III Domingo da Páscoa A

Emaus04aA liturgia deste Domingo convida-nos a descobrir o Cristo vivo, que acompanha os homens pelos caminhos do mundo, muitas vezes sem ser reconhecido. Mas onde o podemos encontrar?
Na primeira leitura, a comunidade cristã transformada pelo Espírito, deixou a segurança das paredes do cenáculo e prepara-se para dar testemunho de Jesus, em Jerusalém e até aos confins da terra. A pregação de Pedro, no dia do Pentecostes, reproduz a catequese que a comunidade cristã primitiva costumava apresentar sobre Jesus – Kerigma.

A segunda leitura convida a contemplar com olhos de ver o projecto salvador de Deus, o amor de Deus pelos homens – expresso na cruz de Jesus e na sua ressurreição. Constatando a grandeza do amor de Deus, aceitamos o seu apelo a uma vida nova.

O Evangelho aponta o caminho para descobrir o Cristo vivo, através do episódio dos Discípulos de Emaús. Tristes e desanimados, decepcionados e frustrados abandonam a comunidade e regressam para casa, dispostos a esquecer o sonho. Aguardavam um Messias glorioso, um Rei poderoso, um Vencedor e encontram-se diante de um derrotado, que tinha morrido na cruz. Aparece um peregrino, que caminha com eles, explica-lhes as Escrituras, enche-lhes o coração de esperança e a senta-Se com eles à mesa para “partir o pão”. É aí que os discípulos O reconhecem.


Primeira Leitura (Act 2,14.22-33)
Leitura dos Actos dos Apóstolos

No dia de Pentecostes,
Pedro, de pé, com os onze Apóstolos, ergueu a voz e falou ao povo:
«Homens de Israel, ouvi estas palavras:
Jesus de Nazaré foi um homem acreditado por Deus junto de vós
com milagres, prodígios e sinais,
que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio, como sabeis.
Depois de entregue, segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus,
vós destes-Lhe a morte, cravando-O na cruz pela mão de gente perversa.
Mas Deus ressuscitou-O, livrando O dos laços da morte,
porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio.
Diz David a seu respeito:
‘O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.
Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção.
Destes me a conhecer os caminhos da vida,
a alegria plena em vossa presença’.
Irmãos, seja-me permitido falar vos com toda a liberdade:
o patriarca David morreu e foi sepultado
e o seu túmulo encontra se ainda hoje entre nós.
Mas, como era profeta e sabia que Deus lhe prometera sob juramento
que um descendente do seu sangue
havia de sentar-se no seu trono,
viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo,
dizendo que Ele não O abandonou na mansão dos mortos,
nem a sua carne conheceu a corrupção.
Foi este Jesus que Deus ressuscitou
e disso todos nós somos testemunhas.
Tendo sido exaltado pelo poder de Deus,
recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo,
que Ele derramou, como vedes e ouvis.»


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)

Refrão: Mostrai-me, Senhor, o caminho da vida.
Defendei me, Senhor; Vós sois o meu refúgio.
Digo ao Senhor: Vós sois o meu Deus.
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas Vossas mãos o meu destino.

Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel conhecer a corrupção.

Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena em Vossa presença,
delícias eternas à Vossa direita.


Segunda Leitura (1Pe 1,17-21)
Leitura da Primeira Epístola de São Pedro

Caríssimos:
Se invocais como Pai
Aquele que, sem acepção de pessoas,
julga cada um segundo as suas obras,
vivei com temor, durante o tempo de exílio neste mundo.
Lembrai vos que não foi por coisas corruptíveis, como prata e oiro,
que fostes resgatados da vã maneira de viver,
herdada dos vossos pais,
mas pelo sangue precioso de Cristo,
Cordeiro sem defeito e sem mancha,
predestinado antes da criação do mundo
e manifestado nos últimos tempos por vossa causa.
Por Ele acreditais em Deus,
que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória,
para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.


EVANGELHO (Lc 24,13-35)
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Dois dos discípulos de Emaús
iam a caminho duma povoação chamada Emaús,
que ficava a sessenta estádios de Jerusalém.
Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.
Enquanto falavam e discutiam,
Jesus aproximou Se deles e pôs Se com eles a caminho.
Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.
Ele perguntou lhes.
«Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?»
Pararam entristecidos.
E um deles, chamado Cléofas, respondeu:
«Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou estes dias».
E Ele perguntou: «Que foi?»
Responderam Lhe:
«O que se refere a Jesus de Nazaré,
profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo;
e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes
O entregaram para ser condenado à morte e crucificado.
Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel.
Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu.
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram:
foram de madrugada ao sepulcro, não encontraram o corpo de Jesus
e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo.
Mas a Ele não O viram».
Então Jesus disse lhes:
«Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar
em tudo o que os profetas anunciaram!
Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na Sua glória?»
Depois, começando por Moisés e passando por todos os Profetas,
explicou lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito.
Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de ir para diante.
Mas eles convenceram n’O a ficar, dizendo:
«Ficai connosco, Senhor, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite».
Jesus entrou e ficou com eles.
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho.
Nesse momento abriram se lhes os olhos e reconheceram n’O.
Mas Ele desapareceu da sua presença.
Disseram então um para o outro:
«Não ardia cá dentro o nosso coração,
quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?»
Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém
e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com ele, que diziam:
«Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
E eles contaram o que tinha acontecido no caminho
e como O tinham reconhecido ao partir o pão.


Ressonâncias…

Peregrinos de Emaús

Quem são hoje os Peregrinos de Emaús que, continuam andando pelos caminhos da vida, “tristes”e desanimados?

Talvez também nós estejamos a caminho da nossa Emaús cansados e desiludidos. Caíram os nossos castelos e a vida parece ter perdido sentido. Esperávamos tanto… mas tudo terminou. (Quem sabe lá, a morte de um amigo, um fracasso nos nossos empreendimentos, a família desunida…) É triste quando a esperança morre. Parece que nada mais tem sentido! Somos tentados a abandonar a luta e voltar…

Eles também estavam angustiados por aquilo que aconteceu em Jerusalém. Mas, na medida em que participaram da celebração da palavra e do banquete da fracção do pão, os seus corações abriram-se à luz, a vida do Ressuscitado invadiu as suas almas e fê-los voltar à comunidade.Emaus20

Nesses momentos, mais do que nunca, devemos repetir com os discípulos de Emaús: “Ficai connosco, Senhor”. O Caminho percorrido pelos discípulos deve ser o nosso. Ainda hoje é ali que Ele está presente e é ali que O podemos encontrar.

– O nosso Coração “arde” quando escutamos a Palavra de Deus?
– Descobrimos a sua presença no “partir o pão”?
– Partimos com alegria para anunciar o Cristo Ressuscitado, para evangelizar?

Façamos a experiência destes discípulos.


Senhor Jesus ressuscitado,
que nos resgatastes da vã maneira de viver,
não com ouro ou prata mas com o vosso próprio sangue,
acompanhai-nos nos nossos caminhos, abri os olhos a todo aquele que vos procura,
aquecei os nossos corações e convidai-nos a comer à vossa mesa.


 «Não ardia cá dentro o nosso coração,
quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (Lc 24, 32)

O coração a arder

Naquele pedaço de estrada que vai de Jerusalém a Emaús Jesus dá-nos um tratado de pedagogia e educação. Se há momentos em que Jesus se revela como Mestre, este é um deles. E quando recordamos os mestres da nossa vida, professores e outros, vemos como muita riqueza daquilo que somos se deve tanto ao que eles foram para nós! Apareceram no nosso caminho, escutaram as nossas questões profundas, abriram-nos o pensamento e fizeram arder o coração pelo conhecimento, transmitiram o saber com a própria vida. Que Jesus me perdoe esta ousada comparação, mas todo o aprender também culmina na entrega de vida que se celebra.

Quase a terminar o ano escolar em que o terceiro período é um “vê se te avias”, pelo curto tempo de aulas, pego no pequeno livro do professor António Estanqueiro sobre o papel dos professores, intitulado “Boas Práticas na Educação”, e sinto-me a refazer o caminho de Emaús. Nele ressalta logo a voz de alguns dos mil testemunhos de alunos do 12º ano de várias escolas, que relatam experiências positivas e negativas da sua relação com os professores. Com uma simplicidade de linguagem e uma experiência profunda, o autor guia professores e educadores numa reflexão prática na missão de “formar pessoas, despertar vocações e construir futuros”. Sem ceder à tentação do facilitismo diz: “O papel do professor é formar o aluno e prepará-lo para as exigências da vida, não é aumentar o sucesso estatístico, tão desejado pelos governantes!”

“Fazer arder o coração” poderia ser o belo nome de educar e também de evangelizar. Antes dos conteúdos interessam as pessoas e o cuidado com que se escutam os seus anseios, as dúvidas, as confianças feridas. É preciso fazer caminho lado a lado, descer de alguns pedestais ou carruagens. Não se ajuda a crescer à distância nem à pressa. Não se educa nem se evangeliza sem um amor verdadeiro àqueles com quem nos propomos fazer caminho. E é um caminho de cumplicidade, que vai propondo pistas de reflexão, que traz novos pontos de vista, que semeia desejo de saber mais, que faz ousar o convite: “Fica connosco!”. Não podemos levar o bom professor ou professora para nossa casa mas, de algum modo, ele não habita a casa interior de cada um? E poderei dizer-me cristão se não convidar Jesus ao mais íntimo de mim mesmo, a esta casa onde só deixo entrar quem amo?

As palavras consumam-se no gesto. Se no aprender essa consumação é conhecimento adquirido, formação global, crescimento humano, no evangelho transmitido ela é entrega de vida, pão partido sinal de um amor até ao fim, fogo aceso na noite para levar a outros a feliz notícia. O encontro com a verdade é sempre encontro com o profundo de nós mesmos e com Deus que caminha e se senta connosco à mesa da alegria! Vamos lá fazer arder os corações?

P. Vítor Gonçalves


“Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia está no ocaso” (Lc 24, 29)

Fica connosco, Senhor, acompanha-nos mesmo se nem sempre te soubemos reconhecer. Fica connosco, porque se vão tornando mais densas à nossa volta as sombras, e tu és a Luz; em nossos corações insinua-se o desespero, e tu os fazer arder com a esperança da Páscoa.

Estamos cansados do caminho, mas tu nos confortas na fração do pão para anunciar a nossos irmãos que na verdade tu ressuscitaste e que nos deste a missão de ser testemunhas da tua ressurreição.

Fica connosco, Senhor, quando à volta da nossa fé católica surgem as nuvens da dúvida, do cansaço ou da dificuldade: tu, que és a própria Verdade como revelador do Pai, ilumina as nossas mentes com a tua Palavra; ajuda-nos a sentir a beleza de crer em ti.

Fica nas nossas famílias, ilumina-as nas suas dúvidas, ampara-as nas suas dificuldades, conforta-as nos seus sofrimentos e na fadiga quotidiana, quando à sua volta se adensam sombras que ameaçam a sua unidade e a sua natureza.

Tu que és a Vida, permanece nos nossos lares, para que continuem a ser berços onde nasce a vida humana abundante e generosamente, onde se acolhe, se ama, se respeite a vida desde a sua concepção até ao seu fim natural.

Permanece, Senhor, com os que nas nossas sociedades são mais vulneráveis; permanece com os pobres e humildes, com os indígenas e afro-americanos, que nem sempre encontraram espaços e apoio para expressar a riqueza da sua cultura e a sabedoria da sua identidade.

Permanece, Senhor, com as nossas crianças e com os nossos jovens, que são a esperança e a riqueza do nosso Continente, protege-os das tantas insídias que atentam contra a sua inocência e contra as suas legítimas esperanças.

Oh Bom Pastor, permanece com os nossos idosos e com os nossos enfermos! Fortalece todos na sua fé para que sejam teus discípulos e missionários!
Amém!

(Oração do Papa Bento XVI para a conclusão do documento de Aparecida na V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe)


Eu tento-Te ao meu lado e não te vejo,
– Sou como os Peregrinos de Emaús!
Mas basta que Tu soltes um lampejo,
P’ra que, em verdade, eu diga: «Este é Jesus!»

Vivo a buscar-Te no maior desejo,
Vivo a buscar-Te por atalhos nus…
E tenho-Te ao meu lado, e não Te vejo,
– Sou como os Peregrinos de Emaús.

Na graça que semeias e derramas,
Meus tristes olhos limpa-mos de escamas,
P’ra que mos cegue todo o Teu fulgor!

Pois sendo como sou de argila impura,
Como é que posso erguer-me a essa altura,
Sem que me venhas ajudar, Senhor?!

António Sardinha


Bendizemos-Te, Pai,
porque Cristo ressuscitado
vem romper os ferrolhos das nossas portas
e corações, fechados pelo medo, pela dúvida,
pela apatia e desânimo.

Custa-nos a crer que Cristo esteja verdadeiramente vivo,
hoje como ontem, e que partilhe connosco a mesa
e o pão da esperança.

E contudo, é seguro: Jesus é o Senhor ressuscitado!

Ele faz brilhar na noite a aurora da ressurreição
para os que crêem apesar da escuridão e do medo.

Não permitas, Senhor,
que ponhamos resistências a acreditar em Ti.

Dá-nos o teu Espírito para que, diante dos nossos irmãos,
sejamos testemunhas valentes
da tua salvação e do teu amor de Pai. Amen.
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