendários ou sobrenaturais – que revelam a forma como o povo português a sente como Mãe, protectora e presença constante ao longo da sua história.

Em tudo isto se revela a profundidade com que a figura de Nossa Senhora se incorpora de forma indelével com a alma portuguesa. Não é apenas memória do passado, mas presença viva que atravessa gerações, inspira gestos, molda tradições e dá sentido a tantos lugares que habitamos. Ao contemplarmos esta herança – mosaico de fé, arte, história e devoção – reconhecemos que a ligação de Portugal a Maria não é meramente circunstancial, mas constitutiva. É parte essencial do que fomos, do que somos e, de algum modo, do que continuaremos a ser enquanto povo que nela encontra protecção, inspiração e esperança.

Ao abordarmos, neste trabalho, a descoberta de uma pequenina imagem da Imaculada Conceição numa gruta funerária do vale do rio Jamor – imagem que viria a ser venerada como Nossa Senhora da Conceição da Rocha – procuramos também oferecer um pequeno contributo para um melhor conhecimento da história e da cultura portuguesas. É verdadeiramente surpreendente que um achado tão modesto tenha despertado tamanha devoção, abrangendo desde as pessoas mais simples ao clero, à nobreza, à Casa Real e até a poetas e escritores de referência.

Valeu a pena investigar. Valeu a pena seguir alguns fios narrativos que, à partida, pareciam insignificantes, mas que nos conduziram a um conhecimento mais apurado sobre a descoberta desta pequena imagem de terracota da nossa padroeira, Nossa Senhora da Conceição.

Numa primeira parte, procurámos aproximar-nos das fontes relativas a esta descoberta e analisar de perto o impacto que este achado teve na população local, bem como nas gentes de Lisboa e seu termo. Recorremos, para isso, ao cronista do reino, Frei Cláudio da Conceição, testemunha ocular do intenso movimento de peregrinos ao vale do Jamor. Outra fonte que considerámos digna de destaque foi o testemunho de Tomás Ribeiro – apelidado de Tomás da Aparecida – devido aos seus contínuos e insistentes esforços junto dos nossos monarcas para que o Santuário fosse concluído e que a imagem de Nossa Senhora da Conceição regressasse ao seu primitivo local.

Na segunda parte, após apresentarmos o perfil biográfico e literário de Francisco Ventura, procurámos analisar a obra dramática “Auto da Senhora da Rocha”, que o autor nos legou. O texto, inteiramente composto em verso heptassilábico, respeita as nossas tradições mais populares e evoca, em vários momentos, a vivacidade e a frescura do teatro vicentino – tanto pelos apartes e subtis críticas ao poder político e religioso, como pela denúncia de certas atitudes cobardes de homens que se calam quando deveriam afirmar publicamente a sua posição. Em contraste, o autor sublinha a coragem e a determinação de algumas mulheres – Galharda e Isidora – que enfrentam até o próprio poder régio, representado pelo Juiz de Fora ou pelo General Sepúlveda.

Rocha160aÉ ainda curioso que, justamente quando procedíamos ao levantamento de todos os elementos necessários à elaboração deste trabalho, tenhamos feito uma descoberta inesperada: o manuscrito e a primeira redação dactilografada da obra, acompanhados de uma breve introdução do autor, na qual este explica as razões que o levaram a conservar este “borrão”2.

Incluímos, em seguida, um apêndice com várias fotografias do Santuário actual, do seu interior, da imagem da Senhora da Rocha e da gruta onde foi encontrada. A descoberta de algumas estampas antigas, referentes tanto à gruta como à imagem, levou‑nos igualmente a integrá‑las nesse apêndice. A grande variedade de publicações de novenas atesta a profunda devoção popular que o achado desta imagem suscitou, pelo que anexamos alguns frontispícios dessas edições. Por último, incluímos o alvará que elevou o santuário a Capela Real e que concedeu à Irmandade um novo título, atribuído por Sua Alteza Real, El‑Rei D. Carlos, passando esta a denominar‑se Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha.

Acreditamos que valeu a pena esta aventura, na qual procurámos articular a vertente histórica e a literária. Ambas atravessam a nossa mundividência e, no contexto do mestrado que estamos a realizar, coexistem como círculos culturais complementares contribuindo para uma visão mais abrangente da cultura portuguesa.


PREÂMBULO

«Encarregado de escrever, e transmittir á mais remota posteridade os acontecimentos notáveis de Portugal, pela obrigação de Chronista deste Reino, eu não posso deixar de preferir a todos, aquelle que mais tem tocado os nossos corações, aquelle que foi visível aos nossos olhos no meio das mais fataes circumstancias. As misericordias, com que o Ceo acudio a Portugal, pela protecção de Maria, invocada no Título Augusto de Senhora da Conceição da Rocha, descoberta na crise mais arriscada, na crise, em que parecia quasi impossível o remédio a tantos males, e desgraças tantas, deve ser o primeiro facto escripto para perpetuo agradecimento dos Portuguezes, para instrução da posteridade, e para admiração de todos os Séculos, celebrando o dia grande, o dia bemfazejo 31 de Maio com a maior pompa e solemnidade. […] O dia, em que o mesmo Senhor fez raiar a aurora feliz da protecção de Maria para com hum Reino sepultado na profunda escura noite de tantas calamidades, deve ser eterno na memoria dos Portuguezes, e celebrado com os mais pomposos cultos.»3


1. A História da Senhora da Rocha

Tudo começou naquela manhã de Domingo, dia 28 de Maio de 1822, quando um pequeno grupo de adolescentes do vale do Jamor se deparou com um coelho que lhes surgiu no caminho. Tentando alcançá-lo rapidamente perceberam que os seus esforços eram inúteis. A agilidade do animal, que procurava refúgio, levou-os a descobrir uma gruta muito próxima, bem escondida entre silvados e um emaranhado de salgueiros. Ao entrarem, depararam‑se, espantados, com uma vasta lapa funerária. O achado deixou-os tomados de surpresa – e o mais extraordinário ainda estava por acontecer.

O boato sobre a existência de uma gruta desconhecida contendo ossos humanos espalhou‑se rapidamente por toda a região de Linda‑a‑Pastora e Carnaxide. Mas só ao terceiro dia surgiu a grande novidade. Enchendo-se de coragem, os jovens decidiram averiguar a verdade. Uma vez dentro da gruta, acenderam tochas e vislumbraram não apenas algumas ossadas humanas, mas também uma pequenina imagem da Virgem, à qual deram o nome de Nossa Senhora da Conceição da Rocha. Tomás Ribeiro, o grande impulsionador e defensor da continuidade da construção do Santuário para esta imagem, descreve assim o acontecimento:

«No dia 28 de maio de 1822, perseguindo um coelho que alli se escondera, entraram na gruta do Jamor percorrendo de rastos a furna por onde elle entrára, sete rapazes que andavam brincando e chapinhando nas margens e nas ilhotas de Jamor. Os seus nomes são: Nicoláo Francisco, Joaquim Nunes, Joaquim Antonio da Silva, Antonio de Carvalho, Diogo, José da Costa e Simão Rodrigues. Os mais novos tinham 11 annos, 15 os mais velhos. Entrando e recuando apavorados, no que levaram longo tempo, conseguiram emfim chegar onde puderam erguer se e respirar. Sondando e apalpando acharam e tomaram nas mãos ossos humanos como poderam verificar quando voltaram ao rio. As familias que ha muito os esperavam em suas cazas não receberam bem os retardatarios e não crêram mesmo na historia phantastica do descobrimento.
No dia seguinte porém começou de levantar-se e avolumar-se nos differentes logares donde eram naturaes os pastoritos, o boato da existencia d’uma gruta desconhecida, e a apresentação dos ossos e a insistencia dos exploradores foi firmando, se não certezas, desejos de apurar a verdade. No dia 30 bastantes pessoas acompanhando os retardatarios da ante-vespera ao rio, abrindo as franças dos salgueiros acharam uma lura na grande rocha que se afundava no Jamor.
Não ousaram porém aventurar-se, os mais prudentes; mandaram entrar os rapazes com ordem de trazerem outros ossos. Era a prova evidente de que elles disseram a verdade. E desde que a conheceram destinaram para o dia 31 procurar com luz que dentro accenderiam, o que podesse achar-se na gruta onde era certo haver estado gente. No dia 31 foram pois, com tochas, para dentro serem accendidas. Entraram na frente os sete moços, lá d’outros acompanhados, e accesa uma tocha, encontraram a pequenina imagem da Virgem.»4

Frei Cláudio da Conceição, cronista do reino5 e fervoroso apologista da Senhora da Rocha, deslocou‑se também ao local para testemunhar o sucedido. Relata que, na tarde do dia seguinte, a imagem da Senhora desapareceu misteriosamente. O facto gerou grande tumulto e inquietação entre o povo, até que, a 4 de junho, a pequena escultura foi encontrada sobre uma oliveira nas proximidades. Por ordem das autoridades, a imagem foi então recolocada na gruta, iluminada e guardada pelas forças da ordem, seguindo a determinação do Juiz de Fora de Oeiras.

A descoberta desta pequena imagem de barro da Virgem Maria6 espalhou-se rapidamente por todo o vale do Jamor e regiões vizinhas, chegando mesmo aos ouvidos do rei D. João VI. O entusiasmo popular transformou o local, em pouco tempo, num espaço de peregrinação e intensa devoção mariana. Romagens de fiéis – vindos de várias partes da região de Lisboa, da Estremadura e de outras zonas do país – sucederam‑se de forma surpreendentemente rápida. Entre eles contavam‑se bispos, religiosos, nobres da corte, além de gente humilde e abastada.7 Eis como nos relata o referido cronista do reino:

«Este descobrimento he o brilhante Sol da protecção de Maria que vem inundar todo o Reino de Portugal com suas benignas influencias.»8

«Apenas appareceo a Imagem da Senhora da Conceição da Rocha, todos correm a tributar-lhe os seus cultos; a sua vista lhes infunde a maior compunção, olhando para si vendo que nada merecem, olhando para o Reino vendo os males que sofre, os insultos que se fazem á Religião, olhando para Maria, e vendo que ella póde desfazer tantos males, todos se compungem e derramão lágrimas na sua presença.
[…] No interior do seu Templo se offerece á vista o mais formoso, e o mais agradável objecto, vendo innumeravel multidão de fiéis arrebatados de huma intensa, e fervorosa devoção, humildemente prostrados ante o respeitavel, e sagrado Altar, onde se acha collocada a veneranda, e milagrosa Imagem da Senhora da Conceição da Rocha, agradecendo a torrente de graças, e benefícios que liberal, e benignamente lhes dispensa pelas suas preciosas mãos esta sua incomparavel Protectora.»9

A ribeira do Jamor tornou‑se então o centro das atenções, a ponto de o mesmo cronista registar que “a devoção crescia de hora a hora, e o concurso de povo era tão extraordinário que mal se podia transitar pelos caminhos que conduziam à gruta”. Tão intensa foi a afluência a este lugar que até a pobre oliveira onde a imagem da Virgem fora encontrada, após o seu misterioso desaparecimento, acabou reduzida a pequenas relíquias de devoção. Assim relata o cronista:

«O povo foi levando ramos desta oliveira por devoção; acabados estes, entraram pelos troncos, e depois até as mesmas raízes lhe tiraram, de sorte que só por tradição se pode dizer aqui é que estava, a oliveira, onde se achou a Senhora depois de roubada.»10

A autoridade civil, surpreendida pela dimensão do movimento devocional, procurou organizar o espaço e garantir a ordem pública, enquanto o clero local se empenhava em orientar espiritualmente os fiéis. Em pouco tempo, a humilde gruta transformou‑se num centro de fervor religioso, onde se cruzavam camponeses e fidalgos, homens de letras e gente simples, todos atraídos pelo mesmo impulso de fé.

A notícia do prodígio, alimentada pelos relatos populares e pela presença constante de peregrinos, consolidou rapidamente a fama do lugar. Multiplicaram‑se as graças atribuídas à intercessão da Senhora, registadas em ex‑votos, promessas cumpridas e testemunhos que chegavam de várias partes do reino. Relata o cronista:

«Publicada a noticia do descobrimento da Imagem da Senhora Conceição da Rocha, todos correm a ver, e admirar esta maravilha, e todos voltão alegres, e satisfeitos, louvando e glorificando a Maria Santíssima; huma e muitas vezes vão á sua Rocha, levando generosas dadivas, bem como os Pastores tinhão feito no Presépio.»11

O fervor crescente fez nascer, quase como consequência natural, a necessidade de erguer ali um pequeno santuário que pudesse albergar e proteger dignamente a imagem venerada. De imediato se lançaram mãos à obra, transformando aquele recanto num espaço mais acolhedor. Foi construída uma porta com grades de ferro e um portal de pedra de lioz para a entrada da gruta. Levantou‑se, ainda, uma muralha destinada a impedir que as águas do rio Jamor invadissem o local sagrado. Trabalharam nesse projecto trinta e oito operários, empenhados em dar forma ao novo espaço de devoção.

Contudo, a 27 de Julho de 1822, o rei determinou, por portaria, que a veneranda imagem fosse retirada da lapa junto ao rio Jamor e trasladada para a Sé Patriarcal, local considerado mais digno para a celebração de um culto público mais solene:

«Manda El-Rei, pelo Secretário de Estado dos Negócios da Justiça, participar ao Colégio Patriarcal da Santa Igreja de Lisboa, que sendo-lhe presente a sua Carta, datada em 16 do corrente mês, e que acompanhava a informação a que mandou proceder pelo Desembargador que serve de Provisor, e Vigário Geral do Patriarcado, acêrca de uma Imagem de Nossa Senhora em uma lapa junto ao rio Jamor, nos limites de S. Romão de Carnaxide: E, atendendo Sua Majestade a que o lugar onde foi achada a dita Imagem não é próprio para ela continuar a existir e muito menos para se lhe dar culto público, e tão solene: Há por bem, conformando-se com o parecer do referido Vigário Geral ordenar que o Colégio Patriarcal logo, e sem perda alguma de tempo faça recolher aquela Imagem à Basílica de Santa Maria Maior, onde depois de benta poderá ser venerada, nomeando o mesmo Colégio uma administração para tratar das oblações, e esmolas, se as houver, as quais serão empregadas em objectos pios, e pondo em prática as mais providências que também o mencionado Desembargador e o Colégio julgar conveniente: Manda outrossim Sua Majestade declarar-lhe que na data desta se expede ordem ao Intendente Geral da Polícia, e ao Juiz de Fora, da Vila de Oeiras, para que prestem todo o auxílio que lhe for requerido, afim que a sobredita Imagem seja transportada com aquela decência, e respeito que lhe são devidos, e a que de nenhum modo se deve faltar.
Palácio de Queluz, 27 de Julho de 1822.
José da Silva Carvalho»12

A decisão régia provocou grande comoção entre os devotos, que viam na gruta do Jamor o lugar natural da Senhora. Ainda assim, a ordem foi cumprida. E ao amanhecer do dia 5 de Agosto de 1822, festa de Nossa Senhora das Neves, a imagem da Senhora seguiu, sem tumulto, em cortejo solene para a Catedral de Lisboa, acompanhada por clero, autoridades e numerosos fiéis que, entre cânticos e lágrimas, testemunhavam a força da devoção que ali nascera. Diz-nos, a este propósito, o cronista Frei Cláudio da Conceição:

«Depois do descobrimento da Imagem da Senhora da Conceição da Rocha, querendo a impiedade diminuir-lhe, ou, para melhor dizer, extinguir-lhe o seu culto, se persuadirão que, mudando de aposento, cessaria a devoção. He trazida por tanto esta Imagem para a Igreja da Sé de Lisboa. […] Ao entrar na Capital, no meio do triunfo mais glorioso, he recebida com a maior solemnidade por todas as Corporações Religiosas, e mais Clero da Capital.»13

E mais à frente refere, ainda, a este propósito:

«Não foi menor o benefício, que fez áquelle povo no dia em que foi tirada da sua Rocha, e conduzida para a Igreja da Sé de Lisboa, permittindo não haver o tumulto, e desordem que se esperava: e tanto se esperava, que foi preciso usar de precaução de mandar no silencio da noite de 5 de Agosto tropa armada tanto de Cavallaria, como de Infantaria, a que não faltou o próprio General Commandante em Chefe da força armada. Tudo se fez sem as desordens esperadas, e este novo beneficio comprova a protecção da Senhora da Rocha para com o lugar de Carnaxide, que já não he de menor consideração, entre as principaes terras de Portugal, porque alli appareceo a milagrosa Imagem da Senhora da Conceição da Rocha, que veio livrar este Reino do captiveiro dos ímpios, bem como a terra de Belém de Judá o não foi entre as principaes Cidades, por ter sahido della o conductor que havia de commandar o povo de Israel.»14

A imagem da Senhora chega ao Terreiro do Paço pelas nove horas da manhã. Aguardavam-na todas as comunidades das ordens religiosas, as colegiadas, as cruzes de todas as freguesias com os seus párocos e cónegos da Sé. Mas dêmos a palavra a alguém que esteve presente neste momento tão solene:

«Às nove horas da manhã chegou a Senhora ao cais das Colunas. Na grande Praça, do Terreiro do Paço se achavam todas as Comunidades das Ordens Religiosas, e até aquelas mesmas, que não costumam ir na Procissão do Corpo de Deus da Cidade, e Colegiadas, e as Cruzes de todas as Freguesias com os seus respectivos párocos. Na mesma Praça se tinha armado uma grande barraca, forrada toda de sêda, para se paramentarem os Cónegos da Basílica de Santa Maria. Imediatamente se formou a mais vistosa procissão; e apenas a Basílica de Santa Maria chegou ao cais, o Cónego José Bernardo de Azevedo, revestido de Pluvial, acompanhado doutros dois Cónegos paramentados de Dalmática e Tunicela, recebeu a Senhora metida em um Relicário (que para isso se tinha mandado fazer), das mãos do Cura de Oeiras, assistindo a esta entrega o sobredito Vigário Geral, o Corregedor do Crime de Alfama, e as mais Justiças, que todos tinham acompanhado a Senhora, e continuaram a acompanhar até o fim de toda a função. Pegaram nas varas do Pálio oito Beneficiados da Basílica de Santa Maria, e nas lanternas os Cantores. É inexplicavel o concurso do povo, a alegria, e a devoção que se divisava em todos os Portugueses. Foi êste um grande triunfo de Maria em Portugal. […].
Chegando a Senhora à Sé, se colocou no Altar-mor, a ponto que o relójio dava dez horas e meia. Depois de incensada a santa Imagem pelo mesmo Ministro que a levava, se cantou a Ladainha por música. Seguiu-se a Missa, que foi de Nossa Senhora, própria daquele dia, em que pregou o Prior de Alhos Vedros, barcos Pinto Soares Vaz Preto. Acabada a Missa, se cantou o Te Deum laudamus por música, e no fim deu o Cónego celebrante a Senhora a beijar aos Cónegos, e mais Ministros da Basílica, e muitos Sacerdotes, tanto Seculares, como Regulares, que ali se achavam e aos Irmãos do Santíssimo, que tinham assistido, e haviam recebido a Senhora à porta da Igreja com tochas. Finalizada esta religiosa cerimónia veio o mesmo celebrante com os Ministros, e todo o Corpo da Basílica com tochas, e colocaram a Imagem no Altar da Senhora a Grande que lhe estava ricamente preparado. Logo todo o povo concorreu a beijar a Senhora nas mãos dos Sacerdotes, e a oferecer-lhe generosos donativos.»15

É admirável o júbilo e a devoção com que os fiéis da diocese receberam, na Catedral de Lisboa, a imagem da Senhora da Rocha, acolhendo‑a com todas as honras e destinando‑lhe um espaço próprio para culto, onde pudesse ser venerada com a dignidade que o rei considerava adequada.

Mesmo longe da gruta, que primeiro a acolhera, a Senhora da Rocha continuou a unir o Jamor e Lisboa num mesmo fio de devoção, deixando marcas que perdurariam muito para além do seu tempo.

O cronista régio não deixa de sublinhar que a trasladação da imagem para a Sé de Lisboa, embora tenha perturbado profundamente as gentes locais, não diminuiu o apego popular ao lugar da sua descoberta. A gruta, a muralha e o pequeno arranjo arquitetónico construído com tanto esforço continuaram a ser visitados por peregrinos que ali acorriam em busca de recolhimento, memória e gratidão. A história da Senhora da Rocha permanecia viva no Jamor, sustentada pela tradição oral, pelos relatos do cronista e pela fé persistente das populações da região. Por fim, as autoridades acabaram por entulhar o local e tapar a entrada com pedra e cal.

Nem assim esta população se rendeu. Desejando reaver a imagem e preservar a devoção, procurou erguer um santuário a ela consagrado, cujo arquitecto escolhido foi José da Costa Sequeira, sobrinho do pintor Domingos António de Sequeira. Porém, em 1833, por ordem do governo liberal, as obras foram suspensas, e muitas das pedras já talhadas e lavradas para construção do Santuário foram removidas e enviadas para o acabamento do Arco da Rua Augusta.

Apesar de tudo, o local nunca deixou de ser visitado e venerado. Não eram apenas as gentes simples da região que ali se deslocavam. Há testemunhos das “visitas amiudadas” de D. Pedro V, de D. Luís I, de vários nobres da Casa Real e até de D. Miguel – rei particularmente estimado pela população local – que também ali vinha com frequência e que, antes de partir para o exílio, não deixou de se despedir da gruta da Senhora. É curioso o texto de Tomás Ribeiro que a seguir transcrevemos:

«Vinha muita vez á Rocha o Senhor D. Pedro V vêr o sitio onde apparecera a Imagem tanto da devoção da Familia Real. Elle era um triste; procurava certamente aquelle sitio, que n’esse tempo era um cerro inhospito, para esconder as suas magoas. Em baixo visitava a gruta e em cima, o começo do templo onde eram recolhidas cabras e ovelhas. O bom rei pesaroso da irreverencia mandava tapar o recinto com grades ou cancellas de macieira, sempre que vinha fazer a sua visita, pois que o pastor inutilisava logo os regios cuidados. Os seus desejos de fazer que se restituisse a imagem da Senhora não os relatou só a tia Ignez. Uma memoria anonyma que anda impressa diz a flas 13: “EI-Rei D. Pedro V… gostando mais de passear n’aquelles sitios… ainda tentou fazer o acabamento do templo, porém como a traiçoeira morte lhe tirou a vida… tornou a ficar tudo como estava.”
N’aquellas povoações tão lembradas e tão saudosas não havia já esperança de que o templo traçado pelo nosso pintor Sequeira se continuasse, pois que de Lisboa até as pedras já talhadas e lavradas foram mandadas remover sendo aproveitadas algumas no acabamento do Arco da Rua Augusta.»16

E mais à frente o mesmo autor sublinha a presença de outros monarcas:

«De facto toda a velha gente de Carnaxide e suas visinhanças era devotada ao senhor D. Miguel. A proximidade de Queluz, onde as moças mais galantes iam dançar amiudadas vezes na presença do Sr. Infante, a formosura insinuante do Principe, e, naturalmente, a seduccão que exercia sobre aquella mocidade, tinham creado um verdadeiro culto pela sua pessoa.
Um dia que o Senhor D. Luiz I passou pela Rocha, deserta ainda, e se dirigiu por Carnaxide para a Ajuda encontrou, perto da gruta da Senhora, uma velha que o conheceu ou o adivinhou pelos galões dos seus creados. El-Rei, apeiando-se, dirigiu-se a ella e perguntou-lhe se era alli perto a gruta do Jamor.
– “Não vades lá, Senhor Rei, lhe disse a velha, olhos que a vêem tem vontade de chorar; depois que sahiu de Portugal o Senhor D. Miguel perdemos toda a esperança de justiça. Sabemos que V. Magestade é bom; mas elle podia mais e queria-nos muito.”
Convém accrescentar que as obras do templo cessaram de todo em 1833 já por ordem do governo liberal. O Senhor D. Luiz falava muita vez na sinceridade d’esta velha.»17

Lá diz o poeta, que “o sonho comanda a vida”. E é verdade!

A 24 de Agosto de 1883, por decreto régio assinado pelo Ministro da Justiça, Júlio de Vilhena, foi autorizada a trasladação da imagem da Senhora para a Igreja Paroquial de Carnaxide. Ainda hoje causa admiração o modo como tal decisão se concretizou, pois, após sessenta e um anos na Igreja‑mãe de Lisboa, a imagem era tida como um ícone central para milhares de peregrinos que ali acorriam assiduamente – desde o povo simples aos nobres e à própria família real. Na Sé, chegara mesmo a constituir‑se uma irmandade em seu nome. Daí concluirmos que os intensos laços de amizade entre Tomás Ribeiro18 – Conselheiro e Ministro de Estado – e o rei D. Luís I, fundador e juiz dessa primeira irmandade, foram decisivos. Graças aos seus esforços persistentes, a imagem da Senhora pôde finalmente regressar ao seu lugar de origem.

«A trasladação fez-se com pomposa cerimonia no dia 30 de Setembro de 1883. Desembarcou a imagem na Cruz Quebrada, e encaminhou-se processionalmente para Carnaxide. As festas foram esplêndidas. Ao lado da egreja armou-se a tribuna onde assistiu a familia real; levantaram-se columnas; arcos; suavisou-se o caminho que vae ter á gruta que estava forrada de verdura. O arraial durou tres dias e tres noites, durante as quaes brilharam em torno da egreja os focos da luz electrica. A concorrência foi enorme.»19

As obras de construção do Santuário destinado a acolher a Virgem ganharam, assim, novo impulso. E, a 1 de Setembro de 1892, em solene procissão, a imagem da Senhora desceu da Igreja Paroquial de Carnaxide para o seu nobre espaço, agora erguido em Santuário. A festa foi apoteótica, marcada por grande pompa e solenidade.

Contudo, seria apenas a 28 de Maio do ano seguinte, e a convite de Tomás Ribeiro e da Irmandade20, que a Família Real visitaria o novo Santuário, inaugurando oficialmente o templo que, desde então, se tornaria centro vivo da devoção mariana da região.

«A egreja ficou concluida a 28 de maio de 1893, effectuando-se n’este dia uma grande festa como de inauguração, a que assistiu Sua Magestade a Rainha D. Amelia com seus filhos, camaristas e o presidente do conselho de ministros.»21

A partir desse momento, o Santuário da Senhora da Rocha tornou‑se um dos polos espirituais mais marcantes da região. A sua inauguração oficial, com a presença da Família Real, não apenas legitimou o espaço como centro de devoção, mas também reforçou o prestígio que a imagem já possuía desde o século XIX.

O templo, erguido com tanto esforço, fé e persistência, passou a acolher inúmeras peregrinações. As romarias sucediam-se de forma contínua; chegavam Círios de toda a região de Lisboa e seu termo; multiplicavam‑se as celebrações solenes, muitas delas presididas pelo Núncio Apostólico ou por bispos que aqui se deslocavam expressamente. O Santuário transformou‑se, assim, num verdadeiro centro de devoção religiosa, capaz de fazer vibrar os crentes de todo o Patriarcado de Lisboa durante quase um século. É surpreendente o impacto que esta pequena localidade exerceu, durante tanto tempo, na devoção popular das gentes de Lisboa. Ricos e pobres, gente simples e fidalgos, todos aqui vinham para rezar, louvar e suplicar à Senhora, encontrando neste lugar um refúgio espiritual que marcou tão profundamente a religiosidade da região, transformando este lugar num marco espiritual que ultrapassou largamente os limites de Carnaxide ou do vale do Jamor.

«A dois de maio costumam as senhoras de Lisboa pertencentes, a maior parte, á associação de – Filhas de Maria fazer á Rocha uma peregrinação. A dois de maio tem sido, o que não quer dizer que haja dia prefixo para a romaria.
Nada mais attrahente, mais inspirador de solemne devoção.
As Filhas de Maria são senhoras principaes de Lisboa que assim continuaram as tradições do culto á Senhora da Rocha.
Esta devoção começou em 1894. Vinha á sua frente uma filha gentilissima dos Senhores Marquezes de Sabugoza, – a sr.ª D. Anna Mafalda José de Mello.
Em 1896 veiu acompanhar o prestito o Nuncio de Sua Sanctidade, – Monsegnor Domenico Jacobini, Arcebispo de Tyro, elevado, pouco depois, ao cardinalato.» 22

Um outro dado digno de registo foi a criação da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha a 23 de Setembro de 1883, aquando da trasladação da imagem para Carnaxide. Mas, para completa coroação, a 4 de Outubro de 1899, o Santuário é declarado “Capella Real” “isento” e “especial dos Régios Paços” ficando o rei como Juiz Perpétuo desta irmandade, passando esta a denominar-se “Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha”. 23

Com o avançar dos anos, o Santuário foi-se consolidando como lugar de encontro entre a memória e a fé. A imagem da Senhora, agora entronizada no seu novo espaço, continuou a atrair peregrinos que ali procuravam consolo, protecção e gratidão. A devoção, que nascera de forma humilde junto ao Jamor, transformara-se num movimento espiritual de grande amplitude, capaz de atravessar gerações e resistir às mudanças políticas, sociais e culturais do país, tornando este Santuário como um dos mais expressivos centros de devoção mariana do Patriarcado de Lisboa.

Ao longo do século XX, o Santuário conheceu períodos de maior e menor afluência, acompanhando o ritmo da vida religiosa nacional. Contudo, nunca perdeu o seu caráter singular: um espaço onde a história se entrelaça com a tradição, onde o prodígio inicial permanece vivo na memória coletiva e onde a presença da Senhora continua a ser sentida como um elo entre passado e presente.

Hoje, o Santuário da Senhora da Rocha permanece como testemunho de uma devoção que nasceu de um acontecimento simples, mas profundamente marcante. A sua história – feita de fé, resistência, perdas, reconstruções e reencontros – continua a inspirar quem o visita, lembrando que, por vezes, os lugares mais discretos guardam as narrativas mais extraordinárias.

Com o passar dos anos, este lugar foi ganhando novos significados. A devoção transformou‑se em identidade, e a memória dos acontecimentos de 1822 passou a integrar o património espiritual e cultural da comunidade. O rio Jamor, outrora simples curso de água entre campos e olivais, tornara‑se cenário de um dos episódios mais singulares da religiosidade popular da diocese.

Ao concluir este capítulo, desejamos prestar uma justa homenagem ao grande mentor e devoto do Santuário da Senhora da Rocha: Tomás Ribeiro. Ao ler o seu Poemeto‑prólogo ao Mensageiro de Fez, percebe‑se com clareza a força interior, a sensibilidade espiritual e o segredo íntimo que o moveram na luta persistente para devolver à Senhora o seu poiso original.

Não é, pois, de estranhar que, já no final da sua vida, ele tenha sentido a necessidade de compor um poema dedicado e consagrado à Senhora da Rocha – um gesto que revela não apenas devoção, mas também gratidão e ternura. Ele próprio a reconhece como um dos seus “grandes amores”, expressão que sintetiza a profundidade da sua ligação a este lugar e a esta história: “E à Virgem da Rocha, que me ouviu tantas vezes, deixo o canto que posso, e o amor que me ficou.”

Estas linhas – simples, sinceras e luminosas – são o testemunho final de um homem que, mais do que político, escritor ou estadista, foi peregrino. Um peregrino que soube transformar a sua devoção em obra, e a sua obra em legado. Fiquemos, pois, com o eco das suas palavras, onde se pressente a emoção de quem olha para trás e reconhece, na Senhora, a luz que acompanhou o seu caminho:

«A Rocha vive entre os meus grandes amores. Esta devoção que se esconde aqui no fundo d’esta concha florida e esmaltada, na sua ermida singella e cariciosa, com a sua fonte crystalina, a sua gruta mysteriosa, o seu rio murmuro e transparente, o seu jardim que ajudei a cultivar, onde tantas vezes passee, longe do bulício das multidões, conversando com o jardineiro e com as flores, sondando os segredos d’aquelle morto guardado pela imagem da Virgem Mãe, longe d’olhos que me não espreitassem rindo, levo eu no coração. Quero-lhe consagrar este trecho do livro onde porei as minhas ultimas tintas e praza a Deus possa terminal’o.
Á Senhora da Rocha consagro estes versos.
É pouquissimo o que lhe offerto, mas é grande a devoção com que deponho sobre o seu altar a minha offerenda.
Esta devoção é por demais conhecida. Até já me chamaram… por divertimento o Thomaz da Apparecida.
Aproveito o ensejo para agradecer a graça, que não podia acceitar. Em primeiro logar por indigno d’ella; dpois, por não reconhecer, – que m’o perdoem! – auctoridade, nos outhorgantes ou conferentes do titulo. E d’alguns d’elles sou e quero ser amigo.
[…] Sob a presidencia de Fontes Pereira de Melo, o meu saudosissimo amigo, e na companhia de Julio Marques de Vilhena, Ernesto Rodolpho Hintze Ribeiro, João d’Andrade Corvo, José Vicente Barboza de Bocage (ministros) ajudei a cumprir a palavra de Rei dada pelo Senhor D. Pedro V pouco antes de morrer. E foi com devoto ardor que trabalhei no pagamento d’essa dívida sagrada. D’isto faço confissão publica.
[…] Aceite-me a irmandade da Rocha esta oblata. D’um poema que trago entre mãos destaco este excerpto para d’elle dar uma edição especial á Senhora que ajudei a transportar da casa onde se hospedara, – a Sé de Lisboa, – para a sua ermida de Carnaxide.
[…] Há outro nome que não devo aqui deixar esquecido: o do Senhor D. Luiz I. A Elle em grande parte foi devida a restituição da veneranda Imagem, por isso a Irmandade manda celebrar missa por sua alma no dia 19 de Outubro de cada anno, anniversario da sua morte.»24

Este capítulo termina, mas a história da Senhora da Rocha continua. Vive na fé dos que a invocam, na memória dos que a amam e na beleza silenciosa do Santuário que guarda, para sempre, o eco de um povo que acreditou.


2. “Auto da Senhora da Rocha” de Francisco Ventura

 

2.1. Perfil biográfico e literário do Autor25

Francisco Manuel Ventura nasceu no Gavião, a 16 de Fevereiro de 1910, no seio de uma família de pequenos comerciantes, filho de Francisco Manuel Ventura e de Virgínia Costa Ventura. A infância decorreu entre os estudos da instrução primária e o labor quotidiano no estabelecimento paterno, espaço onde cedo aprendeu o valor do trabalho e da disciplina.

Desde muito jovem revelou uma forte paixão pela literatura, nutrindo particular fascínio pelos grandes autores portugueses do século XIX. Aos treze anos compôs a sua primeira peça teatral, gesto precoce que anunciava já a vocação que o acompanharia por toda a vida. Aos dezassete, a poesia era-lhe já território familiar, cultivado com rigor e entusiasmo.

Aos vinte e três anos partiu para Lisboa, levando consigo o sonho de conciliar trabalho e formação. Durante o dia exercia funções num balcão comercial; à noite, prosseguia estudos no Curso Complementar do Comércio, no Ateneu Comercial de Lisboa. Esta dupla exigência não o afastou da criação literária.

Em 1936 concorreu aos primeiros Jogos Florais da Emissora Nacional, sendo distinguido com uma menção honrosa em soneto – reconhecimento que o incentivou a participar em diversos concursos literários, onde viria a obter vários prémios

Colaborou assiduamente com a imprensa, escrevendo para jornais como O Século, Diário Popular e Voz do Mar, bem como para revistas como Sulco e Panorama. Contudo, foi no teatro que encontrou o seu espaço de eleição. Entre as suas obras dramáticas mais representativas destacam‑se Filho Sozinho (1939), Casa de Pais (1945), Auto de Marvão (1950), Auto de S. Torcato (1952), Auto da Justiça (1961), Honra de Todos, Música Fácil, Um Bom Casamento, Auto das Boas Almas, Prova Real, Presente de Aniversário e Auto da Senhora da Rocha (1978).

As suas peças foram representadas em muitas salas do país, com especial destaque para o Teatro Nacional D. Maria II e o Teatro da Trindade. A RTP, reconhecendo o impacto da sua dramaturgia, transmitiu por diversas ocasiões Casa de Pais, levando a sua obra a um público ainda mais vasto.

Além do teatro, publicou dois volumes de poesia – Jornada de Sísifo e O Livro dos Cânticos – e o ensaio Gil Vicente, Poeta de Portugal.

Francisco Manuel Ventura faleceu a 26 de agosto de 1994, vítima de doença prolongada. Deixou uma obra vasta e significativa, que permanece como contributo relevante para a literatura portuguesa do século XX, parte dela ainda inédita e à espera de novas leituras.

2.2. Análise da Obra

O autor deste auto inicia a sua obra com um preâmbulo que, antes de introduzir a acção dramática, procura situar o leitor/espectador no tempo e no imaginário que a sustenta. Evoca, assim, o episódio da descoberta de uma imagem de Nossa Senhora, junto à Ribeira do Jamor, em 28 de maio de 1822 – acontecimento que, segundo a tradição, marcou profundamente Lisboa e o seu termo ao longo de quase um século. É a partir desta memória colectiva, transmitida sobretudo pela oralidade, que o dramaturgo encontra a matéria viva que o inspira e impele à escrita.

Embora o autor não mencione qualquer fonte documental, optando antes por narrar o que a tradição preservou, essa escolha não diminui a força evocativa do relato. Pelo contrário, ao assumir a memória popular como fundamento, aproxima‑se do universo que pretende representar e reforça a autenticidade da sua criação. A veracidade da obra, neste sentido, não reside na erudição das fontes, mas na fidelidade ao espírito comunitário que as gerou.

Apesar de não existir referência explícita à data de publicação, é possível determinar com relativa segurança o período da sua composição. O próprio autor indica, na página final do auto,26 que o texto foi escrito entre os dias 29 de maio e 18 de novembro de 1976. Sabe‑se ainda que, a pedido da Radiodifusão Portuguesa, a peça foi transmitida na Páscoa de 1978, numa versão condensada.27  A datação do Pórtico (maio de 1978) e a do Prólogo (março de 1978) constituem indícios suficientes para situar a publicação nesse mesmo ano.

A estrutura da obra organiza‑se em quatro actos. No primeiro, o autor introduz um Prólogo personificado, figura que assume a função de mediador entre o público e a acção que se seguirá. Esta personagem surge com certa timidez e embaraço, num registo quase meta-teatral, como quem hesita antes de abrir as portas do drama. Progressivamente, porém, cumpre o seu papel: anuncia a iminente chegada do Círio de Vila Nova do Mar ao Santuário da Senhora da Rocha e apresenta as personagens que irão ocupar o palco – Isidora, Manuel Antunes, João Pardal, Anselmo, Rosa, João, Guilhermina, Galharda, o Juiz de Fora, o General Sepúlveda, o Marquês de Fronteira e o Cego – caracterizando‑as de forma breve mas expressiva.

Concluída esta apresentação, o Prólogo anuncia a entrada do extraordinário Círio e abandona a cena com uma nota de humor, rematando: «desta já eu me escapei!» – gesto que reforça o tom simultaneamente popular e teatral que atravessa toda a obra.

Compõem este Círio um coro de rapazes, raparigas e anjinhos, bem como o juiz e a juíza, que transportam a bandeira, entoando cânticos à Virgem. Colocado o estandarte junto à gruta, todos para aí se dirigem, prosseguindo o louvor à Senhora. As vozes elevam-se em súplica, pedindo-lhe “juízo são”, “bondade”, “perdão”, “amor” e “paz”.

Neste momento, surgem em cena duas novas personagens, um homem e uma mulher, que assistem à chegada do Círio. O homem, assumidamente incrédulo, considera tais manifestações incompatíveis com o século XX, classificando-as como “atraso de gente ignara” e sugerindo que a fé pertence ao domínio do passado. Chega mesmo a exclamar: «o vinte e cinco de Abril / e ainda há disto em Portugal!» (p. 29). É então que a mulher intervém e se inicia a narração da história da Senhora da Rocha. Começa por sugerir, de forma subtil, que ali não ocorreram fenómenos semelhantes aos de Fátima. A única “maravilha” teria sido a descoberta de uma imagem da Virgem naquela mesma gruta, em data incerta: «Cem… Duzentos… Não sei bem… / Inda eu não era nascida / nem o era a minha mãe…» (p. 32).

O Coro regressa à cena e precisa o momento da descoberta da Senhora: «Foi em Maio (…) / Mês das flores, mês de Maria» (p. 32). A mulher retoma então a condução da narrativa, relatando os acontecimentos, enquanto o homem, na qualidade de figura antípoda, a interrompe sucessivamente, instaurando um movimento pendular que dinamiza o diálogo. Evocam-se os sete rapazes que brincavam junto ao Jamor; a perseguição a um melro e a um coelho; a descoberta de uma gruta; as duas caveiras e as ossadas humanas aí encontradas; e, por fim, o achado da imagem.

Ao longo deste diálogo, é particularmente interessante a forma como o autor recria o acontecimento, trazendo para o palco não apenas as duas figuras narradoras, mas também as personagens evocadas pela própria narrativa. Para tal, recorre a um segundo tipo de didascálias, com grande cuidado e precisão, conferindo à cena uma dimensão simultaneamente evocativa e visualmente concreta:

(Os rapazes abandonam a gruta e saem apressadamente) (p. 39);
(Vai aparecendo muita gente do povo, que entra e sai da gruta, com manifestações de grande espanto) (p. 40);
(Continua o movimento de gente, num grande alvoroço) (p. 41);…

A opção do autor por narrar a história in media res, recorrendo de forma contínua à analepse, não constitui, em si mesma, um procedimento inovador. Contudo, a maneira como articula essa técnica em pleno palco, fazendo coexistir o diálogo entre duas personagens com a materialização visual dos acontecimentos narrados, revela uma notável sofisticação dramatúrgica. A cena adquire, assim, uma dimensão quase cinematográfica, evocando – inevitavelmente – o modo como Ingmar Bergman, em Morangos Silvestres, faz coexistir memória e presente num mesmo espaço de representação. O efeito é, de facto, magnífico.

Ainda no movimento analéptico, surge em cena uma nova personagem, Isidora, apresentada como «a primeira, nesta terra, / a prestar culto à Senhora» (p. 24). O autor faz recuar o tempo até ao momento da descoberta da imagem e recria-o teatralmente. Isidora exorta os presentes, proclamando que se encontram diante da «Mãe de Jesus Cristo! / É a Mãe de todos nós! / Mesmo longe, sempre perto, / Mesmo muda, sempre vós» (p. 41).

O primeiro acto encerra com uma oração cantada por Isidora, pelo coro e por toda a assembleia, invocando a Senhora como “virgem sagrada”, “rainha”, “bendita”, “luz”, “estrela”, “escudo”, “amparo” (pp. 41-42).

No segundo acto, o autor retoma a mesma estratégia estrutural. O homem e a mulher – que no acto anterior conduziram a narrativa – surgem agora sentados, assistindo aos factos dramatizados. Entra em cena Isidora, acompanhada por dois guardas que vigiam a gruta. Entram em diálogo e rapidamente se dão conta do desaparecimento da imagem:

«Ó desgraça das desgraças! / Como é triste a nossa vida! / Ter a ventura na mão / E, depois, vê-la perdida! / Roubaram Nossa Senhora!» (p. 48).

Segue-se um retorno ao tempo presente, com o homem e a mulher a comentarem o desaparecimento e posterior achado da imagem. O tempo da história volta então a ocupar o centro da cena: surgem Manuel, João Pardal e os dois guardas, interrogando-se sobre o sucedido. Até que, finalmente, se dá o reencontro jubiloso: «Deus do céu!» «A Nossa Senhora estava / Num buraco da oliveira» (p. 58). A alegria do achado contagia todos os presentes. A imagem regressa ao seu lugar na gruta e D. Isidora, trazendo uma lanterna e uma almotolia, ilumina a Senhora com devoção.

Retoma-se novamente o presente, e os dois narradores comentam o fluxo crescente de peregrinos que acorrem à gruta, pedindo graças e oferecendo presentes à Mãe do Céu:

«Por isso, há sempre quem vá, / não dar para receber, / Mas para mostrar todo o amor / Nas almas a florescer.» (p.  66).

Os dois guardas continuam a dialogar, agora interagindo com os visitantes da Senhora. Muitos são os que a visitam. A sua fama já chegou «a toda a parte. / Por Ericeira, Cascais, / Torres Vedras, Lourinhã, / Santarém…» (p. 80). Fala-se da fé e do lugar que Deus deveria ocupar na vida dos homens. E surgem os primeiros milagres: Anselmo é curado da paralisia dos membros inferiores, inaugurando a dimensão prodigiosa que passará a marcar o culto da Senhora.

O terceiro acto inicia com a presença dos dois guardas que vigiam a gruta e com o diálogo que estabelecem com um viajante exausto, “como se viesse de longa jornada”, recém-chegado ao local. Este confirma que a devoção à Senhora cresce incessantemente – «vem gente de todo o mundo. / Um nunca mais acabar.» (p. 88) – e anuncia a notícia que abala todos os presentes: «Vão tirar-vos a Senhora.» (p. 89). Explica que soube do sucedido na Sé de Lisboa, onde testemunhou grande alvoroço e alegria, como se se tratasse de uma herança inesperada ou de um prémio de lotaria. Narra então o essencial:

«Eu tinha ido a Lisboa / Tratar de coisas da vida / E fui ouvir missa à Sé. / Há lá gente conhecida. / Vi tudo em grande alvoroço, / Tudo cheio de alegria, / Como quem tem uma herança / Ou lhe sai a lotaria. / Perguntei e soube então / Que o Cabido lá da Sé / Tanto fez, tanto pediu / e tanto bateu o pé, / Que o Rei, para os não ouvir, / Mandou fazer alvará / Para que a Nossa Senhora / Passe daqui para lá» (p. 92).

A reacção dos peregrinos é imediata: interrogam-se sobre a injustiça da decisão e começam a delinear formas de resistência. É então que se destaca Maria Cintrôa, conhecida como Galharda, descrita como verdadeira “mulher de armas” (p. 25). É ela quem assume a liderança da defesa da Senhora, afirmando com veemência:

«[…] / Que a nossa Senhora / Não sai daqui para fora. / Nem que venha a tropa em peso! / Nem que venha o mundo inteiro! / Para A levarem daqui, / Hão-de matar-me primeiro. Quem quiser fique comigo / Nesta luta que é dever. Se os homens tiverem medo, / Fico eu, que sou mulher.» (p. 94)

Mais adiante, reforça a primazia da lei natural sobre a lei positiva, afirmando: «Quando a ordem é injusta / Não é para se cumprir. / (…) / Toda a força por mais força, / Nunca destrói a razão.» O diálogo entre Galharda e o Viajante é particularmente expressivo: ela encarna a coragem, a fé e a firmeza moral; ele, pelo contrário, revela medo e submissão perante o poder instituído. É o próprio Viajante quem anuncia a chegada iminente do Juiz de Fora e do Prior.

As personagens entram em cena com o propósito de levar a imagem da Senhora, mas são recebidas com forte oposição pelos peregrinos. Incapazes de cumprir a ordem real, o Juiz de Fora e o Prior acabam por fugir sob uma chuva de pedras lançadas pelo povo.

A população, mobilizada pela voz imperiosa de Galharda, empunha as poucas alfaias agrícolas de que dispõe – foices, roçadouras, gadanhas e varapaus – e proclama:

«Com as armas que tivermos / Mostremos nossa razão, / Gritemos bem aos senhores, / Do fundo do coração, / Que o povo também tem querer, / que o querer é nosso agora, Que a nossa Senhora / Não vai daqui para fora!» (p. 103)

O Juiz de Fora e o Prior regressam, agora acompanhados pelo Intendente, mas a determinação popular obriga-os novamente a recuar. Ao longe, ouvem-se tambores e clarins: chega a tropa. Entram em palco o General Sepúlveda, o Marquês da Fronteira, o Intendente, o Juiz de Fora e o Prior. Mais uma vez, é Galharda quem enfrenta as autoridades, declarando:

«Para levar a Senhora / Há-de matar-me primeiro!» (p. 110).

A didascália sublinha o clímax dramático: «o general, já saturado, avança mais. Galharda, rápida, avança também e dá-lhe duas bofetadas»28 (p. 110).

O General Sepúlveda perdoa a afronta, mas insiste que «Nossa Senhora da Rocha / tem de ir comigo daqui». O Marquês da Fronteira tenta apaziguar o conflito, prometendo que a imagem será colocada na Sé, num local digno, e que será erguida uma igreja sobre a gruta, para perpetuar a memória do lugar:

«[…] Vai-se fazer uma igreja, / Que seja glória de Deus / E pasmo de quem a veja. / Igreja sobre esta gruta / Que a gruta recordará / E logo que esteja pronta / A Virgem volta para cá. Até lá, fica na Sé / E não neste sítio imundo, / Que é vergonha de todos / E pasmo de todo o mundo.» (p. 114)

O acto encerra com um triste cântico de adeus, entoado pelo coro e pelo povo, mas com a promessa de que ela voltará um dia àquele lugar:

«Adeus, Senhora, adeus! / Adeus nossa alegria! / Aqui só fica a esperança / que hás-de voltar um dia». (p. 116)

O quarto e último acto abre com um diálogo entre Isidora, João e Manuel. Apesar de já não usufruírem da imagem da Senhora, permanece-lhes o lugar da aparição, que continua a ser, para eles, o verdadeiro centro espiritual da devoção. Por isso, D. Isidora dedica-se a embelezar o espaço sagrado: prepara um altar, coloca castiçais com velas, um crucifixo, uma esteira, uma jarra de flores e um registo da Senhora. A sua convicção é clara.

«[…] Se vós sois homens de fé, / A grande verdade ouvi: / A imagem está na Sé, / Mas, a alma, está aqui. / Quis aqui ser encontrada / Para ter culto de novo, / O povo só a Ela adora… / Quem mata a alma do povo?» (p. 118)

O diálogo entre as três personagens deriva então para a difícil condição em que vive o povo: «O povinho come e cala. / E se não se faz assim, / (…) / Pode ir parar à cadeia» (p. 119). É neste momento que surge o Juiz de Fora, portador de um mandato que ordena o entulhamento e o encerramento da gruta, com o objetivo de impedir qualquer forma de culto naquele local.

D. Isidora reage com firmeza e esperança, afirmando:

«Mas o povo não desiste / por maior que a luta seja, / Com o dinheiro que temos / Vamos fazer a igreja. / E depois de estar erguida / Com a nossa devoção, / Veremos se a Virgem Santa / Volta para aqui ou não.» (p. 128)

Iniciam-se as obras, e as promessas de ajuda multiplicam-se. Contudo, a construção não avança: falta dinheiro, falta apoio efectivo. É então que o autor introduz um inciso de grande pertinência política, estabelecendo um paralelo entre a instabilidade da revolução liberal e o contexto da revolução de Abril, época em que o auto foi escrito. O retrato é mordaz e surpreendente:

«Este quer mandar em tudo, / Os outros querem mandar, / O povo, que está cá longe, / O que tem é de amochar. / Tudo são lindos discursos, / Quem mais grita, é que é porreiro, / E, no final disto tudo, / O que querem é poleiro. / Tudo são grandes promessas, / Quando são as eleições, / Vai a gente dar o voto, / Adeus, prima, até aos verões.» (p. 129)

Segue-se um momento de desalento. O tempo passa, e as paredes inacabadas da igreja servem apenas de abrigo para o gado. Porém, uma didascália faz avançar a acção e anuncia a entrada de Isidora, agora já idosa, mas surpreendentemente luminosa. Traz consigo uma notícia extraordinária:

«Hoje, estou muito contente, / Nossa Senhora da Rocha / Vai voltar pró pé da gente! / Acreditai, que é verdade, Isto não é só falar / Nosso Rei, D. Pedro V / Tem vindo aqui passear / E ficou cheio de pena / Do que viu neste lugar. / Quase que chorou, o santo! / E prometeu, sem demora, Mandar acabar a igreja / E trazer Nossa Senhora!» (p. )

A alegria, porém, dura pouco. Chega a notícia da morte de D. Pedro V. Isidora desfalece, vencida pela tristeza, e as amigas ajudam-na a sentar-se. Num tom abatido, partilha então um sonho que tivera nessa noite – um sonho que interpreta como profecia:

«Nossa Senhora da Rocha / Vai voltar ao seu lugar. / Volta, sim. Tenho a certeza! / Não é nenhuma ilusão! / Assim tão certa eu pudesse / Ter a minha salvação. / Eu tive um sonho esta noite / Que julgo ser profecia. / Não há quem sonhe de noite / O que acontece de dia? […]». (p. 138)

O autor utiliza, assim, a dimensão onírica como prenúncio dos acontecimentos que se aproximam. Isidora adormece, e entram em cena um rapaz e uma rapariga anunciando que o sonho se cumpriu: «Nossa Senhora da Rocha / volta hoje ao seu lugar.» E identificam o grande responsável por este desfecho feliz, Tomás Ribeiro:

«Foi o Senhor Tomás Ribeiro, / Português livre e honrado, / Poeta dos mais famosos, / Nunca por demais louvado. / Defensor de quanto é justo / Sem esperar galardão, / Sempre aliado do povo / Quando o povo tem razão; / Que fez impor o direito / Onde injustiça havia / E fez afastar a dor / Para romper a alegria.» (pp. 141-142)

A tristeza converte-se em júbilo. Ouvem-se foguetes, aproxima-se a filarmónica, multiplicam-se as luzes e as decorações. O povo celebra com entusiasmo a chegada da Senhora, conduzida num cortejo triunfal. A comunidade, que durante tanto tempo esperou este momento, exulta finalmente com a realização da promessa.

Assim encerra o autor o seu auto: com a vitória da fé popular, a restituição da Senhora ao seu lugar de origem e a celebração jubilosa de um povo que nunca desistiu.


CONCLUSÃO

Eis-nos chegados ao terminus do nosso trabalho. Torna‑se evidente que a história da Senhora da Rocha não é apenas a narrativa de um achado prodigioso ou de uma devoção antiga. É, sobretudo, a história de uma fidelidade que atravessou gerações, de um povo que nunca desistiu daquilo que sentia ser seu, e de um lugar que, apesar de discreto na paisagem, se tornou imenso na alma de tantos. Esta aventura revelou-se verdadeiramente entusiasmante.

Desde a humilde gruta junto ao Jamor até ao Santuário erguido com esforço e esperança, cada etapa desta história revela a força de uma devoção que resistiu ao tempo, às mudanças políticas, às distâncias impostas e até ao silêncio das autoridades. A imagem foi trasladada, venerada, disputada, celebrada; o povo, porém, permaneceu firme, guardando no coração a certeza de que a Senhora da Rocha tinha um lugar próprio – e que esse lugar era ali.

A persistência de homens como Tomás Ribeiro, a fé das populações locais, o entusiasmo das romarias, a presença de reis e prelados, tudo isto compõe um mosaico vivo que ultrapassa o simples registo histórico. É um património espiritual que se construiu com lágrimas e alegrias, com promessas e agradecimentos, com passos de peregrinos que, ao longo de quase dois séculos, mantiveram acesa a chama de uma devoção que nunca se extinguiu.

Hoje, ao contemplarmos o Santuário e a história que o sustenta, percebemos que a Senhora da Rocha continua a ser mais do que uma memória: é um elo entre tempos, um sinal de esperança, um testemunho de que a fé, quando é verdadeira, encontra sempre o seu caminho. E assim, entre o murmúrio antigo do Jamor e a luz que ainda brilha no Santuário, permanece viva a certeza de que este lugar – discreto na paisagem, grandioso na alma – continuará a inspirar aqueles que o procuram.

Nunca imaginávamos que esta investigação e o contacto com a obra dramática de Francisco Ventura – Auto da Senhora da Rocha – nos conduziria a tantas descobertas em torno da simples imagem de Nossa Senhora da Conceição da Rocha.

O nosso primeiro encontro com esta devoção remonta a outubro de 1980, quando visitámos o Santuário pela primeira vez. Recordamos ainda as palavras de um venerando ancião que, ao abrir‑nos as portas, nos descreveu um desfilar de encantos e mistérios em torno da imagem, das suas festas e das grandiosas romarias.

O Santuário, os jardins e o parque eram então um lugar aprazível, propício à paz, ao sossego e à harmonia. As águas do Jamor, povoadas de trutas e patos selvagens, completavam esse cenário bucólico e conferiam ao espaço uma frescura que parecia suspender o tempo. Hoje, porém, o panorama já não é o mesmo… E perguntamo‑nos: como se sentiria Tomás Ribeiro ao revisitar este seu “El Dourado do silêncio”?

Ao longo desta investigação, procurámos pôr a descoberto, recorrendo às fontes mais antigas, a importância que a descoberta da pequena imagem teve para a população de Linda‑a‑Pastora e Carnaxide, para o Patriarcado de Lisboa, para as gentes humildes, para a burguesia, para o clero, para a nobreza e até para a própria Casa Real. Impressiona verificar como, em torno dela, se gerou uma revitalização fecunda da fé – fenómeno que não passou despercebido às crónicas da época e que mereceu a atenção de homens de Letras como Tomás Ribeiro, Pinheiro Chagas, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós.

Mas, ao mesmo tempo que chegamos ao fim, percebemos que o nosso trabalho não se encerra aqui. As descobertas realizadas despertaram novas questões e reforçaram a necessidade de aprofundar a investigação, na esperança de encontrar respostas mais sólidas para as interrogações que permanecem em aberto.

Por que motivo autorizou o rei D. Luís I que a imagem, após sessenta e um anos na Sé Patriarcal, regressasse ao vale do Jamor, sendo ele próprio fundador da Real Irmandade e seu Primeiro Juiz? Será autêntica a imagem que hoje se venera no Santuário da Rocha? Ou terá a original desaparecido durante as sucessivas deslocações aos Palácios de Queluz, da Ajuda e de Bemposta, a pedido da rainha D. Maria II, quando se encontrava doente?

Estas e outras questões foram emergiram no decurso desta monografia. Esperamos que, na continuidade deste trabalho, possamos encontrar respostas mais consistentes e esclarecedoras.

O que permanece certo é que a Senhora da Rocha continua a ser, para muitos, um elo entre tempos, um sinal de esperança e um testemunho de que a fé, quando é verdadeira, encontra sempre o seu caminho. E assim, entre o murmúrio antigo do Jamor e a luz que ainda brilha no Santuário, permanece viva a certeza de que este lugar – discreto na paisagem, grandioso na alma – continuará a inspirar aqueles que o procuram.


APÊNDICE

Alvará Régio da elevação do santuário a Capela Real 29

Secretaria da Mordomia Mór da Casa Real
Eu El Rei faço saber a vós Francisco de Mello, Conde de Ficalho, Par do Reino, Conselheiro d’Estado effectivo, Gram Cruz da ordem de Nosso Senhor Jesus Christo e de outras estrangeiras, Gentil Homem da Minha Real Camara e Meu Mordomo mór: que tendo em consideração que Me representou a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, erecta na mór Capella, em Carnaxide, districto de Lisboa, sou servido e Me Praz fazer a graça de Elevar a referida Capella, á cathegoria e dignidade da Capella Real, tomando a veneranda Imagem debaixo da Minha Real e emmediata protecção, e Attendendo aos serviços, que a mesma Irmandade tem prestado, mantendo com o mais acrisolado zelo e devoção o culto religioso; Hei por bem fazer-lhe mercê do titulo de Real Irmandade, concedendo portanto á dita Capella e Irmandade, todas as honras prerogativas e isenções, que, directamente pertencerem. Em firmeza de tudo, Mandei passar este Alvará, que será cumprido como nelle se contém. Paço em, dezoito d’outubro de mil oitocentos noventa e nove.
El Rei D. Carlos

Alvará pelo qual Vossa Magestade Ha por bem Elevar a Capella de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, á cathegoria e dignidade de Capella Real concedendo tambem á respectiva Irmandade o titulo de Real Irmandade.
Para Vossa Magestade Ver


NOTAS

(1) «Nas côrtes celebradas em Lisboa no anno de 1646 declarou el rei D. João IV que tomava a Virgem Nossa Senhora da Conceição por padroeira do Reino de Portugal, promettendo-lhe em seu nome, e dos seus successores, o tributo annual de 50 cruzados de ouro. Ordenou o mesmo soberano que os estudantes na Universidade de Coimbra, antes de tomarem algum grau, jurassem defender a Immaculada Conceição da Mãe de Deus. Não foi D. João IV o primeiro monarca portuguez que collocou o reino sob protecção da Virgem, apenas tornou permanente uma devoção, a que os nossos reis se acolheram algumas vezes em momentos criticos para a patria.» (Esteves Pereira, Guilherme Rodrigues, “Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Reino”, in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.V, João Romano Torres, Lisboa, 1911, p. 122).

(2) «Quando estava a fazer a cópia dactilográfica lembrei-me, certa vez: e se oferecesse o manuscrito para ficar arquivado no Santuário? Não repeti o pensamento pois logo resolvi proceder dessa maneira, embora o fizesse a acompanhar de uma cópia à máquina.
Um problema surgiu, porém: o papel é de má qualidade e a minha letra – mercê de vários factores, entre os quais se salientam o sistema nervoso há muito em péssima forma e a pressa que tenho sempre em acompanhar o pensamento – está cada vez horrível e até indecifrável para quem não a conheça bem.
Que fazer? Pensei copiar o manuscrito, utilizando melhor papel e procurando fazer a letra mais legível e de melhor talhe. Pelo menos ficaria obra asseada e decente quanto possível […]. Mas logo uma dúvida: Isso não seria tirar todo o sabor original que o manuscrito possa conter? Por tal motivo, deixei-o ficar tal como saiu na primeira redacção, com palavras riscadas, os possíveis deslizes e até as diferenças que há entre ele e a redacção definitiva.» (Francisco Ventura, Auto da Senhora da Rocha, manuscrito, Lisboa, 18-03-1977, pp. I-II).

(3) Frei Claudio da Conceição, “Advertência”, in Novena da milagrosa imagem da Senhora da Conceição da Rocha, Impressão Régia, 1825, pp. VII-IX.
No centro do frontispício desta obra atesta-se que Frei Claudio da Conceição é “Ex-Difinidor, Examinador Synodal do Patriarchado de Lisboa, Pregador Régio, Chronista, e Padre da Província de Santa Maria d’Arrabida, e Chronista do Reino.”

O Padre Francisco Santos Costa, ao referir-se a ele, diz-nos que ele nasceu em 1772 e que faleceu em 1840. Temos também conhecimento que este frade foi nomeado por D. João VI Cronista-mor do Reino a 3 de Julho de 1823. Dez anos mais tarde, com o advento do regime constitucional, é demitido deste seu alto cargo. A 28 de Maio de 1834, Joaquim António de Aguiar assina o decreto de extinção das ordens religiosas masculinas, e Frei Cláudio vê-se reduzido à triste situação de frade egresso. (Cf. Padre Francisco Santos Costa, O Santuário da Rocha, coração de Carnaxide, Câmara Municipal de Oeiras, Lisboa 1972, p. 117). (Cf. Secretaria de Estado dos Negócios Eclesiásticos e de Justiça, “Extinção das ordens religiosas”, in Chronica Constitucional de Lisboa, nº 127, Lisboa, 1934, (citado em João Medina (Dir), História de Portugal, dos tempos pré-históricos aos nossos dias, vol. VIII, Clube internacional do livro, Amadora, s/d, pp. 161-166).

Foi autor de imensas obras de cariz religioso e histórico. Entre os muitos trabalhos que nos legou, destaca-se o Gabinete Histórico, obra de 17 volumes publicados desde 1818 a 1831. Aí se registam os factos históricos mais importantes desde os inícios da nossa monarquia até 1775. Ao referir-se à grande importância da Virgem Maria para os nossos reis e para o nosso povo, sublinha a maternal protecção de Nossa Senhora para com a pátria lusa, afirmando que a nossa padroeira sempre nos protegeu, mas foi, sobretudo, nos grandes momentos de risco que ela mais se fez notar. É, então, aqui que ele insere, com um grande destaque, a aparição da imagem da Senhora da Rocha. (Cf. Frei Cláudio da Conceição, Gabinete Histórico que a Sua Majestade Fidelíssima o Senhor Rei D. João VI, em o dia dos seus felicíssimos anos, 13 de Maio de 1818, oferece, Tômo IX, Imprensa Nacional, 1918, 2.ª ed. [1.ª ed. em 1823], pp. 169-185).

(4) Thomaz Ribeiro, A Rocha, poemeto-prologo do poema inédito O Mensageiro de Fez, Typographia e Stereotypia Moderna, Lisboa, 1898, pp. 51-52.

Tomás Ribeiro é um escritor da nossa terceira fase romântica. Natural de Tondela, estudou Direito em Coimbra, vindo a integrar no grupo romântico de Feliciano de Castilho. Após algum tempo de actividade como advogado, ingressou na carreira política. Foi deputado, par do reino, ministro da Marinha e das Obras Públicas, embaixador plenipotenciário de Portugal no Brasil e Secretário Geral do governo da Índia.
Admirado por Camilo e por Castilho, recebeu deste grandes elogios a propósito do seu D. Jaime (1862). O louvor de Castilho, num prefácio longo em que exalta a autenticidade nacionalista e a simplicidade natural da obra de Tomás Ribeiro, foram mais um pretexto para o despoletar da célebre Questão Coimbrã, que viria a concretizar o choque latente entre os poetas do Romantismo e a nova geração coimbrã. Escreveu, para além do D. Jaime, as obras A Delfina do Mal, Sons que Passam, Vésperas, Dissonâncias, Mensageiro de Fez, Entre Palmeiras e as crónicas reunidas em Jornadas. (Cf. António José Saraiva, Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 17ª ed., Porto Editora, Porto, 1996, pp. 759-761).

(5) Cf. Fr. Cláudio da Conceição, Gabinete Histórico…, p. 173.

(6) “A imagem é da Senhora da Conceição, muito bonita; tem cinco polegadas e meia com as mãos erguidas ante o peito, o manto que tem na encarnação é azul forrado de encarnado, vestido branco com a lua debaixo dos pés, a serpente enrolada no globo, […] o véu da cabeça branco, a encarnação do rosto assim como as mais tintas, estão algum tanto desmerecidas: a sua matéria é de um excelente barro; e não achei cheiro algum nesta imagem, por mais diligências que fizesse; porêm a lapa cheirava algum tanto a almíscar.” (Fr. Cláudio da Conceição, Gabinete Histórico…, p. 175.)

(7) Cf. Fr. Cláudio da Conceição, Gabinete Histórico…, p. 175.

(8) IDEM, Novena da milagrosa imagem…, p. 7

(9) Cláudio da Conceição, Novena da milagrosa imagem…, pp. 30-31.

(10) IDEM, Gabinete Histórico…, p. 175; Cf. Esteves Pereira, Guilherme Rodrigues, “Carnaxide” in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numis-matico e artistico, vol.II, João Romano Torres, Lisboa, 1906, p. 768.

(11) IDEM, Novena da milagrosa imagem…, p. 70.

(12) Cláudio da Conceição, Gabinete Histórico…, pp. 177-178.

(13) IDEM, Novena da milagrosa imagem…, p. 34.

(14) Ibidem, pp. 85-86.

(15) Cláudio da Conceição, Gabinete Histórico…, pp. 181-183.

(16) Thomaz Ribeiro, A Rocha, poemeto-prologo do poema inédito O Mensageiro de Fez…, p. 53.

(17) Ibidem, p. 55.

(18) “Em 1882, sendo Thomaz Ribeiro ministro do Reino, foi por sua influência que o governo accedeu ás representações que por vezes fizera o povo de Carnaxide para que a imagem da Senhora da Conceição da Rocha, que existia na egreja da Sé, voltasse para aquella povoação onde fôra encontrada em 1822. A trasladação effeituou-se a 30 de setembro de 1893. Também por influência do referido ministro se construiu a actual egreja”. (Esteves Pereira, Guilherme Rodrigues, “Ferreira, Thomaz Antonio Ribeiro”, in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.III, João Romano Torres, Lisboa, 1907, p. 415).

(19) IDEM, “Carnaxide” in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.II, João Romano Torres, Lisboa, 1906, p. 768.

(20) Na sessão extraordinária de 28 de Maio, às 10:00 da manhã, momentos antes da chegada da Família Real ao Santuário da Rocha, Tomás Ribeiro tomou a palavra e informou a Irmandade «que tendo Sua Magestade a Rainha Senhora D. Amelia accedido ao pedido que a meza da Irmandade lhe fez para honrar a nossa festa d’hoje com a sua presença, convidava a Meza e os Corpos Gerentes da Irmandade para comparecerem n’esta secretaria pelas 4 ½ horas da tarde (hora marcada para essa visita), afim de irmos esperar Sua Magestade e seus Augustos Filhos junto á Nova Ponte da Rocha. Em seguida apresentou o trabalho artístico incumbido ao Ex.mo Sr. Rafael Bordalo Pinheiro, representando as Armas nacionais e as de Orleans, encimadas pelas flores de liz pintadas em pergaminho, tendo pendente com fita azul e branco um ramo de bonitas e variadas flores artificiaes.
Na folha de pergaminho junto a essa agoarella foi lançada uma menção comemorativa e referente á visita de Sua Magestade e Altezas a este Templo, e depois de assignada por todos os membros dos Corpos Gerentes da Irmandade ficou com poder da meza para pessoalmente a entregar a Sua Magestade a Rainha juntamente com um Diploma de Irmã Benemerita da Irmandade.»
(Livro de Actas da Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, Livro I, Acta 65,Sessão de 28 de Maio de 1893, p. 52v).

(21) Esteves Pereira, Guilherme Rodrigues, “Carnaxide” in Portugal, diccionario histórico…, p. 768.

(22) Thomaz Ribeiro, A Rocha, poemeto-prologo do poema inédito O Mensageiro de Fez…, p. 51.

(23) «Me Praz fazer a graça de Elevar a referida Capella, á cathegoria e dignidade de Capella Real, tomando a veneranda Imagem debaixo da Minha Real e emmediata protecção.» E, referindo-se à Irmandade da Senhora da Rocha, atesta: «Hei por bem fazer-lhe mercê do titulo de Real Irmandade, todas as honras por prerogativas e isenções, que, directamente pertencerem». Ver Apêndice, pp. 42-43.

(24) Thomaz Ribeiro, A Rocha, poemeto-prologo do poema inédito O Mensageiro de Fez…, pp. 16-18.

(25) Cf. João Florindo, brochura dedicada à reinauguração do Cine-Teatro Francisco Ventura, em Gavião, no ano de 1997; Cf. Francisco Ventura, Auto da Senhora da Rocha, Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, Lisboa, s/d [1978], badana esquerda e p. 4.

(26) Cf. Francisco Ventura, Auto da Senhora da Rocha, Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, Lisboa, s/d [1978], p. 143.

(27) Cf. Ibidem, badana esquerda do livro.

(28) “E poz-lhe as mãos na cara. Sepulveda, ao tempo, general da 1ª divisão militar, foi em pessoa commandar a força que havia de escoltar a Imagem, força que era quasi toda a divisão; tal era o receio do governo pela indignação dos povos do Jamor, que protestavam em altas vozes contra o mandato iniquo. Inda existem do facto testemunhas testemunhas presenciaes. Esta velha de Linda-a-Pastora chamava-se Maria Saloia. D’ella não ha descendentes. Tambem era conhecida pelo nome de Maria Galharda; talvez pelo denodo com que desfeiteou o general, que prohibiu aos soldados qualquer arremeço contra a galharda velha. Cremos que já não vive.” (Thomaz Ribeiro, A Rocha, poemeto-prologo…, p. 55)

(29) Ver arquivo fotográfico: fotos R095 e R096


BIBLIOGRAFIA

CHAGAS, Pinheiro, “As festas da Senhora da Rocha”, in Occidente, 11-10-1883, n.º 173, Vol. VI, pp. 226-229.

CONCEIÇÃO, Fr. Cláudio da, Gabinete histórico que a Sua Majestade Fidelíssima o Senhor Rei D. João VI, em o dia dos seus felicíssimos anos, 13 de Maio de 1818, oferece, Tômo IX, Imprensa Nacional, Lisboa, 1918, 2.ª ed. [1.ª ed. 1823].

CONCEIÇÃO, Fr. Cláudio da, Novena da milagrosa imagem da Senhora da Conceição da Rocha, Impressão Régia, 1825.

COSTA, Francisco Santos, O Santuário da Rocha, coração de Carnaxide, Câmara Municipal de Oeiras, Lisboa 1972.

FLORINDO, João, Brochura dedicada à reinauguração do Cine-Teatro Francisco Ventura, Gavião, 1997.

Livro de Actas da Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, Livro I, Acta 65, Sessão de 28 de Maio de 1893.

RIBEIRO, Thomaz, A Rocha, poemeto-prologo do poema inédito O Mensageiro de Fez, Typographia e Stereotypia Moderna, Lisboa, 1898.

PEREIRA, Esteves, Guilherme Rodrigues, “Carnaxide”, in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.II, João Romano Torres, Lisboa, 1906, pp. 767-768

PEREIRA, Esteves, Guilherme Rodrigues, “Ferreira, Thomaz Antonio Ribeiro”, in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.III, João Romano Torres, Lisboa, 1907, pp. 415-416

PEREIRA, Esteves, Guilherme Rodrigues, “Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Reino”, in Portugal, diccionario historico, biographico, bibliographico, heraldico, chorographico, numismatico e artistico, vol.V, João Romano Torres, Lisboa, 1911, p. 122)

S.A., Descrição de hum prodígio raro, Officina das filhas de Lino da Silva, Lisboa, 1922.

Secretaria de Estado dos Negócios Eclesiásticos e de Justiça, “Extinção das ordens religiosas”, in Chronica Constitucional de Lisboa, nº 127, Lisboa, 1934 [citado em João Medina (Dir), História de Portugal, dos tempos pré-históricos aos nossos dias, vol VIII, Clube internacional do livro, Amadora, s/d, pp. 161-166].

VENTURA, Francisco, Auto da Senhora da Rocha, (manuscrito), Lisboa, 1977

VENTURA, Francisco, Auto da Senhora da Rocha, Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, Lisboa, [1978].


Queijas, 15 de Março de 2005
Pe. Alexandre Francisco Ferreira dos Santos

 

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